Crônicas

UM CORREDOR DE BRINQUEDOS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Os brinquedos só eram distribuídos na madrugada, quando estávamos dormindo. Não havia essa facilidade de ser presenteado ainda na véspera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo, era totalmente perfeito. Levantávamos com o coração na mão e víamos os pacotes embaixo da imensa árvore enfeitada.



A CEIA DE TIA SARINHA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Tia Sarinha apresentava-se solitária, com a aura dos espíritos independentes. Sua vida pessoal era um segredo bem guardado para nós, sobrinhos menores que não compartilhávamos jamais qualquer detalhe do mundo adulto. Nunca soube quase nada dela. Foi casada, separou-se ou enviuvou, depois morava só ou com amigas fiéis. Reservada, tinha um relacionamento distante, quase frio, com a criançada que via de vez em quando. Mas toda essa carapuça caía por terra quando, depois do vinho, da cerveja e até mesmo do uísque, ela se punha a matraquear a fala recorrente nas ceias de Natal.



O SECULAR ASPIRA AO SAGRADO

dez 15th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O que falta à desconstrução dos mitos, à denúncia das instituições, à oposição às tradições? Falta exatamente o que eles mais querem atingir, a sacralização. Substituir a estátua de Lênin pelo símbolo do McDonald significa transferir a fé na revolução pela fé no mercado. O filme O Código Da Vinci, de Ron Howard, toca nessa necessidade de a transgressão aspirar ao mesmo carisma da Igreja que combate. E é por isso que Tom Hanks se ajoelha no final do filme numa nova catedral, o Louvre, que assume o posto do Vaticano.



O ACASO NÃO FAZ UM ANJO

dez 15th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O sol, antes de despertar totalmente, conversa com um anjo e as aves escutam. Estavam assim todos – céu, nuvem, sol, plumas – ao redor dos segredos trocados em miúdos, pelo gigante antes de lançar-se ao alto, e o anjo, especialista em amanhecer. Há demora na interlocução que começara quando eu ainda imaginava ser infinita a noite, naqueles minutos que antecederam o milagre.



EM TORNO DE VÉSPER

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Onde está Vésper depois que anoitece? Na corte da lua cheia, sem dúvida, onde divide posições de semeaduras. De lá ela providencia marés e chuvas, e talvez, glória suprema, mais um dia perfeito desenhado na prancha grávida de futuros. Ela fecha o ciclo do dia onde encontramos paz e promete a manhã seguinte com seu carimbo de sonhos.



LABIRINTO EM DESTERRO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Talvez seja eu o fantasma que procura algo que não consegue mais achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe nessa realidade simultânea, nesse momento único de que é feito o universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de orientação e de memória urbana. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de antigos e novos moradores. Sou o migrante com a percepção avariada que se defronta com o enigma da cidade que se recusa a desaparecer totalmente.



DUAS VEZES LINA BO BARDI

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Arte, Crônicas, Memórias

Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada às palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma só que era gênio. O nome dela é Lina Bo Bardi.



O PARECISTA DA ALDEIA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Para começar, o parecista oficial da aldeia avisava que não emitia opinião sobre versinhos. Isso era coisa de retardados, dizia ele. Empilhar palavrinhas que se acenavam por rimas e consonâncias era um hábito feio que tinha tomado conta da humanidade sem luzes a partir do século 19. São duzentos anos de perda de tempo, dizia ele.



A OUTRA VIDA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Encontrei o Amigo inteiro, instalado na Outra Vida. Ele já estava por volta de 40 anos, apesar de ter sido assassinado aos 26. No sonho, ou visão, segurava um grande chapéu de abas exageradas. Colocava a mão no alto, com o braço bem espichado, impedindo que o vento levasse para longe aquela monstruosidade. Estava cercado, como sempre, de várias pessoas. Parece que o grupo ocupava um conversível de luxo. Ele me olhou com o rosto impassível. O olhar era límpido, claro, solene, mas ao mesmo tempo expressava certa indiferença. Era, talvez, seu recado de superioridade diante de tanto mistério.



ESSA COISA DE LER

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

A biblioteca, pública ou privada, é o lar do leitor abandonado. Lá ele encontra o que procura. Precisa enfrentar alguns trâmites burocráticos, além de se submeter a prazos de entrega ou mesmo ao espaço físico que convivem com as estantes lotadas. O melhor é a biblioteca na sala ou no quarto, ou, quando há compulsão pelos livros, em todas as peças da casa. Toda vez que um livro importante consegue enfim prender nossa atenção, é comum perguntar-se o que estávamos fazendo que ainda não tínhamos lido aquilo.



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