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	<title>Nei Duclós &#187; Livros</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>GOGOL: A HIERARQUIA SOCIAL NA ORIGEM DA INSÂNIA</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 18:39:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós No extraordinário Diário de um louco, de Gogol (1809 – 1852), funcionário público pobre e medíocre faz um esforço para se adaptar à irracionalidade da hierarquia social por meio da lógica das representações. Ter um título de nobreza, casar coma filha do chefe, usar uniforme de general são objetivos que poderão levá-lo à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>No extraordinário Diário de um louco, de Gogol (1809 – 1852), funcionário público pobre e medíocre faz um esforço para se adaptar à irracionalidade da hierarquia social por meio da lógica das representações. Ter um título de nobreza, casar coma filha do chefe, usar uniforme de general são objetivos que poderão levá-lo à superação da sua situação miserável . Mas ele se defronta com círculos concêntricos indevassáveis de poder: a caratonha inflexível e muda do manda-chuva, a perseguição do chefe de seção, o cerco bocejante dos outros funcionários que procuram cair nas boas graças do topo da pirâmide, a superficialidade e indiferença da donzela rica que o pobretão cobiça para subir na vida.</p>
<p>Ele assim transgride a lógica oficial por meio de seu próprio raciocínio e percepção desvairada. Sente-se superior por pretensamente pertencer à nobreza. Vai atrás de informações valiosas sobre a beldade devassando a correspondência dos seus cachorros, e não há nada mais hilário e impactante na literatura mundial do que a leitura dessas cartas miúdas que acabam sendo rasgadas furiosamente pelo protagonista, que se vê retratado nelas de maneira ridícula. Imagina-se com um uniforme de gala trespassado por faixa azul do generalato. Convence-se que é o rei da Espanha no trono que está vago e por isso confecciona um manto com suas roupas puídas e fora de moda.</p>
<p>O insano está pleno de si, pois tem bases sólidas para pensar assim. Ele vê que há corrupção generalizada nos trâmites dos papéis burocráticos. No fundo debocha da falsa erudição do chefe, que ostenta grossos volumes estrangeiros que jamais lê. Sabe que a coquete não passa de um frívola ignorante que só se preocupa com roupas caras e a vida mundana das festas. Todo o edifício social está fundado em mentiras e seria o único a dizer a verdade? Ele apenas guarda para si as revelações que saltam a seus olhos e reviram seu mundo interior, já que obedece a um circuito criminoso de divisão de renda. Se faz parte dessa loucura, porque não atingir um patamar superior? Isso lhe parece justo.</p>
<p>Ao se insubordinar contra a injustiça, vendo que toda sua argumentação bate de frente no muro que a riqueza levantou para se separar da pobreza, ele opta pela transgressão,único caminho que poderá levar sua ilusão a uma realidade. Acaba no hospício, onde é tratado a chicote e aos pontapés. Mas ele vê a nova moradia como a própria Espanha sobre a qual deve reinar e os castigos físicos como rituais tradicionais de iniciação ao trono. A megalomania, que é a metástase do ego desencadeada pela sedução dos poderes, o devora até sua mais íntima condição, a de filho desamparado.</p>
<p>É implorando proteção da sua mãe que o funcionário público medíocre termina seu diário, depois de não conseguir romper os pesados níveis da estratificação social. O engessamento granítico faz parte do sistema. Lembro dois exemplos recorrentes. O de Charles Chaplin, que foi tratado como inferior socialmente na Inglaterra para onde voltou para uma visita que imaginava gloriosa, pois tinha ficado milionário. E o do Poderoso Chefão III, em que o mafioso descobre que é apenas laranja de uma máfia maior e que manda no mundo.</p>
<p>Gogol, que faz parte da assombrosa safra de geniais escritores russos do século 19, é nosso contemporâneo.</p>
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		<title>UMA HISTÓRIA VERDADEIRA DE PESCADOR</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Jan 2012 10:42:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós O lançamento oficial do livro “Chico Bastos – O pescador”, de Willy Cesar, publicado pela editora UniverCidade, do Rio de Janeiro, foi no dia 20/12/11, em Rio Grande. Recebi um exemplar por especial gentileza de Cabeto Bastos, sobrinho do protagonista, Francisco Martins Bastos ( 1907-1986), e o responsável por esse resgate precioso da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>O lançamento oficial do livro “Chico Bastos – O pescador”, de Willy Cesar, publicado pela editora UniverCidade, do Rio de Janeiro, foi no dia 20/12/11, em Rio Grande. Recebi um exemplar por especial gentileza de Cabeto Bastos, sobrinho do protagonista, Francisco Martins Bastos ( 1907-1986), e o responsável por esse resgate precioso da nossa memória. O livro enfeixa uma rica variedade de vetores da história brasileira e não se limita às lides empresariais ou à linhagem familiar ilustre. Trata-se do perfil de uma saga que está entranhada organicamente no desenvolvimento da nação.</p>
<p>Foi feliz a seleção do enfoque da abordagem deste épico, que buscou a essência do personagem na pesca, que define a simplicidade e o desprendimento do pioneiro, que combinou sucesso em atividades rurais com uma participação decisiva na implantação da indústria do petróleo no Brasil. Faz justiça à suas origens, que vieram de longe, totalmente identificadas com a ousadia dos migrantes, desbravadores do território da fronteira. Um lugar que de ermo improdutivo tornou-se um exemplo de criadouro de gado – e mais tarde, de semeadura e colheita de grãos &#8211; da melhor qualidade, graças à competência que as gerações sucessivas de grandes empreendedores souberam implantar.</p>
<p>Há muito o que dizer do livro, mas o destaque é o enriquecimento do acervo de História que mais me interessa. Pois foi nas memórias e nas biografias de protagonistas importantes nem sempre lembrados em sua totalidade que consegui entender um pouco sobre o Brasil. Lembro sempre o brasilianista Stanley Hilton que veio fazer a biografia – brilhante – de Oswaldo Aranha e perguntou, na época, quantas já existiam. Nenhuma, lhe disseram, causando espanto no scholar.</p>
