Crônicas

REINVENTAR A RODA

fev 10th, 2010 | Por | Categoria: Crônicas

Nei Duclós Convívio implica alternância de papéis: num momento somos protagonistas, em outro, coadjuvantes. Mas como em terra de escravos todo mundo é senhor, para escapar do estigma, a moda é impor o papel principal, jogando fora os demais interlocutores. As mídias sociais são o paraíso desse estado de coisas: todos falam ao mesmo tempo [...]



INVERSÃO DE PAPÉIS

fev 10th, 2010 | Por | Categoria: Crônicas

Nei Duclós Alguém me adiciona no Twitter. Visito então o perfil de quem fez o gesto e noto, algumas vezes, que é preciso enviar uma solicitação para ser adicionado. Quando me parece alguém sério, me submeto ao trâmite. Resultado: lá aparece a mensagem me dando as boas vindas. Bem-vindo o cacete, essa seria minha fala [...]



CAIU O SISTEMA

jan 28th, 2010 | Por | Categoria: Crônicas

Nei Duclós Sobram exemplos de queda do sistema, mas nada comparado à tomada do Palácio de Inverno ou à guerrilha de Sierra Maestra. Quando serviços básicos da internet param de atender aos nossos caprichos, há pânico, mas não é sinal de uma revolução à vista. No máximo a impossibilidade provisória de dialogar com meio mundo [...]



CONTEÚDO

jan 28th, 2010 | Por | Categoria: Crônicas

Nei Duclós Há uma febre de conteúdo. É mania nova, já que, antes dela, a palavra estava confinada à água de um copo. Era ensinado na escola: o copo era o continente. É um paradoxo, pois a internet praticamente não tem forma e o conteúdo vaza por todos os lados, não há continente que agüente. [...]



NESTA ÉPOCA

jan 3rd, 2010 | Por | Categoria: Crônicas

Nei Duclós Hábitos estranhos tomam conta das pessoas nesta época do ano. Manchas vermelhas enormes desfilam em corpos indiferentes, como se queimadura de último grau em peles brancas fosse a coisa mais natural do mundo. É tocante ver as vítimas na fila do sorvete com essas manchas, numa espécie de resgate dos tempos em que [...]



“OS BONS, COMIGO”

jan 3rd, 2010 | Por | Categoria: Crônicas

Ser bom está fora de moda, mas não em desuso. Não é valorizado e já vi gente pedindo desculpas por divulgar suas vitórias escolares. Há um medo geral de ser confundido com os nerds. Todos querem ser o boquinha torta da esperteza, a caricatura publicitária do Ligador. O grande crime é ser flagrado como trouxa. [...]



MENTE ANIMAL

jan 3rd, 2010 | Por | Categoria: Crônicas

Nei Duclós O cachorro se concentra na mente do dono para adivinhar intenções e se antecipar. Desenhamos na mente nosso gesto seguinte, o animal lê e se adianta. Também tem a história do cão que ficava horas quieto esperando e só se movimentava no instante em que o dono, a quilômetros de distância, decidia voltar [...]



ERVILHAS DEVOTAS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

É uma utopia sonharmos com a possibilidade de nossa caixa postal ficar limpa de tantos apelos. Qualquer reivindicação para que parem de difundir besteiras é tratada como crime hediondo. Só nos resta esperar o carteiro tradicional, com sua cesta de surpresas. Nenhuma tentando nos dizer o que ser ou fazer. Apenas coisas banais, como um bilhete registrando saudades ou a notícia de uma visita ansiosamente esperada.



ANDAR É SER OBSERVADO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Atrair a atenção alheia é fazer a criatura andar. O passo do terror é conhecido: pé ante pé, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esforço de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente trêmulo, ou trôpego. A comédia usa o andar para compor o riso na cabeça da platéia. Buster Keaton é duro, com pernas e quadris em movimento burocrático. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palhaço distorcido pelas luzes do circo.Nei Duclós

