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	<title>Nei Duclós &#187; Esportes</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>CULTURA E FUTEBOL: A LÓGICA DO IMPROVISO</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 13:44:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>O futebol brasileiro é fruto da cultura da escassez, conceito usado pelo poeta Mario Chamie quando assumiu a secretaria municipal de Cultura de São Paulo nos anos 70. A cultura da escassez define o perfil dos brasileiros que, ermo de recursos e de incentivo, acabam superando com a criatividade o que lhe falta no entorno. Como conta Mario Filho, o povo que assistia os jogos dos esnobes ingleses esperavam a bola sobrar para ir chutando sem parar até os confins da várzea. Depois, com as políticas públicas que organizaram a bagunça, fomos tão longe que conquistamos uma Copa do Mundo em 1958, nas fuças dos europeus. Repetimos a dose quatro vezes mais, mas sempre longe da Europa. Nunca mais nos deixaram humilhá-los daquele jeito.</p>
<p>No jogo amistoso contra a Alemanha, vimos como o autismo do improviso fundado na exacerbação do ego, e não nos desafios impostos pela cultura da escassez, unido a um técnico que está na mão da mídia monopolista e da cartolagem sem freio (e por isso deve pedir para sair), levaram a seleção brasileira a um beco sem saída. A vitória da Alemanha por 3 a 2 em Sttugart nesta quarta-feira foi a vitória da lógica contra o improviso sem base, aquele que é fruto não da escassez, mas do excesso, da soberba. Aquele que perde por não ter tido dificuldades para se consolidar, já que é resultado dessa mixórdia suspeita em que se transformou o esporte.</p>
<p>A lógica obedece à natureza do futebol, que é coletivo. Não é tênis nem jogo de dardos, em que existe isolamento dos protagonistas. Alemanha é time em que as individualidades se sintonizam, graças ao trabalho do técnico e à postura adotada pelos jogadores. A partir dessa sintonia, que serve como base, os talentos podem se desdobrar, manifestar, compor um acervo de jogados objetivas. Já o Brasil é um tecido descosturado, onde indivíduos tentam cobrir o grande furo da falta de consistência coletiva. Perdemos a pista da lógica do improviso: este sem manifesta quando a criatividade é convocada e se alia ao planejamento e à técnica, como aconteceu na seleção brasileira de 1970. Naquele momento, levamos o gênio nos ombros da estátua, que até hoje está lá, na cidade do México.</p>
<p>Vimos nossos erros várias vezes no jogo. O zagueiro que tenta driblar e acaba perdendo a bola para o atacante, que cruza para o companheiro completar nas redes. O drible repetido no miolo da área sem objetividade, apenas fazendo zigue zague entre a defesa para não chegar a lugar nenhum. A falta de chutes a gol, fruto dessa indecisão que confina cada jogador a um papel sem apoio dos outros. Perdemos a embocadura da cultura da escassez que nos gerou. Sucumbimos diante da lógica tradicional, representada pela tenacidade alemã. Não impomos mais a lógica do improviso em estado de arte (que é também fruto da força) que encontrou soluções originais. Mas improvisamos concentrados no ego dos jogadores, como o Pato, que em vez de se contentar em fazer golzinhos, sonha em fazer golaços.</p>
<p>Por que acontece isso? Acredito que é a falta de grandes cabeças no comando do futebol (o que acontece também em todas essas áreas, na atual fase de desconstrução nacional). Cito o caso Mario Chamie como exemplo. Quando uma grande cabeça se manifesta e está na maré alta da sua atuação, é comum virarem-lhe as costas, como aconteceu com ele, naquele início de gestão frente à secretaria municipal de Cultura, quando Reynaldo de Barros iniciava seus trabalhos à frente da Prefeitura. Reynaldo era conhecido como o preposto do governador Maluf e isso bastou para que recaíssem sobre Chamie aquele olho branco cavernoso que conhecemos bem. Claro que a biografia, a trajetória, a obra e os grandes feitos do poeta na sua brilhante gestão sepultaram as maledicências. Hoje, quando não está mais entre nós, todos adoram citá-lo e homenageá-lo, mas naqueles meses terríveis em que ele começava sua vida pública na política cultural, fui pioneiro e decidi entrevistá-lo para o caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo. Deu capa, graças à editora da época do caderno, Helô Machado.</p>
<p>E eu nem era repórter, apenas um copy, mas tinha sido liberado por Helô para fazer matérias especiais e fui a campo. Na nossa conversa com Chamie, ele transcorreu longamente sobre seus planos e os conceitos que iriam norteá-lo. Ele trouxe os resultados dessa cultura da escassez, os processos e os protagonistas para dentro de sua grande obra, o Centro Cultural Vergueiro, que mais tarde, depois de ter sido duramente criticado pelos oportunistas que bem conhecemos, foi encampado em todos os seus cargos. Mas naquela época, em que o secretário vinha me buscar em casa para mostrar sua obra, vi como foi feito aquele Centro que somava todos os vetores da cultura e era ao mesmo tempo teatro, cinema, biblioteca, lugar de debates, escola e área de lazer. Foi quando nasceu a semente do chamado multiuso,que hoje serve para múltiplas falcatruas com o dinheiro público.</p>
<p>Criticaram até o lugar onde foi instalado o centro, perto da estação Vergueiro do Metrô, mas Chamie argumentava: “O pipoqueiro não erra o ponto”, dizia, apontando para a carrocinha já instalada no local logo que foi inaugurado. Claro que também bateram nele porque a inauguração não flagrava a obra em sua totalidade, ainda havia muito o que fazer. Mas o que interessava a Chamie eram os processos e como eles, pela transparência, poderiam acumular e incentivar os autores dessa cultura da escassez que, com o apoio do poder público, poderiam passar por cima das precariedades endêmicas para fazer cultura.</p>
<p>Somado ao seu celebrado trabalho de professor e seus livros de ensaios (tão importantes quanto os de sua poesia), Chamie é uma inteligência luminosa num país tomado pelas trevas, onde o conhecimento está amarrado a mil aparelhamentos burros, a começar por ideologias mal assimiladas e adaptadas ao jogo bruto da política. Precisamos dede cabeças assim no comando das políticas públicas, especialmente nas de educação e cultura. Não podemos mais continuar virando as costas para quem, independente dos esquemas ideológicos e partidários, tem muito a contribuir. Mas se continuarmos na mão da burrice e da malandragem, continuaremos rolando precipício abaixo.</p>
<p>Nem é preciso convocar um poeta para o comando de futebol. Basta uma inteligência agressiva, uma ética granítica e um sentimento de nacionalidade explícito. Pouca coisa.</p>