<p>Jornalistas como Willy Cesar fazem um trabalho que em principio caberia aos historiadores, mas estes estão mais preocupados com as atividades teóricas e conceituais do que com a marca deixada pelos habitantes do país sempre em construção. Nesta obra, Willy mostra como foi difícil o começo da Ipiranga e como ela esteve ligada à construção do Brasil soberano na era Vargas, mesmo que com ela não se identifique em aspectos fundamentais como foi o caso do monopólio instituído no governo de Getúlio eleito pelo voto direto nos anos 50 e a encampação das refinarias decretada por Jango, um dos estopins do abril de 1964.</p>
<p>O autor mostra como o próprio Vargas escutou Chico Bastos ao encaminhar o projeto da Petrobrás, em que havia convivência entre a estatal e a iniciativa privada, detalhe que foi atropelada pela radicalização do debate político da época, com o hilário paradoxo dos udenistas defenderem o monopólio só para contrariar o presidente, inimigo mortal.</p>
<p>Quando perguntaram a Chico Bastos o que faria se a Ipiranga fosse encampada, ele respondia: Vou pescar! E assim surge aos olhos do leitor toda a riqueza humana de uma figura que decifra o próprio tempo por meio de suas atividades que geraram inúmeros empreendimentos e por isso seu nome se tornou uma lenda.</p>
<p>Destaco a importância desta seleta de documentos fornecidos por algumas fontes, especialmente a do sobrinho do protagonista. O Arquivo Camb, de Cabeto Bastos é uma das colunas mestras da coletânea de depoimentos e registros do empreendedor que cruzou o século 20 com um leque importante de realizações.</p>
<p>Descobri na prática o quanto pode ser gratificante o mergulho num acervo rico, quando consultei os registros do Deops paulista nos anos 90, num trabalho pela USP. Consegui boas revelações que estavam estocadas em inúmeras pastas. Não é o caso aqui deste lançamento, já que se trata de outro tipo de acervo. Francisco Martins Bastos é uma figura conhecida e respeitada, famosa por suas atividades à frente do grupo Ipiranga que, sem ele, como diz a esposa sra. Maria Ondina, “teria morrido na casca”. Mas o foco é idêntico: não se pode deixar tesouros encerrados. Precisam ser disseminados e o melhor meio para isso ainda é o livro.</p>
<p>É difícil conseguir o equilíbrio entre o perfil do homenageado, sua trajetória profissional e pessoal , o tempo em que viveu e a cultura corporativa a qual esteve ligada por quase toda a vida. É complicado conseguir a costura de uma obra chamando atenção para a grandeza do personagem sem cair nos deslizes da publicidade pura e simples, do panegírico. O livro de Willy Cesar não deixa de lado nenhum assunto espinhoso, apesar de todas as páginas estarem impregnadas de um justo orgulho pelo grupo empresarial brasileiro que se destacou no ramo do petróleo e se diversificou por vários nichos.</p>
<p>Lá estão as dificuldades familiares e empresariais, as dúvidas e os enfartes, as perdas e as quedas, as ameaças e as crises, as comemorações e os funerais, os meandros políticos, os embates da concorrência. Tudo está devidamente enfocado, para livrar do trabalho esse tom monocórdio que costuma contaminar a narrativa. Willy Cesar optou pelo registro puro e simples, com um toque elegante de argumentos quando necessário, ao abordar problemas complicados. Sem querer justificar sem base, o que daria um clima de aplauso permanente a um texto que faz de cada leitor um atento crítico. Pois se sabe que o petróleo tem a ver com poluição, que a briga por essa riqueza industrial cruzou paixões políticas sérias. Não há, portanto, o interesse em tapar o sol com a peneira.</p>
<p>A solução do autor (foto acima) foi muito simples: reportou o que devia e manteve o texto ao nível de grandeza do personagem, enfocando os benefícios da sua obra. O despojamento de uma pessoa importante nos momentos mais cruciais do empreendimento, nos detalhes de sua vida agitada (era conhecido na juventude como Chico Barulho) faz o contraponto ideal para que a leitura corra sem problemas. Como o livro tem 365 páginas, às vezes o relatório do grupo pesa um pouco para quem quer saber mais da pessoa do que dos desdobramentos da Ipiranga.</p>
<p>Mas o livro sai ganhando ao conseguir que isso não seja determinante. O que vale é aprendermos sobre um homem e sua vida plena, orgulho dos conterrâneos e que é uma referência do brasileiro que ajudou a inventar uma nação, o Brasil soberano. Um país formatado para a posteridade. É uma obrigação, para nós, mantê-lo com todas as suas conquistas.</p>
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		<title>DUELOS ENTRE O AMOR E A SOLIDÃO</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 19:53:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Resenha publicada na revista ISTOÉ 11/05/1988 sobre o livro Os Dragões Não Conhecem O Paraiso, de Caio Fernando Abreu. Companhia das Letras, 157 páginas. A lucidez fecha as portas do paraíso. No campo minado da linguagem de Caio Fernando Abreu, o paraíso significa a “eterna monotonia de pacífica falsidade”. Enxergar é não ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p><strong><em>Resenha publicada na revista ISTOÉ 11/05/1988 sobre o livro Os Dragões Não Conhecem O Paraiso, de Caio Fernando Abreu. Companhia das Letras, 157 páginas.</em></strong></p>
<p>A lucidez fecha as portas do paraíso. No campo minado da linguagem de Caio Fernando Abreu, o paraíso significa a “eterna monotonia de pacífica falsidade”. Enxergar é não ter contemplação com ninguém. Por isso, desfila nos treze contos que compõem este seu novo livro, ao lado de uma personagem central — tensa com a idade e o próprio corpo -, uma fauna urbana nomeada pela adjetivação inspirada em equívocos de comportamento, como O Homem Independente Que Não Necessita Mais Dessas Bobagens de Amor ou A Mulher Totalmente Liberada Porém Profundamente Incompreendida.</p>
<p>Enxergar, para Caio, é desvendar, entre outras coisas, a adolescência cultivada no interior do Rio Grande do Sul — onde nasceu em 1948 —, ambiente de onde saem contos primorosos como Pequeno Monstro, que descreve a descoberta do outro, primeiro passo para a psicanálise e a transcendência. Livrar-se da carga cultural do interior implica, no entanto, um paciente trabalho de recuperação da linguagem do passado.</p>
