Crônicas

GUERRA TOTAL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, História Militar

No início da República, os acordos existentes vieram por água abaixo com a expulsão do Imperador. O resultado foi a guerra total. É comum colocar a chamada Revolução Federalista de 1893 como o embate entre dois campos bem específicos, os pica-paus e os maragatos. Mas a trama é bem mais complexa. Num conflito que tinha como um dos seus slogans “Não damos nem pedimos quartel”, a mortandade, até hoje pouco dimensionada, se alastrou pelo país, já que todo o território nacional esteve conflagrado.



DESCOBRI AS MÃOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos anteriores a essas formas que definem partes do corpo. Somos de outra espécie, que dispensa as esferas soltas no cosmo. Não há universo na fonte de onde viemos. Somos mais do que a mente ou o sentimento ou as vontades. Somos imortais a dispensar o rolo que geramos quando decidimos povoar o vazio com invenções sem termo.



O PRESENTE SECRETO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quem inventou dentro de nós essa atração, esse fisgar, essa comunhão? Dizem que foi a família, a educação, a quadra do país que experimentava uma época mais equilibrada. Mas talvez a origem não se situe nesses redutos conhecidos da razão. Ou não esteja nos confins dos sentimentos. É o Mistério, que aperfeiçoamos enquanto nos é dado a glória suprema de viver.



VIDA NOVA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O passado se presta a inúmeros equívocos. Um deles é que podemos nos livrar de nós mesmos, como borboleta que abandona a lagarta seca. Vemos como, nas mudanças, as pessoas resolvem se livrar da tralha acumulada. Vida nova, dizem, convictas. Colocam a maior parte das traquitandas na frente da casa que será abandonada. Aos poucos, aquele joio será recolhido, mas ainda resta muita coisa. Tenta-se negociar, mas os comerciantes do ramo sabem que o acúmulo de coisas inúteis é uma armadilha que não vale um tostão furado.



LER IMAGENS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Na leitura, não há diferença entre texto e imagem. A palavra é lida a partir de sua representação visual e qualquer rabisco é passível de leitura. A crítica de arte costuma exagerar e tece uma complicada teia de argumentação e análise quando elabora algo sobre artes plásticas. Prefiro Roland Barthes, autodidata capturado pela universidade francesa, que entendeu ser a franja dos personagens do filme Julio César, de Joseph Mankiewicz, como “a expressão da romanidade”. Uma romanidade inventada por Hollywood, claro.



MAGRELA NOS TRILHOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As bicicletas surgem do nada e se atravessam na frente dos carros. Ninguém usa capacete e costuma-se atirar os veículos em frente aos estabelecimentos comerciais. Deve ser um hábito de direito adquirido, pois muita gente faz isso e não há uma só voz que se levante contra. Também andam na contramão, já que não dispõem de antigo e eficiente apêndice, o espelho retrovisor, obrigatório até os anos 60. Sem saber quem vem atrás e com quais intenções, o ciclista se previne e anda na parte da rua em que pode enxergar o perigo de frente.



SOPRO DO PARAÍSO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos prisioneiros da poesia, que nos carrega como um ramo de flor sobre o oceano interminável, sabendo que não haverá barca que nos salve, nem mesmo quanto entoarmos o cântico libertário. Nossa sorte será enxergar a melodia nas pequenas coisas, as que renovam nossas chances. Até acumularmos forças para nos aproximar de Deus, que nos recolhe. Náufragos da solidão, seremos soprados ao paraíso pálido, mas ainda intacto.



DEVE SER O VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Vamos para a praia, nos dizia o pai na hora mais forte do calor, aí pelas três da tarde. Descíamos em disparada os dois quarteirões que nos afastavam o rio e caíamos na água. Era difícil entrar, porque as pedras do fundo, barrento, nos impunham cautela em cada passo. Água pelo peito os mais velhos, pela cintura a meninada. As mulheres mais velhas, água pela canela. As mais moças, dificilmente iam. Era programa de criança.



VIRTUAIS SEM VIRTUDE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Fazer desaparecer as perguntas é o truque dos ilusionistas, que confiam na capacidade mimética dos consensos e da vergonha que temos de exibir ignorância. Não que eu vá estudar mecânica quântica para saber porque uma rede imobiliária inexistente, ou podre, consegue derrubar empregos e finanças de verdade. A economia é o reino dos sabichões e qualquer dúvida é tratada com indiferença olímpica, pois a situação está posta e não vá perguntar por que existem os juros.



TRÊS ANINHOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Três anos é a adolescência da primeira infância. Chinelos voam para o quintal, portas de quartos são devassadas por mãozinhas firmes, programas favoritos ficam inacessíveis graças à postura desafiante da espelhinho sem aço, bracinhos atacam barrigas em repouso, tapas estalam no meio das conversas, águas de origem obscura inundam a sala, visitas são recepcionadas com comportamentos bizarros, e gritos agudos povoam a casa por motivos desconhecidos.