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	<title>Nei Duclós &#187; Música</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>TOMZÉ, TORCENDO AS REGRAS DO JOGO</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Mar 2011 20:16:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Eis uma reportagem importante que Miguel Duclós desencavou na sua pesquisa sobre o meu trabalho no acervo da Folha. Um longo texto de 33 anos atrás sobre TomZé e seu &#8220;Estudando o Samba&#8221;, bem na época em que ele não estava na moda e desenvolvia seu trabalho fundamental, mais tarde descoberto pelos americanos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Eis uma reportagem importante que Miguel Duclós desencavou na sua pesquisa sobre o meu trabalho no acervo da Folha. Um longo texto de 33 anos atrás sobre TomZé e seu &#8220;Estudando o Samba&#8221;, bem na época em que ele não estava na moda e desenvolvia seu trabalho fundamental, mais tarde descoberto pelos americanos e que o lançou de volta ao centro das atenções. Temos aqui dois exemplos de vanguarda, guardadas as devidas proporções, claro: o do músico revolucionário e o do repórter de cultura livre de amarras, que foi buscar no artista verdadeiro, fora do circuito e lutando pelo seu disco e show, a pauta para ocupar espaço na grande imprensa. Viva a memória! O que fazemos com gosto e determinação, fica.</p>
<p>Folha de S. Paulo, Ilustrada, 31.03. 1978</p>
<p>NEI DUCLÓS</p>
<p>Qualquer conversa com Tom Zé não obedece a um encadeamento linear, tradicional. onde uma pergunta corresponde obrigatoriamente a uma resposta. Ele prefere descobrir e provocar coisas, recuando ou avançando nas suas posições — aparentemente confusas, exatamente pela forma de diálogo que ele costuma adotar — lembrando sempre que escolher as palavras é uma atividade muito perigosa, pelas múltiplas opções de significados que elas oferecem. A conversa, assim, dá mais ou menos a idéia que ele pretende transmitir no seu show &#8220;Estudando o samba&#8221;, que há um ano está apresentando, junto com Vicente de Carvalho, em todo o estado e que hoje.,amanhã e domingo, às 21 horas e ao preço de CrS 30.00 vai oferecer para quem for assisti-lo na sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar (Rua dos Ingleses. 209).</p>
<p>&#8220;Eu tou te explicando pra te confundir, tou te confundindo pra te esclarecer, tou iluminando pra poder cegar, tou ficando cego pra poder guiar&#8221;, diz ele numa das músicas do show (Tou, de parceria com Elton Medeiros), que faz parte do seu último LP, que também se chama &#8220;Estudando o Samba&#8221; e foi lançado em 1976. Antes, portanto, do &#8220;Eu vim pra confundir e não pra explicar&#8221;, do Chacrinha e &#8220;Não precisa explicar, eu só queria entender&#8221;, do Planeta dos Homens.</p>
<p>Tomzé acha que a televisão diluiu bastante impacto do seu jogo de significados, além de não citar a fonte. Ao mesmo tempo, ele sabe que as coisas são descobertas ou criadas para serem usadas — &#8220;Não é tempo da posse, é tempo do uso&#8221; é uma das frases que ele mais gosta de usar — e que seu trabalho é realmente mais para desencadear do que para &#8220;passar&#8221; diretamente para o público.</p>
<p>Ele cita o exemplo de Raul Seixas, que teria solucionado melhor várias propostas que ele mesmo lançou no mercado através dos seus cinco LPs gravados na Continental. Sua preocupação principal, portanto. é fazer da linguagem um instrumento de alerta. A todo momento, substitui palavras por outras e assim mesmo não fica satisfeito. Para compensar sua dificuldade de se expressar pelo &#8220;discurso&#8221; (a linguagem linear), rabisca no papel ou canta alguma música. Já que ele não gosta de gravador, fica difícil reproduzir fielmente alguns pensamentos de Tomzé a não ser, obviamente, as frases que ele escreve para esclarecer alguns pontos da conversa. Mas pode se tentar, com as devidas ressalvas: &#8220;O Aurélio Buarque de Holanda deveria nos dizer, diariamente, o significado de algumas palavras chaves, usadas por todos, como democracia ou protesto. Assim, ele diria: o significado hoje de tal palavra é esse.&#8221;</p>
<p>A discussão mais freqüente que ele sustenta nos seus shows — normalmente apresentado para universitários — envolve também um problema de significados. Trata-se do tema, sempre atual, pelo menos no Brasil, do artista se apresentar como herói a ser um emissor de mensagens. Já gastas e conhecidas o que apenas provocam o amén — ou aplauso do público: &#8220;Depois de espetáculos desse tipo, o público costumo sair cansado, com uma expressão estranha, diz Tom Zé. Parece que ele carrega um grande complexo de culpa por ter participado de um coito coletivo. A minha preocupação não é falar palavras de ordem, mas fazer perceber que as pessoas são capazes de ter reflexão sobre as coisas. Uma vez fiquei envergonhado de participar de um júri num festival estudantil de música popular, pois quando foi apresentada uma canção dessas que falam que o patrão é feio e a empregada é bonita, todos os membros do júri começaram a se movimentar, a transparecer que aquilo era uma maravilha, aquela coisa gasta e imbecil, influenciando o público com essa posição, tomada coletivamente através de um código que foi emitido pelo ar. Para mim, a música de contestação, enquanto palavra de ordem, é uma forma reacionária&#8221;.</p>
<p>Ele reconhece, que, apesar do protesto estar, de modo geral, por baixo, essa fórmula ainda é multo usada, principalmente no circuito universitário, onde existe outra discussão muito comum: o rock e a música brasileira. Todos os participantes de um debate estavam criticando a música dançante, &#8220;alienada&#8221; e, enquanto conversavam, uma menina de 15 anos sacudia a perna o tempo todo. Num momento TomZé chamou atenção para a importância de alguém fazer música para que a juventude dance, e não fique &#8220;aleijada&#8221; pela falta de movimentação do corpo e excesso de atividade mental.</p>
<p>Tom Zé não aceita a má fé ou a impaciência em relação à música feita no Brasil. Ele acha que já demos dois produtos acabados, que foram exportados, como a bossa nova e o Tropicalismo e que atualmente estamos numa fase de fermentação, que ainda vai chegar. Lembra, Inclusive, a importância da bossanova, que pela primeira vez apresentou o homem brasileiro sem machismos inúteis, um homem brasileiro coloquial, que causou um escândalo na época, já que colocava no mercado elementos femininos: &#8220;Hoje podemos usar essas roupas e cabelos graças à bossa nova, ao Troplcalismo&#8221;, lembra ele. E também ao rock, concorda. Mas o rock não faz parte da formação de Tom Zé, que é formado em contraponto, harmonia e história da música na Universidade de Música da Bahia, onde ficou seis anos escutando de tudo, desde os clássicos aos compositores da música dodecafônica. &#8220;Aquilo não tinha muito a ver&#8221;, confessa ele, mas lhe permitiu decifrar e desenvolver alguns enigmas musicais, deixando-o livre para trabalhar com a imensa matéria-prima da música brasileira. Já disse, em 73: &#8220;Pretendo trabalhar com um maior número de elementos criativos&#8221;.</p>
<p>Esses anos todos em que permaneceu no limbo, não afetaram o ânimo de TomZé, que com seus shows, suas aulas de violão e seus projetos (incluindo um disco de pesquisa que ele promete gravar) sobrevive física e espiritualmente com seu trabalho constante. &#8220;Quero uma forma de energia que alimente a vontade de pensar, um modo de ver a vida através da reflexão, como se fosse uma luta pela dúvida viva e contra a certeza castradora&#8221;.</p>
<p>O show de TomZé— que em maio lançará o LP &#8220;Correio da Estação do Brás&#8221; — faz parte de um projeto maior. &#8220;Encontro de Novo&#8221;, que vai apresentar, também no Ruth Escobar, Dércio Marques e Odair Cabeça de Poeta e o Grupo Capote. A Idéia é trazer gente da música brasileira que não recebe multa força dos metas de comunicação mais diretos como rádio e TV. Dércio será de 7 a nove de abril e Odair de 13 a 16 de abril.</p>
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		<title>UM BALANÇO DA LONGA ESTRADA DO ROCK</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Mar 2011 20:01:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Resgato alguns textos que publiquei em 1977 e 1978 na Folha de S. Paulo, na Ilustrada. Aproveito (graças a Miguel Duclós, que me repassou uma cópia da sua pesquisa) que o jornal colocou à disposição seu acervo de 90 anos. Na matéria a seguir, uma arqueologia pessoal: o que eu pensava sobre rock, música, juventude [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Resgato alguns textos que publiquei em 1977 e 1978 na Folha de S. Paulo, na Ilustrada. Aproveito (graças a Miguel Duclós, que me repassou uma cópia da sua pesquisa) que o jornal colocou à disposição seu acervo de 90 anos. Na matéria a seguir, uma arqueologia pessoal: o que eu pensava sobre rock, música, juventude etc. Uma curiosidade: talvez seja meu único elogio a Scorsese, cineasta que execro. Mas nada como o registro de tudo o que escrevemos e sentimos. Assim poderemos ter uma visão completa do que somos ao longo do tempo.</em></p>