<p>É nesse território de difícil acesso — pois é fácil cair na pieguice — que Caio constrói textos antológicos, como O Destino Desfolhou, descrição de uma desilusão amorosa do 12 aos 16 anos de idade. Para isso, resgata palavras incomuns, de uso regional ou presas ao tempo. Tendo o cuidado de não limitar os assuntos em fechados compartimentos, o autor combina habilmente o pesado clima de uma cidade provinciana e suas perspectivas com a leveza dos diálogos, a poesia das descrições, a riqueza dos detalhes.</p>
<p>Todo esse universo compilcado e exausto chega ao ápice em Linda, uma História Horrível, que descreve a visita da personagem central à casa paterna. Revisitar a infância, com todo o seu horror exposto na velha casa, é o caminho para tentar, de volta à grande cidade, entender a idade, o corpo e resgatar possibilidades de uma superação.<br />
Não é, também, um caminho fácil. Na voragem de contos como Saudades de Audrey Hepburn, Dama da Noite e Sapatinhos Vermelhos o autor desmonta as ficções urbanas da era da AIDS. Uma viagem inperdível, onde a solidão duela com o amor o tempo todo. Caio, nestes contos, detecta múltiplas personagens, que tanto podem ser um publicitário, uma prostituta, um psicólogo. Gente lúcida da mesquinharia ambiente, que, sem concessão, descreve a rotina agônica de hábitos tidos como excêntricos, mas que no fundo revelam apenas o horror de estar vivo.</p>
<p>É assim, pela meticulosa construção de uma linguagem própria, que o pequeno monstro do interior, pelo excesso de. lucidez, traça o perfil de suas obsessões. Essas, num truque onde entram o sonho e a emoção, encarnam na figura do dragão. É ele que convive com o escritor, como metáfora de libertação: os dragões, como os pesidelos, não têm existência real. O que existe é um autor diante de suas palavras, ordenadas pela paixão de continuar vivendo.</p>
<p>Não se trata de buscar a salvação, já que o áspero caminho escolhido por Caio Fernnando Abreu, desde sua estréia em I970 aos 21 anos, com o livro de contos Inventário do Irremediavel, não permite soluções óbvias nem otimismo. Essa coragem &#8211; que gerou já sete livros, entre eles O Ovo Apunhalado (1975), Morangos Mofados (1982) e Triângulo das Águas (1983) — justifica plenamente o prestígio de Caio no meio literário brasileiro. Um prestígio construído com a força dos verdadeiros artistas.</p>
<p><em>Esta minha resenha não constava mais nos arquivos aqui de casa e foi enviada por e-mail por especial gentileza de Laura Souto Santana.</em></p>
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		<title>DYONELIO MACHADO: QUARENTA ANOS DE SILÊNCIO</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 12:53:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Graças a Iuri Muller, que no twitter se assina @mulleriuri, que localizou e me enviou o texto, publico hoje o artigo sobre O Louco do Cati, o genial romance oculto de Dyonelio Machado. Originalmente, o artigo saiu na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 3 de fevereiro de 1979. Ele me foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Graças a Iuri Muller, que no twitter se assina @mulleriuri, que localizou e me enviou o texto, publico hoje o artigo sobre O Louco do Cati, o genial romance oculto de Dyonelio Machado. Originalmente, o artigo saiu na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 3 de fevereiro de 1979. Ele me foi pedido pelo pesquisador da obra de Dyonelio Machado, o professor Fábio Passoni Martins . Aí está, na íntegra. Noto agora que este texto tem uma abordagem sintonizada com a luta que nós, escritores da geração emergente na época, desenvolvíamos em vários fronts, como atestam as cartas de Caio Fernando Abreu que estou postando aqui no Diário da Fonte. É sobre marginalização literária, em suma. Com um agravante: “Curioso é que o Dyonélio há pouco foi ´redescoberto´ pelas editoras. Pela segunda vez, inclusive, conforme o teu texto”, diz Iuri Muller.</p>
<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Os escritores brasileiros das novas gerações estão com toda a razão: eles precisam lutar para abrir o mercado editorial, quase sempre avesso aos seus textos, para não serem violentamente reprimidos como aconteceu com o escritor Dyonello Machado, que só a partir do ano passado, com a oportuna edição de &#8220;Os Deuses Econômicos&#8221;, pela Garatuja de Porto Alegre, começou a ser &#8220;descoberto&#8221; como escritor de muitos livros. Antes, público e critica só o conheciam como o autor &#8211; brllhante — de &#8220;Os Ratos&#8221;, considerado um dos mais perfeitos livros da nossa literatura. Agora, a editora Vertente lança a segunda edição de &#8220;O Louco dc Cati&#8221;, colocado entre os dez melhores romances brasileiros de todos os tempos por Guimarães Rosa.</p>
<p>&#8220;O Louco do Cati&#8221; — que tem uma excelente apresentação do escritor Flávio Moreira da Costa, um dos responsáveis pela redescoberta de Dyonello e apaixonado pelo livro — revela (com 40 anos de atraso) para o grande público, um gênio da nossa literatura, mantido num semi-anonimato até agora por vários motivos: pelos equívocos e pela preguiça da critica; pela opressão provinciana da sua própria cidade: pelos editores que vêem nele um escritor &#8220;difícil&#8221; (quem rompeu com esse equivoco foi Mary Weiss, da editora Garatuja, que depois de &#8220;Os Deuses Econômicos&#8221; lançará neste ano outro livro seu, &#8220;Mulheres&#8221;: e pelo seu estigma político, já que foi um dos mais ativos militantes da esquerda no Rio Grande do Sul (&#8220;Nunca fiz politica na ficção. Fiz politica nas praças, na Assembléia&#8221; — ele foi deputado estadual<br />
— &#8220;e na policia&#8221;, disse ele para &#8216;Escrita´).</p>
<p>Além disso, Dyonello faz uma literatura social fora dos esquemas de &#8220;direita&#8221; ou &#8220;esquerda&#8221;, o que ajudou também a critica a valorizar &#8220;Os Ratos&#8221; — mais facilmente catalogável como um romance &#8220;de protesto&#8221; — e a desprezar &#8220;O Louco do Cati&#8221;. Flávio Moreira da Costa aponta alguns elementos da atualidade do livro:</p>
<p>&#8220;Precursor em vários níveis, não é só por isso, no entanto, que &#8220;O Louco do Catl&#8221; se impõe: ele é o romance brasileiro da ditadura (de Vargas, poderia ser de outro); o grande romance latino-americano da perseguição e da prisão política. E isso tudo sem &#8220;engajamentos&#8217;!&#8221; superficiais, sem discursos de fora para dentro (ou de cima para baixo, como parece ser comum hoje, e náo sò em literatura). A narrativa se apresenta tão consciente de seu poder que em nenhum momento as palavras-chaves sâo ditas: certamente, sutileza e grandeza do autor que, assim, evitou escrever um romance datado”.</p>
