Contos

BALEIAS E BALÕES

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

No mesmo instante em que nos somávamos a centenas de espectadores do espetáculo, com direito a esguichos e caudas que administravam espumas em gestos graciosos, eis que três grupos de balões multicoloridos amarrados davam sopa bem no limite entre a areia e a água.



SINISTRUS JOE NO DIÁRIO DA FONTE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos

A aparição de Sinistrus Joe no Diário da Fonte teve vários desdobramentos. Neste série de textos, recuperamos algumas jóias do pensamento desse personagem, tão real quanto qualquer outro e com os mesmos direitos à vida e à eternidade.



ISSO ELES ENTENDEM

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Nunca tivemos vez. Partimos para o exílio ou qualquer outro tipo de esquecimento. Voltamos porque era necessário viver de alguma forma. Foi aí que descobrimos: os espaços haviam sido tomados. Eles eram os maiorais da nossa época de insetos e se retroalimentavam sem parar, na mídia e nas editoras, nos ministérios e nas autarquias, dando conferências sobre o óbvio. Usavam sacadas intestinais dos novos profetas, pessoas aparentemente como eles, mas que tinham a griffe de pertencerem a algum país estrangeiro.



CRIME VISTO DO ESPELHO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos

O espetáculo do seu rosto, imóvel diante do espelho que cobria toda a parede, era apenas o primeiro plano de um vasto painel, formado pelo movimento da rua e da calçada em frente à sua barbearia. Sentado na cadeira gasta em vinte anos pelos fregueses que ele custou a conquistar — e que depois desapareceram – ele via, ao fundo daquela paisagem de vidro, os carros cruzarem, de maneira desigual, o espaço refletido. Pois, bem no meio, havia um a divisão que repartia a realidade em cascas diferentes do mesmo ovo.



CENAS INESQUECÍVEIS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Atulhadas de imagens, nossas mentes selecionam o básico para a sobrevivência. Formatamos uma rotina compatível com nossas condições cardiovasculares. O olho é traiçoeiro e só enxerga o que está acostumado a ver. É por isso que alguns cineastas, sabedores desse vício, conseguiram criar imagens de impacto usando uma cena familiar instalada num entorno diferente.



MEMÓRIAS DO VELHO SENTINELA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Fui visitar Ossip Grumpf, que vive na divisa do Paraná com Santa Catarina, num sítio onde cultiva begônias. Está recolhido desde 1999, quando encerrou o século e a carreira em Hollywood. É russo de nascimento, ou húngaro, nunca descobri ao certo. Veio para o Brasil porque tinha a imagem de um país longínquo e perdido, onde jamais descobririam sua verdadeira identidade. No fundo, se reconhecia no anonimato do país que escolheu para viver. Por muito tempo, fez o papel dos sentinelas que sempre morrem no primeiro golpe dos atacantes. Achava que ninguém iria querer saber sobre sua biografia, que tipo de ator se transformou por necessidade e, mais tarde, excelência no ofício.



A EXPERIÊNCIA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Ele entrou com um gravador na mão e foi logo instalando em cima da minha mesa. Tentei ser gentil, mas o seu jeito de andar, se abaixar e pegar os fios era terrível. Na hora em que alcancei a mão no telefone ele fez um movimento tão brusco para me impedir que acabou caindo em cima do lixo. Não riu, só fez uma careta. Levantou-se, puxou o paletó, sempre com aquela expressão torcida. Estava tentando sorrir, lá da maneira dele, só que eu não pude adivinhar, na hora, o que era. Imediatamente começou a me mostrar.



NOIR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Soubeste do Nick, é, o Nicolau, aquele, lá da Dona Netti, assim com dois tês. Sabe que a Dona Netti se chamava Ambrosia? Quem deu o apelido, que pegou, foi o Nick. Ele era apaixonado por filme noir. Dizia que todos eram obras-primas. Vivia futucando arquivo morto para ver se encontrava alguma obra viva, que desse para projetar. É que ele tinha visto praticamente sozinho os filmes lá na adolescência dele. Como era um cara desse tamanho, fajutou uma carteira de estudante e entrava em sessão proibida para di menor. Sabia que ele queria fazer um festival desses filmes, quando tudo já tinha virado sucata? Ninguém sabia onde estavam. Nick achava que os filmes favoritos dele não cabiam em DVD. Tinha que ser no celulóide. Vê se pode.



CAÇA NO QUARTO CRESCENTE

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

A silenciosa imobilidade une cachorro e caça. As duas cabeças estão penduradas no mesmo olhar fixo. Uma espada invisível cruza as criaturas no instante decisivo da tarde, até agora muda. O fio reúne as atenções terminais da perseguição entre urtigas. O perdigueiro treme porque o tempo desanda e a impaciência começa a devorar sua certeza. Mais um segundo e a presa desatará o vôo rasteiro, que vibra abrindo um rasgo no campo.



O BRILHO DAS ÁRVORES

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Do estábulo vemos a rua coberta de lances obscuros. Balbuciamos uma nova língua, mas só os bichos escutam. As pessoas se transformaram em mercadorias. Não há como escapar, dizem, nem mesmo o talento que afias diariamente, nem mesmo o sonho de acordar dessa loucura. Deves te ordenar na comunhão dos aflitos, enquanto envelhecem os bandidos e seus tesouros acumulados. Nenhum franco atirador postado na torre da capela, para mantê-los à distância, enquanto resistimos.