<p>NEI DUCLÓS</p>
<p>Folha de S. Paulo, Ilustrada, 13 de julho de 1978</p>
<p>A longa estrada do rock teria chegado ao fim? Uma análise apressada do filme &#8220;The Last Waltz&#8221; ( &#8220;O último concerto de rock&#8221;, de Martin Scorsese, que vai estrear no Rio e em São Paulo na próxima segunda-feira) concluiria que sim. Mas para quem gosta de rock nenhum necrológio da má vontade poderá enterrar um processo musical riquíssimo, que abriu multas frentes e por Isso mesmo garantiu sua sobrevivência, em termos de criação, por um longo tempo. O que acontece em &#8220;The Last Waltz&#8221; — um concerto do grupo &#8220;The Band&#8221;, que reúne grandes astros, como convidados é apenas uma despedida simbólica, uma geração do rock, que se retira do palco e abre passagem para artistas mais jovens.</p>
<p>&#8220;Foi um gesto de grande dignidade&#8221;, comentou Erasmo Carlos, presente na pré-estrêia do filme no cine Rian, no Rio, na segunda-feira.</p>
<p>Curiosamente, a presença de Erasmo, um pioneiro do rock no Brasil, complementa esse espírito simbólico que transparece em todo o filme. Pois, na tela, estão representados todos os grandes momentos do rock, através de estrelas superconsagradas que, juntas, participaram do concerto de seis horas realizado em novembro do ano passado no Winterland Arena, de San Francisco, na Califórnia.</p>
<p>Estavam presentes Eric Clapton, um dos melhores guitarristas do mundo e que, numa ampliação, representaria o virtuosismo que o rock alcançou, contrariando os críticos que viam nesse gênero apenas barulho e falta de imaginação; Bob Dylan, o maior poeta do rock, que também por ampliação representaria a profundidade dessa geração que sintetizou o espirito do seu tempo, que explodia nas ruas e forçava a barra para romper com o ranço passadista e propor uma nova visão de mundo; Ringo Star, que deu uma canja rápida na música &#8220;1 Shall Be Released&#8221;, acompanhando Bob Dylan, na bateria, representando com sua presença a grande virada do rock através dos Beatles; Muddy Waters, estrela maravilhosa do Blues elétrico, representando as raízes do rock, cantando seu &#8220;Ma nlsh Boy&#8221; para delírio das duas platéias — a do filme e a do cinema; além de Dr. John e Ronnle Hawks, veteranos rockeiros de palco, o excelente Neil Young, o balofo Neil Diamond. Paul Butterfleld, Joni Mitchel, o decadente Van Morrison e também a cantora Emmylou Harris e o conjunto The Staples. Os dois últimos gravaram em estúdio cenas que foram aproveitadas para o filme.</p>
<p>Devido â pouco competência de alguns artistas que se apresentaram no concerto e à própria &#8220;The Band&#8221;, que ê mais um grupo de acompanhamento. sem multo carisma, às vezes o filme fica um pouco arrastado. Mas a experiência de Scorsese. responsável pelo musical &#8220;New York. New York&#8221; e pela edição do filme &#8220;Woodstock&#8221;, torna &#8220;The Last Waltz&#8221; um dos melhores filmes de rock já feitos. O diretor levou em consideração a posição do The Band no mundo rock: uma banda que, em 16 anos de turnês, acompanhou &#8220;as maiores influências musicais de toda uma geração&#8221;.</p>
<p>E por isso que os cortes do show para as cenas de entrevistas com os cinco componentes do grupo — Levon Helm (bateria e vocal solo), Rick Danko (baixo e vocal), Garth Hudson (órgão, sintetlzador, sax), Richard Manuel (plano e vocal) e Robble Robertson (guitarra solo e vocal) — enriquece o espetáculo com revelações ótimas sobre os bastidores do rock.</p>
<p>Quem mais fala sobre esse mundo escondido das grandes platéias é o guitarrista Robble Robertson, também produtor do filme e do álbum triplo, trilha sonora do filme, lançado pela WEA, e que já está sendo vendido nas lojas. São dele as palavras de explicação sobre esse último trabalho do The Band — que depois do concerto se dissolveu, com cada participante seguindo seus próprios caminhos musicais: &#8220;A estrada foi nossa escola. Ela nos ensinou tudo o que sabemos. Estivemos oito anos pelos subúrbios e oito anos pelas cidades. Não posso dizer que tenho estado na estrada por 20 anos. Sou jovem demais para carregar isso nas costas. E pode parecer uma superstição, mas a estrada nos levou grandes nomes, como Ottis Redding, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Elvis Presley. E impossível viver dessa maneira&#8221;.</p>
<p>De todos os entrevistados, entretanto, é o tecladista Rlchard Manuel o mais significativo nas suas declarações, não sô pelo que ele diz, mas pelo que revela através de expressões, de gestos, que dizem muito mais do que as histórias que conta.</p>
<p>Falando sobre os roubos do grupo nos supermercados na época de miséria, analisando, ao seu modo, a época &#8220;pslcodélica&#8221;, ou contando a experiência da banda nos shows de madrugada pelas &#8220;bocas&#8221; do Interior, Rlchard Manuel é um documento vivo dessa transformação no comportamento, que foi radical não só para uma geração, mas para todo mundo.</p>
<p>— As pessoas achavam, complementa Robertson, que os requebros de Elvis, por exemplo, tinham surgido do nada. Mas as escolas dos grupos de rock foram exatamente essas sessões noturnas, que apresentavam artistas locais com esse tipo de comportamento no palco. Foi ai que surgiram as encenações comuns das bandas, que revelaram esse comportamento para o resto do mundo.</p>
<p>O filme — e também o disco — vale por essas informações fundamentais, desconhecidas do grande público, pela contenção da narrativa, pelo virtuosismo das câmaras e, pelo menos, pelas aparições de Bob Dylan — uns 15 minutos de charme e beleza musical — e de Muddy Waters. Infelizmente com um acompanhamento bastante Inferior, em &#8220;Manish Boy&#8221;, em relação à gravação original, no seu disco &#8220;Hard Agaln&#8221;, onde toca e canta junto com Johnny Winter e James Cotton.</p>
<p>Não se pode. entretanto, dizer que este ê o fim de uma geração nas suas aparições públicas. Depois de amanhã, por exemplo, o próprio Bob Dylan fará um show em Londres junto com Eric Clapton. Essa estrada, na verdade, não termina nunca, pois o rock, que soube se enriquecer assimilando o jazz, a música erudita e a música oriental, entre outros gêneros — e também ajudando a transformar a música no resto do mundo nos salvou de uma fatalidade da civilização: envelhecer com amargura, &#8220;criar Juízo&#8221; e odiar a Juventude. Na sua música &#8220;Forever Young&#8221;, a melhor do filme, Bob Dylan praticamente nos abençoa, pedindo que &#8220;todos os nossos desejos se realizem&#8221; e repetindo um refrão belíssimo, onde nos mobiliza para um sentimento maior: o da &#8220;eterna Juventude&#8221;, que é, no final das contas, o espírito de toda a música redentora.</p>
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		<title>LUZES DE HENDRIX NO MEIO DA NOITE</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Mar 2011 19:59:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Em mais um texto resgatado da Ilustrada dos anos 70 da Folha de São Paulo, quando eu era redator e um dos jornalistas que cobriam os lançamentos de música, abordo um álbum duplo de Hendrix que contém sua obra-prima, Peace in Mississippi. Trinta e três anos depois, aqui está o trabalho, na íntegra. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p><em>Em mais um texto resgatado da Ilustrada dos anos 70 da Folha de São Paulo, quando eu era redator e um dos jornalistas que cobriam os lançamentos de música, abordo um álbum duplo de Hendrix que contém sua obra-prima, Peace in Mississippi. Trinta e três anos depois, aqui está o trabalho, na íntegra. Na época, eu tinha 29 anos. Tempo, tempo, tempo&#8230;<br />
</em><br />
Folha de S. Paulo – Ilustrada . 29.06.1978</p>
<p>NEI DUCLÓS</p>
<p>De todos os artistas que surgiram na época mais criativa da música pop — fim dos anos 60 — Jimi Hendrix é sem dúvida o mais amplo, o que levou mais longe as propostas do caos. Símbolo de uma fase onde a sensibilidade e a percepção avançaram depressa demais para uma sociedade ainda fechada e voltada para a destruição e a morte — Hendrix conseguiu provar que é possível reagir com grandeza à crise e à repressão. Pois enquanto a Juventude era afogada com sangue e era arrastada para o cinismo &#8220;normal&#8221; da sociedade, ele — e todos os artistas que contribuíram para a revolução — ajudou a desatar, pelo menos enquanto era ouvido, o nó terrível que nos condena à morte. A música largou os freios e desandou, como se uma poderosa bomba tivesse atingido a lógica mesquinha e Jogado para cima todas as emoções previstas, as idéias preconcebidas, a frustração cotidiana.</p>