<p>Donélio levou tâo a fundo essa sua qualidade de apenas sugerir — por eliminação das palavras-chaves, como notou Flávio — que o próprio personagem principal do livro, na maior parte da narrativa, é apenas uma sugestão. Ele fica à margem da ação, do primeiro plano — que por uma habilidade genial do autor nunca é a &#8220;açâo principal&#8221;. O personagem principal, assim, é um enigma que se decifra — de múltiplas maneiras — só no final. Ao longo da história, ele vai a reboque de outros personagens, através de uma viagem pelo Interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.</p>
<p>Além disso, a própria narrativa não está orientada apenas para o &#8220;suspense&#8221; desse mistério, mas para dentro de si mesma: as situações, aparentemente absurdas e sem objetivos, se bastam devido ao rigor da linguagem de Dyonelio Machado. Elas são o romance e poderão desorientar o leitor viciado em esquemas tradicionais. Essa é a grandeza de Dyonelio: para encontrar a grandeza de seus personagens, ele não precisou mentir, não precisou inventar, não precisou dramatizar, forçar a emoção a partir do arquétipos! Ele aparentemente narra o trivial simples. E isso nos faz descobrir a importância de um cotidiano &#8220;sem importância&#8221;.</p>
<p>Essa é a sua atualidade: a realidade, despida Inclusive dos conceitos sobre &#8220;realidade&#8221;. Uma descoberta mítica da loucura desconexa do dia-a-dia. A &#8220;Invenção&#8221; de um novo real.</p>
<p>RETORNO &#8211; Estava em fechamento na Ilustrada e pedi para o escritor Moacir Amâncio, que trabalhava nesse caderno da Folha,que levasse meu exemplar raríssimo de O Louco do Cati, que me foi presenteado pelo amigo Eduardo San Martin,para a noite de autógrafos de Dyonélio. Amâncio me contou depois que Dyonelio, antes de autografar, insistiu para ficar com o exemplar, pois era uma edição rara e ele não tinha mais. O livro ficou entre meus guardados e foi recuperado em São Paulo num trabalho gráfico primoroso que colocou uma sobrecapa e cuidou do aspecto geral do livro, graças a meu filho Daniel Duclós, apaixonado pela obra. Mais tarde, Daniel me presenteou de novo com a raridade recuperada. Para facilitar a busca, coloco aqui a fonte da pesquisa do texto: DUCLÓS, Nei. Quarenta anos de silêncio. Folha de São Paulo, São Paulo, p. 27, 3 fev. 1979</p>
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		<title>EM BUSCA DO CÂNONE</title>
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		<pubDate>Thu, 05 May 2011 00:55:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Só para implicar, costumo dizer que a verdadeira citação é aquela feita de memória, e que a ipsis litteris não passa de plágio. Não é uma afirmação totalmente verdadeira, pois o filtro da mente pode acabar com a frase original. Mas a frase funciona. Serve para evitar a pior ameaça quando se fala [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Só para implicar, costumo dizer que a verdadeira citação é aquela feita de memória, e que a ipsis litteris não passa de plágio. Não é uma afirmação totalmente verdadeira, pois o filtro da mente pode acabar com a frase original. Mas a frase funciona. Serve para evitar a pior ameaça quando se fala de autores e livros: o aborrecimento. Porque nada mais chato do que escutar, sílaba a sílaba, o que foi dito por uma celebridade. Ou aturar a lista alheia dos livros favoritos feita para fazer pose. Nossa imagem depende das leituras que ostentamos, pelo menos é assim que parece na indústria do espetáculo.</p>
<p>Também isso não é de todo verdade, pois o que gostamos de fato costuma coincidir com o que é destacado normalmente em todas as seleções. Ter entre os favoritos Borges, Conrad, Carpentier, Proust, Rosa, Drummond, Cabral, Bandeira não é privilégio de ninguém. Mas o cânone de cada um obedece à personalização de nossa abordagem, à maneira como tomamos conhecimento de livros fundamentais. O acervo real é o que somamos à nossa existência, nessa confluência estranha entre o épico e o prosaico, o transcendente e o pagão, o lógico e o absurdo.</p>
<p>Jean-Luc Godard é mestre em mostrar essa junção de opostos quando coloca grandes autores na fala de pessoas que estão no banheiro escovando os dentes ou em frente a uma máquina de jogar, como ele faz magistralmente no seu recente Socialismo. Mas não estamos aqui para falar de cinema, apesar de Godard ser um autor de colagens clássicas e modernas em oposição à leitura confortável dos best-sellers. “Cheguei e vou dar trabalho”, a máxima do sambista Moreira Silva, serve tanto para Godard quanto para nós, que estamos em busca de um cânone literário.</p>
<p>Para continuar implicando e aborrecer apenas os de má-fé ou excessivamente ingênuos (que se deixam levar por difamações), escolho Monteiro Lobato como meu escritor brasileiro predileto. De Reinações de Narizinho à Chave do Tamanho, de O Comprador de Fazendas à Paranóia ou Mistificação?, Lobato é o escritor maior, eternamente perseguido. Só sua iniciação ao mundo grego antigo já o justificaria como alguém que radicalizou no ofício. Mas Lobato é apenas um. Para não me estender na lista, destaco Joseph Conrad de Lord Jim traduzido por Mário Quintana. Sim, precisa ser o Quintana, senão não funciona (já tentei ler outra tradução, não colou). Mas Conrad sobra: Coração das Trevas, Agente Secreto etc. são uma interminável coleção de maravilhas.</p>
<p>Jorge Luis Borges nos encanta porque tem o visgo dos narradores que fundaram nações e a transgressão de uma vanguarda fora de moda. Ele se alimenta do bizarro sem se entregar a maluquices e compõe uma obra que mostra o caminho (e nem sei porque escrevem tão mal se temos Borges como parâmetro). Borges é um dos poucos autores que releio.</p>
<p>Há Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier, que é a reinvenção do romance, quando o autor mergulha na sua origem para perdê-la, e volta ao mundo real para desmascará-lo. Literatura é maneira que temos de ver direito pelo lado avesso. É uma viagem ao mundo do espelho quando descobrimos, abismados, que lá tudo faz sentido. O lado de cá então adquire sua verdadeira essência: a falta do Absoluto, a morte certa. Literatura é a certeza na vida eterna, que nos leva à paz do espírito.</p>
