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	<title>Nei Duclós &#187; Crônicas</title>
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		<title>CHORO DE PEDRAS</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:50:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Sigo os russos do século 19, a era do esplendor da literatura e das artes, tão vilipendiada pelo século 20, irmão mais novo e cheio de inveja. Na seleta que tenho comentado aqui, lançado pela Martins Editora em 1964, seleciono mais duas obras primas. Uma delas é de Tchirikov, “Fausto”, sobre o casal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Sigo os russos do século 19, a era do esplendor da literatura e das artes, tão vilipendiada pelo século 20, irmão mais novo e cheio de inveja. Na seleta que tenho comentado aqui, lançado pela Martins Editora em 1964, seleciono mais duas obras primas. Uma delas é de Tchirikov, “Fausto”, sobre o casal pequeno burguês que vive vida vegetativa , ele bancário viciado em jogo de cartas que odeia sua casa, ela a esposa ressentida e frustrada que lamenta a perda da juventude e da beleza. Mas ao quebrarem a rotina e irem ao teatro ver a peça de Charles Gounod sobre o homem que vendeu sua alma, eles recuperam o viço e resgatam a emoção de viver. Descobrem que são invejados pelos amigos e se flagram mais próximos do que nunca.</p>
<p>O teatro que reaproxima o casal por meio do drama e da música é um dos fundamentos da civilização. Não se pode viver sem ele. Há décadas que não vou a um, mas houve uma época em que eu viajava sem dinheiro e de carona só para assistir as grandes peças de São Paulo e Rio. Foi assim que vi Cemitério de Automóveis, Gracias Señor, O casamento do pequeno Burguês, Mockinpott (que deu prêmio de revelação da APCA para nosso Miguel Ramos), entre outras preciosidades. Manter um teatro permanente, como tínhamos no século 19 em Uruguaiana, o Carlos Gomes, que trazia espetáculos de Buenos Aires, Montevidéu e das capitais brasileiras e européias, é um luxo que hoje não dispomos. Por que?</p>
<p>O outro conto também tem a ver com Uruguaiana, pois fala de via férrea. Assistir à derrocada da estrada de ferro no país continental, ao contrário de outros países que transformaram o trem no mais moderno meio de transporte do mundo, é de uma tristeza só. Nossa cidade tinha o perfil definido pelos trilhos. Era nosso contato com o mundo, viajamos para terras importantes vendo pela janela o esplendor do pampa. Foi pela via férrea que conheci Porto Alegre e todas as outras cidades do caminho. Destruíram tudo por burrice e traição à pátria. Mas eu falava do conto O Sinal, de Garshin, autor que morreu cedo demais, com 33 anos.</p>
<p>Ele conta a história de um camponês que foi pra a guerra e lá exercia atividade subalterna de servir samovar para os oficiais. Pegou reumatismo nos rigores da campanha e não podia mais lavrar a terra. Saiu pela estrada de ferro afora atrás de emprego e encontrou um veterano a quem servia no front, que lhe deu o emprego de guarda-trilhos. Uma cabana onde poderia plantar e viver com a mulher e enfrentar o inverno e pronto, lá estava ele feliz e orgulhoso com sua lanterna e suas ferramentas. Quis fazer amizade com vizinho, que era muito revoltado e acabou cometendo um crime: arrancou um trilho na iminência da chegada de um trem cheio de famílias pobres.</p>
<p>Nosso herói foi para o meio da estrada e como não tinha jeito de avisar a tempo, cortou profundamente o braço e embebeu um pano de seu sangue e o colocou na ponta de um mastro como bandeira. O maquinista viu e freou. Como saiu muito sangue, ele desmaiou no meio da sua ação, mas a bandeira foi assumida pelo próprio criminoso. “Amarrem-me. Eu arranquei um trilho”, disse o culpado.</p>
<p>Grande literatura. Faz chorar as pedras.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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		<title>REGRESSÃO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/regressao</link>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 23:33:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Recebo spam por e-mail me convidando para ler novo fenômeno literário, um professor. Vou ler e o início é uma sucessão de lugares comuns, aquelas descrições torpes da natureza que evitávamos quando, no ginásio, os professores nos desafiavam a encontrar soluções melhores. O problema não é o romantismo ou o parnasianismo, que nos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Recebo spam por e-mail me convidando para ler novo fenômeno literário, um professor. Vou ler e o início é uma sucessão de lugares comuns, aquelas descrições torpes da natureza que evitávamos quando, no ginásio, os professores nos desafiavam a encontrar soluções melhores. O problema não é o romantismo ou o parnasianismo, que nos oferecem gênios da literatura, mas sua diluição, a leitura equivocada que acaba gerando essas inutilidades que acabam voltando,pois arrebentou-se com todos os paradigmas, relativizou-se tudo e agora tudo pode, principalmente andar para trás, regredir.</p>