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		<title>COPA AMÉRICA 2011: A ORIGEM ESPÚRIA DA DERROTA</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jul 2011 01:12:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esportes]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Representar o país é a única coisa legítima da atual seleção brasileira. O resto é espúrio, a começar pela sua origem, já que ela foi convocada a partir do ódio ao Dunga, alimentado pela Rede Globo, contrariada em seus hábitos de invadir a concentração para fazer matéria. Dunga se recusou e a briga [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Representar o país é a única coisa legítima da atual seleção brasileira. O resto é espúrio, a começar pela sua origem, já que ela foi convocada a partir do ódio ao Dunga, alimentado pela Rede Globo, contrariada em seus hábitos de invadir a concentração para fazer matéria. Dunga se recusou e a briga gerada pelo evento desestabilizou o Brasil em plena Copa da África. Perdemos em função desse conflito, já que o time vinha bem, estava classificado, era vencedor, ganhou a Copa América, ficou em primeiro lugar nas eliminatórias, ocupava o topo do ranking da Fifa. A madame do Jornal Nacional quis entrar nos aposentos dos jogadores e foi barrada e por isso se vingou.</p>
<p>Faz parte dessa origem espúria a intenção de pintar o atual selecionado como uma resposta às escalações do Dunga, que não convocou os emergentes, na época, Ganso e Neymar, pois isso iria quebrar a forte estrutura montada ao longo de quatro anos de trabalho. Houve grita geral da imprensa, da mídia em geral e de muitos torcedores, mas Dunga estava certo. Neymar e Ganso são, como Messi, jogadores medianos, com alguns lances ótimos, mas fica nisso. É preciso trabalhar o talento, principalmente tirando-lhe a máscara, enquadrando-o num espírito de equipe e barrando a pressão da vaidade fomentada pela indústria do espetáculo. Um jogador não pode gastar os tubos para aparar penacho e chegar em campo e fazer quase nada.</p>
<p>Futebol é como cinema ou jornalismo. Há o exercício autoral da profissão, mas é um trabalho de equipe. Nada se faz sozinho. Mas a indústria financeira (a seleção é patrocinada por bancos), que é vaso comunicante da indústria de espetáculo, carrega no ego como se o jogo fosse composto apenas por protagonistas e não por conjuntos bem articulados e em sintonia fina. Vimos o que é o Messi na seleção, que não é um time: não faz nada. Ou Fred, que brilha no Fluminense, que é um time, e ficou perdido na Copa, ainda mais porque esquentou banco demais e só foi colocado nos últimos minutos.</p>
<p>Não vou entrar no mérito dos jogadores, já que todos jogaram mal contra o Paraguai, contrariando assim as análises da Globo, que achou que jogaram bem, só faltou gol. Se faltou gol numa partida decisiva é porque não jogaram bem, não foram objetivos, implodiram nas jogadas individuais, nos passes multiplicados por um milhão até dentro da área. Ninguém tinha peito para bater em gol e quando faziam, como Ramires, jogavam nos eucaliptos (o velho limites dos antigos estádios da várzea). E jogaram mal porque a seleção tem também outra origem espúria: é comandada pelos empresários do futebol, os que vendem craque no nascedouro até para o Pólo Norte, pelos anunciantes, que colocam propaganda até na bunda dos jogadores, e pelo monopólio das transmissões, capitaneada por alguém que foi execrado pela opinião pública recentemente nas mídias sociais.</p>
<p>Fazendo um balanço: você monta um time pretensamente de “arte”, com jogadores valorizados pelo empresarismo predatório, à mercê da avalanche de anunciantes trilionários e de madames ou coronéis da mídia e coloca em campo mascarados de gola alta, metidos a besta, hipercraques antes do tempo e não consegue ganhar nem da Venezuela, que ficava na rabeira e hoje está classificada. Somos piores hoje do que a Venezuela, já que ela se classificou, nós não. Ou você faz como o Dunga, que manda na escalação e peita a Globo, ou como o Felipão, que criou uma barreira contra a frescurada da imprensa, ou dança como o Mano Menezes, que está na mão da televisão.</p>
<p>Sem dúvida que o excesso de areia, armadilha argentino-paraguaia, interferiu nos pênaltis perdidos, mas os paraguaios conseguiram marcar, pois não? Então a areia não pode ser estrangeira, é isenta, prejudica ambos. O que houve foi quebra do salto. A máscara caiu, mas em vão. Mano Menezes continua, Ricardo Teixeira continua, o banco mais sustentável de todos os universos continua. Temos a sorte de sermos sede da próxima Copa do Mundo pois não nos classificaríamos desta vez (e do jeito que está, corremos o risco de nem ir para as quartas de final).</p>
<p>O Brasil precisa parar de exportar craques e importar máscara. Precisa forttalecer seus clubes, verdadeiras escolas de futebol brasileiro e não deixar que a meninada vá aprender o futebol estrangeiro. Fizemos escola, brilhamos e depois, por ganância, fechamos. Matamos a galinha dos ovos de ouro. Nem aprendemos as lições de fábulas conhecidas. Nossa tragédia continuará se não mudarmos radicalmente.</p>
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		<title>GRENAL, A GUERRA CENTENÁRIA</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Oct 2010 21:28:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esportes]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Grenal é Grenal, ou seja, guerra. Vale tudo, desde que o adversário perca sua louca pretensão de existir. Tem hino, marcha, farda, bandeira, pólvora, bomba. Mas há uma diferença. Nesse conflito centenário que ocupa gerações de torcedores dos dois principais times gaúchos, vitória não significa armistício. E derrota jamais é rendição. Os soldados [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
Grenal é Grenal, ou seja, guerra. Vale tudo, desde que o adversário perca sua louca pretensão de existir. Tem hino, marcha, farda, bandeira, pólvora, bomba. Mas há uma diferença. Nesse conflito centenário que ocupa gerações de torcedores dos dois principais times gaúchos, vitória não significa armistício. E derrota jamais é rendição. Os soldados nunca abandonam o jogo, nem voltam para casa: estão sempre no front, vestidos para matar. A camiseta do time da vocação não é um ornamento, é a primeira pele. Depois vem a outra, a que sofre arranhões e contusões. No estádio, no bar, nas ruas, nos trens, o azul do Grêmio e o vermelho do Internacional sangram mais do que os ferimentos reais.</p>
<p>Por isso não existe Grenal amistoso, jogo que significa sempre uma decisão. No coração de cada torcedor, a verdade dói: nenhum dos dois compartilha territórios, não convive em acordos tácitos de fronteiras. Cada um tem pleno domínio dos espaços. O estádio é um só, o Olímpico gremista, ou o Gigante da Beira Rio colorado. São realidades incomensuráveis entre si. Foram construídos sob vaias. São vistos, em cada lado, como fantasias megalômanos de inimigos convencidos de que fazem parte do futebol. Neles, o que se disputa não são torneios, campeonatos, títulos, mas a prova de que os outros não passam de ficção. Não se trata, portanto, de um estado de espírito definido pela divisão, mas hegemônico em cada minuto do dia.</p>
<p>Essa certeza absoluta de que o time do coração é único e que na outra margem só existem lendas, não significa que as pessoas se trucidem quando se avistam, mesmo que isso possa ter acontecido às vezes nesse século de História. A guerra é no sistema de valores, no imaginário, na cultura esportiva, na argumentação eloqüente, no discurso fúnebre, na passeata ensandecida, na roda de conversa. A linguagem, pautada pela lógica transtornada, trabalha a representação da guerra.</p>
