Memórias

LAUDAS DA VIDA INTEIRA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

As teclas pediam determinação funda. Dependiam da força dos dedos, desobedientes às lições de datilografia. O hábito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o início da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distorção. A maioria ficava na linha intermediária, compondo tabelinha entre três dedos, como se escrevêssemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao ápice caísse miseravelmente no canto indefensável.(Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se em 6/abril/2006).



REDAÇÕES QUE CRUZAM O TEMPO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Hoje vejo consultores definindo a pauta de veículos em coma, dizendo que não se pode voltar atrás, quando “loucos apaixonados” (esse é o batismo do talento hoje) se reuniam em espaços normalmente apertados e com pouco oxigênio, para fazer o que os leitores adoravam. É preciso limpar essa mancha do jornalismo, dizem os RTs (Ruins de Texto), que no fim assumiram o poder. Um auto-ajuda desses jamais passaria pelo crivo de um chefe de reportagem, um secretário, um diretor, um editor. (Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se, em 13/04/2006)



A ARTE POR UM FIO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Pelo silêncio, todo editor de arte é um pensador. Mas alguns são fundadores de uma escola filosófica, como foi o caso de Reginaldo Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era conferencista, pois já estava na idade memorialística quando me aproximei dele. Mas escutava como ninguém. Quando falei o que esperava do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga o milímetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso iria me agradar, como realmente não só agradou, como deslumbrou.(Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se em 27/04/2006).



PLANTÃO DE AEROPORTO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

O jornalismo feito a martelo exigia esforço de estiva. A informação era rara e não estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a intimidade dos astros como se estivéssemos aboletados na sala de visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que ninguém está olhando. Havia uma pele pública sobre a escassez humana. A viagem de avião tinha certa solenidade, especialmente para o repórter iniciante, que jamais saíra de seu torrão. (Texto publicado dia 4/05/06 no espaço Literário do Comunique-se).



RITO DE PASSAGEM

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Talvez não tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror às aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alemã assombrava aquela matéria que substituía os garranchos por hieróglifos, o que nos transformava em escravos egípcios ou no máximo em secretárias da ONU. Já era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma prática cara à segunda Guerra Mundial. (Texto publicado dia 11/maio/2006 no espaço Literário do Comunique-se).



SOPA DE INVERNO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Por algum motivo, nasci sem resistência para o Inverno, o que contrariava a linhagem familiar devotada à caça e à pesca em paisagens geladas. Houve até algum esforço do meu pai em me colocar de frente com os rigores de julho, para me fazer ver que eu poderia resistir a qualquer catástrofe do clima. Ensinava que o acampamento precisava estar bem fornido de lãs e que os sapatos deveriam ficar embaixo de tudo, para que o sereno tenebroso não os encharcasse. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 8 de Setembro de 2006).



VIAGEM NO BARRO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

A paciência do capitão da jornada se esgotava cada vez que vislumbrava minha falta de atenção a coisas básicas como amarrar um pneu com argolas de ferro para que o barro cedesse ao acelerador. Mas finalmente o sol levantou-se quando cruzamos a fronteira com Santa Catarina, na única vez em que passei pelo oeste do Estado, que me apareceu encantador, principalmente depois de toda aquela chuva. Mas o clima se vingou ao chegarmos no Paraná. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 9 de Setembro de 2006).



UM CORREDOR DE BRINQUEDOS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Os brinquedos só eram distribuídos na madrugada, quando estávamos dormindo. Não havia essa facilidade de ser presenteado ainda na véspera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo, era totalmente perfeito. Levantávamos com o coração na mão e víamos os pacotes embaixo da imensa árvore enfeitada.



A CEIA DE TIA SARINHA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Tia Sarinha apresentava-se solitária, com a aura dos espíritos independentes. Sua vida pessoal era um segredo bem guardado para nós, sobrinhos menores que não compartilhávamos jamais qualquer detalhe do mundo adulto. Nunca soube quase nada dela. Foi casada, separou-se ou enviuvou, depois morava só ou com amigas fiéis. Reservada, tinha um relacionamento distante, quase frio, com a criançada que via de vez em quando. Mas toda essa carapuça caía por terra quando, depois do vinho, da cerveja e até mesmo do uísque, ela se punha a matraquear a fala recorrente nas ceias de Natal.



DUAS VEZES LINA BO BARDI

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Arte, Crônicas, Memórias

Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada às palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma só que era gênio. O nome dela é Lina Bo Bardi.