Crônicas

NAMORO NO PORTÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Ainda existem portões e não se trata de nostalgia. O casario domina o território da nação, apesar das imagens de megalópoles feéricas e a onipresente síndrome dos edifícios. E por mais que se fale em mudança de costumes, a unidade familiar é hegemônica, com seus encaminhamentos tradicionais. Tenho visto casais grudados na fronteira entre a casa e a rua e não noto nada de diferente do tempo em que também participei desse jogo de cena, em que os corpos e mentes ensaiam uma sintonia, sob a guarda de olhos atentos.



LIVRO A METRO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As estantes atulhadas servem apenas para fazer figuração. Há uma boa porção de reconhecidas sumidades que usam luxuosas encadernações ao fundo quando dão declarações. É um hábito lucrativo, que exige investimento. Soube de um livreiro descolado que vende livro a metro. Por encomenda, ele forra paredes com obras verdadeiras, não com o expediente manjado das lombadas abraçando papel em branco. Possui de sobra estoques repassados por herdeiros de leitores longevos, que morreram junto com suas bibliotecas.



RECEITAS CONTRA O CORPO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A aparência, por não ser notada por quem aparece, deve ser de foro íntimo, e não propriedade alheia. Olhe nos olhos. É lá que pessoa se encontra. Só que vivemos na barbárie das superfícies e não na civilização dos mergulhos.



CERCO SINGULAR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Algumas palavras ditam a moda. Houve a época do consenso, depois da distensão, mais tarde da globalização, até chegarmos à convergência. Agora é a vez da singularidade, um estado (por enquanto teórico) incapaz de seguir qualquer regra conhecida. Já existem exemplos. Um deles fica bem no miolo do buraco negro, ponto da curvatura espaço-tempo com massa infinitamente densa. Outro é o ambiente isolado que originou o Big Bang.



A SÍNDROME DO ÚLTIMO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Existem soluções de linguagem que jamais perdem a utilidade, sendo infinitamente reproduzidas. Ainda não nos livramos, por exemplo, da influência de “O último dos moicanos”, título do romance de James Fenimore Cooper sobre a amizade entre um índio e um branco, numa guerra do século 18 na América. Talvez o motivo seja a força da proparoxítana, amparada na última vogal, e instaurada como lei em épocas terminais – fim dos séculos ou dos tempos. No mais recente apocalipse, pautado pela curiosidade sobre as profecias, “último” virou endemia. Um massacre reforçado pelo famoso fim da História.



GESTOS PERDIDOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Cruzar os dedos para impedir algum acontecimento, fazer figa para devolver o mau olhado, fechar o punho esquerdo em sinal de revolta, levantar o chapéu de feltro para a população em delírio: eis alguns gestos perdidos que fazem parte de outra humanidade, a que fomos um dia. De hoje, o que ficará? Será que o pula-pula dos torcedores nos estádios será visto no futuro como um sintoma grave de autismo comportamental coletivo?



BONS SENTIMENTOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O estímulo aos bons sentimentos entope a mídia de amor, amizade, alegria, esperança. Mas fecham-se as cortinas dos comerciais e o noticiário assoma com as estatísticas do trânsito. As mortes em série nas estradas e ruas revelam a tendência coletiva ao suicídio,



CÉU DE BOMBA-ESTRELA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A devoção fazia parte do ambiente que circundava a obra. Bomba-estrela só poderia levantar vôo em épocas sagradas do calendário, como nas virações violentas da primavera. Implicava grosso investimento em papéis de cores variadas, fundamentais para vestir a majestade. Impunha cola de primeira linha, e não o expediente maroto de misturar farinha com água (a glória não permitia o grude). E os barbantes deveriam resistir às tempestades.



ANTES DO BAILE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As multidões não estavam soltas, impregnando cidades, ou forrando estradas, como agora. Eram reunidas em lugares fechados, e na maior parte do tempo ficavam em repouso. Pessoas de todos os tipos e lugares obedeciam a fila, ou permaneciam lado a lado, mudas, extáticas, a um braço de distância uma da outra. Usavam uniformes de cores neutras, um azul marinho nas blusas e casacos, um filete branco nas mangas. Golas engomadas exageravam na pontualidade.



OS LIMITES DO HUMANO SÃO A SUA TRANSCENDÊNCIA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Um escritor de verdade está sempre armado de um punhal, não apenas para cortar as abobrinhas, mas porque tem um encontro com a morte. Ele está preparado diante da ameaça fatal da obra morta ao nascer. Ele vive da superação, de seu livro sobreviver a ele mesmo. Poucos conseguem. Nascemos para virar pó do esquecimento. Mas, às vezes, um anjo nos visita.



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