<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Nei Duclós &#187; Memórias</title>
	<atom:link href="http://www.consciencia.org/neiduclos/categoria/memorias/feed" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.consciencia.org/neiduclos</link>
	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
	<lastBuildDate>Sat, 11 Feb 2012 18:53:32 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.3</generator>
<xhtml:meta xmlns:xhtml="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex" />
		<item>
		<title>COPY DESK, O ANÔNIMO EDITOR DE TEXTO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/copy-desk-o-anonimo-editor-de-texto</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/copy-desk-o-anonimo-editor-de-texto#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 May 2011 16:29:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Redação sem Máscara]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/neiduclos/?p=2689</guid>
		<description><![CDATA[Nei Duclós Fui copy a vida inteira. Chamava-se redator, uma função que sumiu na imprensa. Chegávamos mais tarde e saíamos por último, junto com o editor. Recebíamos os textos, copidescávamos, fazíamos o fechamento, como títulos, olhos, legendas etc. Hoje repórter faz tudo isso. A terceirização desses encargos liberava a reportagem da chatice de acertar o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Fui copy a vida inteira. Chamava-se redator, uma função que sumiu na imprensa. Chegávamos mais tarde e saíamos por último, junto com o editor. Recebíamos os textos, copidescávamos, fazíamos o fechamento, como títulos, olhos, legendas etc. Hoje repórter faz tudo isso. A terceirização desses encargos liberava a reportagem da chatice de acertar o número exato de toques de um título sem cair no ramerrão muito comum hoje, de usar &#8220;diz que&#8221; ou verbos esdrúxulos como mirar (mira é curto, aparentemente resolve, mas fica estranho). Um bom copy é obrigatoriamente criativo, além de competente, e o primeiro a ler a matéria, o amigo dos leitores do jornal ou revista.</p>
<p>Os copys eram anônimos para o grande público, só conhecidos e valorizados no meio jornalístico. Chamavam um bom copy de “puta texto”, que extraía maravilhas de uma maçaroca de dados. Grandes copys ficam na História, como o legendário Miltainho, Mylton Severiano da Silva, que fazia dupla com repórteres antológicos como Hamilton Almeida Filho. Outros se revelaram escritores famosos, como o Fernando de Morais ou Humberto Werneck. E muitos ficaram naquele circulo compenetrado dos grandes fechadores, exímios artífices da língua, como Antenor Nascimento ou Genilson César. A relação com os editores costumava ser amigável, pois resolvíamos um monte de pepinos, mas com a reportagem havia tumulto.</p>
<p>“Foi você que mexeu no meu texto?” perguntou a repórter da Ilustrada, da Folha de S. Paulo, furiosa, com o jornal na mão, no meu segundo dia de copy no caderno. Fui, respondi. “Então da próxima vez não assine meu nome, porque eu não escrevi isso”. Ok, tornei a falar. Vou fazer isso. Não vou assinar seu nome e continuar copidescando. O texto da moça era muito ruim e em um mês ela ficou minha amiga. Descobriu que eu trabalhava a favor dela. Fazia questão de assinar tudo. O copy assumia uma espécie de missão cívica, com o mesmo espírito do trabalho solidário.</p>
<p>É preciso gostar de escrever, gostar do que os outros escrevem, admirar a reportagem, não causar problemas ao editor, não guardar ressentimentos, não querer brilhar com o trabalho alheio, nem colocar as patas nele. Um copy é um especialista em extirpar lugares comuns, descobrir furos na estrutura do texto, buscar informação para resolver impasses, entrevistar o repórter, checar as fontes, entregar tudo no prazo e retirar-se todos os dias para sua caverna nas montanhas. Lá no alto, ele medita esperando o sol nascer de novo para iluminar o vale das palavras.</p>
<p>A TV Guia, revista da Abril que durou sete meses em 1977, baseada na TV Guide americana, foi meu momento xis do copy. Trabalhava junto com dois craques: Macedo Miranda, Filho, que citei várias vezes em meus textos de memórias, e Ricardo Vespucci, o Bi, figura maravilhosa que já partiu pra o Outro Lado. Com eles aprendi a técnica do texto redondinho de revista, aquele que tem o desfecho sintonizado com o início e costura parágrafos sem dor, para que a leitura flua como veleiro em tarde tépida de outono. Não se trata de facilitar a vida de ninguém, mas de seduzi-la pela qualidade do trabalho, torná-la prazerosa, aventureira, com revelações. Tínhamos material para isso. Os textos vinham de gente pesada como Caco Barcelos ou Audálio Dantas, que nos entregavam grandes reportagens de uma dez laudas, o que era um despropósito para o formato da revista (do tamanho de uma meia Veja).</p>
<p>A TV Guia pagava muito bem, mas sofreu concorrência acirrada do grupo Manchete (que emplacou algo parecido nos seus veículos e que era dado de brinde). Era sofisticada, pois além da programação completa das TVs tinha belas reportagens. E havia chance de os copys assinarem artigos sobre temas variados, o que fiz algumas vezes. A revista tinha como editor o Woile Guimarães, que mais tarde foi para a Rede Globo. Macedo Miranda viera de lá e para lá voltou. Depois montou uma empresa própria e continua sendo um profissional respeitado e talentoso.</p>
<p>Na Ilustrada, um descanso para o copy chamava-se Paulo Moreira Leite, que depois ficou muitos anos na Veja, foi correspondente em Paris e hoje está na Época. Paulo tinha o texto perfeito e eu colocava a caneta de lado quando recebia uma reportagem dele. E na Ilustrada havia espaço para publicar tudo, diferente da TV Guia em que havia necessidade de inventar outro texto para caber as informações. O maior desafio situava-se no lead. Meu melhor lead, não canso de lembrar, foi sobre o Cyborg, o sujeito que era metade gente, metade máquina: “Todo mundo tem seu lado humano. O de Cyborg, é o esquerdo” .</p>
<p>Sinto falta, como leitor de jornais diários, principalmente nas versões on line, da função do copy. Noto erros grosseiros que seriam eliminados na primeira leitura. Passam lotado para a edição, que, parece, não lê mais nada. Se der erro, demita-se o repórter. Não deve ser assim. Jornalismo é como cinema, trabalho de equipe, com responsabilidade compartilhada. Tudo se soma para evitar transtornos aos leitores. Depois não se queixem da morte dos jornais. Não é a concorrência da internet que os leva à falência. É a falta de coisas básicas, como um bom copy-desk. Noto agora que meu afastamento das redações coincidiu com o fim da função que eu exercia. Fiz muita reportagem e fui editor várias vezes. Mas o que gostava mesmo era navegar nas matérias que vinham de todos os lados.</p>
<p>Não cuido mais de texto alheio. Quando me pedem, distribuo positivos, pois crítica hoje ofende e pode fechar o tempo. Tenho mais o que fazer. Mas posso ensinar o ofício, se é que existe gente que queira aprender uma função extinta. Copy é como o latim, que não é mais falado, mas é a base da língua. No mínimo, forma escritores. Ou pelo menos pessoas focadas na claridade e força das palavras.</p>
