Crônicas

DOMINÓ DE ASSOMBROS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

É mansa essa passagem entre dois eixos, o firme estanho do sol e a morna geléia que anuncia a noite. Ainda é cedo, mas a coruja antevê o sereno. Monstros abrem o olho. Estrelas invisíveis fervem no cinza azulado e aguardam o breu para tocaiar o sonho. Tudo está atento como na véspera do Juízo. Ninguém dorme a sesta de escombros. Há um despertar de açoites, corações incertos, algas que se soltam da cabeça. O acordo era andar, mas há uma pré-estréia de sonâmbulos. Câmaras de silêncios, cavernas de molejos, êxodo de mântras.



VIOLÊNCIA PLANEJADA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

Qual seria a verdadeira revolução? A paz, que só se consegue com algumas providências. Primeiro: o monopólio do exercício legal da violência por parte das instituições nacionais, sob a guarda da correção e a ética. Segundo: o fim do capitalismo de desastre e a volta da luta em favor do equilíbrio social. E terceiro: a língua comum afiada na criatividade, no conhecimento e na experiência.



PESADELO AUTOMOTIVO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Peça de automóvel é como célula: já vem programada para pifar, depende do modelo e da marca. Se os artífices das montadoras são capazes até de inocular cheiros específicos nos estofamentos, para aumentar o poder de sedução na hora da compra, se pesquisam até o barulho da porta quando se fecha para sugerir poder, ou simplesmente carícia para quem ouve, como não iriam decidir o mais importante? Ou seja, o momento exato em que você terá de livrar do seu pé de borracha favorito e desembolsar mais dinheiro, se quiser manter seu status de feliz proprietário de um zero.



ESSE ESTRANHO AMOR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Esportes

O amor à Pátria é o primeiro a ser negado quando nosso representante, no lugar de evitar o gol do adversário, contribui com ele por omissão ou soberba. Quando a reiteração dos crimes compõe a identidade do país que deveríamos amar. Basta o galo cantar uma só vez para trairmos a devoção cívica que deveria nos nortear. No varejo, nos dias que se sucedem sem nenhuma graça, vemos o amor à Pátria escoando pelo ralo. É o Brasil, dizemos, e damos o assunto por encerrado.



EM NOME DO TEMPO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Deveria haver um mandamento para não tomar o nome do tempo em vão. Evitaria um massacre, gerado por vícios como achar que existem pessoas à frente do seu tempo, como se o passado sofresse de um pecado original que não o habilita para o gênio. Ou dizer que o tempo atual é definido pelas celebridades, como se o interesse excessivo por elas passasse um atestado de idiotia ao presente. Ou sustentar que não sobreviveremos a este século, por força do aquecimento global, ou da nova era glacial, dependendo da moda, o que é uma forma de enterrar o futuro, que ficaria assim excluído da esperança, sua velha moeda corrente.



PEDRA NO REGATO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Pedra lisa, quase transparente, brilha no fundo de um regato, aquela porção de água pura que desce a montanha tecendo a aventura. Mais preciosa que ametista, mais vistosa que pepita, mais valiosa que diamante bruto. Perdida entre tantas, se deposita sem esperança de ser colhida. Tem apenas a beleza exposta no barulho da pequena correnteza, mudando de lugar conforme a chuva, ameaçando despencar na primeira cascata e que se encolhe ao toque quando a descobrimos quase sem querer, numa curva tomada pelo pedregulho.



BILAC

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Livros

Nepotismo, prostituição infantil, violência urbana: nada escapa ao cronista Olavo Bilac na carioca Gazeta de Notícias. Na virada do século 19 para o 20, ele denuncia os exploradores sexuais de crianças de sete e oito anos, ironiza os oligarcas que empregam as famílias nas bocas do Senado e da Câmara, se insurge contra as quadrilhas em ação na Revolta da Vacina. Bilac tem o dom da palavra clara, sem esse azedume que tomou conta da literatura brasileira nos últimos tempos, fruto da desconfiança dos autores em relação aos leitores.



NOSSO DINHEIRO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

Recurso público não é propriedade de indivíduos ou empreendimentos. O dinheiro pertence ao Estado e a mais ninguém. Não é mais seu, meu ou nosso. Senão, qualquer um poderia retirar do cofre coletivo o que bem lhe aprouvesse. Pode-se argumentar: sim, mas esse montante pertencia à sociedade, que foi injustamente aliviada do que é seu e agora está à disposição da corrupção oficial. Pertenciam. Esse é o ponto. A sociedade outorga ao Estado a função de dispor do caixa.



QUAL DEMOCRACIA?

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

Fala-se tanto em voto de cabresto como se fosse algo pertencente ao passado. Mas o voto útil, por exemplo, mais explícito no segundo turno, é o mesmo velho hábito das eleições antigas, só que atualizado por meio de argumentos, digamos, científicos. O engessamento da opinião, que existe a partir de conglomerados de pensamentos prontos para o uso (mas embalados num charme pseudofilosofante), é a grande tragédia do atual estágio político brasileiro. Reflete a imposição de proibições, mascaradas sob a ótica dos nichos.



BALCÃO DE PECADOS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Desatenção talvez seja o maior pecado do comércio. Nos pequenos estabelecimentos, a indiferença se manifesta pelo espírito de grupo, autocentrado e impermeável a interferências. Conversar entre si, deixando o cliente parado à espera de atendimento, cobrar no caixa sem olhar quem está pagando, varrer os pés da vítima que tenta consumir alguma coisa são alguns exemplos dessa expulsão involuntária promovida pelos que deveriam estender tapete vermelho. O pior é o olhar de “tu-por-aqui?” quando você chega na loja familiar e os proprietários estão ocupados em colocar a conversa em dia. Deveria haver um buraco onde o cliente pudesse se enfiar por alguns momentos, até passar o efeito devastador que a virada coletiva e silenciosa de cabeça em sua direção provoca, como a perguntar os motivos para a presença estranha em território sagrado.