Todo mundo sabe como John Wayne anda. É o caminhar mais imitado do cinema. As pernas possuem vida própria e há um ritmo diferente no gesto que ele imprime ao tronco. Parece que anda meio de lado, como a espreitar inimigos. Ao mesmo tempo, é um andar franco, desassombrado, grandalhão. Robert Mitchum tem outro tipo de passo. As pernas vão a reboque da sua vontade de andar, fazendo com que seu corpo (encimado por formidável cara de sonso) flutue enquanto os pés palmilham territórios há vários segundos deixados para trás. Aprender a andar, para quem sai do berço, já é assumir uma identidade. Pelo ritmo, pela postura assumida no caminhar de qualquer um, é possível dizer quem ele é. Por isso atores como John Travolta costumam modificar o passo para criar personagens. Mas quem encontra o passo certo (contundente, personalíssimo) diante da observação alheia, não abre mão dele, seja o papel que for desempenhado.

BICHO – Quando aprendemos a andar, descobrimos que essa ação está sendo acompanhada com atenção redobrada. O mundo adulto volta os olhos para você, na expectativa e ao mesmo tempo pressionando-o para que você se saia bem da empreitada. É importante que uma criança ande, o que irá amenizar o trabalho dado aos adultos. É também sinal de saúde física, de coordenação motora e, infelizmente, de precocidade (a pressa em fazer o nenê andar é que inventa as pernas tortas de tanta gente).

Andar, portanto, é ser observado, o que torna essa atividade tão fundamental no teatro e no cinema. É preciso chamar a atenção para o personagem a ser criado. Atrair a atenção alheia é fazer a criatura andar. O passo do terror é conhecido: pé ante pé, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esforço de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente trêmulo, ou trôpego. A comédia usa o andar para compor o riso na cabeça da platéia. Buster Keaton é duro, com pernas e quadris em movimento burocrático. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palhaço distorcido pelas luzes do circo. Há o andar imperceptível dos ladrões. Não se iluda: se você for roubado, não escutará nada. Se escutar, você tem uma chance, o ladrão é ruim de bola.

O andar furioso é curto, apressado. O andar sensual é a base bamba de um templo majestosamente curvo. O passo de ganso é o nazismo impondo seu tacão no mundo. O do marreco são as pernas tortas que pretendem ter um andar militar, mas não conseguem. O andar na ponta dos pés te surpreende. O andar duro do salto alto nesta primavera fria é um pedido de passagem na calçada estreita. O andar cria espaços imaginários diante da câmara. É uma ferramenta que não pode cair em si, como os ombros. Quando José Wilker gira, ele está decidindo que não quer mais estar ali, que vai inventar outro cenário para o seu Giovani se movimentar. Bruna Lombardi como Diadorim andava como se estivesse caindo, o mesmo tipo de passo de Romário quando se retira do campo. Andar é o bicho mais humano que podemos criar.

CHARME – O andar dos anos cinqüenta, aprendido nas matinês, era bem específico em Uruguaiana. Na calçada larga, sabíamos que mil olhos voltavam-se para nós. Tínhamos platéia, era preciso caprichar. Havia uma dança comandada pelos ombros e pelo tronco, que se revezavam no impulso para frente. Nesse bambolê estranho havia o charme de passar a mão no topete ou jogar a cabeça para trás para acertar o cabelo caído. Uma leve raspadinha com a sola do sapato no chão era admissível, desde que não se exagerasse na dose. Isso dava a impressão que atrairíamos garotas tontas com nossa performance. Mas no fim nos reuníamos em grupos nos postes, carros estacionados (já que não tínhamos carros) para ver olhar o que realmente interessava: o andar das gurias, que costumavam levantar a sola dos pés para ganharem altura enquanto iam para frente, ao mesmo tempo em que viravam o rosto para nós, felizardos daquela época sem igual. Andar, naquele caso, era observar. Mas quem andava na nossa frente voltava os olhos para nos ver parados. Nunca foi tão bom ser platéia.



O SEGUNDO INVERNO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O Inverno voltou e me trouxe o início de um resgate: o hábito de conviver com o frio que chega com vento, o gelo que acumula casacos nas paradas de ônibus, as mãos que se esfregam, os rostos vermelhos, as frestas escondidas, as manhãs e noites geladas. Ainda é só o começo, mas agradeço que desta vez ele tenha chegado na hora datada, pois no ano passado o frio deu as caras em maio e só saiu lá por dezembro. (Crônica publicada dia 17/julho/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense).



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