<p>RETORNO &#8211; 1. Dei uma copidescada no texto acima, ficou melhor, sem vários ruídos. Todo copy precisa também de um copy. 2. Acho que foram os preconceitos (além da eliminação de funções para aumentar os lucros) que derrubaram o copy. Achavam que o redator &#8220;dourava a pílula&#8221;, colocava cerejinha em cima do bolo da reportagem. Um soldado da Legião Estrangeira não doura pílula, afia adagas e azeita rifles. Outra iéia de jerico era confundir copy com revisor. Revisão é outro departamento, também importante, e que dá grande apoio ao copy. Mas as funções são diversas. O revisor não tem a autonomia do copy, não muda, apenas checa e corrige. Já o copy não pede licença. Deadline não espera.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/copy-desk-o-anonimo-editor-de-texto/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O ESTADO EM 1972: JORNALISMO DO MUNDO PERDIDO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-estado-em-1972-jornalismo-do-mundo-perdido</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-estado-em-1972-jornalismo-do-mundo-perdido#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 May 2011 16:27:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Redação sem Máscara]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/neiduclos/?p=2687</guid>
		<description><![CDATA[Nei Duclós Fiquei alguns meses em São Paulo morando de favor e fazendo uma matéria por mês no Jornal de Investimentos, editado pelo Celso Ming, e que era um dos veículos do grupo da Gazeta Mercantil. Meu tema eram empresas que tinham acabado de entrar nas Bolsa de Valores. Ming esmigalhava meu texto sem dó [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Fiquei alguns meses em São Paulo morando de favor e fazendo uma matéria por mês no Jornal de Investimentos, editado pelo Celso Ming, e que era um dos veículos do grupo da Gazeta Mercantil. Meu tema eram empresas que tinham acabado de entrar nas Bolsa de Valores. Ming esmigalhava meu texto sem dó e me obrigava a reescrever um monte de vezes. Cansado daquela vida, resolvi viajar para Florianópolis, onde amigos meus tinham alugado uma casa. No primeiro churrasco, fui avisado por Ayrton Kanitz que Jorge Escosteguy trabalhava em O Estado e precisava de um redator. Era minha especialidade: o copy.</p>
<p>Sempre admirei repórteres mas não estava talhado para a função. Nas primeiras matérias me colocavam no copy. Aproveitavam meu texto para corrigir o dos outros. E nisso fiquei,praticamente a vida toda, com algumas incursões nas reportagens e na edição. Quando cheguei na redação, Scotch brincou escondendo-se atrás da Olivetti. Nos conhecíamos do tempo da Folha da Tarde, dois anos antes, da Caldas Junior de Porto Alegre. Acabamos morando perto e remando sem parar no jornal, fechando os noticiários de Nacional e Internacional. Lá estava o Aluisio Amorim, também copy do Scotch.</p>
<p>Lembro que choveu demais aquele ano de 1972 e nos perguntávamos quando teríamos a ilha da magia. Scotch era um dínamo e vivia em conflito com a chefia da redação, a cargo do gentil Marcilio Medeiros, filho. Havia pessoas pacatas como Laudelino Sardá, que jamais se metia em brigas, jovens talentos como Cesar Valente e outros mais animados, que gostavam de implicar com nossa biografia e se perguntavam o que fazíamos ali na terra deles. Na época da repressão braba, todos nós estávamos sob suspeita. O problema era a política, mas meu cabelos compridos denunciavam alienação. Eu, pelo menos, não aparentava perigo. Não iria pegar em armas, já que tinha ainda o agravante de fazer poesia. Já o Scotch, sempre disseram que ele era do partidão, mas nunca vi isso confirmado. Para mim, era um espírito livre, anti-ditadura, como todos nós.</p>
<p>Um belo dia o Matusalém Comelli, que era dono de O Estado, convidou o Kanitz para trabalhar lá. Mario Medaglia, bamba do noticiário esportivo e &#8220;jornalista desde que nasceu&#8221; também viera do JSC a convite de O Estado, assim como eu e Virson Holderbaum, amigo certo desde os anos 60. Ayrton Kanitz dava show na sucursal do Jornal de Santa Catarina na capital e fazia concorrência pesada. Foi convidado para determinada função, não lembro qual, mas depois de ter pedido demissão, foi informado que seu cargo era outro. Faria coisa diferente do combinado. Foi o que fiquei sabendo, não tenho detalhes de quem partiu a decisão. Isso causou estranheza entre a gauchada, que resolveu pressionar a direção para cumprir a palavra. Em vão. Resultado: a maioria saltou fora e foi assim que se deu o quiprocó de O Estado. Acabei indo mais tarde para São Paulo, onde pousei na redação da Folha de São Paulo e depois em outras, como canso de repetir nas minhas memórias precoces (já esgotei todos os assuntos, nada mais me resta a fazer na terceira idade; posso ir sestear).</p>
<p>Os fatos assim se deram e acabamos saindo da cidade que tínhamos escolhido para viver (acabei voltando,primeiro em 1981 e depois em 2003; aí, fiquei). Ainda rodei algum tempo desempregado, mas a barra pesou. Migrei primeiro para Vitória do Espírito Santo, onde trabalhei no novo jornal A Tribuna, voltei a Porto Alegre para a Folha da Manhã da Caldas Junior em 1974 e finalmente São Paulo novamente, onde passei por vários lugares. Para que servem essas lembranças, tão prosaicas? Só para dizer que faço parte da proto-história do jornalismo brasileiro, aquele que nem é mais lembrado, já que saudade hoje se sente dos anos 80 para cá. Para trás, já é o mundo perdido.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-estado-em-1972-jornalismo-do-mundo-perdido/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>FECHAMENTO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/fechamento</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/fechamento#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 30 May 2011 16:24:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/neiduclos/?p=2682</guid>
		<description><![CDATA[Nei Duclós Estavam todos vivos até há pouco o Tarso com seu jeito louco o Scotch com a barba de Cuba o Bi arregalando o olho juntando laudas com Sergio de Souza Estavam todos vivos até há pouco o Múcio sempre nervoso o Fortuna com cara de ogro o Marcão Faerman e seus rebanhos Markito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Estavam todos vivos até há pouco<br />
o Tarso com seu jeito louco<br />
o Scotch com a barba de Cuba<br />
o Bi arregalando o olho<br />
juntando laudas com Sergio de Souza</p>
<p>Estavam todos vivos até há pouco<br />
o Múcio sempre nervoso<br />
o Fortuna com cara de ogro<br />
o Marcão Faerman e seus rebanhos<br />
Markito e Gaguinho, que se foram cedo</p>
<p>Estavam todos vivos até há pouco<br />
nas redações de telefone preto<br />
nas teclas de duro alfabeto<br />
nos papéis errando a cesta<br />
nos gritos, gargalhadas, canetas</p>
