Crônicas

LIVRO CÚMPLICE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 13 de stembro de 2006)



LÁ NO FUNDO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O último assento é escolhido por uma questão de estratégia. De lá é possível ter visão completa do recinto, seja sala de aula ou ônibus. É possível monitorar o movimento de todos, que estão de costas, portanto não enxergam o que se passa atrás. É uma espécie de anonimato que dá uma série de vantagens, como atingir nucas com projéteis variados, saber o que fazem quando acham que ninguém está olhando e até dormir sem que desconfiem de nada. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 14 de setembro de 2006).



ETERNO PRESENTE

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando não há amanhã, o agora substitui toda espécie de vivência. Isso é incentivado pela literatura de auto-ajuda, religiosa e corporativa. Como a mulher de Lot, você está proibido de olhar para o passado sob pena de se imobilizar para sempre no gesto catatônico que fez sua ruína. Quando a educação é substituída pelo sistema mal assimilado dos Estados Unidos, em que o pragmatismo vence a formação humanista (expulsão do inglês, francês e latim obrigatórios no ginásio, que também sumiu), e o rigor do ensino é vencido pelo falso protecionismo, então temos essa preciosidade confundida com linguagem popular que é o já clássico “nós vai”. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 15 de setembro de 2006).



A INFÂNCIA É UMA CATEDRAL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O espírito humano é dialético e aspira à grandeza. A mediocridade, a idiotia, a bizarrice, a idéia fixa, são o Mal que nos persegue. Mas temos um estandarte e um coração de ouro. De mãos postas, com uma fita enorme no braço, toda com apliques dourados, carregando uma imensa vela, pé ante pé chegamos ao sacrário. É quando tocamos a veste dos anjos.



UM CORREDOR DE BRINQUEDOS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Os brinquedos só eram distribuídos na madrugada, quando estávamos dormindo. Não havia essa facilidade de ser presenteado ainda na véspera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo, era totalmente perfeito. Levantávamos com o coração na mão e víamos os pacotes embaixo da imensa árvore enfeitada.



A CEIA DE TIA SARINHA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Tia Sarinha apresentava-se solitária, com a aura dos espíritos independentes. Sua vida pessoal era um segredo bem guardado para nós, sobrinhos menores que não compartilhávamos jamais qualquer detalhe do mundo adulto. Nunca soube quase nada dela. Foi casada, separou-se ou enviuvou, depois morava só ou com amigas fiéis. Reservada, tinha um relacionamento distante, quase frio, com a criançada que via de vez em quando. Mas toda essa carapuça caía por terra quando, depois do vinho, da cerveja e até mesmo do uísque, ela se punha a matraquear a fala recorrente nas ceias de Natal.



O SECULAR ASPIRA AO SAGRADO

dez 15th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O que falta à desconstrução dos mitos, à denúncia das instituições, à oposição às tradições? Falta exatamente o que eles mais querem atingir, a sacralização. Substituir a estátua de Lênin pelo símbolo do McDonald significa transferir a fé na revolução pela fé no mercado. O filme O Código Da Vinci, de Ron Howard, toca nessa necessidade de a transgressão aspirar ao mesmo carisma da Igreja que combate. E é por isso que Tom Hanks se ajoelha no final do filme numa nova catedral, o Louvre, que assume o posto do Vaticano.



O ACASO NÃO FAZ UM ANJO

dez 15th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O sol, antes de despertar totalmente, conversa com um anjo e as aves escutam. Estavam assim todos – céu, nuvem, sol, plumas – ao redor dos segredos trocados em miúdos, pelo gigante antes de lançar-se ao alto, e o anjo, especialista em amanhecer. Há demora na interlocução que começara quando eu ainda imaginava ser infinita a noite, naqueles minutos que antecederam o milagre.



EM TORNO DE VÉSPER

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Onde está Vésper depois que anoitece? Na corte da lua cheia, sem dúvida, onde divide posições de semeaduras. De lá ela providencia marés e chuvas, e talvez, glória suprema, mais um dia perfeito desenhado na prancha grávida de futuros. Ela fecha o ciclo do dia onde encontramos paz e promete a manhã seguinte com seu carimbo de sonhos.



LABIRINTO EM DESTERRO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Talvez seja eu o fantasma que procura algo que não consegue mais achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe nessa realidade simultânea, nesse momento único de que é feito o universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de orientação e de memória urbana. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de antigos e novos moradores. Sou o migrante com a percepção avariada que se defronta com o enigma da cidade que se recusa a desaparecer totalmente.