Livros

A ARTE DOS ENCAIXES

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O romance de estréia do joinvilense Rodrigo Schwarz, A Ilha dos Cães (Bertrand Brasil, 128 págs., R$ 23), se presta a várias metáforas. Podemos escolher duas. Uma está na cena de Os Fuzis, de Ruy Guerra, em que dois soldados de olhos vendados tentam recompor, cada um, a própria arma. Eles dispõem apenas de peças espalhadas sobre a mesa, que precisam ser identificadas pelo tato e encaixadas pela experiência. Prova de coragem: quem for mais rápido e eficiente pode apontar para o adversário. É um jogo mortal que, no livro, coloca frente a frente o autor e o leitor reais, e os autores fictícios entre si.



O SOPRO SEM NOME

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Ao nosso redor, escombros de coisas não nomeadas nos rondam com seu ranger de dentes. Fomos enganados e o poeta fecha a porta na nossa cara como quem faz uma visita. Boa noite, diz ele, e o sol sobe no horizonte como um cachorro pula do chão para a janela, quando busca comida no lugar onde havia apenas papel sujo. (Resenha sobre Como no Céu e Livro de Visitas, de Fabricio Carpinejar, lançado pela Bertrand Brasil).



A ÉTICA DA SOLIDÃO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Ao buscar o humano desprovido de disfarces, Rainer Maria Rilke encontrou a grandeza. Em “Cartas a um jovem poeta” ele relata essa dolorosa passagem em direção à essência, que implica arrancar a fantasia cotidiana grudada à carne. O sangue decorrente dessa decisão não significa apenas recolher-se à solidão seminal da criação. Mas de abrir mão da moeda mais cobiçada, o reconhecimento, de cruzar o pior dos umbrais-a indiferença-e encontrar o mais amedrontador dos mundos, aquele o­nde habita a necessidade absoluta e a permanência.Prefácio do Livro “Cartas a um Jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke(Editora Globo, 2001).



BORGES – ELOGIO DA SOMBRA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Iluminado pelas leituras de toda uma vida, Jorge Luis Borges descobre o essencial quando finalmente é empurrado para a sombra. A cegueira, dura presença aos 70 anos de idade, o deixa só diante da fonte que alimenta os clássicos – sua paixão explícita, uma rede tecida desde Virgílio a Kipling. Texto de Apresentação do livro Elogio da Sombra (Editora Globo, 2001).



INVENTÁRIO DO BRASIL PROFUNDO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Longe da falsa contradição entre poesia e prosa (tão insistentemente lembrada quando se trata de poesia não enquadrada nas firulas teóricas sobre o verso), os poetas Miguel Sanches Neto, Paulo Bentancur e Fabricio Carpinejar trabalham fora dos projetos prontos para a poesia, que, em tese, deveria pular qualquer muro, a começar pelo mais importante, o do sentido (a compreensão compartilhada). Aqui ocorre o contrário. Não há pudor em se falar com todas as letras, como em Miguel Sanches Neto: “Venho de um país obscuro/ de uma infância só muros,/ meu pai foi leve lembrança,/ que me marcou pela ausência,/ e enquanto caminhava pelas ruas do tempo mais triste da ditadura/ ia perdendo meu país como quem deixa uma moeda cair”. Resenha publicada dia 9 de julho de 2005 no caderno de Cultura, do Diário Catarinense.



CRIME E CASTIGO EM JAVIER CERCAS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Dostoievski está na raiz de O Motivo (Francis, 118 págs.), novela escrita na juventude (1987) pelo espanhol Javier Cercas, autor do best-seller Soldados de Salamina, lançado em 2004 em português pela mesma editora, que vendeu 500 mil exemplares na Europa e virou filme de David Trueba. Surpreende que na minuciosa análise do posfácio, acusado de panegírico pela imprensa espanhola, Francisco Rico nem cite o autor russo. Mas o livro é puro Crime e Castigo: um homem solitário premedita um crime, o assassinato de uma pessoa idosa que tem dinheiro guardado em casa, e remói seus argumentos a favor e contra esse desenlace. (Resenha publicada dia 30/07/05, no caderno Cultura do Diário Catarinense)



NÃO HÁ RESPOSTAS, APENAS ENCANTAMENTO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Em Shosha, Isaac Bashevis Singer nos brinda com o pesadelo do escritor que tenta viver do seu ofício enquanto o mundo desmorona à sua volta Quem conta uma história diz como e por que conta, pois todo escritor aspira à eternidade, e não há alma imortal na literatura que se enrede na própria teia. O escritor sabe: quando o livro acabar e a vítima acordar de seu devaneio, e tardiamente descobrir a cama-de-gato preparada, voltará as costas para a obra (essa é a origem dos livros datados e esquecidos). Mas se o próprio livro disser do que se trata, então a fidelidade é absoluta.(Resenha publicada no caderno Cultura, do Diário Catarinense, de 27 de agosto de 2005)



A VIAGEM DO ARTÍFICE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Um artífice cuida do seu ofício e o exerce de forma compulsiva. Não tanto para atingir a perfeição: mais para descobrir a natureza e a estrutura do que faz. Um carpinteiro não mira a casa quando participa de uma construção, mas as vigas, o lustro, o talho do formão, o resultado da sua participação no conjunto. Não que não tenha condições de saber o­nde está enfurnado, ou o que é, afinal, a obra, uma soma de parcerias, talentos e conhecimentos. Ele conhece o fruto de muitas mãos, mas prefere seu próprio mergulho, feito de outra intensidade. Não se trata aqui de definir hierarquias do fazer, mas de tentar entender, pela similitude, o que é a literatura que nos cabe decifrar, e definir o perfil da sua irmã de viagem, a resenha ou o ensaio. Cícero Galeno Lopes, como todo escritor de verdade, nos mostra o caminho no seu novo livro A Viagem (Editora Movimento, 95 páginas). (Resenha publicado no Caderno Cultura, do Diário Catarinense, em 1 de outubro de 2005)



O POUSO INTRANQUILO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Identificação e estranhamento estão no núcleo da antologia “A Terra dos longos olhares” (Editora Holoedro), organizada pela professora Lucia Silva e Silva, da Uergs, que reúne contos, crônicas, poemas e até um minidicionário, de 30 autores de Uruguaiana, um trabalho que revela a força, a diversidade e o alcance da literatura gerada pelos nascidos naquela fronteira.



O BRASIL QUE PERDEMOS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Dois autores, de gerações opostas, nos iluminam pela construção de um resgate profundo do que continua oculto no país do eterno presente. Um é o romance Quando alegre partiste – Melodrama de um delirante golpe militar (Francis, 287 páginas), de Moacir Japiassu, romancista maior (autor de “Concerto para paixão e desatino” e “A Santa do Cabaré”), veterano e considerado jornalista que desde os anos 1960 percorreu as redações brasileiras com o brilho do seu talento e a acidez ilustrada da sua escrita. O outro é a biografia 75kg de músculos e fúria – Tarso de Castro, a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros (Editora Planeta, 268 páginas), de Tom Cardoso, representante da nova e brilhante geração de jornalistas que, apesar de todas as dificuldades, se destaca pelo inconformismo e o trabalho duro. (Resenha publicado no caderno Cultura, do Diário Catarinense, dia 29/10/2005)