<p>Estavam todos vivos e nem eram moços<br />
tinham quilometragem em carne e osso<br />
gastavam tudo pois não havia posse<br />
apenas a fúria de escrever uns troços<br />
que eram a vida inteira em papel impresso</p>
<p>Estavam todos vivos ao redor do fogo<br />
que jamais morria por falta de histórias<br />
havia algo maior acima dos armários<br />
ou das madrugadas na ponta do lápis<br />
talvez a eternidade sem se darem conta</p>
<p>Eu estava no meio, aprendendo o ofício<br />
querendo ser útil, um irmão mais novo<br />
um recém chegado ainda sem pouso<br />
recebido como um igual e não era o caso<br />
fui apenas o sujeito que ficou por último</p>
<p>Estive com eles até há pouco<br />
meus irmãos de esquinas e encontros<br />
títulos definitivos, páginas em branco<br />
textos com precisão de linha de tiro<br />
sons de baterias metralhadas ao longe</p>
<p>Por isso mostro hoje esse andar aéreo<br />
como quem procura aquela dúzia de tontos<br />
talvez eu esteja ainda lá, perto da meia noite<br />
quando o mundo explode e não há mais tempo<br />
Não tem por onde sair na hora do fechamento</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/fechamento/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>MEMÓRIAS DA REVOLUÇÃO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/memorias-da-revolucao</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/memorias-da-revolucao#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 24 Nov 2010 21:45:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/neiduclos/?p=2428</guid>
		<description><![CDATA[Nei Duclós Lembro de tudo, mas posso errar nos detalhes, não importa. O que vale é a memória, o rescaldo daquela época e as conseqüências hoje, pois 2010 é o resultado de 1968. Duas tendências opostas se digladiavam pela liderança do movimento estudantil naquele ano. Eu “pertencia” à AP, como se dizia, a Ação Popular, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Lembro de tudo, mas posso errar nos detalhes, não importa. O que vale é a memória, o rescaldo daquela época e as conseqüências hoje, pois 2010 é o resultado de 1968. Duas tendências opostas se digladiavam pela liderança do movimento estudantil naquele ano. Eu “pertencia” à AP, como se dizia, a Ação Popular, organização vinda da JEC, JUC e JOC, associações católicas, uma que reunia Estudantes secundaristas, outra Universitários e a outra Operários. Elas ficaram obsoletas, pois eram do tempo da democracia extinta pelo golpe de 1964 e foram substituídas pela AP, sigla mais abrangente, que reunia militantes para “derrubar a ditadura e expulsar o imperialismo”.</p>
<p>Essa era a palavra de ordem de AP, oposto à dos outros partidos, também clandestinos, como o POC, Partido Operário Comunista, que pregavam o povo no poder, ou seja, a ditadura do proletariado. A radicalização do processo, com o AI-5, fruto das mobilizações de massa bem sucedidas, que balançaram o governo, levou a AP para o maoismo (e de quebra o foquismo guevarista) e o POC e congêneres para o stalinismo. Combatentes das duas correntes optaram pela luta armada e “caíram”, como José Dirceu, enquanto outros partiram para o exílio, como José Serra.</p>
<p>Esse confronto ideológico se dava na elite hiper-intelectualizada das lideranças e seus clones, restando à massa as reivindicações básicas, usadas até o osso pela esquerda estudantil. As pessoas que não entendiam as diferenças entre as duas correntes, queriam apenas mais vagas na universidade, e que ela continuasse pública e gratuita, já que o sucateamento da classe média não permitia a muita gente pudesse arcar com os custos do ensino privado. Não atinávamos que a diferença de enfoque era fundamental, pois se você quer derrubar a ditadura e expulsar o imperialismo há margem para compor com outras forças democráticas, enquanto a palavra de ordem pela ditadura do proletariado restringia o espectro para meia dúzia de militantes.</p>
<p>O que aconteceu? O confronto democrático foi vitorioso, enquanto a guerrilha urbana e rural caiu em desgraça. Quando Gabeira, que seqüestrou embaixador, voltou, era a cara mais vistosa dessa esquerda que vinha participar do Brasil pós anistia. José Dirceu preferiu se esconder num pseudônimo no interior do Paraná, onde nem a própria mulher sabia da sua verdadeira identidade. O resto, a massa, estava amargando a ditadura e foi trabalhar porque a vida não faz graça com ninguém.</p>
<p>Na campanha eleitoral de 2010, as duas correntes se enfrentaram nas urnas pela primeira vez, mesmo que isso tenha sido mascarado por uma série de truques de linguagem, desde a religiosidade forçada da ex-chefe da Casa Civil quanto a tentativa de esconder FHC por parte do ex-governador paulista. A linha pacífica e progressista, que compôs com outras forças do espectro democrático, se digladiou com ex-guerrilheiros aparelhados no Estado, que sabiamente souberam unir as lições de Stalin com o diagnóstico de Raymundo Faoro sobre a hegemonia do Estamento no Brasil em Os Donos do Poder (não que mestre Faoro tenha a ver com essa choldra, pois ele fez apenas o diagnóstico e a denúncia). A esquerda que devora adversários e se livra de parceiros transformou-se na caratonha do Estado desvirtuado por décadas de ditadura.</p>
<p>Para quem continuou fiel à sua opção de apostar na democracia contra o aparelhamento do estado e seu entorno, ou seja, a sovietização burocrática, a perspectiva de censura e a festa do butim, Serra teoricamente enfeixava qualidades de oposição. Havia empecilhos, como seu envolvimento visceral com o fisiologismo pessedebista, uma dissidência do velho emedebismo, oposição consentida da ditadura; e o apoio dado pela direita reunida no DEM, partido que veio da antiga Arena. Mesmo com esses furos, Serra conseguiu 44 milhões de votos. Somados aos 32 milhões dos votos jogados fora (branco, nulos e abstenções), representam 2/3 do eleitorado, o que coloca por terra os pretensos 89% de aprovação ao atual chefe de governo.</p>
<p>Hoje vemos a presidente eleita ligando para José Sarney para decidir a parada de uma casa de luxo (funcional) para o senador petista em detrimento do senador goiano. Vemos o estouro do Banco Panamericano, que lança luzes sobre a manipulação do episódio da agressão a Serra. Vemos a ficha de Dilma que organizava assaltos, omitida durante a campanha eleitoral para evitar uso político, enquanto se sabe que a omissão também foi uso político.</p>
<p>Para enfrentar bandido, você não pode se transformar num deles. O pessoal do “povo no poder” não entendeu assim e partiu para o seqüestro, o assassinato e o roubo. Hoje se beneficia de uma contrafação, o político que veio das lutas sindicais e pegou carona nas reivindicações populares para permanecer no poder e entregar o país, a exemplo do que foi feito nos oito anos sinistros de FHC, o sujeito que inventou a reeleição e sucateou o patrimônio público (que não foi reestatizado pelo seu continuador, Lula).</p>