<p>Infelizmente, por ser Identificado demais com um movimento social que teve também seus erros e suas regressões, multa gente deixou de prestar atenção à contribuição radical de Jimi Hendrlx para a evolução da música popular. Pois a má vontade contra a proposta Juvenil da paz e do amor serviu para classificar a música pop de barulho, e colocar ídolos como Jimi Hendrix na vala comum dos oportunistas que aproveitavam a &#8220;ligação fácil&#8221; dos Jovens para provocar sensações passageiras.</p>
<p>Mas, se essas pessoas resolverem escutar o álbum duplo &#8220;Crash Landing. Midnight Lightning&#8221;. com músicas de Hendrix relançadas pela Warner na sua oportuna e multo bem produzida coleção &#8220;Momentos Históricos&#8221;, alguma luz poderá surgir no meio da noite. Nesse álbum, além da maestria de Jimi na guitarra, pode-se notar que ele foi também um excelente compositor e vocalista que, a partir das raízes negras da música americana tirou o rock dos estreitos limites Impostos pela tradição do mercado, que só permitia faixas pequenas, solos previsíveis e ídolos comportados. Jimi rompeu com tudo, tirando não apenas sons de sua guitarra, mas criando climas, reproduzindo sensações reais e propondo novos vôos de percepção. Tudo num aparente clima de Improvisação, onde a continuidade ou o choque das notas pareciam nascer no momento em que eram tocadas. Ele, entretanto, estava preparado para a batalha, pois soube assimilar um riquíssimo passado musical, não só do blues mas também dos primeiros momentos do rock, como demonstra sua original Interpretação de Blue Suede Shoes, de Carl Perklns, e um dos grandes sucessos de Elvls Presley, que está Incluído neste álbum duplo.</p>
<p>A originalidade de Hendrix velo dessa poderosa síntese e da noção que ele tinha da sua época e das suas potencialidades: ele soube unir tudo numa linguagem pessoal e Intransferível que Já na época em que surgiu, ficou sendo uma espécie de marca registrada de uma revolução. E Incrível que Hendrix consegue ser, além de suave, tranqüilo, lírico ou Irônico, também solene como em Peace In Mississipi, onde o contraponto entre a base e o solo — ambos tirados da mesma guitarra — dá um tom épico à sua interpretação, como se fôssemos envolvidos por alguma marcha, por uma sensação só experimentada em clássicos como Wagner ou Beethoven.</p>
<p>Além das faixas Já citadas, o álbum contém Message to Love — onde Hendrix brinca com a escala musical num rock progressivo de Infinitas variações — Crash Landin g, Come Down Hard On Me, Wlth The Power, Stone Free Again, Capitain Coconut, Trash Man. Midnight Lightning, Hear My Train, Gipsy Boy. Machlne Gun — uma das faixas mais expressivas da suave violência de Hendrix — Once I Had a Woman e Beggings. Jimi é acompanhado, entre outros, pelo guitarrista Jeff Mironov. pelo baixista Bob Babblt e pelo baterista Alan Schwartzberg.</p>
<p>Para nossa felicidade, Hendrlx comparece também em outro álbum duplo da coleção &#8220;Momentos Históricos&#8221;, ocupando todo o primeiro lado de &#8220;Woodstock Two&#8221;, onde conversa com a platéia e Interpreta Jam Back at the House, Izabella, e Get My Heart Back Together. Com esse relançamento, quase dez anos depois de Woodstock, é oportuno também reavaliar a época do &#8220;sonho&#8221;, onde tornou-se possível, por alguns dias, uma multidão reunir-se para viver em paz, para escutar música e para Influenciar o comportamento dos Jovens de todo o mundo. Pois é comum dizer que tudo resultou em nada, que a &#8220;alienação&#8221; contribuiu para o esfacelamento das propostas básicas e que tudo não passou de uma brincadeira multo bem aproveitada pelo sistema.</p>
<p>Não se pode negar, entretanto, que a partir de 1969, principalmente, época de Woodstock, houve uma evolução no comportamento social no ocidente — não estou falando em governos. Se o mercado aproveitou a onda para nos dar, por exemplo, a discotheque e o emperramento da percepção a favor do ritmo alienante, não se deve buscar as raízes do mal em Woodstock, ou em Hendrlx ou nos meninos que acreditavam na paz impossível. É importante olhar com boa vontade para um movimento de boa vontade e acreditar que alguma semente foi lançada no seco terreno das Idéias e dos sentidos e que ela está frutlficando. Naturalmente, a verdadeira inspiração daqueles momentos voltou a ser &#8220;underground&#8221;, por baixo do pano e, não tenham dúvida, renascerá. Pois será multo mais fácil — agora ou nos próximos anos — ressugir alguma coisa depois do duro golpe que os anos sessenta conseguiram Impor ao mundo das gravatas e das pastas 007.</p>
<p>Além de Hendrlx. &#8220;Woodstock Twvo&#8221; apresenta Joan Baez cantando Sweet Sir Galaad; Crosby Stllls. Nash E Young com 4-20 e Marrakesh Express; Melanie com My Beautlful People e Birthay of lhe Sun; Mountaln com Blood of the Sun e Theme foran Imaglnary Western: Canned Heat com Woodstock Boogle e Audlence Durlng Sunday Rainstorm com Let The Sunshlne In.</p>
<p><em>Agradeço a Miguel Duclós por resgatar mais este texto.<br />
</em></p>
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		<title>DIA DE JAZZ, POLÍTICA E POESIA</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Nov 2010 21:47:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós O que se faz num fim-de-semana no país que implantou a violência em todos os lugares, cobra os tubos por qualquer tipo de lazer, impede um convívio coletivo prazeroso na maior parte das vezes e dissemina uma programação torpe na indústria do espetáculo? Cada um encontra uma saída. Eu fico no Twitter (@neiduclos), [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p><em>O que se faz num fim-de-semana no país que implantou a violência em todos os lugares, cobra os tubos por qualquer tipo de lazer, impede um convívio coletivo prazeroso na maior parte das vezes e dissemina uma programação torpe na indústria do espetáculo? Cada um encontra uma saída. Eu fico no Twitter (@neiduclos), onde me divirto compartilhando frases, poemas, informações e toques em geral. A seguir, uma síntese do que rolou no sábado, dia 20 de novembro de 2010. Tudo em frases de no máximo 140 toques.</p>
<p></em>POESIA: SOM DE PALAVRAS</p>
<p>O vento passa batido pela rede e se abraça com a romã. A rosa não dá bola. Vistosa, quer casar com o arbusto de flor roxa, rodeado de vespas</p>
<p>Cheirei a rosa, olhei a Lua, via a primeira estrela, que há tempos não aparecia. Fiz dois pedidos. Ela estava me devendo</p>
<p>O dia mergulha no mar na caça de sereias, mas a noite ainda não veio. É quando ficamos no átrio morno de uma coleção de assombros</p>
<p>Enfim, sol, uma nuvem consegue cobrir tua cara. Agora podemos sair nas calçadas e celebrar a estação do calor que chega. É hora do realejo</p>
<p>O verão se impõe à primavera como amante bruto,mas ao cair da tarde cede. É quando a brisa noturna, de tocaia, o derruba sem mandá-lo embora</p>
<p>Diferente de outras artes, a poesia é a mendiga das palavras, que recolhe detritos em seu embornal e com eles faz pão para a eternidade</p>
<p>Em poesia você não diz, você toca um instrumento, a linguagem. O dito é a percepção alheia do que foi emitido pelo virtuose</p>
<p>Poesia é trilha sonora de palavras, que carrega sentidos visíveis ou ocultos. O significado vem a reboque dessa arte.</p>
<p>JAZZ: ALGUNS CLÁSSICOS</p>
<p>Pennies From Heaven &#8211; Billie Holiday http://bit.ly/0MJI</p>
<p>Ben Webster &#8211; The Brute http://bit.ly/cnKJit l</p>
<p>Gene Krupa Buddy Rich drum battle http://bit.ly/mLtDy</p>
<p>Buddy Rich stick trick solo http://bit.ly/dijDHd</p>
<p>How high the moon &#8211; Art Tatum , Lionel Hampton , Buddy Rich http://bit.ly/aenuRW</p>
<p>Art Tatum &#8212; Tiger Rag http://bit.ly/MZpf</p>
<p>Miles Davis et John Coltrane &#8211; So what http://bit.ly/WUBzM</p>
<p>Dave Brubeck &#8211; Take Five -9 http://bit.ly/wokLK</p>
<p>Dave Brubeck &#8211; Unsquare Dance http://bit.ly/wqOU via Clovis Malta, no Facebook</p>
<p>POLÍTICA É LINGUAGEM</p>
<p>A inteligência é revolucionária e a imbecilidade, retrógrada</p>
<p>A linguagem é a única arma que eu disponho</p>
<p>Quem não tem medo de ser feliz por estar dependurado no butim acha que o resto é direita raivosa, fascista, melancólicos e patéticos</p>
<p>Direita e esquerda só tem relevância no boxe</p>
<p>Descobri que há tempos sou considerado de direita. Fico intrigado, pois também me chamavam de comunista. Essa divisão bípede é quadrúpede</p>
<p>“Direita raivosa” é a condecoração fartamente distribuída aos adversários pelos que se acham da esquerda amorosa</p>