<p>Se você é adventício, faz parte da área nebulosa onde, parece, existem outras opções, não se aproxime de nenhum ajuntamento envolvido na insânia. Primeiro, que não será notado. Segundo, não adianta fingir, você será reprovado no primeiro teste. E terceiro, porque poderá ser visto como uma criação bizarra de um universo remoto.</p>
<p>CHAMAM DE PAIXÃO, DIZEM QUE É DOENÇA</p>
<p>Aconteceu comigo. Perdi a chance de ser colorado quando voltei de um veraneio com primos fanáticos. No primeiro instante em que tentei assumir a nova tendência, fui podado por pressão familiar: ali, e eu não sabia, eram todos gremistas. Contra a vontade, me adaptei à imposição. Mas com o tempo fui perdendo o pique, deixado para trás como nas marchas forçadas, em que os elementos mais aguerridos tomam a dianteira e somem numa nuvem de pó. Ficamos nós, abandonados no ermo onde medram os outros times, todos marginais à febre de um alistamento incompreensível.</p>
<p>Quem está fora, não consegue entender. Não se trata de uma alegoria, metáfora ou parábola. Nem pode ser visto como a política, “a guerra por outros meios”, segundo o velho jargão de Clausewitz. É a coisa em si. No momento em que os adversários se lançam uns contra os outros, para decidir quem restará vivo dos escombros, não pode haver dúvida sobre o que está realmente acontecendo. Não é esporte, passatempo dos fracos. É um mistério. Chamam de paixão. Dizem que é doença. Mas é algo maior. É a guerra, assumida por vocação. Não é amor ou algo parecido, mas estratégia. Nem divertimento, mas tática. Ninguém veio ao mundo a passeio. Há uma tarefa a cumprir e por isso o campo de batalha fica coalhado de bravos.</p>
<p>As pessoas nascem coloradas ou gremistas com pleno conhecimento do lugar que ocupam em cada batalha. Não há margem para a traição e a defecção. A desistência, a passagem para o outro lado, se é que um dia existiu, é tratada com pelotão de fuzilamento. Por isso um setorista de futebol da capital gaúcha é um correspondente de guerra. Ele conta as baixas, mais do que reporta os fatos. O que poderá fazer a crônica esportiva diante de torcedores que comemoram por cem anos um simples campeonato? Foi o que aconteceu com o Grêmio em 1935, quando disputou com o Internacional e conquistou o título de campeão do centenário da Revolução Farroupilha. Acertou-se que por cem anos haveria uma confraternização no dia 22 de setembro. Os ágapes vão se repetir até 2035 e talvez a decisão de comemorar seja prorrogada.</p>
<p>O Grenal Farroupilha é ideal para definir o status da guerra. Principalmente pela presença de um personagem lendário: Eurico Lara, o “craque imortal” do hino gremista composto por Lupicínio Rodrigues (que também fez o hino colorado). Lara estava em avançado estado de tuberculose, mas assim mesmo foi lá fechar o gol. Era questão de vida ou morte. Saiu coberto de glórias e dois meses depois morreu. Tenho uma ligação profunda com a memória desse jogador uruguaianense, nascido em 1897.</p>
<p>Ele dava nome ao estádio a um quarteirão da minha casa. Encarnava todas as histórias heróicas dos goleiros que quebravam um braço e defendiam com o outro. As saídas do estádio Eurico Lara pertencem hoje a um cânone da memória. Lembro que depois do jogo eu ficava esperando a multidão que saía do jogo envergando, em sua maioria, terno, gravata e chapéu. Era um programa de gala o futebol do domingo à tarde. Perguntava sempre o resultado para todos os que passavam e não me contentava em saber a resposta. Precisa ouvi-la repetidas vezes. Como se treinasse para firmar a lembrança do que hoje, época do desregramento da geral, parece até mentira.</p>
<p>Lara não queria sair do lugar onde nasceu. Mas, ao servir no Exército, acabou transferido para Porto Alegre, por obra dos cartolas. Na nossa terra, defendia as cores amarelo e preto do E.C. Uruguaiana, fundado em 1912. É consenso achar que o futebol foi introduzido no Brasil por um só caminho, o do Charles Muller. Seria engraçado achar que em poucos anos o esporte atravessasse milhares de quilômetros a partir de São Paulo até a fronteira gaúcha para gerar times ancestrais como o Uruguaiana. A verdade foi decifrada na tese &#8220;A bola nas redes e o enredo do lugar: uma geografia do futebol e de seu advento no Rio Grande do Sul&#8221;, de Gilmar Mascarenhas de Jesus: os ingleses levaram o futebol via estrada de ferro de Buenos Aires e Montevidéu para as cidades sentinelas do pampa.</p>
<p>UM IMENSO CAMPO DE FUTEBOL</p>
<p>Foi assim que foi desenvolvido um outro tipo de postura futebolística, mais afeita aos rigores do clima, sem cair na tentação do determinismo geográfico. Falo do clima humano, franco e aberto dos campos sem barreiras. Pode-se dizer que o pampa é um imenso campo de futebol, exagerando na metáfora. Espaço é que nunca faltou naquelas bandas, onde nasceram grandes jogadores como Gessy Lima, bem no ano do Grenal Farroupilha. Gessy era capaz de feitos impressionante, como colocar um monte de gols no Boca Juniors em Buenos Aires, depois de uma farra por ter passado no vestibular de Odontologia. Tem veterano do jornalismo esportivo que jura não ter visto outro jogador igual, com exceção de Pelé. Gessy, que se foi em 1989, abandonou o futebol para sempre quando se formou, aos 26 anos.</p>
<p>Poucos anos atrás estive em Uruguaiana na época de uma decisão de campeonato. Não lembro quem venceu, mas o que me impressionou – já que há tempos não visitava minha cidade – foram as familias uniformizadas, do avô à criança de colo. Saíram para a praça para ver o adversário comemorar o título. Não houve briga, nem tiro, nem nada. A guerra não impede a civilização. Ao contrário: a tempera, com certezas herdadas que formam um conjunto de princípios. A bravura colorada ou a determinação gremista não impedem que haja nação de uma só bandeira. Lá, naquele continente onde se decidiu o tamanho do país soberano, o Grenal talvez seja o que restou de um ímpeto que inventou o país.</p>
<p>Por isso o Grenal é uma guerra, mas com uma diferença: é assumida por cidadãos livres, que não abrem mão de suas convicções e não matam por amor. Fazem tudo para que seu lado predomine, mas possuem persistência, qualidade dos guerreiros. Se não for nesta temporada, será na próxima. Ninguém convencerá o inimigo a desistir. Pois, se isso acontecer, acaba o jogo, é o fim da graça. O bom é continuar pelos séculos afora, como se cada decisão fosse a última e cada gol a consagração de um destino.</p>
<p><em>Matéria publicada na revista Foot-Ball</em></p>
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		<title>FUTEBOL PARA INICIANTES</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Jul 2010 20:48:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Sou veterano em futebol. Ajudei a fundar um time há 50 anos, que está vivo até hoje, o E.C. Guarani, de Uruguaiana. Fui goleiro da minha rua, da minha classe, do meu colégio. Fiz gol no ângulo numa aula de educação física e outro por cobertura, chutando do canto, que bateu na trave [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Sou veterano em futebol. Ajudei a fundar um time há 50 anos, que está vivo até hoje, o E.C. Guarani, de Uruguaiana. Fui goleiro da minha rua, da minha classe, do meu colégio. Fiz gol no ângulo numa aula de educação física e outro por cobertura, chutando do canto, que bateu na trave e entrou. Fechei o gol em inúmeras ocasiões, defendendo vários pênalties num único torneio. Vi gol de Pelé ao vivo, no estádio Olímpico de Porto Alegre. Vi a seleção de 70 jogar antes de ir para o México ser tricampeã.</p>
