Crônicas

A INDIGNAÇÃO É UMA IMPOSTURA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A tragédia é permanente e gera uma indignação surda, instável e sem nenhuma repercussão. Num país sem lei, tudo tem que ser negociado todos os dias. É a manobra no trânsito, a velocidade na estrada, a vaga no estacionamento, a visita do fiscal, a remuneração do trabalho, o prazo da dívida vencida, o calote, o arrocho, a informação negada, a viagem pela metade. Esse é o ambiente onde o ranger de dentes é fartamente distribuído a uma terceira idade furiosa, uma juventude em fuga, uma população em pânico.



PALAVRAS PELO AVESSO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Manipular as palavras é uma espécie de arrogância dos poderes, dos talentos ou dos intelectos. Os privilegiados fazem de conta que não se importam com os lugares comuns do sentido e se esbaldam usando o vocabulário como usam a terra, a razão ou o dinheiro. Fazem isso para se distanciar de quem se apega tanto às palavras. Pessoas despossuídas, condenadas aos significados originais (ou pelo menos cristalizados pelo uso), deixam de lado tudo o que cheira a esperteza de doutores.



AGOSTO ATÍPICO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Depois das festas da virada do ano, do Carnaval e da Páscoa, dos recessos parlamentares e das leis adiadas, depois que se esgotam as desculpas dos governantes, das dietas e das mudanças que nunca são levadas a sério, chegaria uma época, exatamente este mês tão pouco considerado, em que mergulharíamos coletivamente numa reflexão sobre o que estamos fazendo com nossas vidas.



A LIBERDADE EM DEDÉ FERLAUTO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Tomei conhecimento de Dedé Ferlauto quando vi, colados em azulejos, selos/poemas assinados por Zé Liberdade. Era ele. “Me sinto por fora desta coisas que andam acontecendo entre as pessoas que escrevem, revistas, editoras, livros e outros.”, me escreveu ele anos mais tarde. “Os caras andam muito chatos com essa mania de querer fazer História. Acho um saco. Caí fora. Me sinto sem norte, sozinho e não me assusto”. Via-se como um anarquista. Vejo-o como um outsider sincero, que viveu integralmente sua literatura, a que fisga pela vocação e carrega a criatura escolhida por toda a vida.



CHARADAS NOS CLASSIFICADOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Leio sempre os classificados. Procuro pepitas, como Desenvolvedor Pleno, Engenheiro de Aplicação ou Empréstimos para Exército. Tem coisas do arco. Quitamos e refinanciamos seus empréstimos, bolinhas explosivas ou profissionais em marketing multinível, seja isso o que for. É impressionante como funções, cargos, vagas, produtos, ofertas passam por composições de linguagens completamente estranhas para mim. Não entendo mais nada do mundo corporativo.



NAMORO NO PORTÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Ainda existem portões e não se trata de nostalgia. O casario domina o território da nação, apesar das imagens de megalópoles feéricas e a onipresente síndrome dos edifícios. E por mais que se fale em mudança de costumes, a unidade familiar é hegemônica, com seus encaminhamentos tradicionais. Tenho visto casais grudados na fronteira entre a casa e a rua e não noto nada de diferente do tempo em que também participei desse jogo de cena, em que os corpos e mentes ensaiam uma sintonia, sob a guarda de olhos atentos.



LIVRO A METRO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As estantes atulhadas servem apenas para fazer figuração. Há uma boa porção de reconhecidas sumidades que usam luxuosas encadernações ao fundo quando dão declarações. É um hábito lucrativo, que exige investimento. Soube de um livreiro descolado que vende livro a metro. Por encomenda, ele forra paredes com obras verdadeiras, não com o expediente manjado das lombadas abraçando papel em branco. Possui de sobra estoques repassados por herdeiros de leitores longevos, que morreram junto com suas bibliotecas.



RECEITAS CONTRA O CORPO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A aparência, por não ser notada por quem aparece, deve ser de foro íntimo, e não propriedade alheia. Olhe nos olhos. É lá que pessoa se encontra. Só que vivemos na barbárie das superfícies e não na civilização dos mergulhos.



CERCO SINGULAR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Algumas palavras ditam a moda. Houve a época do consenso, depois da distensão, mais tarde da globalização, até chegarmos à convergência. Agora é a vez da singularidade, um estado (por enquanto teórico) incapaz de seguir qualquer regra conhecida. Já existem exemplos. Um deles fica bem no miolo do buraco negro, ponto da curvatura espaço-tempo com massa infinitamente densa. Outro é o ambiente isolado que originou o Big Bang.



A SÍNDROME DO ÚLTIMO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Existem soluções de linguagem que jamais perdem a utilidade, sendo infinitamente reproduzidas. Ainda não nos livramos, por exemplo, da influência de “O último dos moicanos”, título do romance de James Fenimore Cooper sobre a amizade entre um índio e um branco, numa guerra do século 18 na América. Talvez o motivo seja a força da proparoxítana, amparada na última vogal, e instaurada como lei em épocas terminais – fim dos séculos ou dos tempos. No mais recente apocalipse, pautado pela curiosidade sobre as profecias, “último” virou endemia. Um massacre reforçado pelo famoso fim da História.