Crônicas

DISTORÇÕES

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando era proibido ter dúvidas e ninguém podia desconfiar de nada, o mundo se assentava em princípios eternos. Eles foram varridos mais tarde quando Baudelaire publicou suas “Flores do Mal” e Marcel Duchamp decidiu que seu mictório era arte. A diferença entre tradição e ruptura gerou impasses. Uma poltrona antiga foi concebida para sentar, um celebrado banco de design ultra chic é feito para expor. Uma obra de Oscar Niemeyer é um encanto para os olhos, mas vai passar uma tarde de verão nos seus ambientes de concreto.



A ESPERANÇA EM MOTHER JONES

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Aconteceu em Nova York, no início do século 20. Milhares de crianças, com o rosto borrado de carvão, cruzaram a cidade gritando e exibindo cartazes com os dizeres: “Queremos ir para a escola, não para as minas”. Na liderança da passeata, firme, do alto dos seus 93 anos, aquela que era considerada pela polícia “a mulher mais perigosa da América”, conhecida como Mother Jones. Pessoa marcada, de oratória precisa e poderosa, foi presa várias vezes como agitadora, numa época em que as reivindicações dos trabalhadores, que não tinham salário nem jornada de trabalho fixos, eram consideradas atos de traição à Pátria, em plena véspera da participação americana na guerra na Europa.



ESCRITOR NÃO ESCREVE

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quem escreve é escrivão, redator, escriba. Escritor se transforma na própria palavra que inventa. Cria a linguagem na mente. Ao passar para o papel, ou a tela do micro, é para aprimorar, compartilhar, mas não se trata da essência da atividade. Por isso é ilusório sonhar em abandonar tudo, ir para o ermo e lá perpetrar o romance da sua geração. Ou você já tem o bicho alinhavado na cabeça ou não tem. Se não tem, é perda de tempo esse sonho de sair da reta para poder pegar a manha na curva.



DITADO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Dia de ditado era uma tortura. A professora escandia as sílabas pronunciando um texto e nós tínhamos que colocar no papel o que ouvíamos, sem cometer erros. Por muito tempo me perguntei para que serviria um exercício aparentemente tão sem sentido. Hoje, quando vejo monólogos concomitantes em grupos autosuficientes, descubro tardiamente os benefícios desse treinamento ostensivo. Primeiro, tínhamos que entender o que era dito. Segundo, acostumávamos o ritmo do ouvido ao ritmo do narrador. Terceiro, podíamos transformar cultura oral em escrita (e checar sua correção comparando com o texto original, impresso, lido em aula).



CALÇADAS

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Vejo mulheres empurrando carrinhos de bebê pelas ruas, como se as rodinhas pudessem enfrentar o rosnar dos pneus que cantam e desrespeitam o último acordo civilizado, a contra-mão. Como há no caminho empecilhos como buracos, caminhantes, bicicletas, os veículos saem do seu leito normal para avançar perigosamente sobre os que vêm em sentido contrário. O ambiente urbano assim se transforma numa catástrofe.



MOTIVOS FÚTEIS

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Dispensados de interferir no principal, todos são empurrados para a futilidade das ações. Já que não se pode impedir que a especulação financeira gere recessão e desempregue em massa, cada cidadão assume o papel de um Legislador. Como os princípios e os valores seguem determinações legais ditados pelo voluntarismo, multiplicam-se, não os julgamentos, que isso dá trabalho, mas as execuções sumárias.



RUAS DO ENCONTRO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Civilização é a tolerância em relação às desvantagens. Se a pessoa estiver manobrando para estacionar, é lógico que ela precisa de compreensão ao redor. Não dispõe de espaço para ir em frente, está dando ré ou cruzando em diagonal, tentando acertar entre o balizamento, quase invisível, do chão. Se alguém atrás decide ser impaciente, surge o impasse. Esperar que o contemporâneo ocupe legalmente sua vaga, mesmo que isso vá prejudicar a pressa de quem vem depois ou até mesmo sua possibilidade de achar um lugar disponível, é sinal de que temos chances de sobreviver.



LIMPINHO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

A obsessão pela grana tem motivos. Numa sociedade sem fundos como a nossa, que deve várias vezes o próprio patrimônio, todos estão profundamente envolvidos na chance de ganhar um extra. O ideal é fazer algo que renda um montante “limpinho”, ou seja, livre de custos, impostos e outras barbaridades. Essa é a palavra que tenho escutado mais ultimamente. “Dá para tirar tanto limpinho”, me dizem. E fazem um ar de satisfação triunfante.



HÁ TEMPOS

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Quando querem se referir a um tempo muito antigo, falam em anos 80. Acho graça. Anos 80 foi hoje de manhã. Certa vez, interrompi um colega veterano que contava histórias para uma estagiária sobre algo que ele viveu nos anos 50. Não assuste a garota, disse. Anos 50 estão nos livros de História. Não é algo que possa ter testemunhas ainda vivas.



SEPARATISMO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Política

Eu também vou aderir a idéia do separatismo. Acho bom que São Paulo seja incorporado às margens do rio Uruguai. Ou que a araucária seja o símbolo da região do Ibicuí. Seria maravilhoso que o chapéu de caubói do interior paulista fosse adotado em Itaqui, ou que as esporas fossem usadas no Bexiga. Teríamos um país de Primeiro Mundo, mas não seria o ideal. Sugiro algumas pequenas mudanças na idéia original, sem querer desfazer as bases dessa genial solução para todos os nossos problemas.