Crônicas

VENTOS DEMAIS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos agora retirantes desse sopro que nos acossa por todos os lados. Migramos da surpresa para a fuga e enquanto corremos vemos voando, ao nosso lado, tudo o que estava quieto e sereno. Os peixes se atiram sobre as planícies. As montanhas descem suas lavas de detritos. As cidades viram monturos. A vaidade humana descobre que os ventos, aliados das descobertas, voltaram enlouquecidos por um pânico ainda indecifrável. Talvez eles tenham cansado de nos mimar com seus balanços. E agora nos atormentam para que enfim possamos acordar. (Crônica publicada domingo, dia 11/9/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense).



O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Saímos do acampamento já tarde, depois das dez da noite. Soube do horário pelas ondas direcionais do grande rádio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo açoitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para lá do desconhecido, onde só os mateiros experientes chegam. (Texto publicado na antologia A Terra dos Longos Olhares, da editora Holoedro, 2005, org. de Lucia Silva e Silva)



LUA, VÉSPERA DE PRAIA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Não há crédito, há nação de menos, há medo demais. Desfilamos diante do nada como cidadãos sem rosto. Mas há poesia quando a criança se deslumbra com o vôo das gaivotas. Há o poema, que vem em socorro do que perdemos. Há livros que chegam, companheiros de uma viagem absurda. Algumas mensagens, sinais de vida longa, que jamais se cumpre. Quem somos nós, criaturas que Deus acolhe em seu regaço e atende súplicas e preces para continuar o caminho?



O PUXÃO DA PRIMAVERA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Fico em frente ao passo do pássaro praiano. Ele tem aquele movimento que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabeça gira e seus olhos não se importam comigo. O que chama a atenção da criatura é uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas é empurrado pelo vento. O brilho intenso na areia é a manifestação de um deus desconhecido.



BUMBA MEU BOI DE MAMÃO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Estávamos perdidos, meu boi. Estávamos certos de que nada mais poderia nos atingir. Fomos testemunhas de ondas gigantes, massacres de todos os tipos, crueldades sem fim. Olhávamos o mundo já sem emoção, a não ser aquela preparada pelos narradores emplumados, investidos de bezerros de ouro. Mas eis que você morre e ressuscita na minha frente e desata essas figuras que deveriam já estar enterradas. Mas elas estão mais vivas do que em qualquer outro final de ano. (Crônica publicada dia 31/12/2005 no caderno Donna DC, do Diário Catarinense).



SENTINELAS DO REINO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O Verão cumpriu todas as promessas. Torrou de azul o dia interminável. Lavou o corpo seco jogado fora pelo longo Inverno. Bordou de rendas a água clara das manhãs e a tintura anil do entardecer tranqüilo. A lua cheia compareceu para iluminar o noturno pio dos nossos sonhos. Quem poderá queixar-se desta temporada que chegou ao esplendor? (Crônica publicada no caderno Donna DC, do Diário Catarinense, no dia 29/01/2006).



QUANDO FALTA LUZ

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

A cidade fica toda escura e a casa é invadida por mãos cegas em busca de fósforos. onde coloquei a vela? é a pergunta mais comum. Custa um pouco colocar ordem no mundo desconhecido que se instala com a escuridão completa que chega até o horizonte. Longe, atrás do monte, um clarão se vislumbra; mas para lá não fica o mar, o pampa? De onde vem a luminosidade? Será a esperança que se recolhe numa distância prudente, esperando que nós, os eternos pessimistas, possamos recuperar o que perdemos subitamente?



OMBROS DIURNOS DA LUA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A Lua flutua na manhã com sua túnica transparente caindo pelos ombros. É uma roupa formada pela neblina que o excesso de luz bordou ao redor, talvez para cobri-la diante do escândalo de aparecer assim, quando as estrelas já se despediram e o forro de veludo da noite sumiu de vista. Ela está acordada por algum motivo e pousa no algodão do ar com o rosto quase impassível. Noto que está transfigurada no céu sem nuvens. (Crônica publicada no caderno Dona DC, do Diário Catarinense, no dia 26/02/2006)



AINDA TEMOS A TERRA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

É fim de verão e o outono, velho tio encapotado que visita a família sempre que pode, já envia telegramas pelos pássaros ariscos, desses modernos, que não confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que é o de ficar confinado em paredes de um domicílio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. Sorte de quem vive cercado pela abóbada que faz um estádio de luz azul sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue tardio da noite que se foi.



O SENTIMENTO SEM NOME

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

A vida é um eterno assassinato dos sentimentos sem nome. Como não podem ser identificados, não há batismo. Chamamos de paixão, amor, empatia, todas as palavras, mas não se trata disso. É algo completamente desconhecido. É território inexplorado, que fazem a riqueza da psiquiatria. Não se trata de batizar, mas de identificar como algo próprio, que faz parte de um conjunto maior. É mais do que a arqueologia do coração e da mente, é trabalhar com um universo desconhecido, que está dentro de nós, mas estamos ocupados com outras coisas.



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