Crônicas

GESTOS PERDIDOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Cruzar os dedos para impedir algum acontecimento, fazer figa para devolver o mau olhado, fechar o punho esquerdo em sinal de revolta, levantar o chapéu de feltro para a população em delírio: eis alguns gestos perdidos que fazem parte de outra humanidade, a que fomos um dia. De hoje, o que ficará? Será que o pula-pula dos torcedores nos estádios será visto no futuro como um sintoma grave de autismo comportamental coletivo?



BONS SENTIMENTOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O estímulo aos bons sentimentos entope a mídia de amor, amizade, alegria, esperança. Mas fecham-se as cortinas dos comerciais e o noticiário assoma com as estatísticas do trânsito. As mortes em série nas estradas e ruas revelam a tendência coletiva ao suicídio,



CÉU DE BOMBA-ESTRELA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A devoção fazia parte do ambiente que circundava a obra. Bomba-estrela só poderia levantar vôo em épocas sagradas do calendário, como nas virações violentas da primavera. Implicava grosso investimento em papéis de cores variadas, fundamentais para vestir a majestade. Impunha cola de primeira linha, e não o expediente maroto de misturar farinha com água (a glória não permitia o grude). E os barbantes deveriam resistir às tempestades.



ANTES DO BAILE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As multidões não estavam soltas, impregnando cidades, ou forrando estradas, como agora. Eram reunidas em lugares fechados, e na maior parte do tempo ficavam em repouso. Pessoas de todos os tipos e lugares obedeciam a fila, ou permaneciam lado a lado, mudas, extáticas, a um braço de distância uma da outra. Usavam uniformes de cores neutras, um azul marinho nas blusas e casacos, um filete branco nas mangas. Golas engomadas exageravam na pontualidade.



OS LIMITES DO HUMANO SÃO A SUA TRANSCENDÊNCIA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Um escritor de verdade está sempre armado de um punhal, não apenas para cortar as abobrinhas, mas porque tem um encontro com a morte. Ele está preparado diante da ameaça fatal da obra morta ao nascer. Ele vive da superação, de seu livro sobreviver a ele mesmo. Poucos conseguem. Nascemos para virar pó do esquecimento. Mas, às vezes, um anjo nos visita.



A PRÓXIMA CHANCE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

E se fosse o contrário, o Nilo como dádiva do Egito? E se as cheias periódicas depositando húmus para a lavoura não fossem obra do acaso, mas dos homens fartos do deserto? E se a grandiosidade do rio fosse o resultado de paciente e interminável trabalho de gerações que não queriam mais ficar à mercê da sede e da fome?



O NOME DA INFÂNCIA É VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Aguardo a volta do Brasil, que será recebido no portal por minha mãe, sempre tão carinhosa na sua inteligência falante e prudente. O país será eu, filho pródigo de volta à bonança da memória, a espargir pequenas faíscas de estrelas na calçada tomada pela infância. A Lua também me receberá como a um filho. E estaremos ainda todos vivos, libertos da fúria que nos cercou e que fez uma guerra inútil por todo esse tempo. Porque o Brasil é o que foi criado pelas gerações que doaram seus corpos insubmissos à terra que tornou-se uma nação eterna.



HIPÓTESE DÁ TRABALHO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A polícia costuma “trabalhar com a hipótese” de alguma coisa. Sugere esforço em fabricar pensamento, ligar uma atividade silenciosa, pensar, ao suor. No país ágrafo, trabalhar é fazer barulho. Muita gente tem o costume, nos cumprimentos ruidosos, de gritar que “estão trabalhando!”. Só assim poderão escapar do anátema de passar por desocupadas, e de ficar a um passo do encarceramento, como acontecia antigamente, quando prendiam por vadiagem.



ANOS 60 SEM SAUDADE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Incentivar a saudade dos anos 60 é uma das muitas formas de enterrar a época em que o enfrentamento coletivo contra a ditadura do Império ( que se desdobrava planetariamente, do Vietnã a Brasília) lançou os fundamentos de uma nova civilização. Esse projeto não fazia parte da oposição conservadora de esquerda, que no fundo é o clone do Mesmo, como provam os governos socialistas europeus e o governo Lula.



CONSCIÊNCIA DE CLASSE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

A classe média brasileira contraria a tese de Karl Marx, que sustentava ser a ideologia dominante a mesma da classe dominante. A classe média não tem acesso à classe dominante, como comprovou Stanley Kubrick em “De olhos fechados” (aquele filme que destruiu o casamento de Tom Cruise e Nicole Kidman, por obra de um laboratório perverso do diretor com o casal de atores).