AVESSO
dez 10th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: PoesiaAgora que a face do sol sem
brilho acorda a face oculta
de deus virado pelo avesso
Agora que a face do sol sem
brilho acorda a face oculta
de deus virado pelo avesso
Tempo não ocupa espaço
Desanda quando acontece
Rastro de sombra, penhasco
Com os minutos em queda
Não peço desculpas pelo atraso
Nem pelo caldo, folia de Reis
na serra do Espinhaço, turismo
de sal na areia depois das seis
Nenhuma palavra brota do silêncio
Voltado para o canto escuto o vento
Nenhuma conversa opera no silêncio
Dobrado no quarto enxergo o tempo
Sou avô, mas jamais fui neto
Por destino desenhei uma linhagem
Da nação sem lei sou a estiagem
E reponho a bandeira no meu teto
Na origem, o Rio é uma paisagem-monumento
na essência, um urbanismo clássico
na História, uma soma nacional
na música, uma tarde de sol.
Descerra essa violação, afasta essa solidão
Venha me encontrar na última carruagem
Pegue o trem, pilote o avião, pouse em Marte
Retorne com as palavras perdidas no porão
Venha, rouxinol, cante que é tarde
Permaneci muito tempo calado
Antes desta época eu não tinha voz
Agora posso professar o indizível
Costurar o incosturável
Abraçar o espanto, celebrar o sol
Quem é J. A. Pio de Almeida, esse poeta estupendo que hoje está recolhido, quieto, “oculto entre as colunas altas do Silêncio”, como diz, no bairro do Espírito Santo, em Porto Alegre? Sua poesia pertence ao mais alto patamar da literatura brasileira. Leiam esses versos: “”Há um tapa de jaguar vencido em meu silêncio/ um taciturno fim de época rebelde/ um não-sei-quê de sombra e glória no que eu penso…”
A longevidade de Mario Quintana é a sua melhor vingança. Ele sobreviveu aos passadistas escandalizados com o verso livre, aos modernistas que vaiavam o soneto, aos concretistas alérgicos ao discurso, aos épicos que odiavam o lirismo, aos românticos chocados com a crueza.