Crônicas

A PRÓXIMA CHANCE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

E se fosse o contrário, o Nilo como dádiva do Egito? E se as cheias periódicas depositando húmus para a lavoura não fossem obra do acaso, mas dos homens fartos do deserto? E se a grandiosidade do rio fosse o resultado de paciente e interminável trabalho de gerações que não queriam mais ficar à mercê da sede e da fome?



O NOME DA INFÂNCIA É VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Aguardo a volta do Brasil, que será recebido no portal por minha mãe, sempre tão carinhosa na sua inteligência falante e prudente. O país será eu, filho pródigo de volta à bonança da memória, a espargir pequenas faíscas de estrelas na calçada tomada pela infância. A Lua também me receberá como a um filho. E estaremos ainda todos vivos, libertos da fúria que nos cercou e que fez uma guerra inútil por todo esse tempo. Porque o Brasil é o que foi criado pelas gerações que doaram seus corpos insubmissos à terra que tornou-se uma nação eterna.



HIPÓTESE DÁ TRABALHO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A polícia costuma “trabalhar com a hipótese” de alguma coisa. Sugere esforço em fabricar pensamento, ligar uma atividade silenciosa, pensar, ao suor. No país ágrafo, trabalhar é fazer barulho. Muita gente tem o costume, nos cumprimentos ruidosos, de gritar que “estão trabalhando!”. Só assim poderão escapar do anátema de passar por desocupadas, e de ficar a um passo do encarceramento, como acontecia antigamente, quando prendiam por vadiagem.



ANOS 60 SEM SAUDADE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Incentivar a saudade dos anos 60 é uma das muitas formas de enterrar a época em que o enfrentamento coletivo contra a ditadura do Império ( que se desdobrava planetariamente, do Vietnã a Brasília) lançou os fundamentos de uma nova civilização. Esse projeto não fazia parte da oposição conservadora de esquerda, que no fundo é o clone do Mesmo, como provam os governos socialistas europeus e o governo Lula.



CONSCIÊNCIA DE CLASSE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

A classe média brasileira contraria a tese de Karl Marx, que sustentava ser a ideologia dominante a mesma da classe dominante. A classe média não tem acesso à classe dominante, como comprovou Stanley Kubrick em “De olhos fechados” (aquele filme que destruiu o casamento de Tom Cruise e Nicole Kidman, por obra de um laboratório perverso do diretor com o casal de atores).



GUERRA TOTAL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, História Militar

No início da República, os acordos existentes vieram por água abaixo com a expulsão do Imperador. O resultado foi a guerra total. É comum colocar a chamada Revolução Federalista de 1893 como o embate entre dois campos bem específicos, os pica-paus e os maragatos. Mas a trama é bem mais complexa. Num conflito que tinha como um dos seus slogans “Não damos nem pedimos quartel”, a mortandade, até hoje pouco dimensionada, se alastrou pelo país, já que todo o território nacional esteve conflagrado.



DESCOBRI AS MÃOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos anteriores a essas formas que definem partes do corpo. Somos de outra espécie, que dispensa as esferas soltas no cosmo. Não há universo na fonte de onde viemos. Somos mais do que a mente ou o sentimento ou as vontades. Somos imortais a dispensar o rolo que geramos quando decidimos povoar o vazio com invenções sem termo.



O PRESENTE SECRETO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quem inventou dentro de nós essa atração, esse fisgar, essa comunhão? Dizem que foi a família, a educação, a quadra do país que experimentava uma época mais equilibrada. Mas talvez a origem não se situe nesses redutos conhecidos da razão. Ou não esteja nos confins dos sentimentos. É o Mistério, que aperfeiçoamos enquanto nos é dado a glória suprema de viver.



VIDA NOVA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O passado se presta a inúmeros equívocos. Um deles é que podemos nos livrar de nós mesmos, como borboleta que abandona a lagarta seca. Vemos como, nas mudanças, as pessoas resolvem se livrar da tralha acumulada. Vida nova, dizem, convictas. Colocam a maior parte das traquitandas na frente da casa que será abandonada. Aos poucos, aquele joio será recolhido, mas ainda resta muita coisa. Tenta-se negociar, mas os comerciantes do ramo sabem que o acúmulo de coisas inúteis é uma armadilha que não vale um tostão furado.



LER IMAGENS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Na leitura, não há diferença entre texto e imagem. A palavra é lida a partir de sua representação visual e qualquer rabisco é passível de leitura. A crítica de arte costuma exagerar e tece uma complicada teia de argumentação e análise quando elabora algo sobre artes plásticas. Prefiro Roland Barthes, autodidata capturado pela universidade francesa, que entendeu ser a franja dos personagens do filme Julio César, de Joseph Mankiewicz, como “a expressão da romanidade”. Uma romanidade inventada por Hollywood, claro.



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