<p>Não a paz dos cemitérios, mas a do coração habitado. Aprendemos a amar primeiro nos livros. Depois, com as páginas abertas ao lado, damos o primeiro beijo, forçando o olhar para ver se estamos fazendo direito. Esse é o amor verdadeiro.</p>
<p><em>Artigo publicado originalmente no Jornal Opção.</em></p>
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		<title>METALÍNGUA: O SEGREDO DA PEDRA</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jan 2011 12:44:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Poesia sofre de solidão, por isso se cumprimenta, aperta a própria mão num ritual aparentemente insano. Ou, como diz o poeta Alexandre Brito (Porto Alegre, 1959) no seu livro Metalíngua (Éblis, 29 pgs.): “Morde a si mesma com as gengivas de um velho diabo”. A metáfora é perfeita: desde as vanguardas do século [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
Poesia sofre de solidão, por isso se cumprimenta, aperta a própria mão num ritual aparentemente insano. Ou, como diz o poeta Alexandre Brito (Porto Alegre, 1959) no seu livro Metalíngua (Éblis, 29 pgs.): “Morde a si mesma com as gengivas de um velho diabo”. A metáfora é perfeita: desde as vanguardas do século 20, da lingüística, do estruturalismo, do concretismo, práxis etc. a poesia deixou de ser veículo de sentimentos, aventuras, discursos para ser apenas palavra diante do espelho. O hábito gastou os dentes da mágica, que insiste na pergunta: existe alguém mais bela do que eu? Sim, diz a imagem, existe, mas você, língua canônica, que se imagina completa pois abarca também as transgressões, não tem acesso.</p>
<p>É lá, na “fissura, a fresta, o desvio”, que a imprecisão do branco aguarda o lusco-fusco da escrita, compondo um “crepuscular alvorecer”. Na porta entre os mundos, o poeta tenta capturar o que não existe, e que não oferece enigmas. Lá, onde “o cerne de um talvez” é “feito de silêncio e sal”. Missão imponderável? Seria, se o poeta emudecesse com o desafio. Como professa, se entrega confiando que possa sentir além dos cinco sentidos, ele rasura uma “poética de arestas”, que funciona como “protuberância viva no desmesuradamente plano/a parte invisível do infinitamente dentro/ o quinto lado do triângulo”.</p>
<p>Qual o resultado dessa investida, quando o poeta cruza o umbral do impossível de ser percebido, apenas imaginado ( única liberdade da percepção)? Acontece o encontro do que não busca, ou seja “a palavra exata” ou “a liberdade selvagem do lobo/ instinto que se quer arte/perfeição do ovo”. Como pode encontrar sem buscar? Porque seria uma farsa procurar o que se espera nesse jogo bruto da palavra mordendo a própria cauda. É preciso abrir mão inclusive da surpresa, que em tese faria parte da “caligrafia do imaginário”. E palmilhar a sobra do mapa, onde o mistério mistura harpia e fósforo.</p>
<p>Alguns poemas atingem o alvo desse carrossel em buraco negro, permitindo que o poeta siga a pista dos “sulcos da caneta na página em branco” para resgatar o poema posto fora. Obra feita de ausências, que encarnam o indizível no ato de “virar uma esquina pelo avesso”, Metalíngua contém sua própria auto-realização. Não apenas nos poemas que pendem entre a pensata e o achado, mas também no posfácio, a cargo de outro militante dessa transvanguarda do século 21, Ronald Augusto. Ronald, autor de obra poética significativa, vê sincronicidade num trabalho que deixou de ser há tempos diacrônico, deixou de pertencer ao tempo para ocupar o espaço, simultaneamente com a escassez e o derramamento, sem a intenção de resgatar o que foi perdido ou deixado de lado na saga da poesia contemporânea.</p>
<p>Não é complicado. Basta ler o pequeno livro mais de uma vez e deixar-se envolver por “certos poemas”, que “são as pegadas de um naufrágio/nas areias do deserto de uma/ampulheta”. Trata-se de poesia autóctene, que não faz parte de espólios, mas apresenta-se encantada por uma linhagem, a do autor que não sossega e foi “cravar sua letra/ na pele de uma página/na bala de um obus/ no lombo de um desassossego”. Autor que enxerga a língua como uma “pedra feita de letras”, isolada, silenciosa, irregular, imóvel, indiferente.</p>
<p>É um objeto não catalogável, que não serve para “peso sobre papel”, nem “quebrará vidraças”. Mas convém, avisa o poeta, não subestimá-la.</p>
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		<title>CRÔNICAS DE MARCOS REY: FUNDAMENTOS DO OFÍCIO</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Dec 2010 10:22:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós Edmundo Nonato (1925-1999) é o cidadão que assumiu o ofício de escritor por meio de seu principal personagem, Marcos Rey. Autor de extensa obra, de romances a contos, de novelas de TV a scripts para o cinema, de farta literatura infanto-juvenil a reportagens, ele agora tem reunido num belo volume as suas melhores [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Edmundo Nonato (1925-1999) é o cidadão que assumiu o ofício de escritor por meio de seu principal personagem, Marcos Rey. Autor de extensa obra, de romances a contos, de novelas de TV a scripts para o cinema, de farta literatura infanto-juvenil a reportagens, ele agora tem reunido num belo volume as suas melhores crônicas. O lançamento é da Global Editora, que gentilmente me enviou um exemplar, já que faço parte do time de apresentadores com um trecho de resenha publicado na grande imprensa no auge do preconceito com Nonato (ele seria “comercial” e não o que é de verdade, um tremendo escritor). Estou bem acompanhado pelo meu querido Antonio Hohfeldt (um dos primeiros a resenhar meu livro de estréia), mais Leo Gilson Ribeiro, Wilson Martins e Fabio Lucas. Timaço do qual me orgulho de fazer parte neste volume. A seleção e prefácio são de Anna Maria Martins, de largos serviços prestados à cultura brasileira e à literatura.</p>
<p>Feitas as apresentações, vamos à festa. Tudo pode ser dito desta primorosa seleção de textos que se presta às mais variadas análises, desde história do comportamento, memória paulistana, vida errante de um autor pelas redações e empregos em três quartos de século, mais perfis variados de todo tipo de relacionamentos urbanos e conjugais. Sem falar na galeria de heróis, vilões, beldades, empresários da noite e da comunicação, parentes, amigos, bêbados em geral, amores vãos, tudo misturado num mural gigantesco da vida coletiva brasileira no século 20. Uma preciosidade, como se vê, que dá aulas sobre o Brasil que fomos e que se foi para sempre, fato que ele reporta e se transforma num dos oradores magistrais do funeral da nação maravilhosa, gentil, feliz, dolorosa e grandiosa que um dia fomos e talvez jamais voltaremos a ser.</p>