<p>Aluno não é cliente, professor não é gestor, escola não é balcão de negócios. O ensino deve ser colocado longe do olho gordo dos predadores</p>
<p>Você não reduz o discurso de uma nação a um “aí, cara, valeu?” Ou uma literatura à correção consentida. Linguagem é transcendência</p>
<p>Na escola, você não aprende História, mas a ler História. Você não aprende Biologia,mas a linguagem da biologia. Linguagem é a única matéria</p>
<p>Não existem conteúdos. Existe apenas linguagem. Só o arco-íris é real, não o tesouro no final dele</p>
<p>Professor, fale a língua culta.Não elimine a chance de os alunos criarem em cima. Não tire esse prazer das novas gerações.Não clone a moçada</p>
<p>Se o professor acha que tem de falar a linguagem da moçada, o que a moçada vai aprender se todo aprendizado é linguagem?</p>
<p>O Brasil cospe nos seus talentos e distribui comendas para apaniguados porque tem um pacto com o apedrejamento</p>
<p>Zé Kéti vivia duro e abandonado. Quando morreu, celebridades montadas no ouro fizeram fila em frente às câmaras para falar bem do gênio</p>
<p>Lou Reed autografando suas letras e Kevin Costner de guitarra antes da dupla sertaneja: como fomos parar no mundo bizarro?</p>
<p>“Dar conta de que” é realmente de lascar. Tremenda gambiarra de texto:” Rumores dão conta de que BC vai intervir no Banco Panamericano”</p>
<p>Ao abster-se de condenar o apedrejamento, o governo colocou todos nós na vala comum da barbárie e jogou no lixo séculos de diplomacia</p>
<p>Atribuir ao Nordeste os problemas do seu quintal não é apenas xenofobia rastaquera, é inventar um novo conceito penal, a culpa geográfica</p>
<p>O Sul não é meu país, é o sul do meu País</p>
<p>Parem com essa asneira de O Sul é Meu País, que senão o presidente vai ser o Tarso Genro. Vê se cai a ficha</p>
<p>O PT considera milhões de pessoas “as forças do atraso, com seu discurso raivoso e de extrema-direita”.A extrema-direita vai exultar</p>
<p>Um governo com coração de pedra. À toa, à toa&#8230;</p>
<p>O governo ganhou com/ dos votos e ainda abraçado a uma aliança espúria, que agora cobra a fatura. Essa é a “popularidade” do grande líder</p>
<p>Se a oposição teve milhões de votos,além dos 2 milhões jogados fora, por que os responsáveis por atribuir 9% ao Lula continuam soltos?</p>
<p>COMPORTAMENTO: NO BAÇO</p>
<p>Tem pessoas que imploram por um corretivo.A sociedade não os atende e por isso se revoltam e vão até o fim para ver se conseguem uma punição</p>
<p>O mandiocão mija na sala de aula depois quase mata outro. E o soltam. Por que não atendem sua súplica e o prendem para cavar trincheira?</p>
<p>Se você sacudir as chaves do carro tem chance de ser atendido antes dos outros que chegaram primeiro. Costuma funcionar</p>
<p>Balconista continua ocupada e atende de costas. Chama a colega, que boceja. Esta não tira o produto da estante e diz que preço vai aumentar</p>
<p>Chegou tarde, disse o investigador apontando para os corpos. Pena, disse Chuck Norris. Estava precisando chutar uns rabos</p>
<p>Ninguém porta arma enquanto estiver na cidade, disse o xerife para Chuck Norris. Posso colocar sua cabeça no coldre, foi a resposta</p>
<p>Foi-se o tempo em que as pessoas tinham medo da ameaça nuclear. Hoje o pânico maior é quando Chuck Norris pega um taco de beisebol</p>
<p>Ouviste falar em educação? disse alguém depois de levar um esbarrão de Chuck Norris. Ouviste falar em baço? foi a resposta</p>
<p>Anunciar conteúdos é hábito do tempo do impresso. Coloque logo no ar e não cacareje antes da hora</p>
<p>Megaempreiteiro entesourador de butim público faz marketing: seus empreendimentos seguem a agenda do noticiário</p>
<p>Deveria ser o contrário: publicar no impresso as sínteses e as matérias completas na versão on line.Para ler rapidamente,só comprando jornal</p>
<p>Por que não colocam nada decente na televisão? Porque deve ser gostoso babar na gravata e arrastar a cacunda por corredores infectos</p>
<p>Programadores de TV negam tudo à nação para que não haja perigo de melhorar. Espíritos habitados poderiam apeá-los do cavalo</p>
<p>Os programadores de TV atribuem a própria idiotia ao público que os sustenta</p>
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		<title>GERALDO VANDRÉ E O BRASIL ASSASSINADO</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 13:48:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Nos debates dos candidatos, a toda hora aparece a expressão “é fundamental”, com seus clones “é essencial, é crucial”. Pela arenga adotada, ficamos sabendo que a única coisa considerada realmente importante pelos aspirantes ao cargo de guarda do butim é o poder puro e simples. Não se fala no país, como do Brasil [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Nos debates dos candidatos, a toda hora aparece a expressão “é fundamental”, com seus clones “é essencial, é crucial”. Pela arenga adotada, ficamos sabendo que a única coisa considerada realmente importante pelos aspirantes ao cargo de guarda do butim é o poder puro e simples. Não se fala no país, como do Brasil fala Geraldo Vandré em sua entrevista, esta sim, fundamental, para o jornalista Geneton Moraes Neto na Globo News, a primeira que ele dá em 40 anos de reclusão e silêncio. Sob todos os aspectos, e principalmente nesta quadra da vida nacional, a fala de Vandré é, senão a mais importante manifestação cultural da nossa época, seu discurso mais importante.</p>
<p>Pelo que enfeixa em seu carisma e biografia, e pela manipulação que sofre até hoje a memória e presença de sua obra, o depoimento de Vandré é uma coleção de aparentes paradoxos. Um deles é sua relação com as Forças Armadas. Considerado um paradigma da luta anti-ditadura “militar” (que, como se sabe, era civil-militar), Vandré diz não ser um militarista, mas nunca foi anti-militarista. “Todo país soberano tem suas Forças Armadas. O que vamos fazer com as nossas? Entregar para os estrangeiros? Acho que não”. Eis o ponto focal de seu enredo, jamais compreendido pelos que o usaram quando compõs e apresentou e fez sucesso nos festivais com suas músicas ícone, como a urbana Caminhando (com seu verso decisivo “quem sabe faz a hora”) ou a rural Disparada (feita em parceria com o músico Theo de Barros).</p>
<p>Ele deu a entrevista para Geneton num hotel, de direito privado, ligado ao “exército azul”, como ele denomina a Força Aérea Brasileira. O cantor e compositor que marcou seu tempo mostra sua ligação com um sonho de infância, o mais louco da experiência humana, segundo sua avaliação, o de voar (aos 4 anos, quando explodiu a 2ª Guerra Mundial, ele gostava de imitar o vôo de caças).</p>
<p>A letra de Fabiana, o hino que compôs para a FAB, demonstra esse amor de inspiração camoniana, em que, como é a marca registrada de sua criação, o enxugamento das palavras ganha grande intensidade poética pela música do texto e a sugestão de suas poderosas imagens. “Porque só tu soubeste enquanto infante/ As luzes do luzir mais reluzente/ Pertencer ao meu ser mais permanente” são os versos finais de “Fabiana”. “Musicalmente é uma valsa”, disse ele em entrevista ao jornal paulistano Diário Popular (atual Diário de São Paulo) em 26 de julho de 1991.“Literariamente, compõe de três estrofes de seis decassílabos e um refrão de três versos de seis sílabas”.</p>
<p>O entrevistador insistiu em algumas perguntas chave, acumuladas em quatro décadas de silêncio. As respostas foram econômicas, incisivas. “Fiquei fora dos acontecimentos”, diz. “Anistia é para criminoso. Eu continuo no exílio. Moro aqui, mas não voltei”. Expulso do serviço público devido à sua canção considerada “de protesto” (o que ele contesta, pois protesto é para quem não tem poder), ele recompôs sua vida depois de ter voltado do exílio. Deu em 1974 um depoimento imposto pela Polícia Federal, um episódio que ele que prefere esquecer, já que, dizemos agora nós, antes de ser um esqueleto no armário, é mais um ponto a favor da sua sobrevivência física.</p>
<p>Todos nós nos adaptamos para ficarmos vivos. Os jornalistas trafegaram na estreita margem da censura e da auto-censura. Os artistas ou fora embora ou dançaram conforme a música. Por que Vandré seria o único a se insurgir contra a possibilidade de manter-se vivo? Deu seu depoimento falando a verdade (que foi editado e ele nunca viu a transmissão), pois nunca se considerou um político nem fez parte de partido nenhum, apesar de ter sido usado até o osso por inúmeros partidos, principalmente os que depois alcançaram o poder e o acesso ao tesouro nacional. Ele continuou mudo, conseguiu sua aposentadoria e vive dela dignamente, recusando-se a seguir uma carreira comercial.</p>
