Crônicas

MAGRELA NOS TRILHOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As bicicletas surgem do nada e se atravessam na frente dos carros. Ninguém usa capacete e costuma-se atirar os veículos em frente aos estabelecimentos comerciais. Deve ser um hábito de direito adquirido, pois muita gente faz isso e não há uma só voz que se levante contra. Também andam na contramão, já que não dispõem de antigo e eficiente apêndice, o espelho retrovisor, obrigatório até os anos 60. Sem saber quem vem atrás e com quais intenções, o ciclista se previne e anda na parte da rua em que pode enxergar o perigo de frente.



SOPRO DO PARAÍSO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Somos prisioneiros da poesia, que nos carrega como um ramo de flor sobre o oceano interminável, sabendo que não haverá barca que nos salve, nem mesmo quanto entoarmos o cântico libertário. Nossa sorte será enxergar a melodia nas pequenas coisas, as que renovam nossas chances. Até acumularmos forças para nos aproximar de Deus, que nos recolhe. Náufragos da solidão, seremos soprados ao paraíso pálido, mas ainda intacto.



DEVE SER O VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Vamos para a praia, nos dizia o pai na hora mais forte do calor, aí pelas três da tarde. Descíamos em disparada os dois quarteirões que nos afastavam o rio e caíamos na água. Era difícil entrar, porque as pedras do fundo, barrento, nos impunham cautela em cada passo. Água pelo peito os mais velhos, pela cintura a meninada. As mulheres mais velhas, água pela canela. As mais moças, dificilmente iam. Era programa de criança.



VIRTUAIS SEM VIRTUDE

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Fazer desaparecer as perguntas é o truque dos ilusionistas, que confiam na capacidade mimética dos consensos e da vergonha que temos de exibir ignorância. Não que eu vá estudar mecânica quântica para saber porque uma rede imobiliária inexistente, ou podre, consegue derrubar empregos e finanças de verdade. A economia é o reino dos sabichões e qualquer dúvida é tratada com indiferença olímpica, pois a situação está posta e não vá perguntar por que existem os juros.



TRÊS ANINHOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Três anos é a adolescência da primeira infância. Chinelos voam para o quintal, portas de quartos são devassadas por mãozinhas firmes, programas favoritos ficam inacessíveis graças à postura desafiante da espelhinho sem aço, bracinhos atacam barrigas em repouso, tapas estalam no meio das conversas, águas de origem obscura inundam a sala, visitas são recepcionadas com comportamentos bizarros, e gritos agudos povoam a casa por motivos desconhecidos.



LINHO NO ENTRUDO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Havia peso no ar, e não era apenas o calor e o mormaço. Havia a proibição de ser normal. A criminalidade do comportamento tinha carta branca para se manifestar, sem o favor de nenhuma lei, a não ser a do calendário. Era uma fenda que se abria no regime fechado das virtudes e por ela despencavam as personalidades mais notórias. E não emergia apenas o jogo bruto do banho forçado, mas cenas mais sutis de deboche, inspiradas por grossa malvadeza.



CITAÇÕES CENTENÁRIAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

As citações são como pragas em efemérides que se reportam às celebridades das nossas letras. Machado de Assis e Guimarães Rosa compartilham 2008 com seus centenários de morte e nascimento, respectivamente. Que sejamos poupados do excesso de batatas aos vencedores e de vivências muito perigosas.



DISCUTIR A RELAÇÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

É fácil insurgir-se contra o Estado, patrões, colegas. É mole emocionar-se com músicas, livros, quadros. É tranqüilo manter amizades. É duro, mas gratificante, criar filhos e obedecer aos pais. O que não parece humano é ter argumentos adequados para chegar perto do entendimento numa relação amorosa.



OS FRASISTAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A frase inesquecível é o narcisismo da linguagem. É quando a obra se olha no espelho e diz: bela estampa, você tem futuro. Alguns autores se aprofundaram nessa arte, que é a garantia da permanência. Você pode esquecer romances e peças de Oscar Wilde, mas ele sempre será lembrado como alguém que levava seu diário para viagem, pois assim teria algo para ler. Raymond Chandler sabia que seus romances policiais não dispunham de prestígio (o que foi contrariado pelo tempo) e vingava-se com tiradas primorosas.



FICHAS DO CINE SAGU

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

As toneladas de sagu que se fazia em casa costumavam sobrar em panelas enormes. Gelado, era servido, de graça, aos potes, a ávidos cinéfilos. Idéia, claro, do meu irmão nascido empresário, a de agregar valor à gasta programação. A entrada era um custo, mas o sagu compensava. Garantia quórum para o porteiro de olhos brilhantes diante dos lucros.



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