<p>Sorte que contamos com os russos, que inventaram a narrativa moderna de gênio e nos servem sempre como exemplo. Na série de artigos que estou publicando aqui sobre os contos russos numa edição antiga da Martins Editora, leio um encantador Turgueniev, que tem no seu currículo o grande romance Pais e Filhos. O texto que abordo aqui é O Encontro, em que o narrador é testemunha de uma despedida de um casal no ermo, em meio à natureza. A exuberância do ambiente, descrito com maestria, se contrapõe ao drama entre o conquistador indiferente e bruto e a pobre apaixonada que implora atenção mesmo sabendo que será abandonada.</p>
<p>“Uma brisa ligeira alisava o cimo das árvores. A floresta molhada mudava a todo momento de aspecto, conforme o sol brilhava ou se escondia”, nos diz Turgueniev, mostrando o outro lado da sua magnífica nação, que sempre vemos envolta na neve , na chuva, na ventania e no frio. Aqui, temos o esplendor da estação descrito por um mestre, que nos introduz o romance aparentemente bucólico como se houvesse uma traição á natureza, ou talvez, faça parte dela, pois se trata de paixão e crueldade, elementos recorrentes na vida natural. O importante é a força da narrativa, a originalidade do enfoque, que trabalha num território muito explorado, que é a descrição da paisagem.</p>
<p>Não são os temas escolhidos que fazem a diferença, mas sim o que você faz com eles. É a sua pena que conta, seu talento, seu domínio de linguagem. Não se pode é se entregar a soluções batidas por falta de competência ou de conhecimento. Acredito que tudo foi vedado à população, e por isso, mesmo com tanta oferta na rede digital, ficam, por falta de informação, sem acesso ao que há de melhor na cultura, impregnando-se de falsos ídolos, músicas ruins, literatura de pastiche. Há muita apelação. A indústria do espetáculo a tudo manipula e contamina. Ou temos os diluidores profissionais com suas histórias pífias mal escritas ou os pomposos falsos eruditos que fazem pose com suas obras suspeitas.</p>
<p>Difícil é achar a legitima manifestação do talento, que é uma soma de sabedoria, um conhecimento acumulado submerso que aflora num poema , conto ou romance. Em outra história do livro em questão, desta vez de autoria de Korolenko, um guarda se apaixona pela estranha prisioneira que ele escolta até os confins da Sibéria. É tocante ver a mulher tossindo nos rigores do inverno russo e aquele amor que penetra o texto como um veneno tardio.</p>
<p>É disso que somos feitos: da transcendência conseguida pela arte da palavra. Glória aos grandes escritores e rigor contra os enganadores.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.</em></p>
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		<title>HABITE-SE</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/habite-se</link>
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		<pubDate>Sat, 26 Nov 2011 16:25:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Habitar o espírito depende de uma sucessão de eventos. Como vivemos à mercê da indústria do espetáculo, que suga emoções esvaziando espíritos, que são preenchidos desde que se pague por isso, o vazio, e seu irmão gêmeo, o desespero, tomam conta das vidas. É impossível segurar a carga de problemas de uma trajetória [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Habitar o espírito depende de uma sucessão de eventos. Como vivemos à mercê da indústria do espetáculo, que suga emoções esvaziando espíritos, que são preenchidos desde que se pague por isso, o vazio, e seu irmão gêmeo, o desespero, tomam conta das vidas. É impossível segurar a carga de problemas de uma trajetória normal aqui na terra sem que haja o contrapondo do habite-se espiritual. Há quem preencha só com religião,o que corre o risco de virar obsessão. Outros com auto-ajuda, mas isso implica ignorância em relação a autores clássicos, que detém a verdadeira profundidade do pensamento. E outros ainda com a oferta variada de asneiras disponíveis nas mídias.</p>
<p>Os eventos a que me refiro fazem parte de uma linhagem a favor da vida plena. Começa com alimentação e teto desde a infância, seguido da necessária sólida formação, que nos instrumenta para a seleção criteriosa, a defesa contra armadilhas e a criação, que é o exercício mais importante desse processo. Criar, seja o que for (desde que não faça parte de nenhum crime) é o que nos leva para aquela situação de conforto conosco. A auto-estima vem da realização na nossa meta de participar de atividades criativas.</p>