<p>Tudo isso vale e quero que os estudiosos e leitores em geral tirem o máximo proveito de mais de 300 páginas de ouro que aqui aportam como um transatlântico numa baía tormentosa, de onde saem as multidões humanas que fazem parte da identidade do país. Mas eu prefiro abordar pelo que considero mais importante: Marcos Rey ensina os fundamentos da crônica. Ele praticamente entrega todos os lances e essa transparência faz deste livro um material de primeira grandeza para entendermos como se exerce esse gênero literário tão brasileiro, que desde os antigos cronistas evoluiu para a pena leve a maravilhosa de pessoas como Olavo Bilac, Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, entre tantos outros.</p>
<p>Um exemplo: alguém sempre sugere que ele aproveite um fato para fazer uma crônica. Mas ele adverte que a crônica nada tem a ver com a realidade. Primeira lição: é tudo técnica narrativa. Segundo: mais importante que o script são os personagens. E quais são eles, além dos citados acima? Fundamentalmente ele, o narrador, e a esposa, que ao longo dos textos adquire vários nomes, exatamente para mostrar que ela não passa de uma personagem, que se adapta ao tema adotado. Depois existem algumas figuras recorrentes, como o anjo Odilon, aquele que nunca aparece e lhe consegue empregos; o melhor amigo, Lorca, companheiro de farras e confidências; o irmão maios velho, Mario Donato, diretor de redação que o introduz no jornalismo e lhe dá aumento exigindo que ele “cuide mais da mamãe”. E finalmente, a principal personagem ,a cidade de São Paulo, descrita nos mínimos detalhes em décadas de vida plena.</p>
<p>Definidos os personagens principais, são escolhidos os temas: o desemprego recorrente e sempre ameaçador, a aposentadoria vingativa, a memória debochada e sem auto-complacência, a vida profissional na televisão, na publicidade, no jornalismo. E o que é mais importante: cada crônica tem a dose certa de sacadas, de frases que complementam situações, de desfechos que nos remetem ao início depois de o autor espairecer aleatoriamente sobre vários itens. Podem ser encarados como truques, mas é puro conhecimento de como funciona a palavra sedutora que conquista o leitor desde a primeira frase.</p>
<p>Lemos estas crônicas de Marcos Rey com alegria, com deslumbramento, com vontade de ficar para sempre sem nunca chegar à última página. Uma vez encontrei-o numa feira do livro, me identifiquei, mas ele, no início, não lembrava muito de mim. Mas logo lembrou. Depois fiquei sabendo, por amigo que se deixou ficar um pouco mais no stand, que ficou aliviado por ter me reconhecido. “Viu só?” disse, orgulhoso, para sua companheira de feira, “como eu lembrei daquele jornalista?” Grande Edmundo Donato. Caio na tentação e digo que esse seria um tema para mais uma de suas crônicas, já que o admirador sempre aspira ao status de personagem nas mãos de um mestre desta ficção que é a vida real.</p>
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		<title>OS SEGREDOS DE HELENA</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Dec 2010 21:46:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós O romance de estréia Helena de Uruguaiana ( Dublinense, 109 pgs.), de Maria da Graça Rodrigues, conta alguns segredos. Primeiro, da personagem, a adolescente que seduziu o primo rico, por ele sofreu a vida toda, foi mãe solteira e correu o mundo antes de se decidir pelo que realmente queria. Segundo, da cidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
O romance de estréia <strong>Helena de Uruguaiana </strong>( Dublinense, 109 pgs.), de<strong> Maria da Graça Rodrigues,</strong> conta alguns segredos. Primeiro, da personagem, a adolescente que seduziu o primo rico, por ele sofreu a vida toda, foi mãe solteira e correu o mundo antes de se decidir pelo que realmente queria. Segundo, da cidade que escondia as relações fora da rígida sociedade da fronteira, a elite que acobertava os conflitos políticos da ditadura e viu a diáspora dos seus filhos nos anos de chumbo (principalmente do final dos anos 60 até a anistia).</p>
<p>E terceiro, do próprio romance, que revisita e atualiza, sem se enredar, os modelos de heroína da literatura (da clássica mulher de Ulisses, passando pela romântica Dama das Camélias ou a brasileira Lucíola). E o que é mais significativo: o segredo da boa literatura que circula, de maneira pessoal, entre paradigmas dos mestres do ofício (dos russos aos franceses), conduzidos para dentro da trama, que por sua vez é pontuada por orações recorrentes do catolicismo &#8211; uma religiosidade que usa a liturgia das palavras da missas para celebrar o amor impossível e definitivo.</p>
<p>Não é pouco para uma autora que chega com toda a humildade da estreante, mas com a segurança que surpreende e liga imediatamente logo no início. Confesso que tenho inúmeros livros na cabeceira, que vou lendo conforme as demandas do dia. Volumes pela metade, tramas ainda sem solução, propostas que acabam desviando minha atenção, cada vez mais precária devido à sedução de outros meios, mais luminosos e rápidos. Mas com este livro aconteceu o contrário. Deixei-o na estante por um tempo, sob o álibi de que precisava terminar o que tinha começado primeiro. Mas ao me decidir enfim pelas primeiras linhas, em pouco tempo me vi emocionado no epílogo.</p>
<p>Passei voando pelo romance como num galope. Não que a história de Helena seja leve e divertida, como num livro que se lê para depois esquecer. Mas porque as soluções encontradas para compor a história revelam uma estrutura bem acabada, com alicerce sólido, paredes honestas, telhado firme e janelas que dão para vários mundos. Aqui a viagem é um deslumbre não apenas para os conterrâneos, os uruguaianense como eu, que reconhecem em cada detalhe (as casas, os colégios, os campos de futebol, as ruas e avenidas, as fazendas) nossa identidade. Mas todo leitor pode enxergar com clareza o que é uma história bem contada, nesta época de tanta literatura envergonhada, onde se procura torturar o leitor sem lhe oferecer o principal, um motivo para se chegar ao final.</p>
