Memórias

HORA DA MESA

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Havia solenidade nas refeições. Uma hierarquia definia os papéis à mesa: pais nas cabeceiras, filhos de um lado e filhas do outro. Os menores estavam mais próximos da mãe. Para evitar tumulto, devido à quantidade de comensais, não era permitido conversar mais do que o necessário. “Passe o arroz” nunca poderia ser substituído por “briguei hoje no colégio”. Assim como as palavras, as porções eram rigidamente controladas. Nunca faltou nada porque a disciplina colocava a voragem natural da prole em limites suportáveis.



ARTE AFORA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Ela tinha o dom e procurava, no exercício das charadas, intensificar essa sintonia fina entre trajetória pessoal e sonho, pela larga estrada do verbo impresso. Os livros a acompanhavam desde menina, quando era colocada, aos gritos, para debaixo da cama pela família assustada com revolução nos difíceis anos 1920; e quando era a colegial brilhante que completou a formação em Porto Alegre. A literatura fazia parte dela quando, noiva, posava ao lado do elegante cônjuge de fino bigode e olhar sedutor; e quando, mãe orgulhosa, levantava seus filhos recém nascidos nos braços, como se fossem taças de muitas vitórias. A consolava quando assumia o papel de preocupada vigilante dos estudos que se espalhavam por toda a casa. Temperava sua conversa quando cumpria a função de educada anfitriã na mesa farta, diante das visitas e rodeada de seus rebentos.



LOURENÇO DIAFÉRIA: A CRÔNICA EM BRANCO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Lourenço Diaféria, que morreu de infarto no dia 16 de setembro de 2008, é um cronista clássico. Faz parte de uma linhagem criada por escritores como ele, que não vieram do romance ou da poesia, como Machado de Assis ou Olavo Bilac, mas que se dedicaram apenas a esse gênero literário essencialmente brasileiro, nascido no jornalismo pátrio, e que é um reduto tradicional da liberdade de pensamento. Numa reportagem, editorial, cobertura, entrevista, o jornalista sofre muito mais limitações do que o livre-pensar da crônica. Diaféria é da mesma espécie de Rubem Braga, que não precisou voar para outras paragens e fez da crônica seu ganha-pão e sua transcendência. Mas, ironia total, ele foi marcado exatamente por uma crônica em branco, que não existiu, mas foi publicada.



MIUDEZAS

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Memórias

Minha mãe mantinha em cima de sua cômoda, no quarto, em lugar de destaque, o único presente que lhe dei na vida. Era uma pequena cesta de vime, com tampa, que trouxera da viagem que fiz pela primeira vez ao mar, quando tinha nove anos de idade. Nela guardava um retrato meu e outras lembranças. Era seu pequeno tesouro, a saudade do filho que fora, entre tantos outros, cumprir seu destino na capital.



VIRA EM CINCO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Esportes, Memórias

Como o tempo era infinito, a partida limitava-se pelo número de gols e não pelas horas que passávamos ao ar livre, nos atormentando com caneladas e gritos. Cada jogo ia até dez e virava em cinco. Disputava-se no par ou ímpar quem iria primeiro para a parte mais alta do terreno, pois, a cavaleiro, podia-se avançar sem muito esforço. Rapidamente, o time do andar superior alcançava o fácil placar de cinco contra qualquer coisa, pois, dali, tiro de meta era quase um pênalti. Todo lance era facilitado pela lei da gravidade. Bastava ao adversário do escrete de cima se jogar para frente que já era meio gol.



O REPÓRTER QUE PAROU O AVIÃO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Memórias, Redação sem Máscara

Jorge Edemar Ruwer corre para o meio da pequena pista da cidade do interior do Rio Grande do Sul e faz sinal, de maneira decidida, sacudindo os dois braços, para o pequeno avião que iria partir para Porto Alegre. Ele sabia que aquela era a única chance de colocar a matéria na edição do dia seguinte. Naquele tempo, final dos anos 60, o telex era considerado ainda “a maquininha mágica”, como nos diziam no curso de Jornalismo. Enviar texto e fotos, do lendário fotógrafo J. B. Scalco, seu companheiro daquela jornada perigosa, antes que a máfia se mexesse e impedisse a publicação, era uma questão de vida ou morte para o grande repórter.



CAIR DE BANDA

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

É provável que eu tenha perdido a razão depois de dez milhões de edições. Talvez tenham me confinado nessa jaula que eu acho ser o mundo real e visível e estou como criatura de Matrix sonhando a liberdade de não pertencer mais à maquina de moer carne da profissão. Talvez meu desejo de abandonar tudo tenha enfim se concretizado e eu esteja numa espécie de limbo, pronto para reencontrar alguns companheiros que cruzaram comigo neste rio de palavras.



MEDOS

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Minha rua, sempre cheia de ruídos provocados pela molecada, tinha momentos de intenso silêncio quando alguém anunciava a proximidade do Louco, um cara calado, sinistro e mal encarado, não muito mais velho do que nós, mas que guardava facas na cintura e jogava pedras enormes nas cabeças dos outros. Era também uma fera, imbatível nos socos, mordidas, pontapés. Era capaz de matar, diziam.



“A REDAÇÃO ERA O MEU DESTINO”

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Memórias, Redação sem Máscara

A morte de José Onofre nos leva para sempre do convívio o talento, a experiência, o testemunho e a grandeza de um jornalista que percorreu as redações com sua cultura incomparável, capaz de nos assombrar em alguns minutos de conversa. Leva para sempre o humor que é fruto desse preparo, dessa formação, que é a marca registrada do Brasil soberano pré-1964. José Onofre tinha lido tudo e visto todos os filmes importantes. Ficar próximo dele era um privilégio.



POVO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

A casa onde fui criado é ampla, de esquina, e naqueles idos situava-se nos últimos metros da rua asfaltada. Depois dela vinha o pedregulho, que desembocava na beira do rio. Nessa região fora do circuito morava o “povo”. Algumas janelas eram voltadas para a parte nobre do calçamento e outras para o lado obscuro do país, de onde emanavam os melhores parceiros das palhaçadas da infância, desde rodar um trouxa encurvado num pneu velho até o assassinato regular de passarinhos.