<p>Sou gremista e corintiano sem nenhum fanatismo, até mesmo com algumas desistências cíclicas, quando torcer me enche a paciência. Escrevo razoavelmente sobre esporte há vários anos. Acompanho a Copa do Mundo desde 1962. Vejo os principais jogos dos campeonatos estaduais e federais. Não sou, portanto, iniciante. E posso pontificar sobre futebol para mostrar alguns caminhos para os iniciantes. Não me refiro aos torcedores, que são profissionais do ramo. Mas aos falsos entendidos em futebol, que vivem dizendo coisas na mídia, que erram todos os prognósticos e sentem raiva de técnico da seleção. Vou dizer como a coisa funciona.</p>
<p>Não existe futebol alegre. O que é alegre é a cena que você compõe na memória. Você junta as melhores lances na cabecinha e acha que esse é o futebol brasileiro. Como o paradigma não funciona na prática, porque futebol dá trabalho, você vive se decepcionando, dizendo que este não é o futebol brasileiro, e imediatamente migra para o Cristiano Ronaldo, o Drogba, o Messi e quem mais for surgindo na tua frente</p>
<p>O futebol é triste como um blues. É um jogo que se joga com os pés, porra, e não com beija-flores no cocuruto ou borboletas na lapela. Isso não quer dizer que seja obrigatoriamente bruto. Só é bruto quando o Tevez faz gol impedido no México ou o Messi dá um totozinho, desses que o Ronaldo vive acertando no gol e erra. Não é bruto quando o capitão Lucio ganha a parada, ou Zito e Vavá rompem na área, mas quando um cavalo como o Felipe Mello pisoteia o jogador holandês. Ou seja, há tristeza no futebol, há brutalidade, mas como num blues rascante, há melodia, graça, leveza e grandeza. Há chapéu na área e folha seca. Isso é blues, não lambada.</p>
<p>Para você provar o que te digo, quebre a rotina e pense um pouco. Todos os seus prognósticos da Copa furaram, porque a realidade no futebol, jogo dialético por excelência, que vive imerso em paradoxos, não é para o teu bico. Você apostou na França, na Inglaterra e que sei eu mais e pronto, foram todos embora. Por que? Porque você é um iniciante e acha que é entendido. Estava na cara que os farsantes que ludibriaram a Irlanda nas eliminatórias, como fizeram os jogadores franceses, tinham perna curta. E que aquele bronco do Rooney nunca foi craque pois isso é uma invenção de vocês, que não enxergam as evidências.</p>
<p>Craque é o Elano, que ninguém dava nada e fez mais gols que o fenômeno Messi, que não fez nenhum. É o Maicon, que fez gol sem ângulo. É o Robinho, herdeiro de Pelé, é o Juan, o Lúcio, não o Verón, o Cagón e o Bostión. Entenda, ser estrangeiro é uma merda, por isso foi inventado o Brasil, para os estrangeiros se livrarem dessa sina. O mundo inteiro veste a camisa canarinho pentacampeã do mundo, só vocês que não. Por que? Por que são idênticos ao Maradona, usam óculos escuros com diamantes e confundem a faísca da jóia com a própria identidade. Vão carpir um lote.</p>
<p>Quando o Brasil é eliminado nas quartas de final, não baixem a calças para o Zizou ou o Robben. É feio baixar as calças. Deixem as calças postas, as botas postas, o cinto apertado e carreguem a cartucheira que lá vem bala. E se perguntem porque milhares de paraguaios celebraram suas conquistas no Mato Grosso. Não existe mais fronteira por lá? Outra coisa: toda vez que você ouvir falar de um homem integro, digno, corajoso, como Dunga, não abra a matraca numa risada estertórica. Ponha-se de pé em sinal de respeito.</p>
<p>Porque o capitão da seleção canarinho pentacampeã do mundo está passando na sua frente. Um patriota lutador é raro hoje em dia. Aprenda com ele e não diga tanta asneira. Vai chutar uma bola de meia para ver que a jabulani é pinto perto de uma resma de papel amassado no terreno baldio esburacado e íngreme. Vai esfolar o dedão, como eu fiz na infância para aprender a respeitar os jogadores, aqueles que se quebram em campo defendendo as cores nacionais. Não os chame de comerciantes. Alguns são, mas a maioria não.</p>
<p>Goste do seu país, seu coisa, que o país existe para a nossa sobrevivência e por ele somos capazes de pegar em armas, que dirá formar uma equipe e enfrentar os coxas brancas e os coices de todas as cores em territórios ermos de Brasil, lá onde a coruja pia e Deus está na arquibancada vendo como você vai se sair dessa.</p>
<p>Aprenda enquanto estou vivo.</p>
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		<title>COPA 2010: ADIDAS E FIFA MUDAM O FUTEBOL</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 21:23:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Conseguiram enfim. Não bastou jogar todo o poder no futebol no colo da publicidade, que coloca marca até na bunda dos jogadores no Brasileirão. Não bastou implantar uma política extrativista de recursos naturais sugando craques prontos ou em potencial de todo mundo para abastecer os shows milionários na Europa. Não bastou transformar o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Conseguiram enfim. Não bastou jogar todo o poder no futebol no colo da publicidade, que coloca marca até na bunda dos jogadores no Brasileirão. Não bastou implantar uma política extrativista de recursos naturais sugando craques prontos ou em potencial de todo mundo para abastecer os shows milionários na Europa. Não bastou transformar o amor à camisa em fidelização de produtos ou inflar o valor dos craques dentro da lógica da especulação financeira pirata e predatória. Também não bastou abafar escândalos sucessivos de arbitragem, eternidade de cartolas nos cargos e monopolização total do jogo sob as ordens da Fifa. Precisou fazer mais. Precisou iniciar a desconstrução definitiva do futebol por meio da bola Jabulani.</p>
<p>A Adidas fabrica a bola Jabulani na China (o nome africano é só marketing), com mão-de-obra escrava. Por custarem quase nada, os operários chineses mantêm o enriquecimento crescente de maganos como os donos da Nike, Adidas e outras multinacionais (não há corrupção na China? Toda essa bufunfa não azeita cargos importantes na ditadura chinesa?). Agora começa a haver greve no império das quinquilharias e produtos fajutos.</p>
<p>É a maior tralha, porqueira, ou o que se diga dessa bola de plástico de supermercado ou de praia que caiu como um petardo no miolo da mais importante competição de futebol do mundo. Vejam os frangos, o gol contra, a bola disparando miseravelmente com qualquer toque, voando para fora dos limites, atingindo arquibancadas, cruzando o campo com facilidade. Lembram como Pelé deslumbrou a todos chutando a gol da linha intermediária? Era difícil fazer um lance desses com uma bola decente. Com a Jabulani, virou brincadeira.</p>
<p>Adidas e Fifa querem que o futebol seja só show e não mais um jogo tradicional, com fundas raízes no imaginário e identidade das nações, que é a maior riqueza desse esporte e, paradoxalmente, está sendo jogado no lixo. Mudaram o peso, fizeram a bola com oito gomos e não 32 para mudar o itinerário dos chutes. Todo mundo vai ter que se adaptar. O tiro está saindo pela culatra: como ninguém consegue dominar o troço, são poucos os gols. Por enquanto, a atual geração de jogadores virou um bando de peladeiros, errando tudo, porque a porcaria escapa, por ser outra coisa, menos uma bola oficial de futebol. Mas notem o desprezo que vai atingir a formação dos craques. Crianças crescerão com a merda da bola e só saberão jogar com ela. Que tipo de jogadores serão? Facilmente manipuláveis, já que o futebol vai virar loteria, ganha quem tiver mais sorte tocando na quinquilharia.</p>