<p>E não falo em criatividade vendida pelo marketing, essas ilusões corporativas que varrem as empresas. Inovação, dizem, parceria, fazer a diferença: lugares comuns que nada significam Você simplesmente precisa criar, fundado na tua intuição e inteligência, e principalmente, na tua liberdade de expressão e escolha. O território do conflito é dentro de ti, interagindo com tudo o que te cerca, com as conexões que fazes, com os laços que se rompem ou se recuperam, com os amores imperfeitos. São iniciativas que fazem parte desse esforço espiritual para habitar o espírito. É um trabalho prazeroso para que coração e mente se abracem, como numa história de amor de final feliz.</p>
<p>É importante a formação para não se entregar ao primeiro charlatão que chupa de tudo o que é fonte (e as desvirtua) só para impressionar as pessoas. Cevados pela indústria do Mesmo e do Ego, esses protagonistas do Nada tomam conta dos espaços midiáticos e levam multidões a passeios vazios, onde o único fruto é o dinheiro que arrecadam. isso serve para a literatura ou a religião. Na minha vida longeva, vi todo tipo de moda surgir e se desmanchar no ar. É hora de pegar essa experiência e fazer dela algo mais sólido, conseqüente. O caminho é não deixar iludir, é acreditar que temos capacidade de nos superar, é duvidar das certezas, mas não deixar que as dúvidas nos sequem por dentro.</p>
<p>Essa busca incessante de equilíbrio é que faz a graça da vida. Nunca estamos prontos e no futuro seremos recebidos por Deus em nossa escassez humana. Somos feitos desse nó sem sentido que é vida terrena. Nela aprontamos as nossas melhores criações. E as levamos para o Outro Lado, como representação do espírito habitado. E deixamos como legado um feixe de realizações calorosas, que alimentam o espírito dos que ficam. Seremos lembrados pelo habite-se que conseguimos em vida.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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		<title>MESADA</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 15:37:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Algumas palavras fazem parte do cânone da memória. Desgranida, por exemplo, parecida com o Desgracida, que o Dalton Trevisan escolheu para titulo de seu novo livro, um dos ganhadores do Jabuti 2011, é uma delas. É um xingamento disfarçado, para evitar a forma mais explícita e rude, o de desgraçada. É a maneira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Algumas palavras fazem parte do cânone da memória. Desgranida, por exemplo, parecida com o Desgracida, que o Dalton Trevisan escolheu para titulo de seu novo livro, um dos ganhadores do Jabuti 2011, é uma delas. É um xingamento disfarçado, para evitar a forma mais explícita e rude, o de desgraçada. É a maneira de sufocar um grito e transformá-la numa calúnia, tirar seu perfil de alto falante e instaurar o sussurro amargo.</p>
<p>Outra palavra importante e que também sofria de uma distorção do sentido era mesada. Na nossa casa toda semana era distribuída, mas a instituição, na origem, referia-se ao que era fornecido mensalmente. Melhor par nós que ganhávamos do pai todo domingo o que deveria ser dado só a cada 30 dias.</p>
<p>Essa mesada semanal contribuía para que tivéssemos uma relação saudável com o dinheiro. Era só aquele montante que dispúnhamos para despesas fundamentais, como ir ao cinema, comprar revista em quadrinhos, refrigerante e sorvete, coisas sem as quais era impossível viver. Como a inflação era quase inexistente naquela época, então só de vez em quando havia um aumento e não dependia de reivindicação, pois obedecíamos aos critérios absolutistas paternos.</p>
<p>Era uma monarquia que com o avanço da idade dos rebentos virou parlamentarista, coisa que deu certo no Brasil por um bom tempo. Mudava-se o total quando os mais velhos dispunham de sólidas provas de que a mesada era utilizado para algo mais nobre como um curso técnico a distância ou fazia parte da economia para futura e importante viagem escolar. Se o pai mexia no topo toda a base da pirâmide acompanhava a mudança.</p>
<p>Além da mesada, tínhamos a caderneta de poupança para nos treinar no trato difícil com o dinheiro que não perdia o valor a cada minuto, como aconteceu depois,até virar pó e hoje ser apenas lembrança, já que ao existem mais moedas nacionais, apenas unidades monetárias a serviço da especulação e da industria financeira. Não há mais pesos, pesetas, escudos, francos, marcos, cruzeiros e sim euros ou reais,que são moedas artificiais. A caderneta de poupança era uma rocha à beira mar: indestrutível e rendia razoavelmente. Bastava depositar ali toda semana ou mês e esperar uma vida para recolher os frutos.</p>