<p>Serra agora quer se reconstruir como líder da oposição. Acho difícil. A direita descobriu que tem cacife eleitoral e vai querer disputar a presidência. Pois isso a esquerda fez: ressuscitou a direita, que tinha sido enterrada depois dos anos de chumbo. Há o centrismo, tanto de Aécio como do PMDB, que são vorazes por poder e que dificilmente vão querer compactuar de novo tanto com o petismo quanto com Serra. A perspectiva é que o processo se radicalize novamente, com o fisiologismo no poder e a indignação popular se intensificando.</p>
<p>Fiz esse texto de memória. Quem quiser, que pesquise. Eu vivi esse tempo e posso falar. Talvez minha percepção não tenha se inteirado dos fatos mais importantes, já que sempre fui marginal ao processo. Mas sempre existe alguém que fica para contar a história. Não teve a mínima importância, mas eu briguei com todos em 1969, quando percebi, pela reundância do discurso, que estavam patinando e errando sem parar, o que prenunciava mais tragédia (a insensibilidade política diante das evidências). Minha opção na campanha presidencial veio de longe, teve um link com esse tempo em pé de guerra. Foi a primeira em que eu realmente me engajei. Gostei. Se preparem.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/memorias-da-revolucao/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>MEMÓRIA E IDENTIDADE</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/memoria-e-identidade</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/memoria-e-identidade#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 18:53:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/neiduclos/?p=2229</guid>
		<description><![CDATA[Nei Duclós Memória incomoda quando o conterrâneo se afasta da cidade e depois se refere à sua origem entre suspiros de saudade. Para quem fica, é desconfortável ver seu ambiente ser identificado com o passado, desconectado completamente do mundo, como se este pertencesse apenas ao saudoso e não ao que continua no mesmo lugar, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós </strong></p>
<p>Memória incomoda quando o conterrâneo se afasta da cidade e depois se refere à sua origem entre suspiros de saudade. Para quem fica, é desconfortável ver seu ambiente ser identificado com o passado, desconectado completamente do mundo, como se este pertencesse apenas ao saudoso e não ao que continua no mesmo lugar, mas numa outra realidade. Há, claro, sobrevivência de hábitos, de prédios, de ruas, mas permanecer na cidade natal é um assunto penoso abordado pelos que emigraram, os que não vivem mais ali e se enchem de mesuras para o que não entendem mais.</p>
<p>Quando resgatamos o que se foi, é preciso ter o cuidado de não identificar as lembranças com a cidade de hoje, bem no miolo do movimento universal e contemporânea em tudo e, em alguns casos, bem mais avançado no seu aspecto civilizatório. Hoje, cidades médias para pequenas são as jóias da urbanidade, pois com a tecnologia estamos conectados com tudo e vivemos o fim daquele isolamento obrigatório que nos confinava no ermo. Não é mais preciso emigrar.</p>
<p>Mas é fundamental se relacionar de alguma forma com a memória, desde que não criemos ilusões sobre ela nem, num golpe de anacronismo, fizermos transferências equivocadas entre o que vivemos e a realidade do lugar onde nascemos. A cidade mudou junto com o mundo e é vizinha a tudo o que o outro acha ser exclusivo dele. O fato é que a memória se refere a um universo paralelo, o que convive conosco como uma presença determinante e não sabemos avaliar seu impacto no presente.</p>
<p>No meu caso, fico invocado com os primeiros quatro anos de vida, dos quais tenho imagens nítidas de cenas que permanecem. Sonhei esses tempos com uma praça em Uruguaiana que não existia. Quando estive numa das feiras do livro, me apresentaram as imagens desse local que mudou, deixou de ser praça e virou outra coisa. A cena estava enterrada em mim como um tesouro inacessível. Lembro de diálogos inteiros na minha família e eu era ainda de colo. E misturo mudança de casa, cronologias, imagens reais que talvez tenham sido apenas imaginação.</p>
<p>O que fazer desse acervo a não ser transformar em literatura, já que não domino a psicologia? É o que tenho feito. Aos poucos, aquilo que ficou forma um mosaico intacto, onde emerge a cidade em seu esplendor vista pela infância. Os desfiles, as roupas, os gestos, as personagens, as histórias, tudo conflui para uma grande celebração interna, muito mais rica do que qualquer romance. Esse é o lugar onde moramos sempre? Ou tudo não passa de invenção do texto, da crônica que procura cumprir sua tarefa, da vontade de compartilhar com os conterrâneos o muito que perdemos nos fios entrelaçados de uma vida longa?</p>
<p>Memória, emoção, vida: o tempo é a palavra coração. Nela carregamos o que há de mais precioso e não se trata de bairrismo ou saudade, mas de identidade, a que expomos todos os dias. Nela nos reconhecem, nós os habitantes da cidade que sumiu no tempo e convive com a existente hoje, como duas faces do mesmo rosto.</p>
<p><em>Crônica originalmente publicada no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/memoria-e-identidade/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATO</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-dia-de-prata-no-meio-do-mato</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-dia-de-prata-no-meio-do-mato#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 22:39:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Memórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/nei-wp/wordpress/?p=1227</guid>
		<description><![CDATA[Saímos do acampamento já tarde, depois das dez da noite. Soube do horário pelas ondas direcionais do grande rádio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo açoitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para lá do desconhecido, onde só os mateiros experientes chegam. (Texto publicado na antologia A Terra dos Longos Olhares, da editora Holoedro, 2005, org. de Lucia Silva e Silva)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Saímos do acampamento já tarde, depois das dez da noite. Soube do horário pelas ondas direcionais do grande rádio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo açoitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para lá do desconhecido, onde só os mateiros experientes chegam. Ainda me pergunto porque me levaram, se eu já estava pronto para dormir, depois de um dia sendo comido vivo pelos mosquitos e com coceiras por todo o corpo, fruto do ataque de micuins e mutucas. Meu cabelo era uma crosta dura de terra seca. Minhas mãos em carne viva lamentavam o tempo todo desperdiçado em escamas e linhadas cheias de nós. No meio da expedição, sendo orientado pelo passos dos que iam à frente e estocado pelos que vinham atrás, desconfiei que todos estavam loucos e me levavam para longe da minha cama.</p>