<p>O desplante com que colocaram o principal objeto do jogo, a bola, numa Copa sem avisar ninguém, sem que ninguém soubesse o que aconteceria, é um escândalo sem precedentes. Não adiantou os jogadores chiarem. Foram acusados de serem empregados da Nike, daí a reclamação. Não foi levado em conta que nosso goleiro Julio César tinha razão ao reclamar primeiro, Robinho sabia o que estava falando ao dizer que ela não prestava. Vemos o resultado nos jogos. A bola faz o que quer e todo mundo faz papel de palhaço. Ok, o goleiro inglês Green já tinha tomado frango antes. Mas vejam como ele foi com segurança na bola e acabou sendo traído por ela.</p>
<p>A Copa do Mundo é um confronto entre nacionalidades. O que se usa nas arquibancadas e nas comemorações são as imagens que os países fazem de si mesmo e uns dos outros. Mas em campo vemos pessoas idênticas de qualquer país, com algumas variações raciais, mas nem tanto, já que tem pele diferente em quase todos os times (com exceção das eugenias asiáticas). A Copa, além de ser um up-grade, uma atualização sobre o esporte, é também a prova de que não há mais diferenças significativas. Tudo foi reduzido ao mesmo estilo de vida, apesar de serem nacionalidades bem marcadas, ditadas por fronteiras consolidadas, o que nos salva da barbárie, por enquanto.</p>
<p>Os povos diferem nas suas identidades nacionais, mas não no estilo de vida. Leis, bandeiras, hábitos, geografias de um lado. Fast-food, internet, roupas esportivas de outro. No futebol as coisas se misturam. A modernidade mantém tudo sob o mesmo jugo, repetindo inclusive as diversidades internas (populações com várias etnias, por exemplo). Mas a cultura, a memória e a vivência em espaços diferentes trabalham uma outra diversidade. É complicado. Nas seleções, existem equipes que são legiões estrangeiras. Isso diminui ainda mais as diferenças dentro de campo.</p>
<p>Mas a crônica esportiva, sem ter por onde pegar, e agarra a conceitos equivocados como característica e detalhe. É uma avalanche de características e detalhes nas narrações e comentários. Os estilos de jogar se parecem, mas a percepção da mídia força a barra de que existem diferenças gritantes. Para mim a base do que se joga hoje é uma só: prudência, um só toque por jogador, sintonia radical nos passes, chuveirinho na área, contra-ataques. O que diferencia não é o detalhe da jogada, mas o talento e a individualidade dos craques, que podem surgir em qualquer lugar. Mas não se pode centrar muito em determinadas estrelas. Ronaldinho Gaúcho não aconteceu em 2006, nem Eto´o estreou bem contra o Japão. Messi se saiu bem, mas não foi essa coisa toda que se esperou dele, por enquanto.</p>
<p>Talvez nem Kaká ou Robinho se destaquem. Minha aposta é num reseva. Nilmar, mas isso é só um palpite. O que me invoca é a insistência dos jornalistas em ficar medindo altura dos jogadores, como se futebol fosse basquete ou vôlei. Um deles chegou a dizer que o atacante alto nem precisou saltar para o cabeceio contra o gol. O cara se abaixou para cabecear! Esqueceram do Romário, baixinho entre gringos altos, que levava a melhor.</p>
<p>A Copa vai rolando. É sempre bom ver, apesar do cornetismo militante, uma falsa tradição na África do Sul, pois a moda da vuvuzuela foi inventada em 2001. Para mim, é espírito de porco ficar soprando o troço durante o jogo todo, atordoando geral. Muitos sul-africanos são contra, não apenas os estrangeiros.</p>
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		<title>FOUCAULT NOS PÉS DE ROBINHO</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 23:28:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esportes]]></category>

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		<description><![CDATA[A intenção é o segredo de Robinho. Ele pedala em cima da bola para ocultar seus verdadeiros propósitos, mascarar a vontade que direciona a jogada, impedir que o adversário decifre o que vai fazer. Isso evita que o outro leia e entenda a sua linguagem (se encararmos o futebol como um acordo de signos articulados). Em As palavras e as coisas , o texto de Michel Foucault apresenta a palavra proposição (e não intenção) como o motor da criação da linguagem, que faz dela uma representação (ordenada pela gramática) da representação (os sinais que surgem pela ação da natureza e do corpo humano).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
<em>A</em> <strong>intenção </strong>é o segredo de Robinho. Ele pedala em cima da bola para ocultar seus verdadeiros propósitos, mascarar a vontade que direciona a jogada, impedir que o adversário decifre o que vai fazer. Isso evita que o outro leia e entenda a sua linguagem (se encararmos o futebol como um acordo de signos articulados). Em <strong>As palavras e as coisas</strong> , o texto de Michel Foucault apresenta a palavra proposição (e não intenção) como o motor da criação da linguagem, que faz dela uma representação (ordenada pela gramática) da representação (os sinais que surgem pela ação da natureza e do corpo humano). Ou seja, o segredo não está no drible, o gesto reconhecido por todos, mas naquilo que faz do gesto um relacionamento de significados. As regras (o futebol) já estão postas, a identidade (o futebol brasileiro) já está consolidada, o estilo (a maneira de jogar) reconhecido, mas cada jogo é a possibilidade de gerar o discurso (o conjunto de ações criado em campo) por meio da intenção e levá-lo para o infinito. Robinho esconde de quem o enfrenta o tipo de lance que vai escolher ou inventar. Esconde o seu discurso. Ele sabe que a bola não está no centro da trama, nem o drible, mas o raciocínio, rápido como a luz.</p>
<p><strong>BLOQUEIO</strong>- A solução está em conseguir ler o que o adversário escreve. Se for Roberto Carlos que vai bater na bola, a leitura é fácil: não há enigmas, não existe uma linguagem cifrada. Ele usa a força, dirigindo-se a espaços existentes, como a barreira ou a linha de fundo (às vezes acerta). Com Ronaldinho Gaúcho ou mesmo com o Rogério, do São Paulo, existe um segredo: a bola ocupa a região não visível para ser colocada. Lá, nesse espaço irreconhecível, é que acontece o gol. Não é porque a bola caia em folha seca ou o goleiro não a alcance. Simplesmente é porque o espaço criado pelo toque do artilheiro não existia um segundo antes de acontecer. Esse espaço se revela quando, em pleno vôo, a bola escolhe o lugar impossível de entrar e aí encontra o canal que a leva para as redes. Vocação, talento e conhecimento realizam a obra.</p>
<p>Um dos muitos recursos foi reconhecido por Galvão Bueno: Robinho deu um passe típico de futebol de areia, levantando a bola por indução, com o pé, para o centro da área. Ronaldinho tem um acervo igualmente significativo. Ele consegue passar por três porque veio do futebol concentrado, o de salão, o­nde há menos espaço e, portanto, mais exigências para furar o bloqueio. Traz a bola com a sola para si, mas solta em seguida. Com o outro pé desvia-se da intenção do adversário em desarmá-lo. Joga todo o corpo para um lado enquanto o pé procura outros caminhos, procurando se desvencilhar de uma rede. Rola novamente a bola e bate em diagonal para trás, de calcanhar, nos pés do companheiro, como fez num jogo pelo Barcelona.</p>