<p>Para Vandré, não existe no Brasil de hoje algo parecido com 40 anos atrás, quando havia a possibilidade de alguém ser um artista. Hoje tudo é massificado. Vivemos em megalópoles que são a expressão de um genocídio, segundo suas próprias palavras, pois expulsaram o povo do campo e o amontoaram em cidades inviáveis. “Quando cheguei em São Paulo em 1961 (ele nasceu em João Pessoa, na Paraíba) existiam 4 milhões de pessoas. Hoje são 16 milhões. Tiraram o povo do interior para exportar alimento”. Na sua canção Caminhando ele fala da “fome em grandes plantações”.</p>
<p>Onde mora Vandré atualmente? pergunta Geneton. “Moro no Brasil de 40 anos atrás&#8221;, diz Vandré. O entrevistador não entende e acha que se trata do único habitante desse país que ele teria inventado. Engana-se. Vandré mora no mesmo país onde vivem milhões de brasileiros, o Brasil assassinado. Quem não viu esse país não sabe do que se trata, avisa. Posso garantir, compatriota e conterrâneo Geraldo Vandré: moro nesse mesmo lugar. Não no passado, não na saudade, mas na real possibilidade da existência de um país soberano, orgulhoso de sua raízes e cultura e que não se abaixava de maneira desavergonhada para o mercado, como acontece hoje.</p>
<p>“Eu não faço qualquer coisa”, diz Vandré, que sonha com uma turnê pela América hispânica, já que no Brasil de hoje, esse massificado, é impossível para ele mostrar sua grande arte. Um país que insiste em suas duas músicas mais famosas e esquece que ele ama todas. Esse é Vandré, o cara que levantou o povo contra o Mal que se abateu sobre nós e por isso pagou com a própria vida. Foi sacrificado no altar da politicalha, ele que sempre foi apenas um grande artista e patriota. Duas coisas que hoje nos falta em todos os níveis e instantes.</p>
<p>Esse é o cidadão integro, com voz do Brasil profundo, que foi um divisor de águas na música brasileira. Ele nos trouxe o bom cantar, aquela expressão da voz que enche o peito e habita a alma, a mesma que hoje está atirada no chão da pátria em ruínas.</p>
<p>RETORNO &#8211; &#8220;GERALDO VANDRÉ: UM HOMEM À ALTURA DE SEU MITO&#8221;</p>
<p><em>Comentário de André Luiz Pinto</em></p>
<p>A entrevista de Geraldo Vandré é impressionante. Brilhante, Vandré soube desconcertar Geneton Moraes Neto. Camaleônico, Vandré não pôs propriamente as forças armadas na berlinda, ainda que tenha confirmado o fato da volta ao Brasil e entrevista ter sido montada, porém, antes, ele deixa claro, principalmente quando questiona a Globo de não ter o vt com suas imagens cantando &#8220;pra não dizer que falei das flores&#8221;, o quanto um golpe militar depende de instâncias civis. Sua crítica à noção de anistia política no Brasil é uma aula de direito.</p>
<p>As palavras finais que foram postas na edição da Globo News para explicar a personalidade de Geraldo Vandré, a meu ver, além de demeritórias, são pífias. Pelo contrário, o Brasil de que Vandré tratou fora o nosso, ainda que insuportável, tanto para ele quanto para nós. Seja quando o compositor fala de massificação, seja quando fala dos amontoados urbanos. Se existe um país de um só habitante, não é o de Geraldo, mas daqueles que encobrem o próprio erro.(<em> André Luiz Pint</em>o)</p>
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		<title>LUÍS ANTONIO, O GÊNIO QUASE OCULTO DO SAMBA</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Aug 2010 00:30:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Por que o carioca Antônio de Pádua Vieira da Costa é um nome absolutamente desconhecido do público? Sua biografia, que vai de 1921 a 1996, não deveria circular apenas entre especialistas e a velha guarda do samba. Toda vez que algumas de suas maravilhosas músicas são interpretadas, lembradas ou difundidas, sabemos que elas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Por que o carioca Antônio de Pádua Vieira da Costa é um nome absolutamente desconhecido do público? Sua biografia, que vai de 1921 a 1996, não deveria circular apenas entre especialistas e a velha guarda do samba. Toda vez que algumas de suas maravilhosas músicas são interpretadas, lembradas ou difundidas, sabemos que elas fazem parte das nossas vidas.</p>
<p>Basta dizer que, junto com inúmeros parceiros, é autor, entre muitos sucessos, de Lata Dágua (“Lá vai Maria/ sonhando com a vida no asfalto/ que acaba onde o morro principia”), lançada por Marlene, e Barracão (“tradição do meu país”), imortalizada por Elizeth Cardoso, ou Sassaricando “todo mundo passa a vida no arame”), um assombro popular de Virginia Lane. Mas isso ainda diz pouco. Ele foi gravado pelos maiores artistas da música brasileira e internacional, de Elis Regina a Lalo Schifrin.</p>
<p>Era tão eclético que compôs hits inesquecíveis como Eu Bebo Sim, de canções românticas que marcaram época, como O Poema do Adeus (“Então, eu fiz um bem, dos males ,que passei”) ou Mulher de Trinta (“Você mulher/ Que já viveu/ Que já sofreu/ Não minta”) imortalizadas por Miltinho. Além disso, foi um dos pilares do chamado sambalanço, uma inovação que namorou com a bossa nova, como atestam jóias como Menina Moça (“confissões não ouça/ abra os olhos se quiser”) .</p>
<p>De quebra, é autor de hinos do samba, como Levanta Mangueira (“Mostra que o samba nasceu em Mangueira”), ou militares, como o da Aman, Academia Militar de Agulhas Negras. Pouca gente liga Vieira da Costa com o gênio musical que adotou o nome artístico de Luís Antonio, tão notório (porque sua obra se impõe a todo momento) quando oculto (é filho de quem? Onde estão suas fotos?). Sabe-se pouco dele, ou pouca coisa de sua vida está disponível.</p>
<p>O fato, que talvez tenha contribuído para permanecer até hoje na sombra, é o de ter seguido carreira no exército. Foi tenente de infantaria e integrou em 1945 a Força Expedicionária Brasileira na campanha da Itália. E chegou ao posto de coronel. Queria preservar a farda, seu ganha pão, não dar bandeira, por mais bizarro que isso possa parecer. Mas parece que conseguiu. É comum citar Luís Antônio como o compositor de tantas músicas, mas nunca se viu um programa especial sobre ele, pelo menos não que tenha tido destaque. Tratado pelos conhecidos como Coronel, ou Negro Antônio, o flamenguista Luis Antônio é citado mais de uma vez por Stanislaw Ponte Preta em crônicas reunidas em livros como “Tia Zulmira e eu”.</p>
<p>Amigo íntimo de João do Barro, o Braguinha, Luis Antonio é autor do capítulo A Canção carnavalesca , do livro História do Carnaval, de Hiram Araújo, mas não quis assumir o crédito. Ele era considerado modesto, mas a verdade é que plantou seu esconderijo ao longo da vida. Talvez não quisesse ser tão bem sucedido nesse apagar de pistas pessoais. Mas é comum o Brasil devorar seus melhores filhos e jogá-los na vala comum dos esquecimento. Mesmo que se trate de alguém tão notório e que deslumbrou a todos com seu enorme talento.</p>
<p>Entre seus parceiros, se destacam Klecius Caldas, Oldemar Magalhães, Jota Jr. e Djalma Ferreira. Alguns dos seus poucos perfis disponíveis na internet, como o do clicmusic, ou o do dicionário Cravo Albim revelam que ele &#8220;nasceu em 16/04/1921 01/12/1996, foi compositor desde os 14 anos, estudou no Colégio Militar e na Escola Militar de Realengo, passou a compor profissionalmente em 1948, e sua primeira canção gravada foi Somos Dois (com Klecius Caldas e Armando Cavalcanti), por Dick Farney. Em 1951, fez sucesso com o samba de Carnaval de cunho social Sapato de Pobre (com Jota Junior), na interpretação de Marlene, então, no auge da fama. Em 52, Marlene gravou Lata DÁgua (nova parceria com Jota Junior), o maior sucesso de sua carreira.&#8221;</p>
<p>&#8220;&#8221;Em 1953, obteve êxito com &#8220;Barracão&#8221;, gravado pela cantora Heleninha Costa pela RCA Victor e com &#8220;Zé Marmita&#8221;, um samba com tema que aborda o drama social dos operários &#8220;pingentes&#8221; dos trens da Central, que viajam pendurados para fora dos vagões. No mesmo ano, Ademilde Fonseca gravou o samba &#8220;Se Deus quiser&#8221;. Em 1954, teve gravados os sambas &#8220;Patinete no morro&#8221; por Marlene; &#8220;Floresta de chaminés&#8221;, por Carmélia Alves e &#8220;Arranha céu&#8221;, este em parceria com Oldemar Magalhães, por Heleninha Costa. No ano seguinte, Jamelão lançou o samba &#8220;Bica nova&#8221;, parceria com D. Palma e Elizeth Cardoso o samba &#8220;Subúrbio&#8221;. Em 1956, Risadinha gravou o samba &#8220;Esquina da vida&#8221; e Dora Lopes o samba canção &#8220;Tanto faz&#8221;, ambos de sua parceria com Ari Monteiro.</p>
<p>Em 1958, outro sucesso com &#8220;O apito no samba&#8221;, em parceria com Luís Bandeira gravado por Marlene no seu LP &#8220;Explosiva&#8221; pela Odeon e regravado depois, entre outros, por Gracinda Miranda e Trio Melodia e Os Vocalistas Modernos. A partir do fim dos anos 1950, começou a compor dentro de um estilo que a crítica batizou de &#8220;samba moderno&#8221; ou &#8220;sambalanço&#8221;. Um desses sambas é &#8220;Recado&#8221; um dos mais gravados em 1959, por Maysa, Luís Cláudio, Luís Bandeira e outros, parceria com Djalma Ferreira, lançado pelo então &#8220;crooner&#8221; do grupo de boate Milionários do Ritmo, Miltinho.</p>