<p>ÁGUA &#8211; Ouvi longe o barulho do rio que naquelas paragens se atira sobre as pedras, caindo mais adiante. O som esperneava em meus ouvidos, mas eu prestava atenção no território complicado onde trafegava, esperando enfim o momento de sentar, descansar, deixar-me levar, entregar-me à noite profunda. Olhei para o céu. Tudo breu, nenhuma estrela. Havia um certo vento, que em vez de sacudir as folhas, me contava causos escusos, soprava segredos inaudíveis, amedrontava o menino que jamais poderia ter chegado até ali. Quando chegamos na água, onde era impossível molhar os pés sem correr o risco de ser levado correnteza abaixo, todos se dispersaram. Cuidavam de seus apetrechos e olhavam como assassinos a toca invisível sob a superfície. Meu pai sentou-se ao meu lado e preparou o bote. Jogou a linha bem na boca, como dizíamos, com chumbada grossa, para que não perdesse tudo. A pescaria era de dourado, animal predador e arisco, que sai à noite para caçar em águas turbulentas e que por isso mesmo tinha a carne mais apreciada de todas as outras, além de ser o troféu maior de quem pesca no rio Uruguai e seus arroios. Eu segurava um pedaço de galho e tentava parti-lo, de raiva. Mas o objeto era flexível e envergava sem quebrar. Comecei a usá-lo para bater nas pedras com insistência, pois também estava furioso por ter esquecido de trazer minha linhada, o que já tinha desencadeado gargalhadas sinistras daquela caravana que mais parecia um pesadelo. O barulho que eu fazia chamou a atenção do meu pai, normalmente absorto na sua milenar indiferença, que era pontuada sempre pela brasa de um cigarro. Te aquieta que já vem a lua, disse ele.</p>
<p>ARCO &#8211; Olhei para todos os lados e não vi nada. Via apenas a corredeira começando a aparecer, a destacar-se ao meio do breu, como se alguém tivesse passado cera brilhante sobre seu dorso e a afagava para que ficasse mais mansa e nos desse logo os peixes sonhados, para que eu pudesse voltar logo e me esconder no fundo da barraca. O rio tornou-se mais claro, insensível diante da minha falsa esperteza disfarçada em vontade de fugir, e na margem oposta, acima da copa do mato, um risco vermelho em curva e que tomava quase todo o horizonte desenhava um incêndio que não ardia. Era o luão gordo e vermelho do verão levantando como um arcanjo ameaçador. Comecei a rezar para livrar-me de todos os pecados, pois imaginava que estávamos sendo incendiados sem que ninguém atinasse, e eu estava só e indefeso nas mãos de debochados pescadores do pampa. A ascensão continuou lenta e a lua agora tornava-se prata, fazendo com que todos nós, que tocaiávamos dourados, aparecessem com todos os riscos do rosto e volumes do corpo. Podia ver o riso de um sem fazer barulho, outro colocando a mão na testa para debochar da lua que imitava o sol. Tudo virou prata e inundou a noite com um dia esplêndido e eu franzi a testa para entender o que se passava. De repente, borbulha o salto do dourado preso no anzol. Cezimbra foi o primeiro a gritar. Sadi chegou a chapinhar na beira de tão nervoso. Mas quem tinha pego o bruto era meu pai, que gargalhava seu sorriso vencedor e foi puxando o peixe devagar, gozando com a cara de todos, que tinham medo que o dourado escapasse. Ele então afundou as pernas na água e pegou o peixe pela guerla. Levantou sua prenda até a altura da cabeça e gritou. Os outros quiseram aplaudir, mas a inveja era maior do que o entusiasmo. Houve reclamações de que o prêmio era pequeno demais para o alarido feito pelo pescador vitorioso.</p>
<p>INVENÇÃO &#8211; Mas o dourado é manhoso e fingiu-se de morto, arqueando o corpo e abrindo e fechando as guerlas como se estivesse vencido e desesperado. No auge da gritaria e da celebração, o animal deu um safanão e soltou-se. Antes de sumir de novo, só para humilhar, foi até a beira onde eu estava extasiado e tocou sua boca na ponta do meu pé. Depois mergulhou e lá na boca, bem no meio do arroio, deu um salto de misericórdia. Ouviu-se um ala puta que o bicho é brabo. Meu pai ria sem parar, acompanhado pelos outros. A lua, impassível, deitava seu esplendor sobre o menino molhado e taciturno que, de repente, pela primeira vez naquela noite, sentiu vontade de rir também. Era verão, eu era muito pequeno e aquilo que eu estava vivendo era tão absurdamente verdadeiro que decidira inventar tudo. Queria apenas mostrar o quanto aquela expedição fora importante para alguém como eu, que um dia partiu para nunca mais voltar e tentava trazer de volta o que realmente sentiu naquela época. Soube depois que a vivência no mato com meu pai jamais seria resgatada, em toda a sua desenvoltura de lua cheia iluminando o mato sobre a corredeira dos dourados ariscos e guerreiros.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-dia-de-prata-no-meio-do-mato/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>O PUXÃO DA PRIMAVERA</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-puxao-da-primavera</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-puxao-da-primavera#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 20:42:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Memórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/nei-wp/wordpress/?p=1194</guid>
		<description><![CDATA[Fico em frente ao passo do pássaro praiano. Ele tem aquele movimento que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabeça gira e seus olhos não se importam comigo. O que chama a atenção da criatura é uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas é empurrado pelo vento. O brilho intenso na areia é a manifestação de um deus desconhecido.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Fico em frente ao passo do pássaro praiano. Ele tem aquele movimento que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabeça gira e seus olhos não se importam comigo. O que chama a atenção da criatura é uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas é empurrado pelo vento. O brilho intenso na areia é a manifestação de um deus desconhecido. Esse contraste intrigante ébano-ouro atrai o bico arisco, que se aproxima para puxar o risco negro, limite da sombra debruçada sobre a luz. Mas ao experimentar a resistência daquele material, resolve soltar tudo, fazendo o lençol escuro voltar ao local de origem.</p>
<p>CORAÇÃO &#8211; Descobri esse deus que não revela o nome ao visitar o que devia ser um por- de-sol. O inverno ia alto e o chumbo do fim do dia fechava o céu num tom decisivo. Então, numa brecha acima do último morro, brilhou intensamente a presença dessa divindade, a querer nos mostrar a sua força, a nos dizer que não iria dormir naquela hora e não obedecia aos ditames do tempo e das estações. Descobri que ele iluminava o granito do morro em frente, de contornos majestosos, resíduos de uma época assombrosa, que aqui existiu antes que viéssemos nos refugiar com nossas vestes rotas, nosso semblante caído, nossos ombros exaustos, nosso coração ainda esperançoso. Tudo foi construído pelos poderes daquelas pessoas que nem eram humanas e nem podem agora se revelar em sonhos, a não ser que ouçamos seus passos nas noites sem fim de vento sul. Querem saber o que pega em Floripa, nome próprio que vem de flor. O que pega é um inverno intenso, que congela a maresia. De repente, às cinco da tarde, cai vertiginosamente a noite, para sempre. Tínhamos planos, mas vamos nos recolher junto com as corujas, empalhados que somos diante dos vidros luminosos que são as janelas de nossa alma torcida em espirais. No dia seguinte, participo da vida coletiva da cidade espalhada em praias, morros, ruas antigas, avenidas limpíssimas. Há pressa e anonimato na capital que cresce. Os edifícios, da janela o­nde trabalho, escondem o mar e possuem o brilho futurista da ficções da minha infância. Vejo Comando Cody vestir sua roupa metálica, seu capacete tecnológico, depois de receber uma mensagem transmitida por um botão no seu peito. Ele voa e quem ouviu falar em Comando Cody? O vôo mais recente que fiz foi para Sampa, nome próprio que veio da Bahia.</p>