<p><strong>GARRINCHA</strong> &#8211; Garrincha pode nos ajudar a entender melhor esse embrulho. Há um texto clássico de Armando Nogueira que descreve o drible, sempre o mesmo, do grande craque, que sai invariavelmente para a direita. Todos sabem que ele vai sair por ali, escreve Nogueira, e é exatamente isso que acontece. Significa que o drible não importa, o que vale é a quantidade de intenções que Garrincha projeta na jogada. Ele tinha uma maneira única de fazer isso. Fica parado, por exemplo, fingindo que a iniciativa deveria ser do adversário, já que jogo é movimento, não imobilidade. Isso já desconcerta o outro. Este, que esperava o arranque do artilheiro, fica confuso quando vê Garrincha ficar imóvel. Como o gênio está um pouco longe do objeto de desejo, há também a intenção de fazer crer que existe disponibilidade, parece o velho pega-pega: quem chega primeiro? Mas o adversário sabe quem Garrincha é, e também pára. Então Garrincha imita os gestos de um arranque como quem vai sair jogando. Isso gera uma dúvida no oponente, pois se Garrincha se mexeu, e rápido como é, poderá fatalmente driblá-lo. Então o adversário coloca também todo o movimento para cima do craque. Mas Garrincha, depois de se retorcer todo fingindo movimento, pára novamente. Volta-se ao início da jogada. A idéia é confundir o outro.</p>
<p>O craque então se aproxima novamente e toca levemente com o pé, quase não tirando a bola do lugar (isso desfoca o olhar do adversário, que presta atenção no que não importa, nos gestos de Garrincha). O que está explícito é a intenção (falsa) do jogador de sair dominando por algum lugar (mas essa decisão ainda não foi tomada, é preciso aguardar o adversário batido). O outro então não agüenta mais e cai em cima dele. Está derrotado. Garrincha já fez o serviço. Não deixou que decifrassem sua linguagem, entendessem sua intenção. Aí é só sair pela direita e reencontrar a glória.</p>
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		<title>GOLS DO MÁGICO MANDRAKE</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 22:38:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esportes]]></category>

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		<description><![CDATA[É incrível esse milissegundo em que o goleiro, paralisado, ordena seu corpo em direção à bola, que já saía do chão para alçar vôo novamente rumo à trave de cima. O comando que movimentou o arqueiro chegou um século atrasado. Era o que o corpo queria fazer antes do desenlace, mas emperrou na certeza obscura de que a bola iria se perder para sempre. É de arrepiar ver o goleiro totalmente imóvel olhando para cima (só o olho acompanha a velocidade do chute) e a bola batendo, despencando para o solo, voltando para cima, para quicar e entrar, enquanto o goleiro tenta investir contra o irreparável.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>A rodada do Brasileirão do dia 7 de setembro de 2005 foi de arrepiar, mas vi pouco futebol, porque a TV aberta esconde os fatos de propósito para forçar a população a pagar para ver o que gosta. Como tenho outras despesas mais importantes, me limitei a ver o excelente Fluminense e Cruzeiro e alguns lances esparsos. Seleciono três momentos: o gol de falta de Ricardinho no Santos x Atlético Paranaense e os dois gols de Petkovic, do Flu, todos tirados da cartola de Mandrake, o mágico dos quadrinhos que virou sinônimo de jogada impossível nos tempos em que gibi era nosso videogame.</p>
<p>COMANDO &#8211; O de Ricardinho foi mais sensacional. A bola subiu para a arquibancada, mas a uma meia altura perigosa, paradoxo que nosso olho não suporta e vê apenas com um chute magistral em direção à área que fica muito acima do goleiro. Este fica paralisado, pois acredita no que imagina (e naquilo que o chute traiçoeiro sugere). Mas a bola foi tocada pelo craque, portanto tem outros endereços. Ela bate furiosamente no travessão, vai com força para o chão e volta para cima, para bater de novo no pau que limita a parte de cima da goleira. Só quando se choca pela segunda vez no travessão, antes de entrar para o fundo da rede, o goleiro se mexe.</p>
<p>É incrível esse milissegundo em que o goleiro, paralisado, ordena seu corpo em direção à bola, que já saía do chão para alçar vôo novamente rumo à trave de cima. O comando que movimentou o arqueiro chegou um século atrasado. Era o que o corpo queria fazer antes do desenlace, mas emperrou na certeza obscura de que a bola iria se perder para sempre. É de arrepiar ver o goleiro totalmente imóvel olhando para cima (só o olho acompanha a velocidade do chute) e a bola batendo, despencando para o solo, voltando para cima, para quicar e entrar, enquanto o goleiro tenta investir contra o irreparável.</p>
<p>Ricardinho ainda fez outro gol, de corrida, em que colocou a bola no canto esquerdo usando o lado do pé para dar o chute. Mas esse gol, também maravilhoso, não foi Mandrake.</p>
<p>LEGIÃO &#8211; Mandrake foram os dois de Petkovic. O primeiro consistiu na travessia da pequena área. Os narradores sempre erram, dizem que ele venceu dois adversários para chegar no gol. Para mim o grande craque atravessou o canal da Mancha, cruzou a linha Maginot, enfrentou a Legião Estrangeira, passou por dez mil combatentes, superou os espartanos de Leônidas e no final da jogada, diante do goleiro que se atirava em seu encalço, ele teve a manha de encontrar um espaço quântico onde deu um totózinho que elevou suavemente a bola.</p>
<p>Petkovic é absolutamente impossível. No seu segundo gol, ele limpa a área ao fazer a bola rolar para a esquerda, ocupar um ponto em que a percepção do adversário imagina que dali jamais sairá algo que preste. Petkovic engana todo mundo ao chutar a bola para os eucaliptos, aquele limite antigo (agora imaginário) dos gramados da periferia e que simbolizava o fim do mundo irreal do futebol e o início da desgraça, a vida normal de todos os dias. Pois a bola é assim chutada, numa direção tomada pelo desespero, sem nenhum poder de entrar em qualquer lugar plausível e eis que, diante do cansaço do olhar, a bola entra na gaveta, no ângulo supremo do nosso encantamento. É assim o jogo de futebol. Um programa ridículo em que pensamos encontrar o Mesmo, mas nos defrontamos com um coelho que salta da cartola e imita Louis Armstrong.</p>
<p>ARBITRAGEM &#8211; Um jogo de futebol tem várias versões. Uma para cada tipo de torcedor, jogador ou jornalista. Quem define a realidade é o árbitro, que diz se foi ou não gol, falta ou impedimento, ou se o jogo realmente terminou. Mas isso não basta. É preciso ter o comentarista de árbitro, um aliado corporativo de quem está decidindo os lances da partida. É uma invenção da Globo em que um ex-árbitro dá força para seu colega. É que existem inúmeras probabilidades de o futebol fazer cair a ficha dos telespectadores. Ei, as coisas podem ser diferentes, podem mudar, podem ter mais de uma versão. Isso é um perigo político e cultural. Não pode. Então vem o Arnaldo César Coelho, o José Roberto Wrigth ou aquele outro da Record que fala carimba, Luciano, carimba, que o gol foi legal, aquele chato insuportável, para dar voz de prisão ao olhar que corre solto pelos pés dos craques.</p>
