Crônicas

MORROS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Casa e morro são mistura de pedra e barro, só que nenhum deles foi feito para suportar o dilúvio. Menos ainda quando as imposições da laje e do concreto substituem a cobertura vegetal, oferecendo ao relento as piores perspectivas, confirmadas pela tragédia que despencou em Santa Catarina. Aqui é a terra dos morros e das casas do Brasil profundo, aquelas vistas à distância que despertam a vontade de morar nelas. O aspecto bucólico, silencioso, pacífico dos recantos que bordam as estradas desta paisagem é o alvo dos sonhos produzidos pelos estressados da hiper-urbanidade.



MIUDEZAS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Minha mãe mantinha em cima de sua cômoda, no quarto, em lugar de destaque, o único presente que lhe dei na vida. Era uma pequena cesta de vime, com tampa, que trouxera da viagem que fiz pela primeira vez ao mar, quando tinha nove anos de idade. Nela guardava um retrato meu e outras lembranças. Era seu pequeno tesouro, a saudade do filho que fora, entre tantos outros, cumprir seu destino na capital.



O QUE É O GÊNIO?

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

Implico com a palavra “menor” ao lado de um criador de obras-primas. É importante fazer um reparo: todo Kurosawa é maior. Não existe um só filme de Akira Kurosawa que possa ser classificado de outra forma. Nem vou falar dos mais explícitos, como Dersu Uzalá, Ran, Os Sete Samurais, Sanjuro, Yojimbo. Mas de O Barba Ruiva (1965), em que Toshiro Mifune interpreta o doutor dos pobres, um sábio que ensina, pelo exemplo, seu aprendiz arrogante.



O BRILHO DAS ÁRVORES

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Do estábulo vemos a rua coberta de lances obscuros. Balbuciamos uma nova língua, mas só os bichos escutam. As pessoas se transformaram em mercadorias. Não há como escapar, dizem, nem mesmo o talento que afias diariamente, nem mesmo o sonho de acordar dessa loucura. Deves te ordenar na comunhão dos aflitos, enquanto envelhecem os bandidos e seus tesouros acumulados. Nenhum franco atirador postado na torre da capela, para mantê-los à distância, enquanto resistimos.



UM GRANDE ANO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

O herói democrata é apresentado como a verdadeira América, a que sacode levemente a cabeça em sinal de tédio diante dos erros de seus conterrâneos. A ética dessa América que envelhece como um galã outonal jamais perde a postura de grandeza. Basta notar a finesse dos gestos, das expressões e da coreografia perfeita nas ações decisivas. Como Ricky/Bogart em Casablanca, ele é capaz de salvar o marido da mulher que ama, sem desmanchar o topete.



PRIMEIROS PÁSSAROS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Desconheço os pássaros de penas amarelas que flagro às vezes entre a mesmice das espécies voadoras urbanas. Talvez sejam sobreviventes de velhos massacres, da época em que o Brasil decidiu importar pardais numa súbita saudade da distante Paris. Ou então fruto de cruzamento das aves adventícias com os exemplares resistentes da nossa fauna. Eles convivem, anônimos, com outros, de papel passado, como o bem-te-vi, tão disseminado quanto o quero-quero, que agora não é mais exclusivo do pampa.



CLIMA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Qual seria a natureza do novo clima? Seria o império da sensação térmica, conceito inexistente até alguns anos atrás? Pois o termômetro deixara de ser confiável. Se ele marcasse 34 graus, você estaria sofrendo mais de 40. Uma brisa encanada poderia transformar a Amazônia no Canadá. Com a sensação térmica no poder, triunfaria a percepção sobre os fatos. As ciências humanas venceriam finalmente as matemáticas. Haveria a vitória total do lugar comum: o sonho se transformaria em realidade.



O PAÍS DO NORTE

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

O que temos no Norte são os caboclos, mistura de índio com português e outras nacionalidades. Os nichos que hoje inspiram territórios independentes na fronteira do país, sob o álibi de preservar populações ameaçadas, são minorias diante da mistureba de todos os sangues. O João Ninguém, também conhecido como o brasileiro, é o povo invisível da Amazônia sob custódia do politicamente correto.



ARGENTINOS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Os argentinos são uma classe média que resistiu às pressões para desinventá-la. Diferente da nossa, que foi para o ralo. Não em termos econômicos, já que hoje existe no Brasil mais gente nessa faixa entre a riqueza e a miséria do que décadas atrás. Mas em comportamento, fruto de uma cultura, antes apoiada e hoje inspirada numa estabilidade.



O VERDADEIRO TU

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Há uma feérica busca pelo “verdadeiro eu”. Milhões de exemplares são vendidos por autores que acenam com a solução para tão candente tormento. Pessoas mergulham em cursos de auto-ajuda e exercícios zen-aeróbicos para livrar-se da casca das convenções sociais e assumir a própria identidade, soterrada em toneladas de cascalhos de indiferença e repressão. O resultado é que existe cada vez mais cultura psicanalítica das massas, todo mundo voltado para si mesmo, trafegando em mão única nas estradas perigosas da convivência múltipla.