<p>Canções como &#8220;Menina Moça&#8221;, &#8220;Mulher de Trinta&#8221;, &#8220;Poema do Adeus&#8221;, &#8220;Poema das Mãos&#8221; e, em parceria com Djalma Ferreira, &#8220;Recado&#8221;, &#8220;Lamento&#8221;, &#8220;Devaneio&#8221;, &#8220;Cheiro de Saudade&#8221; e outros, todas lançadas por Miltinho, foram regravadas logo a seguir por diversos intérpretes, como Helena de Lima, Dóris Monteiro, Cauby Peixoto, Maysa, Elizeth Cardoso e muitos outros.</p>
<p>Outros sucessos são &#8220;Luz de Vela&#8221; (Helena de Lima), &#8220;Quero Morrer no Carnaval&#8221; (Linda Batista), &#8220;Bloco de Sujo&#8221; (As Gatas), &#8220;Levanta Mangueira&#8221; (Zezinho) e &#8220;Eu Bebo Sim&#8221;, com João do Violão (Elizeth Cardoso) essa, seu último sucesso. Em 1962, o palhaço de circo Carequinha gravou o samba &#8220;O engraxate&#8221;. A partir da década de 1960, compôs poucas músicas. Em 1973, Elizeth Cardoso lançou com sucesso &#8220;Eu bebo sim&#8221;, uma parceria com João do Violão. Seu maior parceiro foi Djalma Ferreira com quem compôs, entre outras, &#8220;Recado&#8221;, &#8220;Lamento&#8221;, &#8220;Mulher de trinta&#8221; e &#8220;Poema do adeus&#8221;. Em muitas de suas composições expressou a preocupação social com os desfavorecidos e em retratar a vida dos subúrbios da cidade do rio de Janeiro.</p>
<p>Luís Antonio era um dos compositores militares do Brasil. Ele e Jota Júnior (Joaquim Antônio Candeias Júnior), ambos capitães, já tinham feito sucesso com o samba &#8220;Sapato de pobre&#8221;, cantado por Marlene.Servindo na Escola Especializada da Academia Militar, os dois passavam diariamente por um morro ao pé do qual uma bica d&#8217;água servia aos moradores. A inspiração nasceria ao verem a cena que descreveram na composição: uma mulher grávida equilibrando uma lata na cabeça, enquanto levava uma criança.&#8221;"</p>
<p>NOTA &#8211; <em>Os últimos cinco parágrafos, e que estão sob aspas duplas, foram tirados dos sites citados acima. Esta é uma pesquisa limitada pelo pouco que pude acessar pela internet. Deve ter inúmeros textos ótimos sobre João Antônio em livros de especialistas, que não li ainda. Mas fico impressionado que não exista nenhuma foto dele localizável na rede. E nenhuma matéria especial num grande jornal que dê para acessar num clic. Pode ser que exista.</p>
<p>Ficam muitas perguntas. Quem eram seus pais? Qual sua contribuição em cada canção? Onde fez letra, onde fez a melodia, onde participou de ambas quando havia parceiro? Braguinha fala que ele compunha paródias, ou seja, há ainda muito o que descobrir. Publicou livros? Tem algum caderno inédito de poesia ou melodias? Noto que ele sempre foi tratado como personagem periférico, apesar de ocupar uma posição central na música brasileira por décadas, pela qualidade e abrangência do trabalho, que deixaram marcas . Quem era Luís Antonio, o gênio quase oculto do samba? Cartas para a redação.<br />
</em></p>
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		<title>JOÃO GILBERTO, O ESPLENDOR DA FALA</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 20:12:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[João Gilberto se presta ao exagero: a única coisa que lhe faz sombra é o silêncio, chão que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste país assassinado. E se temos hoje uma língua, é porque João Gilberto resgatou-a, reinventando cada sílaba, pronunciando cada palavra, como um instaurador de milagres, e um fundador que não se contenta em apenas descobrir, mas cavar e levantar a estrutura completa de uma nação que hoje mora dentro de nós. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Ser contemporâneo de João Gilberto é pura armadilha. Corremos o risco de nos enredar nas palavras que inventaram para ele, que todos conhecem e não é prudente lembrar. Para escapar da arapuca, é preciso vê-lo na ultra-densidade da sua transcendência. Pois não há criador mais completo na sua obra, mais coerente na sua trajetória, mais louco na sua obsessão, mais profundo na sua originalidade, mais irritante na sua teimosia.</p>
<p>Ele é só isso, como o baião, e exatamente por isso torna-se maior do que o universo armado pela voz e o violão. Ao mesmo tempo, a esses dois instrumentos se reporta o tempo todo, pois eles representam, encarnam e projetam a verdade que deveria nos acompanhar sempre: a de que somos eternos, conscientes desde o início dos tempos e temos sempre a chance de voltar a esse brilho, que ao escutar, conhece.</p>
<p>João Gilberto se presta ao exagero: a única coisa que lhe faz sombra é o silêncio, chão que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste país assassinado. E se temos hoje uma língua, é porque João Gilberto resgatou-a, reinventando cada sílaba, pronunciando cada palavra, como um instaurador de milagres, e um fundador que não se contenta em apenas descobrir, mas cavar e levantar a estrutura completa de uma nação que hoje mora dentro de nós.</p>
<p>Por isso é insuportável, pois para existirmos precisamos nos calar diante dele. Não podemos nos dar o luxo de emitir qualquer ruído, vício que hoje nos corrompe e mata. João Gilberto exige o silêncio para que possamos notar não a música, nem suas vestimentas, como harmonia ou ritmo. Notar no sentido de reconhecer a nota, saber o­nde ela se encontra, o que ela faz, a quem se refere e porque existe por si só, vibrando por ser filha do infinito. Se notarmos, estaremos salvos porque aprenderemos a existir fora da brutalidade sonora que são as barras da jaula. Seremos livres, não porque veio o salvador, mas porque notamos o que nos falta. Assim, podemos chegar ao outro lado do rio da morte sem pagar tributo para o barqueiro sinistro.</p>
<p>É crime, portanto, achar que você pode fazer ruído quando João Gilberto está em ação, emitindo o caldo original de uma cultura, a expressão mais elevada desta meta-raça brasileira, como queria Gilberto Freyre, definida pela vivência, a geografia, a mistura, a diversidade. Não se põe João Gilberto ao entardecer para ver o tempo passar, mas para vislumbrar essa porta entre os mundos, como queria Juan Mattus, em que temos um pé na miséria e outro no mistério.</p>
<p>O que ele faz não precisa de nada, nem do estalar de dedos, nem dos conceitos sobre jazz ou samba. Não tilinte copos ou bata caixa de fósforos, nem pertença a qualquer religião sonora conhecida. Por se vergar ao alicerce, por se dedicar à coluna mestra, por se circunscrever ao quintal, João Gilberto atingiu a essência. Desse pequeno asteróide armou a flor da sua conversa.</p>
<p>Ao nos calar, descobrimos o anjo inventado pelo ouvido absoluto. Há um silencioso ruflar de asas por trás de cada fala dita pelo criador. Esse esplendor toma conta de um espaço concreto, como uma abóbada, como se a arquitetura se revoltasse contra as formas e decidisse viver apenas desse banquete mínimo, que vem de uma fonte infinita e parte para outra, idêntica, como pássaros tontos salvos pela busca do Eldorado.</p>
<p>Devemos sair desse recinto sem mexer a cadeira, para não despertar o escândalo. Devemos sumir de vista, para que só exista esse escutar contínuo. Que de repente se fecha como um casulo, se recolhe como um rochedo na gruta. É enfim o silêncio, mas modificado: agora, depois de ouvir João Gilberto, sabemos quem somos e podemos contemplar a quietude sem nos desesperar. Não precisamos de barulho para dizer a que viemos. Temos João Gilberto, que está entre nós, como um irmão poderoso, uma visita noturna, uma refeição vespertina. De manhã, dormimos o sono solto da boa aventurança, pois há um sino modificado em cada momento, que desfez o metal reiventando a pomba.</p>
<p>Somos o país articulado pelo esplendor da fala de João Gilberto, que dispensa palavras, por tê-las sempre ao redor como um coro de crianças.</p>
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		<title>O ESPLENDOR DE CADA GERAÇÃO</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 01:58:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O disco maior da música brasileira é Axé, de Antonio Candeia. Ali estão reunidas as linhagens mais poderosas do que o povo brasileiro já produziu. Com uma diferença fundamental: tudo, desde as músicas baseadas em bordões de rua, como Peixeiro Granfino (Bretas-Candeia) , passando pelos temas clássicos como a traição conjugal, até a sofisticada obra-prima Ao povo em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes), manifesta-se a denúncia, a conscientização, a indignação embalada no talento de mestre. Candeia usa a expressão do povo sofrido para apontar-lhe um rumo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>A evolução não existe: cada pessoa parte do zero em direção ao seu destino. O que temos no acervo cultural é a soma do esplendor de cada geração. Uma jamais comparável a outra, formando, cada uma, realidades incomensuráveis. O que a humanidade produz circunscrita nos limites do tempo atinge ciclicamente o infinito. Nesse estágio, não existe superação à vista. É momento único, que encanta o futuro. É o que acontece com Candeia, mestre da música popular e nome, claro, fora do circuito atual da mediocridade midiática no poder.</p>
<p>DIA DE GRAÇA &#8211; O disco maior da música brasileira é Axé, de Antonio Candeia. Ali estão reunidas as linhagens mais poderosas do que o povo brasileiro já produziu. Com uma diferença fundamental: tudo, desde as músicas baseadas em bordões de rua, como Peixeiro Granfino (Bretas-Candeia) , passando pelos temas clássicos como a traição conjugal, até a sofisticada obra-prima Ao povo em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes), manifesta-se a denúncia, a conscientização, a indignação embalada no talento de mestre. Candeia usa a expressão do povo sofrido para apontar-lhe um rumo.</p>
<p>Em Dia de graça, ele chama a atenção para a ilusão do Carnaval, a necessidade de o povo se unir e se fortalecer para superar a miséria. “Aí, então, jamais tu voltarás ao barracão”. Com melodias inesquecíveis e letras primorosas como Pintura sem arte, ou o inacreditável Ouro desça do seu trono (com Paulo Portela), o mestre deixa um legado de grandeza sem sair da sua roda, sem abandonar o seu mundo, sem fazer a mínima concessão.</p>
<p>Mas ele não se submete ao panfleto, apesar de bater o disco todo na injustiça. Por isso o disco desemboca no deboche total, no magnífico Beberrão (Aniceto do Império-Mulequinho), que tem rimas maravilhosas, como pode-se ouvir na sucessão de frases que pontuam o bordão “você já começa a beber”: no domingo de manhã/ com Manuel Bam-bam-bam/ não estás com a cuca sã/ vai te deitar no divã. Correndo junto, existem ainda outras jóias, como Vivo isolado do mundo (Alcides), que diz: “eu vivia/isolado do mundo/ eu era um vaganbundo/ sem ter um amor/ hoje em dia/ eu me regenerei/ sou um chefe de família/ com a mulher que eu amei”. E ainda Ouço uma voz (sobre texto de Nelson Amorim), Vem amenizar (com Waldir 59), Mil réis, Nova escola, O invocado (Casquinha), Maria Madalena da Portela (Aniceto do Império). Peça para ouvir Candeia. Ouça Candeia.</p>
<p>O disco está também reproduzido na coleção Mestres da MPB, da Warner, projeto de Carlos Alberto Sion e Tárik de Souza e direção técnica de Sérgio Bittencourt. Está na minha casa há muitos anos. Vivo desse tipo de obra, dessa inspiração que nos alimenta, dessa base que segura o Brasil que jamais entenderemos o quanto é imenso.</p>
<p>QUILOMBO &#8211; A genial música que citei acima como obra-prima tem letra do professor Nei Lopes, compositor de primeiro time, intelectual do Brasil superior: “Quilombo/ pesquisou suas raízes/ dos momentos mais felizes/ da sua história singular/ e hoje/ vem mostrar sua pesquisa/ na ocasião precisa/ em forma de arte popular/ há mais/ há mais de 40 mil anos atrás&#8230;” Todo desfile de carnaval deveria ter uma representação dessa música. Já a imaginei de mil formas. É absolutamente impressionante. Quem não ouvir essa música em poucos dias me deve uma.</p>
<p>Um pequeno perfil do grande xará, tirado da rede (http://www.samba-choro.com.br/artistas/neilopes): “Nei Lopes é autor e intérprete de música popular, nasceu no subúrbio de Irajá, Rio de Janeiro, RJ, em 9 de maio de 1942. Bacharel pela Faculdade Nacional de Direito da antiga Universidade do Brasil, no início dos anos 70 abandonou a recém-iniciada carreira de advogado para dedicar-se à música e à literatura. Compositor profissional desde 1972, notabilizou-se principalmente pela parceria com Wilson Moreira e pela obra gravada por quase todos os grandes intérpretes do samba tradicional.</p>
<p>É escritor de vasta obra toda centrada na temática afro-brasileira e compreendendo ensaios como &#8220;O Samba, na Realidade&#8221; (1981), &#8220;Bantos, Malês e Identidade Negra&#8221; (1988), &#8220;O Negro no Rio de Janeiro e Sua Tradição Musical&#8221; (1992), &#8220;Zé Kéti, O Samba Sem Senhor&#8221; (2000), &#8220;Logunedé; santo menino que velho respeita&#8221;(2000), além de um &#8220;Dicionário Banto do Brasil&#8221; (1996) e um volume de poemas &#8220;Incursões sobre a Pele&#8221; , também de 1996, entre outras publicações. Desde 1995, Nei trabalha na elaboração da &#8220;Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana&#8221;, sua obra mais ambiciosa, a qual contempla centenas de verbetes sobre o universo do samba e do choro.</p>
<p>QUINTANA PARA SEMPRE &#8211; Candeia, Nei Lopes: insuperáveis. E geração aqui nada tem a ver com idade. Tem a ver com convívio, com o verbo compartilhar: repartir o privilégio de termos, numa mesma época, a nação, a terra, a música, a poesia. Sem isso, nada somos. Sobre evolução, lembro Mario Quintana. Ele tinha um baú cheio de poemas. Tiraram apenas os sonetos para fazer seu primeiro livro. Depois, desencavaram os de verso livre. Os críticos tiveram uma iluminação: ele evoluiu! Ao que o insuperável poeta respondeu: “Jamais evoluí. Sempre fui eu mesmo.”</p>
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		<title>O QUE É MÚSICA?</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Dec 2009 01:27:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Música é a capacidade de ouvir. Você pode ser Mozart, mas se não houver quem escute sua obra, ela não existirá. Ninguém compõe para as altas esferas, mas para que o som se propague até um receptor. A música foi assassinada quando descobriram a mina de ouro que é a banalização da batida do tambor. A sofisticação foi reduzida ao pó das baterias, e o tunc tunc se consolidou na indústria imediatista. Mais tarde, “evoluiu” para o baticum eletrônico, que é a entronização surtada da redundância.



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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós </strong></p>
<p>Música é a capacidade de ouvir. Você pode ser Mozart, mas se não houver quem escute sua obra, ela não existirá. Ninguém compõe para as altas esferas, mas para que o som se propague até um receptor. A música foi assassinada quando descobriram a mina de ouro que é a banalização da batida do tambor. A sofisticação foi reduzida ao pó das baterias, e o tunc tunc se consolidou na indústria imediatista. Mais tarde, “evoluiu” para o baticum eletrônico, que é a entronização surtada da redundância.</p>
<p>Tudo o que música produziu, como melodia, harmonia, ritmo, foi deixado de lado para que imperasse a obsessão pelo Mesmo. O eterno presente, que devora a memória, precisa de reiteração permanente. O entorno dessa barbárie é a parceria gritada de duplas infernais. É preciso atordoar os ouvintes até que não reste uma nesga de civilização auditiva. A vítima então está pronta para digerir o atordoamento interminável. O objetivo é destruir a capacidade de ouvir. É o assassinato implantado da música.</p>
<p>Ouvir significa sonhar, pensar, aprender, enlevar-se, transcender. Tudo isso não serve para nada, pois é preciso que a linha de montagem obedeça aos ditames do entretenimento doentio. A coletividade injeta nos tímpanos a mais intensa avalanche de porcarias auditivas. Dá para perceber de longe. Os ouvidos estão cobertos por grossa camada de fuligem. É para enlouquecer, mesmo, já que pessoas saudáveis seriam incapazes de se submeter ao matadouro cultural.</p>
<p>Nos supermercados ou lojas onde você cai na asneira de entrar, existe a distorção pop de vozes intermináveis, que se esganiçam até o osso. Você está louco para fugir dali, mas não sabe por quê. Aí descobre que é a monstruosidade despejada pela caixinha de som, construída pelo horror de DJs invisíveis, mas mortais. E não ouse reclamar. O sorrisinho maroto de que você está por fora irá se manifestar.</p>
<p>O que resta para as pessoas que conservam um mínimo de lembrança da cultura musical? Num restaurante de bom gosto, num concerto fino, numa sala de espera de luxo, eis que chega até nós os acordes da bossa nova, do jazz, do blues, ou mesmo da música sinfônica, erudita, romântica, barroca. São pílulas caras, pois cobram os tubos para você compartilhar um pouco do que restou, as ruínas desse acervo popular maravilhoso, que sumiu do mapa e hoje está enterrado no coração sem esperança.</p>