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		<title>O POVO EM SUA MAJESTADE</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 20:05:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esportes]]></category>

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		<description><![CDATA[Pelé é o povo que chegou à majestade. É uma criatura dialética, vinda de longe, parte de uma geração que invadiu a cidadela adversária pela primeira vez. O reino já estava posto quando vieram os outros a seguir. Mas ficou a originalidade do gesto que inventou o sonho. Não há, portanto, armadilha quando se fala de Pelé. Ele é o povo que provou ter a capacidade de gerar o mito. Por isso, por onde passa, as pessoas procuram tocá-lo. O Rei é a carne que se fez Verbo, numa inversão do ato divino da criação. Ele não é um deus, é a pessoa que, para sempre, estará de pé, suado, olhando para onde ninguém vê.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Povo é uma palavra-mundéu, no mesmo sentido dado por Euclides da Cunha em Os Sertões para a cidade de Canudos: toda vez que você investe na armadilha, é enredado por ela. Há várias arapucas. A primeira é erradicá-la da nossa identidade (brasileiros são os outros). A segunda é usá-la em benefício de interesses políticos e publicitários (o populismo, que é sempre de direita). A terceira é roubar seu crédito quando alguém legitimamente popular se destaca. Pelé, por exemplo, seria um ET vindo do espaço, como já foi dito pela crítica esportiva. O povo atinge a majestade quando consegue fazer de suas origens o insumo para sua transcendência. Pelé nunca deixou de ser povo e tornou-se Rei, ungido pelo gênio de Nelson Rodrigues (em crônica selecionada na antologia de Ruy Castro, À sombra das chuteiras imortais) e a carreira inigualável. Mas toda pessoa longeva acumula esqueletos no armário. Faz parte da sobrevivência e da precariedade humana. Não se costuma perdoar a longevidade, nesta terra do eterno presente. Gênio bom é gênio morto. Mas o bom da majestade legítima é essa escassez provocada pelo humano. Torna maior aquele risco de luz que é sua vida terrena.</p>
<p>TALENTO &#8211; Pelé encarna o mito do Brasil soberano. Nascido e criado na Era Vargas, levou para os gramados o talento que floresceu na infância escudada em políticas públicas para a educação e o esporte. Construiu a técnica definitiva no embate físico com os adversários. E exibiu a grandeza do seu movimento, representado pelo corpo cinzelado pela perfeição. No futebol, o jogador pensa desde antes de receber a bola, disse uma vez Pelé para os americanos, ao explicar porque não poderia jogar o falso futebol deles, aquele que é um embate entre brutamontes e é interrompido em cada segundo graças à burrice da porrada. A inteligência de Pelé foi alimentada pelos olhos que saltavam das órbitas, e que lhe davam total visão de campo; a antevisão do lance, por conhecer as possibilidades permitidas e as condições dos outros jogadores e do gramado; e objetividade diante do gol, o momento supremo em que o planejamento rápido como a luz é coroado depois de um insight decisivo. Pelé alternava o levante sem bola com o toque magistral que deslocava o centro do drama. Pois não é a bola que está em destaque, mas a intenção das equipes. É o imaginário que comanda a ação e não o contrário. Por isso era imprevisível, pois assumia o risco do improviso bem plantado em sua força física e na capacidade de raciocinar. Pelé é o doutorado do futebol. Cada partida é uma tese comprovada e cada drible é um argumento sem contestação.</p>
<p>CHANCE &#8211; Pelé é a chance aproveitada e desenvolvida a partir de uma tragédia: a derrota do Brasil no final da Copa de 1950. Prometi dar uma campeonato do mundo para meu pai, que chorou naquele dia, disse Pelé. O anjo vingador nasceu dessa derrota e transformou o ímpeto numa vitoriosa campanha que colocou o Brasil no primeiro time da arte inventada na Inglaterra e transfigurada no Brasil. Falar de Pelé é chover no molhado, apesar de existirem dúvidas entre ele e Maradona. Este, no ranking mundial deve ocupar um lugar bem abaixo de Garrincha, Didi, Domingos da Guia, Romário e Nilton Santos. Não se trata de patriotada, mas de evidência. Hoje, até mesmo Pelé gosta de dizer que Ronaldinho Gaúcho é parecido com ele, e alguns arriscam ser o cracaço do Barcelona melhor do que o ídolo. Não é. Ronaldinho é o auge do futebol que restou depois da retirada do Rei. Talento, genialidade, sucesso, tudo isso faz parte de sua personalidade. Mas ele não tem a majestade, essa superação que uma biografia impecável revela, essa sintonia com a nação que foi grande. Pelé é o Brasil que encantou o mundo, Ronaldinho é o Brasil que mantém a tradição. Um é semente, o outro é fruto. A semente é eterna e por mais que o fruto sonhe, sempre trará dentro de si a majestade que o gerou.</p>
<p>SAL &#8211; Pelé é o povo que chegou à majestade. É uma criatura dialética, vinda de longe, parte de uma geração que invadiu a cidadela adversária pela primeira vez. O reino já estava posto quando vieram os outros a seguir. Mas ficou a originalidade do gesto que inventou o sonho. Não há, portanto, armadilha quando se fala de Pelé. Ele é o povo que provou ter a capacidade de gerar o mito. Por isso, por o­nde passa, as pessoas procuram tocá-lo. O Rei é a carne que se fez Verbo, numa inversão do ato divino da criação. Ele não é um deus, é a pessoa que, para sempre, estará de pé, suado, olhando para o­nde ninguém vê. Lá está a sorte que persegue, o dom de sua predestinação. Pelé, mais de uma vez, fez a justa reverência a seus mestres, como Zizinho. Quando consegue uma bicicleta mortal, é o diamante lapidado pelo Brasil na luta que ainda não terminou: a de sermos novamente a nação que um dia construímos. Ainda melhor, carregando o sal de tantas décadas de dor.</p>
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		<title>O MESTRE PARTE PARA ETERNIDADE</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-mestre-parte-para-eternidade</link>
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		<pubDate>Thu, 17 Dec 2009 19:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esportes]]></category>

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		<description><![CDATA[O Morumbi lotado levantava os braços e entoava o cântico dos cânticos: "Olê olê olê olê Telê Telê". Era a milionésima vez que o Mestre decidia um título. Ele então se levanta, de maneira não muito confortável pois não está acostumado a esse tipo de demonstração, anda um pouco para dentro do gramado e faz sua saudação, com uma só mão para cima acompanhando o ritmo da cantoria. Era a homenagem em vida ao homem que deu tantas alegrias aos seus torcedores e que destacou-se como um brasileiro maior, nesta galeria cada vez mais escassa, no país que perdeu sua soberania.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Telê Santana morreu depois de longa agonia. Tinha a voz travada, os movimentos inseguros, o olhar vago. Exatamente o contrário do que sempre foi: firme, determinado, decisivo. A família acusou o martírio de ser fruto de erro médico. Ficamos assim com o mutismo absoluto desse brasileiro raro que sempre poderá ser chamado de Mestre. Ele resolveu a falsa contradição entre futebol força e futebol arte, apesar de ter pagado caro por perder a Copa de 82, acusado de ter enfeitado demais com um time dos sonhos. Telê não dava a mínima para o estrelismo e exigia que cada jogador exercitasse os fundamentos do futebol: chutar direito, cruzar, cabecear, dominar a bola. Rogério Ceni, que hoje brilha no escandaloso ostracismo da seleção nacional, é a representação e o fruto desse aprendizado: o atleta completo, que não se conforma com seus limites e chega na área, venha de onde vier.</p>