<p>Quando fundamos o Esporte Guarani, abrimos uma caderneta na Caixa Econômica Federal. A caderneta era da cor do ouro, que significava o valor do dinheiro sólido, e ostentava aquela caligrafia onde bancários austeros e atenciosos registravam os depósitos. Retiramos alguns meses depois para comprar camisetas e bolas e assim enfrentar os vários adversários existentes, times que se formaram em outros bairros. Arrastávamos nossas torcidas para conquistar o respeito por meio da força bruta e do talento.</p>
<p>Mas esse era um outro tempo,quando o dinheiro falso desgranido não tinha eliminado a relação duradoura entre o objeto – a vida – e sua representação – as cédulas e moedas. Havia usura e distorções. Mas o governo colocava para a população, especialmente as crianças, as instituições bancárias a serviço da formação séria. Éramos goleiros, centro-avantes,primeiros da aula, poupadores. Digo isso não só para lembrar, mas para provar que nem sempre vivemos no pesadelo.</p>
<p><em>Crônica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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		<title>NA CARRETERA</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 15:30:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Espanholismos fazem parte do vocabulário da fronteira gaúcha. A estrada principal é a carretera, que na minha infância era de barro, pelo menos até 500 km ao norte, Santa Maria. Na lama também fiz algumas viagens com meu pai, como a que levou dois dias para chegarmos a São Borja, trajeto que se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Espanholismos fazem parte do vocabulário da fronteira gaúcha. A estrada principal é a carretera, que na minha infância era de barro, pelo menos até 500 km ao norte, Santa Maria. Na lama também fiz algumas viagens com meu pai, como a que levou dois dias para chegarmos a São Borja, trajeto que se faz hoje de Uruguaiana em poucas horas. Chovia demais e fizemos a volta por uma série de pequenas cidades das quais não lembro o nome – e recompor o roteiro no Google Maps talvez não ajude a recuperar aquele caminho sinuoso em que acompanhei a concentrada presença paterna nos seus negócios.</p>
<p>Lembro que a chuva nos obrigou a parar no meio do caminho, num hotel do mais profundo interior, em que gostei demais do cheiro de casa velha e os boníssimos edredons seculares que me protegeram do frio. E a inesquecível Pensão da Siá Mulata, onde me refiz da viagem com pratos populares capitaneados por atencioso dono e chef, que por ser negro destoava dos empreendedores da região.</p>
<p>Pior foi a viagem até Porto Alegre em que compartilhei a dureza do jipe Candango, opção do pai nacionalista, que tinha cansado de Fords e Austins e resolvera abraçar a causa da tração das quatro rodas do veículo feito a martelo sem design convincente, mas que se tornou a marca registrada da sua passagem pela cidade rumo aos peixes das redondezas. Em cima do candango ele punha o barco de fibra de vidro com motor de cinco cavalos, ideal para navegar em arroios cheios de surubis e dourados. Claro que havia também os cascudos e grumatãs, estes com gosto de barro, mas o objetivo era o chamado peixe nobre. Rodelas de dourado eram fritos na beira do rio e disputávamos com moscas varejeiras o privilégio de abocanhar o quitute acompanhado de cerveja geladíssima na caixa de isopor.</p>
<p>Gosto de contar a história do meu irmão que herdou o Candango e se aventurou até Florianópolis num dia chuvoso, em que existia apenas uma faixa central transitável, já que as margens da carretera estavam tomadas pelo barro. Um fusqueta invasivo tentava ultrapassá-lo em vão, pois era impossível chafurdar no lodaçal só para deixar passar o indigitado. Ao perder a paciência, meu irmão puxou o facão de três listras (assim mesmo, com erre no meio, como se diz por lá) debaixo do banco e sacudiu no ar para deixar claro suas más intenções contra o assédio. O fusca sumiu no horizonte e só reapareceu timidamente logo depois, quando a estrada melhorou de humor. Meu irmão então sacou de novo a peixeira e com ela fez sinal para que passasse, o que foi obedecido de maneira ressabiada, já que o automovelzinho resfolegava bem no cantinho do acostamento, como um cachorro com medo de surra.</p>
<p>Mas nada se compara a uma epopéia memorável que fiz com minha irmã e cunhado, este um alemão gigantesco e apaixonado pelo pior carro do mundo para enfrentar o barro da carretera: a kombi. Foi quando aprendi o que eram correntes de pneus. Eles pôs o capote de ferro na borracha para evitar atolamentos, mas como não cabia na tala, já que era de outro tamanho, a toda hora escapava. Vá ver a corrente, me dizia ele. E eu não sabia do que se tratava. Foi quando ficou consolidada minha imagem anti-pragmática, que me persegue injustamente até hoje, já que provei minha capacidade de dar três marteladas seguidas sem bater no dedo.</p>
