Crônicas

A VOLTA DA FÁBULA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Sob a capa científica, os documentários costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos já conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles estão apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, é para perpetuar a espécie. Toda manifestação de inteligência é forçosamente colocada no território lúgubre do instinto. (Crônica publicada dia 1º de setembro de 2006, no caderno Variedades do Diário Catarinense).



TESOURO PESSOAL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Na identidade pessoal, formatada pela experiência e as leituras, reside o que há de mais importante nesta época de informação de massa, de cultura manipulada, de leituras apressadas, de excesso de exposição, de total interferência nos territórios de sobrevivência nacionais por parte de forças explícitas, armadas ou imaginárias. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, no dia 2 de setembro de 2006).



TEMPOS INFALÍVEIS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A verdade é que somos criaturas zeradas a cada geração. Não nascemos com a teoria da relatividade fazendo estrepolias no nosso cérebro de nenéns. Temos que aprender a comer, falar, andar. O cálculo infinitesimal é uma conquista árdua, assim como a noção mais ou menos exata de como funciona um computador. Não recebemos de bandeja o que os antepassados, pobres figuras, levaram mais de uma vida para criar. Precisamos percorrer o mesmo caminho, já que toda geração parte do nada até chegar ao seu esplendor. (Crônica publicada dia 4 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



LUGAR PARA MORAR

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Ter um canto nem sempre significa teto, cama, criado-mudo, escrivaninha, TV. Pode ser que morar seja um verbo mais amplo e se refira à atual fase da oferta excessiva de informações, onde nos sentimos desprotegidos e procuramos um lugar onde descansar as retinas. (Crônica publicada dia 5 de setembro de 2006 no caderno Variedades do Diário Catarinense).



LER COM PRAZER

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando chega a hora do recreio, se a aula foi lúdica, o que o aluno deverá fazer? As novas gerações, como todas as outras, têm fome de sobriedade, de seriedade, de responsabilidade. Não se deve tirar de quem aprende o privilégio de percorrer um caminho difícil até o conhecimento. Partir para a brincadeira, achando que isso vai resolver, é desistir da luta. (Crônica publicada dia 6 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



NATUREZA SOLENE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A relação com a natureza deve ser solene, longe dos sentimentos descartáveis, do uso fundado em superficialidades, dos gestos vazios, dos olhares cômicos. Toda paisagem é ancestral e nos remete a verdades como a eternidade ou a morte. Por estarmos num planeta que vaga pelo céu, por força de muitos mistérios, ficamos amedrontados com o que nos dizem as estações, as catástrofes, os eclipses, as estrelas, o mar, a montanha. (Crônica publicada no caderno Variedades de hoje do Diário Catarinense, em 11 de Setembro de 2006).



LIVRO CÚMPLICE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 13 de stembro de 2006)



LÁ NO FUNDO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O último assento é escolhido por uma questão de estratégia. De lá é possível ter visão completa do recinto, seja sala de aula ou ônibus. É possível monitorar o movimento de todos, que estão de costas, portanto não enxergam o que se passa atrás. É uma espécie de anonimato que dá uma série de vantagens, como atingir nucas com projéteis variados, saber o que fazem quando acham que ninguém está olhando e até dormir sem que desconfiem de nada. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 14 de setembro de 2006).



ETERNO PRESENTE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando não há amanhã, o agora substitui toda espécie de vivência. Isso é incentivado pela literatura de auto-ajuda, religiosa e corporativa. Como a mulher de Lot, você está proibido de olhar para o passado sob pena de se imobilizar para sempre no gesto catatônico que fez sua ruína. Quando a educação é substituída pelo sistema mal assimilado dos Estados Unidos, em que o pragmatismo vence a formação humanista (expulsão do inglês, francês e latim obrigatórios no ginásio, que também sumiu), e o rigor do ensino é vencido pelo falso protecionismo, então temos essa preciosidade confundida com linguagem popular que é o já clássico “nós vai”. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 15 de setembro de 2006).



A INFÂNCIA É UMA CATEDRAL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O espírito humano é dialético e aspira à grandeza. A mediocridade, a idiotia, a bizarrice, a idéia fixa, são o Mal que nos persegue. Mas temos um estandarte e um coração de ouro. De mãos postas, com uma fita enorme no braço, toda com apliques dourados, carregando uma imensa vela, pé ante pé chegamos ao sacrário. É quando tocamos a veste dos anjos.



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