<p>COLÉGIO &#8211; Cruz de prata, pano preto sobre o chão de mármore: os padres entoam na hora da ave-maria a soberba queda da noite. Eles deslizam com seu cantochão, sua reza infinita que ecoa em mim até hoje. O colégio em frente é mal assombrado. Lá estão os ex-alunos a sentir saudades. Lá estou eu de cabelinho engomado, camiseta azul e amarela do Santana, morrendo de medo do primeiro dia de aula, com os olhos grandes como os de um pequeno coelho branco. Em volta de mim aquele monte de caras, de todas as idades, a impor presenças. Abro o caderno e cheiro o livro novo. Minha caneta tinteiro, meu lápis e borracha, minha carteira que tinha tampa. Eram mais de 50 alunos numa sala de aula. Distribuem as cadernetas. Teremos avaliação todas as semanas. Cada dever feito conta pontos, a soma dos pontos te dá uma classificação. Comportamento e aplicação fazem parte do sistema. Se você tirar dez nesses dois itens, ganhará um diploma no fim do ano. Todos me olham. Nunca gostei de ser observado. No pré-primário, sentava num canto, numa mesa oval, que abraçava com meus longos braços finos. No pré, cheguei atrasado no primeiro dia. Todos faziam barulho, numa brincadeira coletiva. Pararam de repente mal coloquei o pé na porta. Fizeram súbito silêncio. Fui para o canto e só saí dali no ano seguinte, quando a professora decidiu que eu não seria mais aquele cara recluso. No Santana, entrei na multidão. Fazíamos fila antes de entrar. Era março, era abril, era maio. A vida era uma promessa luminosa. Entrávamos e rezávamos. Depois, estudos, quatro aulas com intervalos. Latim, francês, inglês, História, Português, Trabalhos Manuais. O professor dizia: de pé quem está conversando. E quem estava conversando, ficava de pé. Juro.</p>
<p>SOMOS &#8211; Quando montaram a banda, fui tocar pífaro, depois clarim. Usávamos uniformes azuis com penacho no chapéu. Íamos para as cidades vizinhas e as meninas ficavam encantadas. Quem pode com tanta lembrança? O tempo puxa a sombra do inverno que nos deixava de cama. Com seu bico afiado, o tempo não largava a sombra mais, até o inverno ir embora. Vinha então setembro e marchávamos. Quando chegava outubro, éramos outras pessoas. Éramos as crianças felizes daquele país soberano. Minha mãe me esperava na porta. Eu chegava em casa, cheio de amigos. Falávamos de meninas, de pássaros, de futebol. Éramos então, como sempre somos, eternos. Hoje visito o mar, ainda frio, da primavera. Chegam as pessoas cercadas por edifícios. Comando Cody, herói metálico, os trouxe. Eles são os brasileiros confinados quem fazem a primeira visita deste início de temporada. O Brasil, com seu mar, seus morros, seu céu, abraça a todos. O Brasil continua aqui, o­nde mora a Pátria.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/o-puxao-da-primavera/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>LINHO BRANCO NA CIDADE ANTIGA</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/linho-branco-na-cidade-antiga</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/linho-branco-na-cidade-antiga#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 20:25:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/nei-wp/wordpress/?p=1192</guid>
		<description><![CDATA[Todo dia era dia de solidão. Colocar a roupa branca de linho, passar uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados. Quatro quarteirões me separavam do cinema e da praça. Ainda era cedo para o footing. Podia pegar um filme. Quando não estava lotado, entrava já com a sessão adiantada. Sentava só, numa poltrona no fundo, ou “lá em cima”, longe da tela e perto do projetor.(Crônica publicada na edição número 2 da Revista Fronteira Livre, de Uruguaiana)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Todo dia era dia de solidão. Colocar a roupa branca de linho, passar uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados. Quatro quarteirões me separavam do cinema e da praça. Ainda era cedo para o footing. Podia pegar um filme. Quando não estava lotado, entrava já com a sessão adiantada. Sentava só, numa poltrona no fundo, ou “lá em cima”, longe da tela e perto do projetor.</p>
<p>SORTE &#8211; Depois da sessão, saía junto com um rio de gente. Meus irmãos tinham partido, as irmãs casado, os irmãos menores estavam perto, mas distantes. Os amigos se dispersaram. Punha as mãos no bolso e tentava a sorte. Passava pelo corredor entre os bancos e os carros parados. Cumprimentava alguém, todos enturmados. Eu andava pela praça, passava para a quadra seguinte (que hoje é um calçadão), ia direto para ver a vitrine da casa Jacques (que agora vai ser shopping) e terminava no Campana, que um dia tinha sido do meu tio Nico, único irmão da minha mãe. Era um enorme restaurante, com inúmeras mesas, todas com o açucareiro em cima, pois serviam cafezinho não só no balcão, serviço feito por garçons uniformizados. Antes dessa fase de solidão (já tinha uns 16 anos), quando era pequeno, íamos ao Campana tomar guaraná, crush, soda laranja, sorvete e picolé. Eram os verões gloriosos dos anos 50. Do flerte com as gurias mais bonitas. A perseguição física aos amores jamais correspondidos. Mexíamos com alguém e saíamos correndo. Às vezes, para casa.<br />
Mas agora eu estava muito alto e muito grande para fazer essas coisas. Voltava do Campana com um giro nos calcanhares. Decidia então atravessar a praça na diagonal. Lá estava a estátua do Barão (que vi recentemente, com a mesma imponência, um Rio Branco imortal num pedestal de mármore naquela região da fronteira), a Branca de Neve com os anões, a pontezinha sobre o lago onde um dia haviam patos. A praça estava lotada, mas eu continuava só.</p>
