Crônicas

LABIRINTO EM DESTERRO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Talvez seja eu o fantasma que procura algo que não consegue mais achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe nessa realidade simultânea, nesse momento único de que é feito o universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de orientação e de memória urbana. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de antigos e novos moradores. Sou o migrante com a percepção avariada que se defronta com o enigma da cidade que se recusa a desaparecer totalmente.



DUAS VEZES LINA BO BARDI

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Arte, Crônicas, Memórias

Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada às palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma só que era gênio. O nome dela é Lina Bo Bardi.



O PARECISTA DA ALDEIA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Para começar, o parecista oficial da aldeia avisava que não emitia opinião sobre versinhos. Isso era coisa de retardados, dizia ele. Empilhar palavrinhas que se acenavam por rimas e consonâncias era um hábito feio que tinha tomado conta da humanidade sem luzes a partir do século 19. São duzentos anos de perda de tempo, dizia ele.



A OUTRA VIDA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Encontrei o Amigo inteiro, instalado na Outra Vida. Ele já estava por volta de 40 anos, apesar de ter sido assassinado aos 26. No sonho, ou visão, segurava um grande chapéu de abas exageradas. Colocava a mão no alto, com o braço bem espichado, impedindo que o vento levasse para longe aquela monstruosidade. Estava cercado, como sempre, de várias pessoas. Parece que o grupo ocupava um conversível de luxo. Ele me olhou com o rosto impassível. O olhar era límpido, claro, solene, mas ao mesmo tempo expressava certa indiferença. Era, talvez, seu recado de superioridade diante de tanto mistério.



ESSA COISA DE LER

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

A biblioteca, pública ou privada, é o lar do leitor abandonado. Lá ele encontra o que procura. Precisa enfrentar alguns trâmites burocráticos, além de se submeter a prazos de entrega ou mesmo ao espaço físico que convivem com as estantes lotadas. O melhor é a biblioteca na sala ou no quarto, ou, quando há compulsão pelos livros, em todas as peças da casa. Toda vez que um livro importante consegue enfim prender nossa atenção, é comum perguntar-se o que estávamos fazendo que ainda não tínhamos lido aquilo.



AS VERDADES DEFINITIVAS

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Guardamos como tralha no quarto de despejo nossas verdades definitivas. Exauridas de tantas certezas, elas guardam um remorso, uma indignação, uma incompreensão que só a nós pertence. De vez em quando as retiramos do baú para expor nossa escassez teórica, brandida como algo irreversível.



A CIDADE SEM ROSTO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Revisitei a grande mancha urbana sobre o país e o planeta. Criaturas sem rosto, ocultas sob camadas de vidros escuros, disputavam a última fronteira, o exíguo espaço disponível das ruas e avenidas. Há um esforço para diminuir o massacre visual promovido pela fúria dos mercados, mas permanece intacta a brutal indiferença de quem se acostumou à barbárie.



AQUELE RÁDIO INESQUECÍVEL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Meu maior presente de aniversário, num longínquo outubro de 1958, foi um potente e pequeno rádio de cabeceira Phillips Mullard, que meu pai me deu num rompante. Liguei na tomada, deixei as válvulas esquentarem e me conectei com o mundo. Numa cidade construída no meio do pampa, paisagem lisa e aberta, todas as ondas desciam pela antena até chegar ao meu travesseiro. Foi quando despertei minha vocação para o jornalismo. E fiz minha vida ser orientada pela música.



LIVROS DE MEMÓRIAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

Tenho predileção pelos livros de memórias, sejam quais forem. Meu Érico Verissimo favorito é Solo de Clarineta, apesar de O Continente ocupar o pódio das minhas leituras mais importantes. Mas meu favoritismo se inclina menos para os grandes memorialistas. Gosto mesmo é de memórias de pessoas que sumiram do mapa da memória coletiva, principalmente os que enfrentaram alguma guerra. Sinto grande sensação de vitória quando consigo um exemplar de um lutador muito oculto, tenha alcançado a fama um dia ou não.



A LÓGICA PERVERSA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Estar sempre com a razão, mesmo que os fatos contrariem as opiniões mais contundentes (que deveriam ser jogadas no lixo imediatamente depois que forem desmoralizadas), é fruto da lógica perversa que tudo concede a assinaturas notórias da mídia impressa e virtual. Para dar certo, é preciso que essa lógica perversa faça parte de um truque vistoso: muda-se o foco dos fatos para o território denso do consenso pretensamente racional.