<p>Se você tem a coleção completa de Frank Sinatra, Tom Jobim ou Doris Day (sim, ela é o máximo de doçura na voz), de Pixinguinha, Baden Powell ou Maysa, se você gosta de Brahms ou Edu Lobo, então você está condenado a escutar bem baixinho, nos intervalos da guerra. No fundo, você continua preso. Jogado dentro de uma cela por inúmeros malfeitores, como o Ruído e o Gritalhão, é como se houvessem decretado a pena de morte. Mas ainda é possível ganhar dois minutos no pátio para tomar sol. Lá, você respira fundo e consegue lembrar aquela frase musical perdida. Do tempo em que você escutava. Quando havia música.</p>
<p>Por que perdemos a capacidade de ouvir? Porque entregamos o país para a bandidagem, e isso foi há mais de quatro décadas. Quando abrimos mão do Brasil soberano. Quando achamos que poderíamos viver sem a música a feita por nós, e pelo melhor dos estrangeiros. Que deveríamos nos entregar para sempre nas mãos de quem domina o espaço público e loteia nosso ouvido como se fosse um terreno abandonado.</p>
<p><strong>Cartas sobre a crônica &#8220;O que é música?&#8221;</p>
<p></strong></p>
<p>O EXEMPLO DE VIENA</p>
<p>Um excelente artigo. Tudo e verdade o que o artigo fala. E impossível de entrar numa loja, num ônibus ou deixar os janelas abertas em qualquer lugar sem ouvir os batidos e palavras repetidos gritando ao nossos ouvidos.O grande musico Hungaro Kodaly falou: se você não aprende ouvir boa musica ate 4 anos de idade , vai ser difícil de aprender mais tarde, E a mesma coisa de aprender linguas, Ate uma certa idade nos adquirimos a capacidade de ouvir sons e descartamos outros que nao sao usados ao nosso redor, Mais tarde vai ser dificil de ouvir e pronunciar tal sons. Seria ótimo de acostumar nossos filhos de ouvir e apreciar boa musica mais cedo possível.</p>
<p>É muito interressante. Os músicos têm filhos músicos( Mozart, bach, Strauss etc) Porque os matemáticos ou pintores não tem filhos matemáticos ou pintores? A resposta é: não é hereditário, mas costume, Ouvir música boa em casa faz você gostar de música. Por que em Viena tudo mundo fala baixo e não grita, não buzina?</p>
<p>Helga Szmuk</p>
<p>Aposentada</p>
<p>Florianopolis Sc</p>
<p>IDIOTAS GRITANDO</p>
<p>Nei</p>
<p>Parabéns pelo artigo. Enfim mais alguém não suporta idiotas gritando.</p>
<p>Abraços</p>
<p>Gilberto Soares França</p>
<p>Caçador &#8211; S.C.</p>
<p>BATE-ESTACA</p>
<p>Nei, sou eu de novo.</p>
<p>Parece premonição. Ontem no salão que frequento a proprietária perguntou à manicure que me atendia se ela havia trocado a estação do rádio. A mocinha disse que sim. Estávamos escutando um tipo de música a que chamo de &#8220;bate estaca&#8221;, essas a que te referes na coluna de hoje. Aproveitei para perguntar a ela se gostava deste tipo de música, o que foi confirmado prontamente; e mais, que ela só escuta isto. Perguntei se na escola ela teve aulas de música, ou qualquer instrumento musical, e a resposta foi não. Acredito que nem o Hino de SC ela deve conhecer, o que é uma ironia em se tratando de ex-aluno de escola pública.A música é uma dos maiores atrativos do ser humano. Veja a atração que os nossos indígenas tinham pelos sons produzidos pelos invasores europeus. O que se pode esperar desta geração que configurou o seu mental nas batidas do &#8220;tunc-tunc&#8221;? Somente imediatismo que descamba em violência, pois agimos como pensamos e sentimos (isto é da Kabbalah).</p>
<p>Estou levando o DC com a tua coluna para mostrar no salão.</p>
<p>Da leitora e assinante, Maria Teresa/</p>
<p>Floranópolis &#8211; SC</p>
<p>SÃO JOBIM</p>
<p>Caro Nei,</p>
<p>Muito feliz fiquei ao ler sua coluna do DC desta data. É mais uma das ( poucas e raras) vozes que hoje manifestam-se para protestar contra a mediocridade e primitivismo grosseiro a que se reduziu a música ouvida no Brasil (que não difere muito do eu se ouve pelo mundo).</p>
<p>Lembrei-me até de um pequeno texto que publiquei em um jornal da região onde moro ( Tubarão), intitulado &#8220;Meu São Jobim, me acuda&#8221;.</p>
<p>Quanto a &#8220;entregarmos&#8221; o Brasil, isso é fato. E é antigo, não? Hoje a ameaça de aniquilamento já chega a nossa Língua Portuguesa, substituída de maneira irresponsável ( e hiper incentivada pela mídia ) pelo inglês vulgar. O mesmo inglês que impõe músicas de péssima qualidade aos nossos ouvidos.</p>
<p>Parabéns pelo texto, que além de crítico é belo. E se eu for útil, nessa &#8220;cruzada&#8221; , conte comigo.</p>
<p>Demetrio Nazari Verani</p>
<p>Tubarão &#8211; SC</p>
<p>TUNC TUNC</p>
<p>Nei:</p>
<p>Como faz todas as semanas, você mais uma vez traduziu o sentimento das pessoas de consciência em palavras, contextualizando as coisas num esfera macro. Tambem sofro com o &#8220;tunc tunc&#8221; dos jovens e dos sertanejos gritões das empregadas e pedreiros ( só esqueceste de citar os odiosos pagodes). É triste também o fato de termos de ouvir musica imposta nos shoppings e supermenrcados. Acredito que o ser humano precise de um mínimo de silencio e vazio para criar algo relevante para o mundo. Será que um dia voltaremos a ouvir belas melodias no rádio dum vizinho? Obrigado Nei e não desista. Abraço do</p>
<p>Rodrigo Cunha, 31 anos.</p>
<p>Florianópolis &#8211; SC</p>
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		<title>ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Dec 2009 23:46:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como "mais do mesmo" dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante <em>Across the Universe,</em> o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como &#8220;mais do mesmo&#8221; dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.</p>
<p>É, como dizia o cronista Olavo Bilac dos inimigos de Eça de Queiroz, se transformar num desses “esmerilhadores de defeitos, caçadores de senões, que passam a vida a catarem imperfeições nas obras-primas como quem anda a catar caramujos nos rosais”. Volto ao cronista Bilac nos próximos dias, pois esse tema vale mais de um post (mas não resisto em comentar também seu terrível perfil de Carlos Gomes, o maestro ingênuo que sofreu na mãos dos medíocres e bandidos até morrer miseravelmente; ou do projeto de José do Patrocínio, que se meteu a fazer um gigantesco balão de alumínio e com isso torrou todo o seu patrimônio).</p>
<p>De que trata Across the Universe? Da genialidade dos Beatles, que romperam todos os rótulos e se transformaram nos criadores absolutos da nossa época. Dizer que Beatles é rock é o mesmo que enquadrar Mozart ou Schubert. O fogo perene do talento maior em canções, poemas e melodias de absoluto esplendor, costuram uma história de amor ambientada em dois continentes nos anos 60. O que está em pauta não é a reiteração dos velhos clichês da contracultura, ou do romantismo velho de guerra, mas a projeção, para o tempo infinito, de uma obra musical que é a síntese dramatúrgica do humano transformado culturalmente pela tecnologia.</p>
<p>Beatles não é utopia, é reportagem de um tempo mau, para usar a expressão favorita de Plínio Marcos. Não é poesia água-com-açúcar, é invenção de vanguarda de alta voltagem. Basta ver e ouvir Joe Cocker (you tube) interpretando Come Together, que no filme celebra a aparição do personagem Jo-Jo, homenagem a Jimi Hendrix, amante de Sadie, uma representação de Janis Joplin. Cocker canta maravilhosamente e em poucos segundos assume vários personagens, de vagabundo do metrô a motorista da máfia. Come Together (o link é a análise de Daniel Duclós sobre a letra dessa canção) é toda a poesia de transgressão, de William Blake a Ezra Pound, zipada em algumas estrofes e ambientada nos cruzamentos da criação que nos conquistaram nos anos 60 e 70, da guitarra ao teatro.</p>
<p>O que encanta e seduz é a fidelidade à criatividade original (pela primeira vez o universo musical e visual dos Beatles deixa de ganhar uma reprodução cinematográfica fake). É, ao mesmo tempo, uma releitura e uma recriação fiel ao original, sem ser redundante, sem pagar o mico de virar pastiche do que estamos acostumados a ver e ouvir. As canções têm alta voltagem narrativa e servem para gerar conflitos, emoções e celebrações entre os protagonistas.</p>
<p>A história nasce nos bailinhos bem comportados, rompe junto com a guerra e chega até os protestos e ao salto psicodélico. Uma viagem cultural no tempo, atualizado numa obra inesquecível.</p>
<p>A direção é de Julie Taymor (Frida), recebeu uma indicação ao Oscar Figurino, de Albert Wolsky ; o roteiro é de Dick Clement e Ian La Fresnais, baseado em estória de Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Fresnais . Com Evan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgees (Jude), Joe Anderson (Max Carrigan), Dana Fuchs (Sadie), Martin Luther (JoJo), T.V. Carpio (Prudence), Bono (Dr. Robert), Eddie Izzard (Sr. Kite). Vejam e ouçam. É de arrepiar.</p>
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