<p>TURMAS &#8211; Decidia então parar na passarela do footing para ver as meninas de mãos dadas que passavam. Mas passavam também as turmas, as do violão, as do que capotam (filhinhos de papai que tinham carros), a dos que tomavam grandes fogos e a dos chatos. Estes, estavam também sempre sós, mas eu já tinha aprendido a me livrar deles. Quem se cria em cidade pequena não tem chance de se esconder. Precisa enfrentar a barra da humana presença cara a cara. Ou você tolera ou expulsa. Aprendi cedo a dizer não. Mas quando a solidão batia, sempre tinha jeito de escutar histórias intermináveis sobre a segunda guerra mundial (assunto que sempre detestei), sobre músicas sem importância. Muitas vezes, sentava eu quieto no canto do quiosque para tomar uma interminável coca-cola geladíssima. Ocupava a mesa por mais de uma hora. O dinheiro dava só para um refrigerante. Os garçons não gostavam. De lá, acompanhava as decepções: aquela garota que eu estava de olho sucumbia diante do charme de alguém. Desistindo do passeio monótono, passava em frente ao Clube Comercial. Lá estava o eterno porteiro, a olhar feio para a classe média para baixo. Como meu pai era sócio, às vezes eu forçava a barra e entrava, peitando a má vontade do porteiro, pois eu não me vestia adequadamente.<br />
- Sempre branco, me diziam. Eu vestia linho, o mesmo todo dia. O cabelo curto, o corpo curvado . Chegava em casa, estava praticamente vazia. Tudo tinha ido embora. Chegava minha vez também de partir. Tendo completado o segundo científico, me preparava para ir à capital tentar o vestibular. Levaria ruas percorridas sem amigos, levaria meus sapatos pretos, minha calça de brim coringa (o jeans antigo), minhas blusas de lã, minha campeira (o casaco grosso que enfrentava o inverno que estava por chegar). Logo logo despontaria março e voltariam as aulas, quando enfim, teria chance de conviver com bastante gente. O verão era o deserto daquele fim de adolescência. Eu já era muito antigo, já tinha tido uma vida inteira na cidade que me vira crescer.<br />
Quando chega o verão, minha memória passeia pelas largas calçadas. Um assobio insistente de outro solitário, longe. Risadas em frente de alguma casa. O barulho dos passos às onze da noite. O céu muito estrelado.<br />
O Cruzeiro do Sul despencava como uma flecha em direção ao rio.<br />
Eu já estava pronto. Tinha virado adulto. Mas levaria a criança que insistia em caminhar raspando a sola do sapato na calçada. Ou, como fazia um irmão meu, raspando o lado esquerdo do sapato no canto da parede das casas (que ficam rentes, grudadas nas calçadas).<br />
Um dia, ele deu um chute num monte de moedas, perdidas por ali.<br />
É assim o passeio de verão: um golpe de sorte e você está de novo no centro do mundo.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/linho-branco-na-cidade-antiga/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A GEOGRAFIA DA MEMÓRIA</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/a-geografia-da-memoria</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/a-geografia-da-memoria#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 20:14:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/nei-wp/wordpress/?p=1186</guid>
		<description><![CDATA[Nem sempre temos sorte. Voltamos de mãos abanando, com a cesta vazia, os anzóis limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que há de pior na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solidão. Por isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ninguém nos atrapalhe.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>O dia claro de abril, cheio de contrastes de cores, luz e sombra, com vento temperado a velocidade amena, me levam, pela lembrança, rua abaixo até o rio, o pampa, a estrada. As pedras sendo esmagadas pelo tênis, o pé descalço, o sapato velho. A companhia dos camaradas, junto aos quais nada podemos temer, nem os caras da outra zona, nem os cachorros, os loucos, as velhas, os muros. Íamos em direção ao grupo de umbus, árvore de madeira mole e farta sombra, refresco no deserto da fronteira.</p>
<p>Agora, rodeado de montanhas e rente ao mar, revejo a sensação daquela vida que continua lá, gravada para sempre na geografia da memória, arquivo vivo de uma esperança que nos liga em algo maior, porque a paz de espírito é a certeza na vida eterna. Dia bom para passeio, para ler na rede, para sonhar e dizer, como Churchill em plena Segunda Guerra, antes de dormir: ora, danem-se todos. O mundo vai mal? O universo não se importa. O que é uma canelada diante da fornalha das estrelas? Filosofia barata, dirão, mas são esses pensamentos, embalados por leituras melhores do que conseguimos produzir, que fazem nosso dia e nos levam para longe, aqui mesmo, onde escolhemos viver.</p>
<p>DESPEDIDAS &#8211; Alguém nos leva até a plataforma. Damos um longo abraço e subimos no ônibus. Da janela, vemos a pessoa acenando enquanto damos ré até a reta que nos leva dali para nunca mais voltar. Lindolf Bell pega a pedra pintada de muitas cores, dá um suspiro e diz: Essa é a pedra Açu-açu, ela vai te acompanhar, vai te dar sorte. Estávamos em Blumenau, onde lançamos (ninguém mais lembra isso oficialmente) o Jornal de Santa Catarina.</p>
<p>Decidi que era um escândalo que um jornal local não fizesse uma ponte com o grande poeta dos versos ditos na praça, na rua e que vivia de sua galeria de arte junto à esposa Elke Hering Bell. Convidei-o para visitar a redação e a escrever para o jornal. Ele ficou entusiasmado, generoso como era. Conseguiu trazer Hair para a conservadoríssima cidade em 1971 e quando todo mundo surgiu nu no palco foi o primeiro a levantar-se e a aplaudir. Lindolf Bell é inventor de uma modernidade que ainda nos faz falta. Nunca mais vi o poeta depois que ele me presenteou com aquela pedra da sorte. Morreu na década seguinte e hoje é lembrado pelos seus conterrâneos com carinho e admiração.</p>
<p>Convivi com as melhores cabeças, porque tive sorte nesta minha passagem pela terra. Tarso de Castro me encontra na rua e eu abraço seu corpo muito magro. Senti seus ossos quando apertei-o, ele outrora tão influente e temido e agora ali, exangue, sofrendo longo martírio de saúde. Vi seu rosto encolhido depois, no velório, antes de partir para ser enterrado em Passo Fundo. Quando vivemos um dia claro de outono, devemos lembrar o que nos brindaram com sua presença e nos fizeram melhores do que somos. As pedras do rio ringem quando colocamos nela nossos sapatos de jornada. É dia de pescar.</p>
<p>SONO &#8211; Nem sempre temos sorte. Voltamos de mãos abanando, com a cesta vazia, os anzóis limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que há de pior na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solidão. Por isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ninguém nos atrapalhe. Ficamos imaginando o futuro, sem saber que esse momento, o da pescaria, será nossa memória eterna. Onde estivermos, no meio do mais frenético mundo, lá estará nosso coração diante de um peixe que não morde a isca, de uma companhia que não chega, de alguém que passa ao longe.</p>
<p>Chegamos em casa exaustos e despencamos na cama embaixo da janela que dá para a rua. Já é tarde. Passa uma turma e ouço minha própria voz dando as cartas. Sou o que imagino, perdido na última rua de asfalto, enquanto no quarto ao lado meus pais dormem o sono da eternidade.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/a-geografia-da-memoria/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>VÉSPERA DE LINGUAGEM</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/vespera-de-linguagem</link>