<p>Levamos dias para cruzar o Rio Grande do Sul até chegarmos no Norte do Paraná, onde ficamos um dia inteiro esperando que o carro fosse consertado. Ao nos aproximar de Goio Erê, perto de Campo Mourão, cruzando a mata num lugar que hoje só tem pasto, um veado cruzou a estrada. Ao que o gringo imediatamente parou para puxar uma pistola. Mas era só pose de caçador amador. O bicho, assim como surgiu no clarão do farol, sumiu.</p>
<p>Eram assim as histórias e criaturas do barro e da carretera, pertencentes ao Mundo Perdido, o Brasilzão profundo, onde fui criado, graças ao Pai Eterno que teve misericórdia de mim e não permitiu que eu crescesse nos dias de hoje, quando não há mais nada a não ser a tela do micro onde narramos nossa desventura.</p>
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		<title>AINDA É CEDO</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 19:58:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Ainda é cedo, amor, para retribuir teu beijo, porque devo esperar a hora certa. Um sinal será dado pelo navio que cruza o rio e fica em frente a nós como um aviso de que tudo poderá acontecer de novo, nossa cama coberta de sonho, a janela aberta para os pássaros. Não devemos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Ainda é cedo, amor, para retribuir teu beijo, porque devo esperar a hora certa. Um sinal será dado pelo navio que cruza o rio e fica em frente a nós como um aviso de que tudo poderá acontecer de novo, nossa cama coberta de sonho, a janela aberta para os pássaros. Não devemos pensar em mais nada, a não ser nos desvencilhar desse laço a que nos condenamos e nos impede de viver o que foi dito acima: o Tempo domesticado pelo sentimento ainda vivo, o sopro divino de uma tardia esperança. Sim, palavras bonitas que te lanço porque me resta a sedução do verbo, já que perdi a chance quando estive perto e agora distante inauguro a vontade de rever o que perdemos.</p>
<p>Dizem que nada disso vale e é preciso aquilo que sabemos e já foi experimentado em vão pelas carruagens de sempre. Elas passam, amor, enquanto nós ficamos na beira da rodovia em pânico, esse país quebrado em mil pedaços . Não é mais hora de queixas, pois anulamos a capacidade de ver melhor quando tínhamos na frente a verdade que não ousávamos pronunciar. Ficou tarde para levantarmos do campo, aberto em mil crisântemos. Mas como o sol esboça chegar e tudo fica quieto como na véspera da criação, posso esperar o melhor da vida nova que nos toma o coração que considerávamos morto.</p>
<p>Libero a palavra de seus encargos, visto-a com roupa de domingo para me recuperar do estrago. Tinhas um vestido que despetalei escondido naquela dobra de vento. E eu calçava botas de pano, que não faziam ruído quando inaugurávamos jardins colhendo a esmo flores que em pouco tempo morreriam. Inventamos essa doce compulsão de canteiros enquanto o mato tomava conta dos gerânios. Perdi a noção do que falo, pois apenas exerço a hipnose que te prende como o olhar do bicho de tocaia no pântano. A mágica ainda funciona? Me diga, amor, antes que eu suma outra vez no trem desse destino.</p>
<p>Na estação te vi ainda intacta com teu rosto vermelho de paixão pelo que cultivamos. E nos despedimos, como dois absurdos contratempos. Foi o trem bater no trilho da colina seguinte para eu saber que estava tudo perdido, apesar da promessa e teu bilhete, que guardo ainda. Arranjei até um cofre onde revisito quando chove e imagino que o tempo bom é uma idéia que pertence ao deserto que nos impuseram. Mas um cheiro teu cruza o infinito dessa distância insuportável e levanto para ver a manhã ainda no esboço de um clarão da iminente primavera. Sim, eu falava do inverno, meu amor, e de como ficamos enrijecidos e tontos e como nos recolhemos achando que iríamos sobreviver se nos encolhêssemos até além do limite da insânia.</p>
<p>Mas a chuva parou e as árvores se colocam em guarda como num dia de batalha que mede os adversários com o olhar de escândalo. Há mudez nos ninhos e rútilos girassóis estão prontos para lançar seu amarelo ouro sobre o verniz do dia ainda no esboço. Falo sempre da mesma coisa, amor, e direi sempre, toda a vida e mais a próxima encarnação, se isso existir de fato. Quero a mulher que me enche de mel como um oásis numa paisagem de metais e fogo.</p>
<p>Quero teu amor, e isso é tudo.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana. 2. Imagem desta edição:</em></p>
