Memórias

A OUTRA VIDA

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Encontrei o Amigo inteiro, instalado na Outra Vida. Ele já estava por volta de 40 anos, apesar de ter sido assassinado aos 26. No sonho, ou visão, segurava um grande chapéu de abas exageradas. Colocava a mão no alto, com o braço bem espichado, impedindo que o vento levasse para longe aquela monstruosidade. Estava cercado, como sempre, de várias pessoas. Parece que o grupo ocupava um conversível de luxo. Ele me olhou com o rosto impassível. O olhar era límpido, claro, solene, mas ao mesmo tempo expressava certa indiferença. Era, talvez, seu recado de superioridade diante de tanto mistério.



AQUELE RÁDIO INESQUECÍVEL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Meu maior presente de aniversário, num longínquo outubro de 1958, foi um potente e pequeno rádio de cabeceira Phillips Mullard, que meu pai me deu num rompante. Liguei na tomada, deixei as válvulas esquentarem e me conectei com o mundo. Numa cidade construída no meio do pampa, paisagem lisa e aberta, todas as ondas desciam pela antena até chegar ao meu travesseiro. Foi quando despertei minha vocação para o jornalismo. E fiz minha vida ser orientada pela música.



A LIBERDADE EM DEDÉ FERLAUTO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Tomei conhecimento de Dedé Ferlauto quando vi, colados em azulejos, selos/poemas assinados por Zé Liberdade. Era ele. “Me sinto por fora desta coisas que andam acontecendo entre as pessoas que escrevem, revistas, editoras, livros e outros.”, me escreveu ele anos mais tarde. “Os caras andam muito chatos com essa mania de querer fazer História. Acho um saco. Caí fora. Me sinto sem norte, sozinho e não me assusto”. Via-se como um anarquista. Vejo-o como um outsider sincero, que viveu integralmente sua literatura, a que fisga pela vocação e carrega a criatura escolhida por toda a vida.



BALEIAS E BALÕES

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

No mesmo instante em que nos somávamos a centenas de espectadores do espetáculo, com direito a esguichos e caudas que administravam espumas em gestos graciosos, eis que três grupos de balões multicoloridos amarrados davam sopa bem no limite entre a areia e a água.



A QUALIDADE DOS CONTERRÂNEOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Faço parte de uma geração de pessoas gentis, formada na refrega dura da vida estudantil onde não havia colher de chá, onde bastava tomar bomba numa só matéria para repetir de ano, e se repetisse duas vezes, era convidado a deixar a escola.



GESTOS PERDIDOS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Cruzar os dedos para impedir algum acontecimento, fazer figa para devolver o mau olhado, fechar o punho esquerdo em sinal de revolta, levantar o chapéu de feltro para a população em delírio: eis alguns gestos perdidos que fazem parte de outra humanidade, a que fomos um dia. De hoje, o que ficará? Será que o pula-pula dos torcedores nos estádios será visto no futuro como um sintoma grave de autismo comportamental coletivo?



A RONDA DOS BICHOS E O CÉU DO VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Os bichos imprimem o desenho dos teus hábitos. Estão próximos demais para serem ignorados. Os predadores domesticados te cercam, os selvagens acasalados te espiam, os habitantes de paragens remotas te sobrevoam. Penas, asas, patas, focinhos, olhos fundos a te enxergar a alma. Eles estão conosco e repartem mais do que água e comida. Partilham o planeta, que longe do tráfego, sabe ser quieto, majestoso, indecifrado.



O NOME DA INFÂNCIA É VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Aguardo a volta do Brasil, que será recebido no portal por minha mãe, sempre tão carinhosa na sua inteligência falante e prudente. O país será eu, filho pródigo de volta à bonança da memória, a espargir pequenas faíscas de estrelas na calçada tomada pela infância. A Lua também me receberá como a um filho. E estaremos ainda todos vivos, libertos da fúria que nos cercou e que fez uma guerra inútil por todo esse tempo. Porque o Brasil é o que foi criado pelas gerações que doaram seus corpos insubmissos à terra que tornou-se uma nação eterna.



DEVE SER O VERÃO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Vamos para a praia, nos dizia o pai na hora mais forte do calor, aí pelas três da tarde. Descíamos em disparada os dois quarteirões que nos afastavam o rio e caíamos na água. Era difícil entrar, porque as pedras do fundo, barrento, nos impunham cautela em cada passo. Água pelo peito os mais velhos, pela cintura a meninada. As mulheres mais velhas, água pela canela. As mais moças, dificilmente iam. Era programa de criança.



FICHAS DO CINE SAGU

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

As toneladas de sagu que se fazia em casa costumavam sobrar em panelas enormes. Gelado, era servido, de graça, aos potes, a ávidos cinéfilos. Idéia, claro, do meu irmão nascido empresário, a de agregar valor à gasta programação. A entrada era um custo, mas o sagu compensava. Garantia quórum para o porteiro de olhos brilhantes diante dos lucros.