Contos

AQUELE CINEMA OCULTO

mai 30th, 2005 | Por | Categoria: Cinema, Contos

A arte da luz entra no buraco negro do tempo. Aos cinco anos, me levam para um lugar escuro, onde apareciam rostos gigantescos, que tomavam conta de uma parede. Fui informado antes: “vais te assustar!” Cumpri a advertência e tiveram que me tirar no meio da sessão.



DUAS VIAGENS E UMA CARTA

mai 29th, 2005 | Por | Categoria: Contos

Lembrei de ti, mãe, quando vi Diários de Motocicleta, de Walter Salles. Tu que me protegeste quando cruzei o inverno da minha vida na fronteira com a Argentina, sofrendo ataques cíclicos de asma. Na mesma época em que eu delirava sem poder respirar alguém tinha cruzado o Amazonas a nado para impor-se aos limites da doença e tornar-se o Che.



NA CASA DO POETA MAIOR

mai 29th, 2005 | Por | Categoria: Contos, Livros, Poesia

Quem é J. A. Pio de Almeida, esse poeta estupendo que hoje está recolhido, quieto, “oculto entre as colunas altas do Silêncio”, como diz, no bairro do Espírito Santo, em Porto Alegre? Sua poesia pertence ao mais alto patamar da literatura brasileira. Leiam esses versos: “”Há um tapa de jaguar vencido em meu silêncio/ um taciturno fim de época rebelde/ um não-sei-quê de sombra e glória no que eu penso…”



O VIGIA DO MAR

mai 26th, 2005 | Por | Categoria: Contos

A realidade do pescador é a brusca mudança, o rochedo que aflora, o sumidouro, o roçar de um monstro, a mistura do vento, o peixe maior do que os braços. Ele vive diante da oportunidade perdida, da história afundada no tempo, na curva da onda batizada de Iemanjá, na tentação sonora em forma de sereia. O pescador perde a forma para adaptar-se às imposições mutantes da paisagem.



A VOLTA NA QUADRA

mai 23rd, 2005 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Quarteirões em quadrados perfeitos, ruas e calçadas largas: a engenharia militar da República do Piratini engendrou a lógica na geografia urbana da minha cidade. Foi essa lógica que me salvou numa tarde sinistra, quando eu e meu irmão Luiz Carlos enfrentamos a fúria de um morador da nossa rua. Nós dois não devíamos ultrapassar os cinco anos de idade. Até hoje esse acontecimento mostra-se nítido em minha memória, já que foi minha primeira experiência com o horror.



LEITURA DE ELEVADOR

mai 22nd, 2005 | Por | Categoria: Contos

Quando o calor começa a aumentar, os livros não são mais escondidos debaixo de grossos casacos. As roupas são leves, portanto o material fica bem guardado num daqueles compartimentos que existem no elevador. Mais precisamente onde se guarda o telefone de emergência.



O HORIZONTE ACERTA O PASSO

mai 19th, 2005 | Por | Categoria: Contos

Cidade é presença e memória, é geografia humana e paisagem. Uma cidade existe a partir do esquecimento: quem vive nela precisa dos visitantes para lembrar-se da imponência do concreto, da identificação das ruas, do rendilhado da serra, ou do mar aberto para a invasão do desconhecido.



O COLECIONADOR DE IDENTIDADES

mai 18th, 2005 | Por | Categoria: Contos

Preciso cruzar mais de cinquenta quilômetros de imensas propriedades coroadas de lagoas, montanhas cobertas de mato e algumas de tetos nevados, vales e praias, antes de chegar ao núcleo do refúgio deste território oculto, o­nde mora Herr Holderbaum num castelo tão imponente quanto simples, um paradoxo que define a vida deste ermitão, colecionador de identidades que guarda em inúmeros aposentos, que vai me mostrando aos poucos, conforme se desenrola nossa conversa ao pé de uma lareira, onde as brasas esquentam um pedaço de pedra lisa. Lá tornam-se digeríveis pizzas e pinhões.(Crônica publicada no caderno Donna, do Diário Catarinense, em 9/outubro/2005)



Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes