Memórias

VAMOS DANÇAR?

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Alto demais para idade, pé 44 antes da hora, calça quase de pular sanga com bainha italiana, casaco apertado de cor diferente, meia branca, cocoruto pelado saltando dele um pelincho, gomina Glostora no topete, nada disso importava. O baile ou a reunião dançante eram eventos democráticos. Você poderia tentar tirar para o meio do salão a musa do colégio do Horto, o das gurias. Ela até poderia rir, mas pelo menos uma volta dava com você, que teria assunto para mais de um mês, só para falar do cheiro dela, dos passos que se desencontraram e, milagre, dos corpos que se entenderam desde o primeiro acorde. Poderia virar namoro. Naquele tempo, o coração agüentava.



CAMANGAS E AMAGADAS

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Memórias

Camanga todo mundo que nasce entre o rio Ibicuí e o Uruguai sabe: é quando o mocinho consegue amagar os bandidos. Vou dar um exemplo clássico do Gene Autry. Todos nós acreditamos que o grande cowboy cantor tinha enfim se estrepado. Ele estava tocando seu banjo ou guitarra na cadeira de balanço na varanda. Os malfeitores vieram pelas costas e atiraram nele várias vezes. Deu então “episódio”, ou seja, o curta metragem acabou, apareceu a chamada “cenas do próximo episódio” e só iríamos saber o destino do herói no domingo seguinte. Ninguém apostava mais um vintém furado nele.



VIAGEM À LUA

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Para chegar à plataforma de lançamento, fomos obrigados, primeiro, a vender os livros mimeografados em gráficas marginais para parentes preocupados. Nosso aspecto, alimentado pela ousadia e o susto, tomava a cor pálida dos selenitas. Depois, pegamos caronas em grandes scanias, que levaram muitos dias para chegar ao destino. Na véspera do evento, tínhamos conseguido embarcar num automóvel dirigido por carioca da gema. Foi quando treinamos o patuá rebelde da malandragem, que poderia servir de passaporte no território selvagem a ser conquistado. Enquanto caía a noite e Neil Armstrong e seus companheiros chegavam lá, estávamos ainda aprofundados na desventura da dúvida em estrada interminável.



QUANDO A PÁTRIA FAZIA SENTIDO

maio 28th, 2005 | Por | Categoria: Memórias

Nossa grande emoção, vestindo aquele avental branco lavado, passado, engomado, que fazia um arco ao nosso redor, não era marchar com nossos pezinhos pequenos batendo firme no asfalto e fazendo movimento com os braços dobrados, rígidos, imitando o gesto cívico das paradas de soldadinhos em movimento.



A VOLTA NA QUADRA

maio 23rd, 2005 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Quarteirões em quadrados perfeitos, ruas e calçadas largas: a engenharia militar da República do Piratini engendrou a lógica na geografia urbana da minha cidade. Foi essa lógica que me salvou numa tarde sinistra, quando eu e meu irmão Luiz Carlos enfrentamos a fúria de um morador da nossa rua. Nós dois não devíamos ultrapassar os cinco anos de idade. Até hoje esse acontecimento mostra-se nítido em minha memória, já que foi minha primeira experiência com o horror.



QUANDO MEU PAI MUDOU O DESTINO

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Memórias

Ele sabia se vestir. Ou melhor, sabia que seu terno, seu cabelo bem puxado para trás, seu bigode fino, seu sapato de verniz, seu corpo magro e firme tinham aquela postura que agradava às mulheres.



TIA CECI E OS DISCOS VOADORES

maio 13th, 2005 | Por | Categoria: Memórias

“Os marcianos não existem”, avisava. “São os russos e os americanos que fazem essas coisas e não contam para ninguém”. Hoje, quando vejo os programas especiais do Discovery Channel, provando que os protótipos de projetos ultra-secretos da forças aéreas da Rússia e Estados Unidos são confundidos com obra de alienígenas pela população desinformada, não deixo de lembrá-la.



CINCO VEZES TARSO DE CASTRO

maio 13th, 2005 | Por | Categoria: Memórias, Redação sem Máscara

Migrante recém chegado em São Paulo em 1976, fiquei ligado na Ilustrada editada por Tarso de Castro, jornalista que lia e gostava não só desde a fase do Pasquim, mas do Panfleto – o Jornal do Homem da Rua. Lia o Panfleto – uma das muitas obras da dupla Fortuna/Tarso – ainda em Uruguaiana, RS, onde vivi até os 17 anos.



Até Breve, Senhor

maio 13th, 2005 | Por | Categoria: Memórias, Redação sem Máscara

Morreu nesta semana a revista Senhor, exatamente dois domingos depois que o seu primeiro Diretor da Redação, Múcio Borges da Fonseca, deixou o jornalismo, isto é, a vida. Múcio assumiu a direção da Senhor quinzenal em julho de 1981, com duas pontes de safena. Soprava no seu bater compassado de palmas, repetindo sem cessar: “Vamos fechar, vamos fechar.”



LONGA VIDA À UFRGS

maio 13th, 2005 | Por | Categoria: Memórias

Estudar na UFRGS era destino de todo o estudante gaúcho do interior. Fora das suas faculdades principais – engenharia, medicina ou advocacia – não havia salvação. As pessoas se dividiam entre as que passavam no vestibular da UFRGS e o “resto”.