Crônicas

NAVE DE OUTONO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Sempre espero que uma nave prateada surja por trás do morro e raspe o azul do céu. Depois me dou conta que a nuvem branca é a nave que aguardo. Há o mistério de ser vista assim, majestosa como escultura a se desdobrar lentamente, sendo acompanhada por fiapos de algodão, que dão o tom deste outono claro e frio. O mistério está sobre nossas cabeças e olhamos maio como um Deus em plena criação.



ÍRIO E OS ANIMAIS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Ela deu um passo para frente e abordou Írio, que já estava há uns vinte minutos esperando a condução para levá-lo a uma unidade do Juizado dos Menores. Era seu dia de plantão. Não costumava chamar a atenção de ninguém, pois tinha o um tipo comum daquelas bandas:alto, curvado, magro, com um loiro de trigo bem clarinho no cabelo cortado, sempre despenteado. Exibia um topete que era mais efeito do vento do que do espelho. Estranhou, por ser invisível, a aproximação da mulher, que o cumprimentou com cerimônia e batendo duro com o salto alto do sapato preto.
– O senhor é o Írio, que trabalha com os menores, não é?



PASSO MIÚDO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Febrônio mantinha-se bem vestido dentro de casa e aguardava a chaleira chiar para fazer seu café. Depois, sentava no banco favorito a esperar as aves. O barulhão dos motores na avenida próxima, os gritos dos adolescentes armados, a serra elétrica em alguma construção próxima, tudo o rodeava nesse final de tarde, quando suspirava por uma boa conversa. Sim, ele estava velho. Sim, queria conversar sobre a morte. Não, não queria se iludir com a melhor idade.



LUZ DE INVERNO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Seria uma injustiça ao Inverno depositar nele toda nossa dor. Por isso lembro as manhãs de nevoeiro e geada, quando, à espera do sol, resgatamos o amor que salva, o sonho que jamais nos abandona e a força que carregamos não como um fardo, mas como sopro sobre a vela desta viagem que é pura convocação da divindade. Talvez, calados, aguardemos um milagre. Mas não será a palavra, habitada e livre, que irá nos redimir antes que seja tarde? (Crônica publicada no caderno Donna DC, do Diário Catarinense, em 13/agosto/2006).



REALIDADE ENCANTADA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Uma das minhas alegrias no longo período em que vivi em São Paulo era visitar os sebos perto das Arcadas, a Faculdade de Direito, no centro da cidade. Livrarias antigas com vários andares de obras perdidas faziam a festa da minha curiosidade. Aos poucos, fui perseguindo aqueles livros de uma só edição que deixaram de ter importância e que estavam à mercê das traças. As preciosidades forneciam a cola onde grudava acontecimentos conhecidos, que na superfície não faziam muito sentido, mas lá no fundo da estante ou da gaveta guardavam a chave de muitos enigmas. (Este texto foi publicado dia 31/agosto/2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



A VOLTA DA FÁBULA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Sob a capa científica, os documentários costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos já conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles estão apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, é para perpetuar a espécie. Toda manifestação de inteligência é forçosamente colocada no território lúgubre do instinto. (Crônica publicada dia 1º de setembro de 2006, no caderno Variedades do Diário Catarinense).



TESOURO PESSOAL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Na identidade pessoal, formatada pela experiência e as leituras, reside o que há de mais importante nesta época de informação de massa, de cultura manipulada, de leituras apressadas, de excesso de exposição, de total interferência nos territórios de sobrevivência nacionais por parte de forças explícitas, armadas ou imaginárias. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, no dia 2 de setembro de 2006).



TEMPOS INFALÍVEIS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A verdade é que somos criaturas zeradas a cada geração. Não nascemos com a teoria da relatividade fazendo estrepolias no nosso cérebro de nenéns. Temos que aprender a comer, falar, andar. O cálculo infinitesimal é uma conquista árdua, assim como a noção mais ou menos exata de como funciona um computador. Não recebemos de bandeja o que os antepassados, pobres figuras, levaram mais de uma vida para criar. Precisamos percorrer o mesmo caminho, já que toda geração parte do nada até chegar ao seu esplendor. (Crônica publicada dia 4 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



LUGAR PARA MORAR

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Ter um canto nem sempre significa teto, cama, criado-mudo, escrivaninha, TV. Pode ser que morar seja um verbo mais amplo e se refira à atual fase da oferta excessiva de informações, onde nos sentimos desprotegidos e procuramos um lugar onde descansar as retinas. (Crônica publicada dia 5 de setembro de 2006 no caderno Variedades do Diário Catarinense).



LER COM PRAZER

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando chega a hora do recreio, se a aula foi lúdica, o que o aluno deverá fazer? As novas gerações, como todas as outras, têm fome de sobriedade, de seriedade, de responsabilidade. Não se deve tirar de quem aprende o privilégio de percorrer um caminho difícil até o conhecimento. Partir para a brincadeira, achando que isso vai resolver, é desistir da luta. (Crônica publicada dia 6 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).