Crônicas

FANTASMAS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Não existem mais fantasmas. Acho que o motivo é o excesso de luzes firmes. Espíritos precisam de fagulha, chama de vela, crepitar de fogueira. Eles são atraídos pela indecisão do fogo entre brilho e sombra. Lembro das labaredas que começavam com folhas secas no crepúsculo no meio do mato. Elas migravam para gravetos e galhos e chegavam submissas, em forma de brasas, às toras, que duravam até alta madrugada. Enquanto havia claridade, permanecíamos acordados, atentos aos barulhos, inexplicáveis.



BEM POR AÍ

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Imagino que os analistas possam também ser vítimas desse sistema que entrega a favela depois de prometer a estação de esquis. Em todo o nicho de conhecimento há um quê de auto-ajuda. Quem acreditou na própria pregação, apostando no cassino pôdre, deve estar hoje solfejando os prejuízos, vendendo na baixa do Sapateiro para sair do raso da Catarina. A não ser que seja o tipo de especulador que só perde o que é dos outros, quando a bolha estoura. O mais engraçado é que a bolha só existe depois que explode. Antes, é chamada de mercado.



ENCOSTO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Por décadas, não existia americano que não fosse tranqüilo, graças a um célebre livro de Graham Greene. Nem velha senhora que não fosse indigna, graças a Bertold Brecht. Morte, nos tempos áureos de Gabriel Garcia Marquez, era sempre anunciada , numa reprodução de massa que provocava a desconfiança de que todos os tituladores tinham surtado de vez. O pior era a cara de grande descoberta quando alguém “bolava” algo como “crônica de uma morte anunciada” para qualquer reportagem.



O AVESSO DO EXÍLIO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O presidente deposto Mauro Jindre Calvano Castro encontrou no Uruguai seu exílio dourado. Sentia-se no Brasil, para desespero de sua assessoria, que não conseguia explicar direito a confusão que o estadista fazia entre a antiga província Cisplatina, do tempo do Império, e o estado soberano que agora o recebia. Achava que os uruguaios eram riograndenses mais urbanos e cultos e, o que era melhor, habitantes de uma civilização que há muito no Brasil tinha sido destruída. Toda vez que o Doutor Mauro Jindre entrava num café e via aqueles garçons com guardanapos longos pendurados no ante-braço, começava a cantar Noel Rosa.



VIAGENS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Sou da terra firme. Daí, talvez, venha tanta atração pelo mar, território do movimento e da renovação constante e que nos traz nas ondas recados de náufragos esquecidos, ilhotas sem nome e arquipélagos que foram tragados pelas águas. Aguardo, quem sabe, notícias de Atlântida, onde deverei pousar, quando enfim chegar ao meu destino.



NADA MUDA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Para os longevos, fica estranho observar esse senhor provecto a dar opinião grave sobre a crise, já que ele mantém o tom e os argumentos da época em que nem era nascido. O garoto quarentão, vejam só, é um avô que lembra Tolstoi, mas sente saudades dos anos 80, que aconteceram hoje de manhã. A senhora que brincava de boneca na semana passada assume aquele ar de matrona empedernida, a desferir críticas, principalmente contra os homens, esses imprestáveis. O coronelzão de hoje jogava taco com outros moleques quando passei por determinada rua, há um mês. Isso sem falar nos sacerdotes aeróbicos, mães com cara de bebês, trintões cansados de guerra, aposentados de cabelos pretos que juram ser a fauna de uma idade avançada.



HÁ MEDO NO AR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Há medo no ar. A intimidade está sendo devassada. Ninguém se sente seguro. Querem saber tudo de você. Na caixa do supermercado, como alertou uma leitora desta revista, aquele que ocupa um lugar atrás na fila se debruça para saber RG, CIC, telefone e endereço de quem está sendo atendido. Mesmo sem ficar interessado nos dados do outro, essa pressão significa que há vontade de ocupar o espaço alheio.



VERÃO À VISTA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O verão se aproxima e vejo braços levantados, que se destacam na multidão. Eles se sacodem ao ritmo de um Carnaval de cidade pequena, praça cheia, salão suado. As lantejoulas grudam na pele que brilha, como um verniz. Os rostos redondos de olhos esperançosos aguardam o porvir, nome antigo do futuro, que chegou cedo demais e depressa se despediu. O Tempo voltou ao normal, devorando a memória. À poesia restou o encargo de resgatar o pó dos dias, reuni-lo em forma de criatura. E soprar nela o despertar, enquanto enterram o amor num canto remoto do quintal.



PERTO DAQUI, AQUI MESMO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Redescobrimos que nossa tranqüilidade não vem da nação que habitamos, mas da firmeza do clima. Se ele estiver bom, tudo pode ser resolvido, até mesmo a ditadura que nos governa. Mas se redemoinhos de centenas de quilômetros se movimentam em sentido anti-horário, capturando milhões de toneladas da água do mar, para jogar sem cessar em cima de nós, então não tem remédio, não tem mais jeito. É uma espécie de traição. É como romper as regras do jogo só para humilhar o adversário. Onde está o sol, que não seja ardido e prenúncio de mais chuva? Onde está a praia, impossível de freqüentar com tanta intempérie?



DEZEMBRO, O SUSTO DO TEMPO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Vi dezembro chegar nas luzes da vizinhança. Elas piscam, insistentes, o susto do Tempo. Tentam surrar a lembrança da véspera, trágico novembro. Prometem festa, quando há dor. Vagalumes fixos de cores berrantes, estão deslocadas neste final de anti-primavera, quando no lugar de flores, colhemos luto. Quanto mais antigos somos, mais dezembro nos aproxima daquele choro derramado, posso dizer: de criança. Ainda mais agora, quando as cicatrizes do paraíso nos lembram o quanto somos pobres aqui no Sul tão celebrado. A pobreza quase oculta ficou ostensiva. A paisagem derreteu e o morro veio abaixo, levando junto o sonho de felicidade.