Crônicas

BEIJO ENTRE NUVENS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Tenho estudado o comportamento de certas nuvens e noto que elas formam criaturas disformes e gigantescas, não catalogadas nos compêndios de História Natural. Não se trata de enxergar leões marinhos ou elefantes nos algodões que bordam o azul da estação. Ver com olhos livres é aprender algo inédito gerado por contornos e movimentos. Nada a ver com os documentários da televisão sobre a vida nas savanas, geleiras ou arquipélagos. Ou com as lembranças que temos das visitas ao zoológico.



HORA DA MESA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Havia solenidade nas refeições. Uma hierarquia definia os papéis à mesa: pais nas cabeceiras, filhos de um lado e filhas do outro. Os menores estavam mais próximos da mãe. Para evitar tumulto, devido à quantidade de comensais, não era permitido conversar mais do que o necessário. “Passe o arroz” nunca poderia ser substituído por “briguei hoje no colégio”. Assim como as palavras, as porções eram rigidamente controladas. Nunca faltou nada porque a disciplina colocava a voragem natural da prole em limites suportáveis.



GREVE DE PALAVRAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

Nos Estados Unidos, existe hoje um tipo de cinema cult que é o dos roteiristas brilhantes. Grandes estrelas abrem mão de seus cachês para fazer uma ponta em obras de cérebros e talentos privilegiados. É o cansaço da padronização dos roteiros e da venda de Hollywood para as políticas imperiais, o que se tornou praxe depois da vitória do macarthismo. As melhores cabeças não são mais convocadas, a não ser para abrir mão dos originais e deixar que escribas fiéis ao regime sapateiem em cima.



A FALA DE PROMETEU

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Nada existe, a não ser a linguagem. Tudo finda, com exceção da palavra. O que nos ocupa não tem importância, o que pega é o texto, o verso, a frase, a letra. As falas são os únicos sobreviventes do massacre. O dito é o que ressurge, cria, funda. O amor é seu filho, a dor sua prova. Passam os séculos, mas tua sílaba fica. Como um fígado que renasce diante do abutre. És ladrão do fogo, Prometeu acorrentado, a cuspir no medo. De tua boca sai a metáfora, a sentença, o desafio da pitonisa, a salva de canhões, o grito.



MENSAGEIROS ESPIRITUAIS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Eles não pregam a verdade, não possuem nenhuma vaidade em direção à eterna busca do Absoluto. São puro movimento em forma de gente. Agem na vigília e no sonho. Na imaginação e na evidência. Na vitrine e na escada rolante. No cartório e na escola. Na rua e na torre. Não são capazes, como os anjos, de tomar alguém pelos braços e levá-lo a um hospital. Não possuem carne os mensageiros espirituais.



PALÁCIO INTERIOR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O problema é que o mundo transformado em mercadoria faz de tudo para que as pessoas esqueçam a fonte da vitalidade: o exercício pleno do estado de arte, da forma como bem entendemos. Não apenas o consumo cultural, importante, mas não decisivo. O que vale é a criação, fruto da transcendência que devemos buscar em vida. Não se trata de pegar um filminho para o fim-de-semana (e sair comentando “a fo-to-gra-fia!”), ou se reunir com os amigos para arriscar um banquete sob o fragor de charutos e vinho (suspirar por lareiras não salva ninguém do tédio).



VIDA ADULTA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O cinema é a soma de todos os talentos. Precisa interagir com a vida de verdade, como está voltando a acontecer no mais comercial dos países. A nós, cabe perguntar por que somos tão pobres em abordagens sérias. Nossos filmes, com honrosas exceções, estão confinados ao deboche, à miséria, à eterna mocidade, ao sexo fácil, à violência desmesurada. O máximo que alcançamos é a brutalidade geral, a memória imóvel, o relacionamento amoroso pautado pelo egoísmo. Às vezes, alguém acerta, mas é raro.



OS CONSULTORES

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A indignação é moeda corrente que compra qualquer tipo de solução para os males do mundo. O bom-mocismo, essa falta de caráter vestida para a missa, hoje movimenta milhões em reclames e eventos. No fundo, todos querem a salvação da humanidade, mas tudo fazem para que o planeta se exploda, desde que o saldo bancário esteja garantido.



NEM PENSAR

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Produzir pensamento é ofício raro. Ainda reiteramos idéias de milhares de anos atrás e devemos agradecer por isso, pois as mais recentes (de alguns séculos) nos deixam de cabelo em pé. Átomo, idéia, república são conceitos milenares que fazem parte da nossa natureza. Já capitalismo, fundamentalismo, bigbrother são emergentes, adotados como definitivos, mas como os terremotos, devem passar, mesmo que persista o estrago que provocam.



CENAS INESQUECÍVEIS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Atulhadas de imagens, nossas mentes selecionam o básico para a sobrevivência. Formatamos uma rotina compatível com nossas condições cardiovasculares. O olho é traiçoeiro e só enxerga o que está acostumado a ver. É por isso que alguns cineastas, sabedores desse vício, conseguiram criar imagens de impacto usando uma cena familiar instalada num entorno diferente.



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