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		<title>PARAÍSO PERDIDO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/paraiso-perdido</link>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 13:43:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Desde que acabou a moleza do Paraíso, somos obrigados a pegar no batente. Mas fica a saudade, o vestígio: sempre sonhamos em nos recolher a algum tipo de lugar edênico, para voltar ao bem bom. Nunca dá certo, claro. Não existe lugar intacto, pois por toda a parte carregamos a nós mesmos, fonte [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Desde que acabou a moleza do Paraíso, somos obrigados a pegar no batente. Mas fica a saudade, o vestígio: sempre sonhamos em nos recolher a algum tipo de lugar edênico, para voltar ao bem bom. Nunca dá certo, claro. Não existe lugar intacto, pois por toda a parte carregamos a nós mesmos, fonte de todos os conflitos. Os descobridores no século 15 acharam que tinham encontrado esse mundo perdido, como mostra, de maneira magistral, a maior obra da erudição do Brasil, “Visões do Paraíso”, o livro obrigatório de Sergio Buarque de Holanda, em que cada capítulo equivale a um livro à parte.</p>
<p>O que deslumbrou os europeus foram os bons ares (uma expressão que serviu para os hermanos argentinos batizarem sua ofuscante capital), a generosidade da terra e as provas de que realmente se tratava do ninho bíblico, formador da humanidade a partir do primeiro casal. O maracujá com seus sinais crísticos estaria no rol dos candidatos ao fruto proibido, entre outras “evidências”. Da mesma forma que naquela época remota, continuamos nos enredando em especulações, mesmo com a feérica desconstrução de mitos, baseadas em investigações pesadas.</p>
<p>A mediunidade ainda não foi elevada à categoria de ciência, nem a literatura pode se arvorar a ser História, mas acredito que talvez os mistérios estejam decifrados na nossa frente e não nos damos conta. Toda vez que vou à praia, aqui em Florianópolis, admiro as construções arqueológicas, as pedras empilhadas, algumas do mesmo jeito que são vistas no interior da Inglaterra. Lá, os menires são isso mesmo, aqui não passam de pedras na praia. Somos avessos à História, que dirá a arqueologia, que busca o conhecimento ainda mais oculto. Mas talvez as causas, os motivos, estejam explícitos.</p>
<p>Uma lenda antiga dos indígenas brasileiros fala de um gigante que se prevaleceu de uma formosa humana e por isso foi castigado, transformando-se na Serra do Mar. As nossas montanhas são gigantes deitados e dentro das ruinas do passado, que são a própria paisagem, há te tudo. Já descobriram ouro, ferro, pedras preciosas, nióbio. São os tesouros ancestrais que continuam sendo pilhados, mais do que nas pirâmides do Egito. Lá, os acervos são ainda recentes. Os nossos, são multimilenares. Valas geométricas no Acre, monumentos perdidos na Amazônia, incluindo pirâmides cobertas de selva etc. estão à espera da curiosidade nacional.</p>
<p>Uma batalhadora da arqueologia alerta há anos para a destruição das Sete Cidades do Piauí, conjunto arqueológico valiosssimo e ainda não decifrado. Dão tiros em pinturas rupestres. Usam jipes envenenados para destruir os sambaquis aqui no litoral catarinense. Mas há também inúmeros estudiosos que procuram entender a complexidade da ocupação das terras brasileiras, as mais antigas do mundo, antes da chegada de Cabral. Estudam o que um dia foi encarado como Paraíso, mas que não passa de território hostil e amigável ao mesmo tempo, como qualquer outro. Onde se formaram as gentes que receberam os invasores, foram dizimados por eles e também se misturaram.</p>
<p>Tudo habita dentro de nós, em forma de linguagem.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.</em></p>
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		<title>ESCOLHAS</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jul 2011 01:21:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós O jornalismo parece estar entrando em descenso depois de uma fase áurea de prestígio, pelo menos como escolha de faculdade. Houve um tempo em que o vestibular para a profissão era tão competitivo quanto o da medicina. Com o fim da obrigatoriedade do diploma e com a possibilidade de todo cidadão virar mídia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>O jornalismo parece estar entrando em descenso depois de uma fase áurea de prestígio, pelo menos como escolha de faculdade. Houve um tempo em que o vestibular para a profissão era tão competitivo quanto o da medicina. Com o fim da obrigatoriedade do diploma e com a possibilidade de todo cidadão virar mídia graças aos recursos digitais, parece que a antiga “comunicação” entrou em fase decisiva de reciclagem, com algumas perdas importantes. Mas por mais que saia de moda, jamais, imagino, chegará ao estado em que se encontrava quando me decidi pelo ofício.</p>
<p>Como passou muito tempo posso agora contar. A proximidade com os fatos cria embaraços óbvios, pois o calor do momento vibra por décadas. A idade avançada nos permite rir de tudo, pois a vida é datada e precária, só nós não percebemos quando ainda estamos envolvidos com ela no auge da força. Quando eu tinha uns 16 anos fiquei rodeando o lugar que eu mais admirava, a rádio São Miguel, naquela época dentro do padrão Guaíba de qualidade, sem interferências publicitárias gravadas e com uma programação musical de primeira. Tinha também um bom jornalismo,mas nisso a Charrua se destacava mais, graças a grandes radialistas como Mario Dino Papaleo e Mario Pinto, entre outros.</p>