<p>Tudo está aqui, neste livro primoroso. A tradição das famílias ancestrais, solidamente instaladas na propriedade da terra, no comércio bem sucedido, num cosmopolitismo de quem convive com nações estrangeiras na porta e, ao mesmo tempo, que se refugia na platitude de um status secular. Os carnavais, as reuniões dançantes, as festas, as formaturas, os vestidos, os ternos, os coques, as melenas. Também os namoros, os casamentos feitos e desfeitos, os filhos legítimos ou fora do esquema, as avós afetivas, as concorrentes maldosas. As pequenas e grandes traições, as brigas de vida ou morte, as viagens sem volta, as culpas e as anistias. Temos a terra, o cavalo, o passeio, os móveis, os casarões, os barracos, o rio, as sangas. E o amor profundo e sem remédio, a indiferença e a crueldade, o heroísmo e a vilania.E de quebra, os lugares e monumentos de Paris, o exílio, o desenraizamento, a distância. Tudo na medida certa, sem sobras, num texto enxuto, numa composição de orquestra de câmara que soa como os acordes de uma banda anônima num restaurante inesquecível.</p>
<p>Digo isso não por ser suspeito, pois meu nome está nos agradecimentos, generosos e exagerados, da autora, que trocou comigo alguns e-mails antes de publicar. Conversamos animadamente sobre o livro, mas eu não tinha noção exata do que se tratava. Há muita procura por conselhos neste mundo hostil da literatura pátria e costumo atender com prazer as solicitações. Às vezes me escapa a grandeza do que está sendo feito. Mas basta ter a obra nas mãos para ver que a autora, embora preste tanto tributo a seus professores de narrativa, tem a vocação poderosa e o talho certo para tão complicado trabalho. Poderia ter trocado os pés pelas mãos, poderia ter errado a maior parte do romance. Mas acertou em cheio e por isso merece ser celebrado como a grande estréia da literatura brasileira de 2010.</p>
<p>Digo sem medo de errar. Que minha percepção não estrague a surpresa nem abra a guarda para desconfianças, já que aqui não há bairrismo nem predileções. Leio com olhos livres e só me reporto ao que sei e sinto. Helena de Uruguaiana tem a fisga dos romances clássicos, mas sem ser um deles, pois as técnicas de narrativa de todas as idades se somam, sem que possamos percebê-las. Esse é o sinal mais evidente de competência: quando a autora revela os segredos sem cair na tentação dos truques.</p>
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		<title>O MASSACRE COMO NARRATIVA</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Nov 2010 12:56:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós A primeira edição brasileira do clássico argentino Operação Massacre, de Rodolfo Walsh (1927-1977), escrito e lançado sucessivamente a partir de 1957 (teve quase 40 edições) , acumula as várias camadas de uma narrativa: a do escritor de romance policial que substituiu a ficção para investigar um caso concreto, e nele enterrou sua vida, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong><br />
A primeira edição brasileira do clássico argentino <strong><em>Operação Massacre,</em></strong> de <em>Rodolfo Walsh</em> (1927-1977), escrito e lançado sucessivamente a partir de 1957 (teve quase 40 edições) , acumula as várias camadas de uma narrativa: a do escritor de romance policial que substituiu a ficção para investigar um caso concreto, e nele enterrou sua vida, deixando um rastro de testemunhos pessoais sobre o trabalho do escritor e seu objeto. Trata-se da versão final do livro e de seus prólogos, epílogos e apêndices publicados ao longo dos anos, que aos poucos recortam o caminho percorrido pelas palavras em busca do inacessível, o fato, que sempre é capturado como versão.</p>
<p>Costumam lembrar A Sangue Frio, de Truman Capote, escrito dez anos depois. Mas prefiro resgatar Rota 66, de Caco Barcelos, pela proximidade da metodologia: a minuciosa busca de provas e o cruzamento de informações e testemunhos para se chegar à revelação de que o Estado policial se move pela injustiça e tudo faz para acobertar, justificar e premiar os criminosos, passando ao largo da tradição judicial, dos instrumentos civilizatórios e até mesmo dos arremedos de democracia.</p>
<p>O livro é sobre si mesmo: como compor um texto que traga à luz a barbárie cometida contra 12 argentinos inocentes, fuzilados no calor de uma contra-revolução derrotada, a que tentou restaurar o peronismo nove meses depois do golpe que afastou o líder do poder. Levados para um lixão na periferia de Buenos Aires, no mais completo breu, foram fuzilados à luz dos faróis de uma velha camioneta policial, o que facilitou a fuga de sete sobreviventes. Recompor o evento e seguir os passos de cada um dos personagens, descobrindo como morreram ou conseguiram evitar a morte, foi o trabalho de Walsh, que na época tinha apenas 29 anos.</p>
<p>Apaixonado pela literatura pretensamente fundada por Edgar Alan Poe, Walsh tinha descoberto antecedentes ilustres dos investigadores d crimes, enxergando no Livro de Daniel, da Bíblia, a semente do gênero que no século 19 virou arte literária. Era um especialista e tinha já publicado, além de vários contos, uma antologia onde entravam os escritores que levaram para a Argentina as descobertas de Poe, Borges e Bioy Casares. Walsh foi fisgado pelo assunto da mesma forma que Joseph Conrad quando seduzido pelo caso do Agente Secreto: de maneira casual, por meio de uma conversa qualquer. Com Conrad foi na rua, com o argentino foi numa partida de xadrez.</p>
<p>O escritor encontra o mote, o plot de sua história e sopra-lhe um coração que bate até depois de seu desaparecimento. No caso de Walsh, que a partir dos resultados pífios dessa investigação acabou radicalizando suas posições, saindo de uma indiferença política para um engajamento armado via Montoneros, a obra cresce à medida em que o tempo se afasta daquele episódio sinistro, precursor do pior que iria vir com a grande mortandade promovida pelo ciclo dos generais. O que encanta é a lucidez do autor, que sabe ser esse caso um defunto, pois ninguém mais atenta para meia dúzia de coitados levando tiros de mesericórdia na noite gelada. E com o excesso de mortos que vieram depois, quem se importa? Mas é essa visão crua do seu trabalho que torna a obra imperecível.</p>
