Crônicas

AS VERDADES DEFINITIVAS

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Guardamos como tralha no quarto de despejo nossas verdades definitivas. Exauridas de tantas certezas, elas guardam um remorso, uma indignação, uma incompreensão que só a nós pertence. De vez em quando as retiramos do baú para expor nossa escassez teórica, brandida como algo irreversível.



A CIDADE SEM ROSTO

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Revisitei a grande mancha urbana sobre o país e o planeta. Criaturas sem rosto, ocultas sob camadas de vidros escuros, disputavam a última fronteira, o exíguo espaço disponível das ruas e avenidas. Há um esforço para diminuir o massacre visual promovido pela fúria dos mercados, mas permanece intacta a brutal indiferença de quem se acostumou à barbárie.



AQUELE RÁDIO INESQUECÍVEL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Meu maior presente de aniversário, num longínquo outubro de 1958, foi um potente e pequeno rádio de cabeceira Phillips Mullard, que meu pai me deu num rompante. Liguei na tomada, deixei as válvulas esquentarem e me conectei com o mundo. Numa cidade construída no meio do pampa, paisagem lisa e aberta, todas as ondas desciam pela antena até chegar ao meu travesseiro. Foi quando despertei minha vocação para o jornalismo. E fiz minha vida ser orientada pela música.



LIVROS DE MEMÓRIAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

Tenho predileção pelos livros de memórias, sejam quais forem. Meu Érico Verissimo favorito é Solo de Clarineta, apesar de O Continente ocupar o pódio das minhas leituras mais importantes. Mas meu favoritismo se inclina menos para os grandes memorialistas. Gosto mesmo é de memórias de pessoas que sumiram do mapa da memória coletiva, principalmente os que enfrentaram alguma guerra. Sinto grande sensação de vitória quando consigo um exemplar de um lutador muito oculto, tenha alcançado a fama um dia ou não.



A LÓGICA PERVERSA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Estar sempre com a razão, mesmo que os fatos contrariem as opiniões mais contundentes (que deveriam ser jogadas no lixo imediatamente depois que forem desmoralizadas), é fruto da lógica perversa que tudo concede a assinaturas notórias da mídia impressa e virtual. Para dar certo, é preciso que essa lógica perversa faça parte de um truque vistoso: muda-se o foco dos fatos para o território denso do consenso pretensamente racional.



A INDIGNAÇÃO É UMA IMPOSTURA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A tragédia é permanente e gera uma indignação surda, instável e sem nenhuma repercussão. Num país sem lei, tudo tem que ser negociado todos os dias. É a manobra no trânsito, a velocidade na estrada, a vaga no estacionamento, a visita do fiscal, a remuneração do trabalho, o prazo da dívida vencida, o calote, o arrocho, a informação negada, a viagem pela metade. Esse é o ambiente onde o ranger de dentes é fartamente distribuído a uma terceira idade furiosa, uma juventude em fuga, uma população em pânico.



PALAVRAS PELO AVESSO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Manipular as palavras é uma espécie de arrogância dos poderes, dos talentos ou dos intelectos. Os privilegiados fazem de conta que não se importam com os lugares comuns do sentido e se esbaldam usando o vocabulário como usam a terra, a razão ou o dinheiro. Fazem isso para se distanciar de quem se apega tanto às palavras. Pessoas despossuídas, condenadas aos significados originais (ou pelo menos cristalizados pelo uso), deixam de lado tudo o que cheira a esperteza de doutores.



AGOSTO ATÍPICO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Depois das festas da virada do ano, do Carnaval e da Páscoa, dos recessos parlamentares e das leis adiadas, depois que se esgotam as desculpas dos governantes, das dietas e das mudanças que nunca são levadas a sério, chegaria uma época, exatamente este mês tão pouco considerado, em que mergulharíamos coletivamente numa reflexão sobre o que estamos fazendo com nossas vidas.



A LIBERDADE EM DEDÉ FERLAUTO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Tomei conhecimento de Dedé Ferlauto quando vi, colados em azulejos, selos/poemas assinados por Zé Liberdade. Era ele. “Me sinto por fora desta coisas que andam acontecendo entre as pessoas que escrevem, revistas, editoras, livros e outros.”, me escreveu ele anos mais tarde. “Os caras andam muito chatos com essa mania de querer fazer História. Acho um saco. Caí fora. Me sinto sem norte, sozinho e não me assusto”. Via-se como um anarquista. Vejo-o como um outsider sincero, que viveu integralmente sua literatura, a que fisga pela vocação e carrega a criatura escolhida por toda a vida.



CHARADAS NOS CLASSIFICADOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Leio sempre os classificados. Procuro pepitas, como Desenvolvedor Pleno, Engenheiro de Aplicação ou Empréstimos para Exército. Tem coisas do arco. Quitamos e refinanciamos seus empréstimos, bolinhas explosivas ou profissionais em marketing multinível, seja isso o que for. É impressionante como funções, cargos, vagas, produtos, ofertas passam por composições de linguagens completamente estranhas para mim. Não entendo mais nada do mundo corporativo.



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