<p>Cheguei a entrar para oferecer meus serviços, pois era naquilo que eu queria trabalhar. Riram do gurizão, claro. Primeiro, não havia vaga, segundo, ali não era escola, terceiro era algo tão remoto quanto viajar para Paris. Mas dizem que insistir é que traz sorte, então quando fui a Porto Alegre ainda sonhava com essa escolha. Mas havia resistência forte no ambiente social. Jornalista era “boêmio e tocador de violão”. Mesmo depois de entrar para fazer estágio na Caldas Junior,os veteranos aconselhavam os novatos a fazer concurso público, pois aquilo era só um bico. Com breve passagem pela Engenharia (onde tinha me metido para provar que poderia passar naquele vestibular tido como difícil), escolhi o Curso de Jornalismo da Ufrgs, mas num momento tumultuado, exatamente o ano de 1968, quando o mundo explodiu na cara da nossa geração.</p>
<p>Acabei saindo da faculdade quando o AI-5 expulsou os melhores professores. O curso de jornalismo se abraçou à Biblioteconomia e não havia mais nada a fazer lá. Veio a praga teórica da ”comunicação” que imperou até há pouco tempo, quando as mídias sociais implodiram tudo e fizeram todas as teses sobre o futuro do jornalismo cair por terra. Estamos em plena revolução, no sentido de transformação radical. Na internet, mantenho o jornalismo autoral onde fui criado, pois ainda peguei a época em que as pessoas assinavam seus textos e podiam, dentro dos rigores da metodologia e da técnica, voar no texto e surpreender.</p>
<p>Mas nunca esqueço o tempo em que meu dentista debochava da minha escolha e que muitos bateram na porta de casa para convencer os pais e me internar, pois eu tinha surtado ao deixar a engenharia pelo jornalismo. Foi uma escolha difícil. Não havia estímulo. Mas esse é o momento apropriado para se decidir pelo front apenas com a cara e a coragem.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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		<title>O CARÁTER DAS ROUPAS</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jul 2011 01:13:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Não existe peça do vestuário masculino mais bandida do que as meias. Talvez seja por vingança de estarem sempre nos pés. Mas elas jamais emparceiram, por exemplo, mesmo que preventivamente a gente decida comprar apenas de uma cor. Há nuances entre as texturas e você jamais consegue juntar dois exemplares idênticos. Mas em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Não existe peça do vestuário masculino mais bandida do que as meias. Talvez seja por vingança de estarem sempre nos pés. Mas elas jamais emparceiram, por exemplo, mesmo que preventivamente a gente decida comprar apenas de uma cor. Há nuances entre as texturas e você jamais consegue juntar dois exemplares idênticos. Mas em todas as roupas existe esse perfil psicológico, não porque se humanizem ao tomar a forma humana, mas porque são assim mesmo, na essência, por natureza, se é que se pode dizer.</p>
<p>Os ternos, está na cara, desviam dinheiro público, os pulôveres jamais se ajustam ao corpo e escasseiam na barriga e sobram nas mangas, para gerar desconforto em quem usa. Há todo tipo de meliante. As campeiras ganham imediatamente aquele cheiro de mofo de inverno e não há o que tire. Ponchos pesam toneladas com qualquer chuva miúda, chapéus desabam miseravelmente no terceiro mês de friaca e inundam o cocuruto no verão. E, com a nova dominação chinesa em todos os nichos industriais, vemos como tudo rasga fácil, estraga, encolhe, perde a cor.</p>
<p>Vinco é uma coisa que não se vê mais. Faz parte do Mundo Perdido, quando as roupas tinham caráter . Um vinco fazia média com as bainhas italianas e se exibiam para golas engomadas em riste. Os excessos deslumbravam nos bailes, como as abotoaduras que juntavam alvas pontas de mangas de camisas impecáveis. Os sapatos, hoje marginalizados pelos tênis saradões e por isso em eterna pose de ressentimento, já que se esforçam para clonar seus adversários, tinham personalidade e faziam a glória de todas as idades barbadas.</p>
<p>Um sapato de verniz bem engraxado era o espelho onde se miravam os rostos de bigodinho fino. Cordões de luxo faziam o calçado se adaptar magnificamente no pé, pois era preciso segurança para rodopiar a valsa ou caprichar no tango, nas altas horas. Havia rigor. Não era como hoje com essas calças meia canela, de pular sanga, que mais parece um xiripá mal ajambarado e que todos usam, inclusive os da terceira idade, o que dá um aspecto bizarro em criaturas que deveriam atingir o nível da sobriedade.</p>