		<comments>http://www.consciencia.org/neiduclos/vespera-de-linguagem#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 17 Dec 2009 19:23:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/nei-wp/wordpress/?p=1164</guid>
		<description><![CDATA[Assim como toda família espera a primeira palavra com o coração na mão de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a criação de um estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esforço, diante de uma platéia de leitores radicais, os colegas da redação. Foi nessa luta com a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e que define uma identidade sem esperança de que ela terá permanência, que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois ofícios como um só, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em papel datado. (Texto originalmente publicado no espaço Literário, do site Comunique-se, em 30/03/06).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>A palavra não se instala nas criaturas por prazo de validade. Não é porque a criança completou determinado número de meses que estará automaticamente apta para articular a ponte com seus semelhantes. É um trabalho árduo.Os instrumentos disponíveis para a fala entram em fase dura de exercício desde o primeiro instante. O choro e, quando necessário, o berro, são as primeiras manifestações que servem para alertar sobre o uso dos recados.</p>
<p>Mas entre manifestações desse tipo e a primeira palavra, há uma série de eventos que incluem as nuances definidas pelo som que passa na garganta e depois encontra a gruta onde mora a mágica, a língua em movimento, os dentes e o céu da boca, limites que decidem sobre as consoantes em choque com as vogais trazidas do berço.</p>
<p>Vejo isso na minha neta, que me resgatou a memória dos bebês, da qual estava apartado por ter sido pai muito cedo &#8211; aos 24 anos, coincidindo com minhas primeiras redações. Quando entrei na Folha da Tarde, da Caldas Junior, abraçado a uma versão traduzida e resumida dos Quatro Quartetos, de T. S. Eliot, além de provocar o comentário debochado dos veteranos (&#8220;pronto, mais um intelectual de sovaco&#8221;, disse Jorge Escosteguy) eu no fundo queria levar para o novo ofício o que me seduzia desde muito cedo: a possibilidade de, num mundo escasso, conseguir sintonizar com a força da permanência. Tarefa impossível para quem foi jogado no mundo real, o de contar buracos de rua e fazer plantão no aeroporto.</p>
<p>Assim como toda família espera a primeira palavra com o coração na mão de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a criação de um estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esforço, diante de uma platéia de leitores radicais, os colegas da redação. Para isso era preciso humildade. Mas não totalmente naquele ambiente liderado por Walter Galvani, que tinha Danilo Ucha, Luis Fruet, Scotch (que me contava mais tarde, às gargalhadas, sua primeira impressão sobre o foca que chegava esperançoso de ler um livro no intervalo dos textos), entre muitos outros . Fui estimulado a colocar na roda o que me cercava e foi assim que fiz meu primeiro lead inesquecível.</p>
<p>A notícia era saborosa. Um teco-teco vinha pelo campo e bateu numa vaca. O caso foi ao tribunal porque o fazendeiro não se conformou com a perda do animal. O juiz então perguntou para o piloto:</p>
<p>- A que altura o senhor vinha voando?<br />
- A uma altura de meia vaca, Excelência, disse o piloto.<br />
- Pois na próxima vez, advertiu o juiz, venha na altura de vaca e guampa.</p>
<p>A abertura inusitada provocou gargalhadas na redação e foi publicada. Foi assim que fui festejado na primeira vitória diante desse trabalho insano que é articular as palavras para que todos entendam e fiquem com vontade de ler.</p>
<p>Quando migrei para São Paulo, empurrado pelo estreito mercado de trabalho na terra de origem, cheguei com as fumaças daquela festa e imediatamente fui colocado no meu lugar. Woile Guimarães me chamou num canto e sussurou: estes lugares comuns que você colocou aqui, seu gaúcho, são uma grande porcaria (não exatamente com essa abordagem família, mas com uma saraivada de outras, ainda impublicáveis). Redescobri então que deveria começar de novo, não para agradar o chefe rigoroso, mas porque essa era pedreira que precisava encarar.</p>
<p>No rodízio que cumpri religiosamente pelos veículos, encontrei textos encarnados em pessoas brilhantes. Vi Macedo Miranda, filho, definir os contornos do texto de uma revista, de estrutura circular e com os parágrafos sintonizados sem nenhum vício; vi Ricardo Vespucci, de olho saltado, cinzelar textos perfeitos a partir de matérias de repórteres inigualáveis como Caco Barcelos e Audálio Dantas; vi Genilson César e Antenor Nascimento, nas madrugadas, conseguirem repassar para a publicação pequenas jóias do jornalismo e acompanhei o trato com a escrita que Humberto Werneck, Nirlando Beirão, Mino Carta e Wagner Carelli davam em cada linha, como se fosse a última.</p>
<p>Foi assim que passei o tempo que me deram para viver sobre a terra. Plantado no jornalismo como um eterno aprendiz, me perguntava quando chegaria a hora de também colocar preto no branco algo que poderia ler muito tempo mais tarde. Foi nessa luta com a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e que define uma identidade sem esperança de que ela terá permanência, que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois ofícios como um só, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em papel datado.</p>
<p>Uma criança, como o eterno foca, compõe a roda de sons com a alegria dos iniciantes, que aprende a sobriedade em contato com quem chegou antes. Depois das vogais dos primeiros instantes, surgem algumas consoantes para desencadear a pressa dos mais velhos. Ela disse mãe, ela disse vô, ela disse titio, exultam os adultos. Mas a criança guarda seus segredos trazidos da além vida. Uma sílaba pode batizar várias coisas e a celebração de uma vitória aparente entra em dúvida quando a mesma emissão de voz serve para mais de um batismo. É cedo ainda, nos dizemos. Ainda não veio a primeira palavra.</p>
<p>Moramos nessa expectativa enquanto a criança deita e rola na véspera da linguagem. Ela engatinha, depois anda e aponta com os bracinhos esticados o que quer. Pássaros são chamados com gritos agudos. Um choro específico é a fruta fora do alcance. Mas chega o momento em que todos correm para registrar o que seria enfim o som, tão esperado.</p>
<p>- Baia baia didi tum, diz a neta, para espanto da assistência.</p>
<p>Para que não fiquemos frustrados, ela faz seu gesto característico: franze o narizinho e emite um sopro que é puro charme. Quem precisa de palavra quando o espírito é vasto e o amor rege nossas vidas fora dos esquemas poderosos que tentam nos esmagar com suas leis?</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.consciencia.org/neiduclos/vespera-de-linguagem/feed</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

