Livros

O SOPRO SEM NOME

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Ao nosso redor, escombros de coisas não nomeadas nos rondam com seu ranger de dentes. Fomos enganados e o poeta fecha a porta na nossa cara como quem faz uma visita. Boa noite, diz ele, e o sol sobe no horizonte como um cachorro pula do chão para a janela, quando busca comida no lugar onde havia apenas papel sujo. (Resenha sobre Como no Céu e Livro de Visitas, de Fabricio Carpinejar, lançado pela Bertrand Brasil).



A ÉTICA DA SOLIDÃO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Ao buscar o humano desprovido de disfarces, Rainer Maria Rilke encontrou a grandeza. Em “Cartas a um jovem poeta” ele relata essa dolorosa passagem em direção à essência, que implica arrancar a fantasia cotidiana grudada à carne. O sangue decorrente dessa decisão não significa apenas recolher-se à solidão seminal da criação. Mas de abrir mão da moeda mais cobiçada, o reconhecimento, de cruzar o pior dos umbrais-a indiferença-e encontrar o mais amedrontador dos mundos, aquele o­nde habita a necessidade absoluta e a permanência.Prefácio do Livro “Cartas a um Jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke(Editora Globo, 2001).



BORGES – ELOGIO DA SOMBRA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Iluminado pelas leituras de toda uma vida, Jorge Luis Borges descobre o essencial quando finalmente é empurrado para a sombra. A cegueira, dura presença aos 70 anos de idade, o deixa só diante da fonte que alimenta os clássicos – sua paixão explícita, uma rede tecida desde Virgílio a Kipling. Texto de Apresentação do livro Elogio da Sombra (Editora Globo, 2001).



INVENTÁRIO DO BRASIL PROFUNDO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Longe da falsa contradição entre poesia e prosa (tão insistentemente lembrada quando se trata de poesia não enquadrada nas firulas teóricas sobre o verso), os poetas Miguel Sanches Neto, Paulo Bentancur e Fabricio Carpinejar trabalham fora dos projetos prontos para a poesia, que, em tese, deveria pular qualquer muro, a começar pelo mais importante, o do sentido (a compreensão compartilhada). Aqui ocorre o contrário. Não há pudor em se falar com todas as letras, como em Miguel Sanches Neto: “Venho de um país obscuro/ de uma infância só muros,/ meu pai foi leve lembrança,/ que me marcou pela ausência,/ e enquanto caminhava pelas ruas do tempo mais triste da ditadura/ ia perdendo meu país como quem deixa uma moeda cair”. Resenha publicada dia 9 de julho de 2005 no caderno de Cultura, do Diário Catarinense.



CRIME E CASTIGO EM JAVIER CERCAS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Dostoievski está na raiz de O Motivo (Francis, 118 págs.), novela escrita na juventude (1987) pelo espanhol Javier Cercas, autor do best-seller Soldados de Salamina, lançado em 2004 em português pela mesma editora, que vendeu 500 mil exemplares na Europa e virou filme de David Trueba. Surpreende que na minuciosa análise do posfácio, acusado de panegírico pela imprensa espanhola, Francisco Rico nem cite o autor russo. Mas o livro é puro Crime e Castigo: um homem solitário premedita um crime, o assassinato de uma pessoa idosa que tem dinheiro guardado em casa, e remói seus argumentos a favor e contra esse desenlace. (Resenha publicada dia 30/07/05, no caderno Cultura do Diário Catarinense)



NÃO HÁ RESPOSTAS, APENAS ENCANTAMENTO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Em Shosha, Isaac Bashevis Singer nos brinda com o pesadelo do escritor que tenta viver do seu ofício enquanto o mundo desmorona à sua volta Quem conta uma história diz como e por que conta, pois todo escritor aspira à eternidade, e não há alma imortal na literatura que se enrede na própria teia. O escritor sabe: quando o livro acabar e a vítima acordar de seu devaneio, e tardiamente descobrir a cama-de-gato preparada, voltará as costas para a obra (essa é a origem dos livros datados e esquecidos). Mas se o próprio livro disser do que se trata, então a fidelidade é absoluta.(Resenha publicada no caderno Cultura, do Diário Catarinense, de 27 de agosto de 2005)



A VIAGEM DO ARTÍFICE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Um artífice cuida do seu ofício e o exerce de forma compulsiva. Não tanto para atingir a perfeição: mais para descobrir a natureza e a estrutura do que faz. Um carpinteiro não mira a casa quando participa de uma construção, mas as vigas, o lustro, o talho do formão, o resultado da sua participação no conjunto. Não que não tenha condições de saber o­nde está enfurnado, ou o que é, afinal, a obra, uma soma de parcerias, talentos e conhecimentos. Ele conhece o fruto de muitas mãos, mas prefere seu próprio mergulho, feito de outra intensidade. Não se trata aqui de definir hierarquias do fazer, mas de tentar entender, pela similitude, o que é a literatura que nos cabe decifrar, e definir o perfil da sua irmã de viagem, a resenha ou o ensaio. Cícero Galeno Lopes, como todo escritor de verdade, nos mostra o caminho no seu novo livro A Viagem (Editora Movimento, 95 páginas). (Resenha publicado no Caderno Cultura, do Diário Catarinense, em 1 de outubro de 2005)



O POUSO INTRANQUILO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Identificação e estranhamento estão no núcleo da antologia “A Terra dos longos olhares” (Editora Holoedro), organizada pela professora Lucia Silva e Silva, da Uergs, que reúne contos, crônicas, poemas e até um minidicionário, de 30 autores de Uruguaiana, um trabalho que revela a força, a diversidade e o alcance da literatura gerada pelos nascidos naquela fronteira.



O BRASIL QUE PERDEMOS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

Dois autores, de gerações opostas, nos iluminam pela construção de um resgate profundo do que continua oculto no país do eterno presente. Um é o romance Quando alegre partiste – Melodrama de um delirante golpe militar (Francis, 287 páginas), de Moacir Japiassu, romancista maior (autor de “Concerto para paixão e desatino” e “A Santa do Cabaré”), veterano e considerado jornalista que desde os anos 1960 percorreu as redações brasileiras com o brilho do seu talento e a acidez ilustrada da sua escrita. O outro é a biografia 75kg de músculos e fúria – Tarso de Castro, a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros (Editora Planeta, 268 páginas), de Tom Cardoso, representante da nova e brilhante geração de jornalistas que, apesar de todas as dificuldades, se destaca pelo inconformismo e o trabalho duro. (Resenha publicado no caderno Cultura, do Diário Catarinense, dia 29/10/2005)



QUAL O LIVRO DA SUA VIDA?

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O romance é o inventário de uma guerra, qualquer guerra. O único compromisso é com a literatura, que veste o que chamam verdade, ou memória, ou mesmo poesia. O que faz o romance é decidir o que existe de épico do fato reconstituído pela soma de linguagens atiradas no chão do tempo. Minha cena favorita de Lord Jim, de Joseph Conrad, traduzido de uma versão francesa pela música de Mário Quintana, é quando o anti-herói joga a tocha acesa no rio e, ao apagar-se, revela todas as estrelas. Ou a cena de O coração das trevas em que Marlowe cruza com seu barco o meio do nada chamado Tamisa e começa a narrar para quem o cerca, prendendo-os numa rede irresistível a que chamam história, mas que é pura magia.



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