<p>Os tecidos não existem mais. Linho, cambraia, lã, casimira e até mesmo o novidadeiro nycron sumiram para dar lugar a essa mixórdia plástica de fios que atraem eletricidade suficiente para acender dez lâmpadas. O que chamam de algodão é uma imitação barata daquele tecido amigável que fazia o conforto de nossos corpos tão ansiosos. Tudo é chinês, ou seja, não vale nada. É o que me disse o dono de um mercadinho 1,99. Mas esse brinquedo está estragado! disse. Claro, respondeu ele, é chinês.</p>
<p>Triste país que deixou de se pautar por indústrias estrangeiras de grife, como a alemã e a italiana, para se deixar levar para a quinquilharia generalizada. E não adianta vibrar a palavra da moda, “preconceito”. Depois que os imbatíveis e indestrutíveis vulcabrás migraram para a China, tudo pode acontecer. Desse jeito, essas marginais, as meias de poliéster, ou então as de algodão grosso que apertam nos tornozelos, ou mesmo as camisetas que te estrangulam por falta de bom senso no design, tomarão o poder. E ficaremos nus, como nunca fomos.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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		<title>PALPITES NA FOGUEIRA</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jul 2011 00:51:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Noto que em todo evento há sempre um protagonista, dois no máximo, e dezenas ao redor, assuntando. Temos vocação para o testemunho mudo, com um assombro implodido, que confundem com submissão, mas é apenas resultado das pressões acumuladas na vida pessoal e coletiva. Não adianta reclamar dos motoristas que geram engarrafamento para ver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Noto que em todo evento há sempre um protagonista, dois no máximo, e dezenas ao redor, assuntando. Temos vocação para o testemunho mudo, com um assombro implodido, que confundem com submissão, mas é apenas resultado das pressões acumuladas na vida pessoal e coletiva. Não adianta reclamar dos motoristas que geram engarrafamento para ver alguém atropelado. Faça o que quiser, mas a multidão estará olhando para o abismo que engoliu o ônibus.</p>
<p>O turista francês que caiu dos Arcos da Lapa, no Rio, agonizou até chegar o resgate. Quando chegou, estava morto. Se limitaram a bater fotografias da rede de proteção que falhou (é preciso protocolar tudo, menos assistir os necessitados). Enquanto isso,a vítima tinha sido saqueada em celular e carteira. Um corpo fica no chão até o rabecão se dignar a vir pegá-lo. O velório então é feito na calçada, com dezenas de olhares em volta. Nas obras, vemos alguns operários levantando pedra enquanto encarregados de capacete e de braços cruzados, com planilhas a tiracolo, olham o desenrolar da ação. Sem falar nos políticos, que comparecem para apontar o horizonte em frente às câmaras.</p>
<p>Junto com a mudez de quem só sabe olhar, há os tagarelas que pontificam sobre o ocorrido como se fossem diplomados nos assuntos. Eles já sabiam de tudo o que ia acontecer. Avisaram, mas ninguém prestou atenção. Gostam de ser os chegados da primeira hora, antes dos bombeiros e da polícia, os que mostram como a coisa funciona. São especialistas amadores, voluntários do palpite. Isso se manifesta desde pequeno. Lembro que meu irmão Luiz Carlos, exímio empreendedor, se insurgia contra os petizes palpiteiros, que nada faziam mas eram os primeiros a colocar defeito em tudo.</p>
<p>Muito menino, Luiz Carlos era capaz de construir uma obra complicada para abrigar uma criação, por exemplo. Fazia o galpão, o telhado, colocava a cerca, confeccionava os poleiros, comprava os filhotes, alimentava, recolhia os ovos, fornecia para o abate quando solicitado, etc. Era uma peça rara. Eu ficava olhando, abismado, mas jamais dizia nada, pois nunca me aventurei abordar o que jamais entendi, a arte de bater um martelo ou torcer um arame. O que deixava meu irmão enlouquecido era os que davam pitacos sobre sua predileção, a fogueira das festas de inverno.</p>
<p>Há uma ciência na fogueira, que deve durar várias horas sob o sereno gelado e acabar sendo pulada por todos os convivas. É preciso saber o comportamento da lenha, como o fogo vai se desdobrar sem atingir os fios, montar uma estrutura que não provoque acidentes nem deixe resíduos em excesso na calçada etc. O resto do acontecimento era providenciado pelos adultos, que traziam os fogos, os refrigerantes e as comidas típicas. Assim, entre o buscapé e o amendoim, rodeávamos as chamas com a alegria da infância alimentada pelo engenheiro precoce, o cara concentrado na sua faina e que liderava os trabalhos, não apenas colocando a mão na massa, mas distribuindo encargos. E expulsando os boquirrotos, que vinham atrapalhar com seu palpite infeliz.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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