<p>Há inúmeras críticas às suas estratégias, mas ninguém jamais poderá tirar-lhe o mérito de que foi um reinventor do futebol brasileiro. Depois que nulidades como Cláudio Coutinho e outros burocratas se renderam ao futebol burro, que faz parte do sistema que destruiu a nação, ele trouxe de volta a eficiência como fonte da alegria, revelando um punhado de craques inesquecíveis, que com ele conheceram a glória. Errou muitas vezes, como tudo o que é humano erra, mas fica sua lição permanente de correção, determinação, seriedade e sobriedade. Por coincidência, o tempo em que ficou mudo conviveu com o falastrionismo do futebol, dos treinadores histéricos que sempre se acham com razão, dos cartolas que deitam e rolam com seus arreganhos extrativistas, que jogaram a arte brasileira nas mãos estrangeiras, e que provocaram o êxodo sem fim dos craques que o Brasil gera com sua tradição e sua cultura.</p>
<p>Calou-se o Mestre enquanto afundamos nessa espiral de horrores, em que os perna-de- paus viraram titulares e nossas jóias foram se entregar ao papel pintado das potências. Se ele perdeu em 1982, foi com honradez e não como em 1998, quando na final paramos em campo num episódio que clama até hoje por explicações, diante daqueles franceses arrogantes, que levaram a Copa porque ficamos imobilizados, derrotados, comprados, enquanto eles faziam a festa em cima da nossa subsmissão.</p>
<p>CENA &#8211; Nunca esqueço uma das cenas mais emocionantes que vi na televisão. O Morumbi lotado levantava os braços e entoava o cântico dos cânticos: &#8220;Olê olê olê olê Telê Telê&#8221;. Era a milionésima vez que o Mestre decidia um título. Ele então se levanta, de maneira não muito confortável pois não está acostumado a esse tipo de demonstração, anda um pouco para dentro do gramado e faz sua saudação, com uma só mão para cima acompanhando o ritmo da cantoria. Era a homenagem em vida ao homem que deu tantas alegrias aos seus torcedores e que destacou-se como um brasileiro maior, nesta galeria cada vez mais escassa, no país que perdeu sua soberania. Era o Brasil que o admirava, acima de camisas, hinos ou paixões. Era o tributo à honradez e à vida de Telê Santana, impregnada do espírito nacional que jamais poderá nos abandonar, sob pena de perdermos tudo o que conquistamos por séculos e gerações.</p>
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		<title>DE REPENTE, O GÊNIO</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Dec 2009 23:05:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esportes]]></category>

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		<description><![CDATA[Um pé passa para o outro, fazendo com que o equatoriano enfrente dois Robinhos de uma só cabeça. Ele já está batido e o gênio, em curva e diagonal, se livra da sua marcação para chutar lá onde a coruja pia. Caprichosa, orgulhosa do momento, a bola fez justiça e sobrou nos pés de Elano, que saiu de braços abertos para ninguém. Todos caíram em cima de Robinho, que tinha chegado ao detalhe supremo da sua obra, arduamente construída em anos e anos de exercício.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>A vida é estranha. Consegue se realizar pelo detalhe, amparado pela obra. O que você faz enquanto vive é uma arquitetura anterior e anônima ao momento do brilho extremo, o detalhe. Robinho pedalou a vida toda, mas só no jogo do dia 17/10/07, no Maracanã, contra o Equador, definiu seu destino no grande concerto da criação. Todo mundo viu. Ele levou o adversário para o canto sem ângulo, o que dá, em princípio, um pouco de tranqüilidade ao oponente. Este, confiante de que a bola não encontrará o caminho do gol (a geometria disponível não permite) dedica-se a uma impossibilidade: tirar a bola dos pés do gênio.</p>
<p>Robinho conseguiu metade do que queria. Demarcou seu território longe dos outros defensores, tendo como obstáculo apenas o cara marcado para morrer. Precisava que fosse intensificada a certeza de que não conseguiria fazer nada ali naquele pedaço morto de área. Por isso desenhou a letra, quando o corpo todo se retorce para que os pés troquem de posição. A letra significa que o pé direito funciona como o esquerdo ou vice-versa. Costuma ser execrada como firula, perda de tempo. Quase sempre dá errado. No caso da partida de ontem, com uma seleção sub suspeita depois do zero a zero contra a Colômbia, a letra era, mais do que nunca, fora de hora.</p>
<p>O chute de letra tem como princípio desarmar as expectativas dos inimigos. O lance aparentemente desengonçado de Robinho, no lugar de lançar a bola para o miolo do drama, manteve a leonor a seus pés. Foi sorte, pensaram todos, quis chutar acabou driblando sem querer. E agora? O &#8220;certo&#8221; seria avançar naquele espaço criado pela letra surpreendente, ir em frente, pedalar novamente. Mas Robinho fez o contrário. Mergulhou ainda mais fundo nesse ponto morto da pequena área, onde o destino certo é desperdiçar tudo pela linha de fundo.</p>
<p>Essa insistência no buraco negro da jogada fez com que o adversário mais próximo aumentasse em confiança, pois um raio não cai duas vezes na mesma cabeça. Já tinha havido os dribles, a firula, o sarro. Agora era simplesmente decidir, tirar-lhe o biroço dos pés e recomeçar tudo com um tiro de meta. Mas Robinho, ao contrário dos outros, tem duas pernas, dois pés, que jogam simultaneamente. Não se trata da idéia comum do ambidestro. Mas o da coreografia dispondo de cada pé como um ser à parte, que jogam um com o outro como dois moleques em rua de terra em declive.</p>
<p>Um pé passa para o outro, fazendo com que o equatoriano enfrente dois Robinhos de uma só cabeça. Ele já está batido e o gênio, em curva e diagonal, se livra da sua marcação para chutar lá onde a coruja pia. Caprichosa, orgulhosa do momento, a bola fez justiça e sobrou nos pés de Elano, que saiu de braços abertos para ninguém. Todos caíram em cima de Robinho, que tinha chegado ao detalhe supremo da sua obra, arduamente construída em anos e anos de exercício.</p>
<p>Poderia dar tudo errado. Poderia até ser tudo sorte. Mas sabemos que não foi. Simplesmente sobrou, foi fora da ordem mundial. A jogada pertence, desculpem a insistência, ao Brasil soberano, o país que ensina a voar. Kaká foi perfeito no seu gol colocado longe de toda a quadratura, no ângulo extremo do seu talento. Foi merecidamente aplaudido como o melhor do mundo. Kaká se enquadra nesse universo do futebol. Robinho é de outra têmpera.</p>
<p>Robinho é uma rara manifestação do gênio. E quando o gênio se manifesta, voltamos a ter esperança.</p>
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