Contos

ANTES DO TELHADO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Vi a coruja na ponta do telhado. Vertical, fazendo pose no entardecer. O periscópio do olhar transmite a impressão de corpo retorcido, fora de prumo. Ela apenas está atenta, girando a cabeça enquanto o corpo, imóvel, imita uma espiral. Seu canto é o silêncio, a sabedoria dos ouvintes. Calada, como fruto em fim da feira, exibe a presença descartável quando acendem as luzes da aldeia. Quase não se vê o vulto que se apaga como as ilustrações de livros obscuros. Mas ela está lá. Seu segredo é que nada anuncia. Ela se encerra, como um cofre de vime. Guarda-se em penas, desenhos mortos, pincéis de espinhos. A coruja trafega no lusco-fusco das celebrações ocultas. Existia antes do telhado, antes mesmo do terreno baldio cercado, antes do século, da História, da trilha.



OS MAUS DO CLIMA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Todos sabiam como provocar uma catástrofe “natural”, assim como todos tinham a bomba nuclear. Mas os segredos de bombardear com petardos plásticos a ionosfera não ficou circunscrito aos governos dito responsáveis. Algo vazou e foi assim que recomeçaram as tragédias, se bem que em menor dimensão. Os vendavais acoplados com chuvas de granizo, criados em laboratórios ocultos em porões, destruíam no máximo uma criação de cabras. Não chegavam a atingir os centros das capitais, porque tudo estava protegido sob o manto da Ordem Total.



CINCO BANDEIDES E UM SAMOVAR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Fui obrigado a ficar na Rússia por quatro meses, tempos atrás, num frio que quase me matou. Foi numa região próxima à Sibéria, dentro de uma casa abandonada. O dono, um sujeito ruivo retaco com dentes da frente separados (vi pelas fotos que deixou lá num pacote escondido no fundo da gaveta do criado-mudo) devia ser algum caixeiro viajante que nunca estava em casa ou um aposentado que migrava na época do inverno para areias tropicais. Como fui parar lá? Demorei a descobrir os fatos reais que me condicionaram a essa prisão de gelo por uma longa estação. Porque tudo ficou nebuloso por um tempo.



PALAVRAS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Motivos aparentemente bizarros inventam sugestões quase obscenas para o som de algumas palavras. Jamais uso “dentre”, por exemplo, porque me lembra dente quebrado. A implicância é tamanha que a considero desnecessária. “Tripartite” é a pior palavra da língua, se é que ela pertence mesmo ao português. Talvez seja subproduto de um dialeto tatibitati. O excesso de tês não a recomenda para o uso corrente e sim para definir encontros internacionais inócuos, quando dois interlocutores são insuficientes para fazer marola.



MEDOS

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Minha rua, sempre cheia de ruídos provocados pela molecada, tinha momentos de intenso silêncio quando alguém anunciava a proximidade do Louco, um cara calado, sinistro e mal encarado, não muito mais velho do que nós, mas que guardava facas na cintura e jogava pedras enormes nas cabeças dos outros. Era também uma fera, imbatível nos socos, mordidas, pontapés. Era capaz de matar, diziam.



A MORTE SUSPEITA DO HOLOGRAMA

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Identificamos o acidente, mas nada conseguimos de informação. Nosso problema agora não é solucionar o caso, mas resgatar o jornalista, que sumiu. Não foi encontrado no bar nem na sua casa. Um universo tão imenso, infinito e hostil guarda segredos terríveis e um deles é o paradeiro do nosso colega. Aquele que queria beber um pouco e acabou sendo testemunha de um crime.Quem matou o holograma Zinter Barf e por quê? Essa é uma pergunta que vai ter de esperar. Outra se tornou mais urgente: onde está o repórter Birt Bogar?



VIAGEM À LUA

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Para chegar à plataforma de lançamento, fomos obrigados, primeiro, a vender os livros mimeografados em gráficas marginais para parentes preocupados. Nosso aspecto, alimentado pela ousadia e o susto, tomava a cor pálida dos selenitas. Depois, pegamos caronas em grandes scanias, que levaram muitos dias para chegar ao destino. Na véspera do evento, tínhamos conseguido embarcar num automóvel dirigido por carioca da gema. Foi quando treinamos o patuá rebelde da malandragem, que poderia servir de passaporte no território selvagem a ser conquistado. Enquanto caía a noite e Neil Armstrong e seus companheiros chegavam lá, estávamos ainda aprofundados na desventura da dúvida em estrada interminável.



OS ALPINISTAS ASSALTANTES

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Depois que inventaram o Locomotor Aéreo Silencioso (LAS), em 2023 – que não passa de uma pequena mochila com propulsor a jato, alimentado de ar comprimido por lasers virtuais opacos -, a nobre arte do alpinismo entrou em decadência. Limita-se hoje, primavera de 2050, a alguns abnegados, que abrem mão das comodidades do LAS para palmilhar a pedra bruta, cinzelar a rocha, cravar as ferraduras de seus sapatos especiais, enquanto sangram as mãos em direção aos picos.



O DRAGÃO DE JADE

maio 27th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Um mergulhador desenterrou do fundo do mar uma jóia mágica, o Dragão de Jade. Tem o tamanho de um punho fechado e é todo esculpido na gema preciosa. O dragão está sobre um pedestal e no espaço entre essa base e a barriga cabe os dedos de uma pessoa. Foi um puxão bem nesse vão que arrancou o objeto de onde estava, cravado numa rocha, mas que, não se sabe bem o motivo, se soltou facilmente . O resultado foi o terremoto que jogou o mar contra a Ásia.



VISITA AO PLANETA TERRA

jun 3rd, 2005 | Por | Categoria: Contos

Traços de nuvens um pouco roxas, montanhas verdes, mar calmo apesar do frio, ar por o­nde entra a memória, de tão puro. Quando foi que perdemos a pista daquele território que o caos urbano engoliu? (Crônica publicada no caderno Donna, do Diário Catarinense, no dia 14/08/05).