Crônicas

RUBEM BRAGA E OS CONTEMPORÂNEOS

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Uma coisa recorrente nos escritores que nos abandonaram, pela idade ou morte súbita, quando chegamos à vida adulta, é que tinham consideração pela inteligência do leitor. Uma das provas é que limparam a língua de todo o estorvo e nos legaram um texto enxuto, brilhante, eterno, sem as seqüelas do provincianismo, dos anacronismos, da pomposidade, da ostentação e da tautologia. Rubem Braga escrevia assim: “Meu caro Vinicius de Moraes. Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação”.



GÊNIO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Gênio é uma palavra multiuso. Há o sentido mítico, das narrativas ancestrais e que se refere a criaturas encerradas por milhares de anos em garrafas, sem haver explicação plausível de como o continente conseguia acompanhar a eternidade do conteúdo, já que barro e vidro são datados, ao contrário do duende salvador que tudo podia, menos abrir uma rolha. Palavra mais propensa à figuração do que à realidade, acabou rolando pela sarjeta das conversas, como a prática adotada do elogio aleatório a algum evento ou pessoa, que já chega sem força ao objetivo.



POR UM TRIZ

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Foi por uma ninharia que não lançamos o olhar na direção salvadora, que não tivemos aquele lampejo de iluminar a face oculta da Lua. Por um triz não conseguimos publicar na hora certa o livro torturado pela gaveta, conquistar o amor longamente cultivado em silêncio e que deixou a sorte passar. Por um triz deixamos de ser a glória que sonhamos e viramos esse pó de armário no canto, quando só anjos pálidos e Deus em pessoa veem, abismados, o quanto somos precários e por isso tão encantadores.



FRIO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Inverno exige uma resposta à altura. Para quem nasceu no Brasil profundo – a fronteira entre uma civilização possível e a natureza bruta – era necessário refugiar-se nas peles dos animais. Lembro do grande couro estendido na sala, único lugar possível para brincar no chão. Ou do grande pelego de ovelha, trincheira contra as madrugadas polares batidas pelo vento. Ou ainda as campeiras, grossos casacos que cobriam costas e peitos; as meias e calças de lã, que devolviam vida a pernas e pé condenados ao congelamento; e as boinas, que tiravam os cabelos do relento.



O POETA COMO PERSONAGEM

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Há o nerudismo, em dois vetores. Um, o épico, em que você faz gestos largos e tem a voz tremida quando canta nuestramerica. Outro, o íntimo, em que o crepúsculo se deita como um cachorro a seus pés. O épico,depois da luta, recolhe-se em frente ao mar, a apascentar leitores a distância. Lá ele cultiva lembranças, como o tempo em que tentou ser pragmático, quando celebrava a cebola e lamentava jamais ter construído nada com as mãos, nem mesmo uma vassoura. O íntimo migra para o apaixonado, o amante viajador. Ambos usam boné, imitado por todo mundo.



POSE

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Pose é posse: a imagem pública pertence a quem briga para formatá-la. Quando esse perfil arduamente conquistado escapa e rola na sarjeta, a biografia corre perigo. É preciso então intensificar as poses para recuperar o espaço perdido e definir o que chamam de “virada”. Vemos isso a toda hora. Depois de fazer uma besteira, a celebridade diz em rede nacional que vai colocar a casa em ordem, ou seja, recuperar a identidade ferida.



O VERBO HABITADO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

As palavras fazem sentido quando alguém mora nelas. Casa abandonada, imóvel vazio, tapera, fachada, é o que mais tem na praça. Varandas com luzes acesas de dia, significando ausência. Cães com sede, caixa de correspondência abarrotada, janelões de vidro, prédios úmidos tombados à espera de leis: as cidades são um conjunto de fugas, intensificadas por praças às moscas, onde dormem maltrapilhos. Calçadas tomadas pelo comércio sujo, por estacionamentos improvisados, por postes que interrompem o caminho, por lajotas soltas. Grama crescendo no meio do asfalto. Paralelepípedos empilhados montam guarda junto a uma placa, de letras enferrujadas. Assim é o texto, o poema, o discurso, a reportagem: uma engenharia de ruínas.



MANÁ DE ESTRELAS

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Navegadores fazem colheitas de estrelas. Precisam do brilho para alimentar as sereias, que segredam os confins da rota nos ouvidos de marujos exaustos da espera. Na calmaria, os desesperados fixam o olho na massa informe de sombras, miragens de monstros extintos. O que estava próximo se dissipa na véspera da ilusão mais grave, o grito salvador que viria da gávea. O que fica é a sede, delírio de uma última chance, a de descobrir o rumo pela voz das traiçoeiras habitantes das ondas.



O JOGO DAS REPRESENTAÇÕES

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Implico com a idéia de que as brincadeiras da infância são treinamento para a vida adulta. Insistem tanto que muita gente não cresce, prefere levar tudo numa boa, e, por qualquer motivo, faz o velho trenzinho nas festas, para desespero de amigos e parentes. Transpuseram essa certeza para os documentários sobre a vida selvagem. Os leõezinhos se pegam para que os músculos fiquem ágeis e fortes em função de futuras caçadas. Imagino a genialidade dos pesquisadores enxergando a mente dos bichos, quando ainda acham que animal não tem inteligência.



O QUE É UM INTELECTUAL?

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Redação sem Máscara

Intelectual é quem produz pensamento. O intelectual orgânico, para aproveitar uma definição de Gramsci, é quem coloca a produção do pensamento a favor de um projeto de poder. Digo com minhas palavras, pois a verdadeira citação é de memória, para evitar que qualquer texto se transforme num amontoado de tijolinhos conceituais devassados pelo uso e sem nenhum sinal de elaboração, nem mesmo a reprodução de uma idéia com palavras próprias.