<p>Como ele não se ilude, procura manter o prumo da realidade levantando todos os detalhes do crime e fazendo o papel do detetive que não dá quartel e assume uma postura ética diante do drama, longe da indiferença charmosa que pontua a literatura policial, principalmente com os inovadores Dash Hammet ou Raymond Chandler. Walsh se transforma no seu personagem e morre com ele, quando é fuzilado pelas forças da repressão depois de escrever uma carta aberta à ditadura argentina que derrubou Isabelita Perón, um texto que é um primor de precisão e estilo, considerado por Garcia Márquez uma das jóias da literatura universal.</p>
<p>Talvez não existisse a grande revanche da sociedade argentina hoje contra seus algozes não fossem esses textos de seu ilustre filho e mártir. Foi preciso que ele descesse às catacumbas, trouxesse à luz não um massacre político, mas um crime comum mascarado de lei marcial e que foi desmoralizado pelo trabalho paciente do escritor repórter numa saga que é uma referência poderosa do melhor jornalismo. E que não faz nenhuma concessão nbem para as mais nobres causas: “A gente do povo não morre gritando Viva a pátria! como nos romances. Morre vomitando de medo ou maldizendo seu abandono.”</p>
<p>A Companhia das Letras teve a gentileza de me enviar um exemplar para que eu pudesse ler esta grande obra. Agradeço à editora e espero ter contribuído, com esta resenha, para que Walsh atinja mais o público brasileiro, tão necessitado de referências nesta quadra asquerosa da imprensa brasileira, quando tudo é contaminado pelo interesse político, a mentira e a linguagem em estado terminal, longe do esplendor da melhor literatura de não ficção, que fez a glória de gerações passadas, marcadas pela tragédia, mas que cumpriram um destino mais condizente com a grandeza humana.</p>
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		<title>EM BUSCA DA IDENTIDADE PERDIDA DA LINGUAGEM</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Aug 2010 00:21:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós A poesia é a linguagem em busca da sua identidade. Para cumprir seu destino, deixou de lado o amplo espectro dos temas e concentrou-se na sua própria ciência: modernidade pelo avesso, já que o único exercício é recuperar a magia perdida ou dispersa na selva minada pelo jornalismo, a publicidade, a mídia eletrônica, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
A poesia é a linguagem em busca da sua identidade. Para cumprir seu destino, deixou de lado o amplo espectro dos temas e concentrou-se na sua própria ciência: modernidade pelo avesso, já que o único exercício é recuperar a magia perdida ou dispersa na selva minada pelo jornalismo, a publicidade, a mídia eletrônica, a diplomacia, a advocacia, o cinema ou a música. Não é buscar a fórmula exata, mas a palavra-chave, reinstauradora do verbo.</p>
<p>Pois no caos – que podemos batizar de discurso, linguagem em ruínas – fazer poesia é inventar a carne. Morder, por enquanto – nessa transição de signos -, a “carne intermediária”, de que nos fala Paulo Henriques Britto no livro Mínima Lírica .Aquela que existe entre a “casca e o caroço” da vida, em que “a língua elabora a doce palavra”. Ou promover o “curto-circuito da frase”, opção de Rubens Rodrigues Torres Filho em Poros. Trata-se de uma luta de arma branca: a poesia não encontra nos mísseis sua metáfora mais contundente, mas na faca, na lâmina. O corte fala melhor do que a bomba. Por isso os poetas não apertam botões, eles ainda afiam espadas e continuam carregando os mesmos detritos: “Há algum tempo coleciono cadáveres” (Britto); “Longas, frias, vazias – certas letras somem ao olho que tombado cai” (Torres Filho).</p>
<p>Mas cada poeta briga de maneira diferente pelo seu pedaço, instaura estruturas expostas, territórios ocultos. Torres Filho, por exemplo, procura infeccionar a linguagem com um tom épico, exatamente para diferenciá-la da selva selvaggia: “São ágeis palavras circundando fatos ariscos e permeáveis lunetas onde se aninham os astros imponderáveis” ( em Certos Momentos). Ou: “Entornas a âncora das viagens que te desenham na água”. Britto prefere outro caminho, o do desencanto feito revelação: “Por isso não tive Pátria, só discos” (Geração Paissandu). Ou: &#8220;Nem tudo o que fui se aproveita&#8221; (Queima de Arquivo).</p>
<p>Mas os dois poetas tem um ponto em comum: o da esgrima exausta com o discurso, a busca da fibra luminosa na armadilhas montadas pela morte da linguagem. Sobram exemplos: para Britto, a poesia é a “fala esquiva, oblíqua, angulosa – do que resiste à retidão da prosa”; ou “a palavra é coisa feita, de uma matéria turva e densa, impura”. E para Torres Filho, o “ocioso exercício” é “marcar, assim o signo papel, maculá-lo com a letra incruenta”; ou “o poema só quer ser feio e não dar nenhum recado”.</p>
<p>O resultado deste embate, sua síntese, é absolutamente impossível dentro da jaula de um livro. Acuado, o poeta propõe sua própria saída: “Escrever, sim, mas como quem grafita”, diz Britto. E para Torres Filho, que enche sua poesia de tambores, o resultado só pode ser este: “Cai o poema, filigrana grave, precipitado na página alvura”. A gravidade do trabalho poético ganha uma dimensão própria no Brasil, onde destruir a linguagem passa por dois corredores: o excesso de oferta do discurso – obsessivo e redundante – e o deboche em relação ao poema.</p>
<p>Na terra do repente e do improviso, dos poetas incuravelmente românticos, do vazio sinfônico do niilismo temperado pelo talento, sobra espaço para a construção de pequenas pontes, da invenção de espelhos ao longo da estrada – para que o discurso se parta diante da própria imagem -, da convivência com a armadura da linguagem – carne difícil em meio ao mar de falsidades.</p>
<p>Sobra espaço também para a crítica, que pode selecionar uma rota de inúmeros sinais colocados pelos poetas. A função da crítica é de absoluta traição: não se render às facilidades do discurso, a quem pertence, como espólio de guerra – e, como o poeta, expor-se na construção do verbo. Subversão também exposta ao deboche, às sobras do discurso. Só assim a crítica poderá iniciar sua própria luta: a de descobrir a identidade perdida da sua linguagem.</p>
<p><em>Ensaio publicado na seção Leitura, página 6 de Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, do dia 29 de junho de 1989. O editor do Caderno 2, na época, era José Onofre. Os dois livros fazem parte da coleção Claro Enigma, editada pelo poeta e crítico Augusto Massi.<br />
</em></p>
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