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	<title>Nei Duclós &#187; Trabalhos Acadêmicos</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>A IGREJA E A REVOLUÇÃO DE 1924</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Nov 2010 14:58:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[NEI DUCLÓS 1. INTRODUÇÃO (COM UM ADITIVO METODOLÓGICO) Invocando Max Weber e seu instrumento revelador &#8211; a construção de um tipo ideal &#8211; vamos tentar criar um &#8220;quadro de pensamento que reúne determinadas relações e acontecimentos da vida histórica para formar um cosmos não contraditório de relações pensadas&#8221;. Essa construção, adverte Weber, reveste-se do caráter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>NEI DUCLÓS</strong></p>
<p>1. INTRODUÇÃO</p>
<p>(COM UM ADITIVO METODOLÓGICO)</p>
<p>Invocando Max Weber e seu instrumento revelador &#8211; a construção de um tipo ideal &#8211; vamos tentar criar um &#8220;quadro de pensamento que reúne determinadas relações e acontecimentos da vida histórica para formar um cosmos não contraditório de relações pensadas&#8221;. Essa construção, adverte Weber, reveste-se do caráter de uma utopia, obtida mediante a acentuação mental de determinados elementos da realidade. &#8220;Sua relação com os fatos empiricamente dados consiste no seguinte: onde quer que se comprove ou suspeite de que determinadas relações chegaram a atuar em algum grau sobre a realidade, podemos representar e tornar compreensível pragmaticamente a natureza partidular dessas relações mediante um tipo ideal.&#8221;</p>
<p>Isto posto, podemos forçar um pouco mão da nossa análise para afirmar o seguinte: com a atuação, nos anos 20, do pensador católico Jackson de Figueiredo &#8211; que entrou para essa militância por influência do D. Sebastião Leme, na época arcebispo de Olinda &#8211; a autocompreensão da Igreja Católica do Brasil tomou um novo rumo. Ela parou de pregar a ilegitimidade da República, que tinha promovido a ruptura entre Igreja e Estado e começou a levantar a possibilidade de se aproximar das instituições governamentais.</p>
<p>O espírito de restauração da monarquia deu lugar a uma tímida, mas ascendente participação da Igreja na vida oficial da República, senão diretamente, pelo menos por meio de seus próceres, como foi o caso de Jackson Figueiredo, que assumiu cargos importantes especialmente na presidência de Arthur Bernardes (1922-1926). ■</p>
<p>O quanto essa mudança de rumo tem mais a ver com a realidade da Igreja na Capital Federal e no Nordeste, e menos com a realidade paulista &#8211; que é que mais nos interessa diretamente &#8211; é um detalhe que poderia, numa pesquisa mais aprofundada, deitar por terra nossa armadilha conceituai. Mas podemos argumentar que a Igreja Católica sempre teve, em menor ou maior grau, um perfil único, especialmente depois da reforma ultramontana da segunda metade do século 19.</p>
<p>Pode-se argumentar que, de fato, a Igreja nunca se afastou do poder. Mas pelo menos é consenso de que as relações entre Igreja e Estado não eram a mesmas da época da monarquia e o fato de os sacerdotes não serem mais funcionários públicos faz com que essa reaproximação realmente tenha sido um fato relevante nos anos 20.</p>
<p>2. BOMBAS NA ESTRADA DE DAMASCO&#8217;</p>
<p>É possível então encarar a Igreja Católica em São Paulo como uma parte da instituição que, como no resto do Brasil, procurava se aproximar dos poderes da República, vista então como fato consumado, depois de mais de 30 anos de existência. A especificidade da realidade paulista é que havia, paralelamente a uma elite política, uma forte e emergente elite comercial e industrial que nem sempre se confundia com os responsáveis pelo exercício do poder público. O livro &#8220;Justiça&#8221;, de José Carlos de Macedo Soares, é solenemente claro sobre essa diferença, que ficou ainda mais profunda após os eventos de julho de 1924.</p>
<p>Antes de continuar nossa análise, é importante fazer um rápido balanço empírico sobre a chamada Revolução de 1924. Foi uma tentativa de tomada de poder de uma parte da oficialidade das Forças Armadas que redundou num fracasso. A cidade de São Paulo foi tomada pelos revolucionários, mas sitiada e bombardeada pelo governo estadual e federal durante 20 dias. Dos 700 mil habitantes, 300 mil pessoas fugiram de todas as formas: em trens de carga, de automóvel, a pé. Centenas e centenas de mortos enterrados em valas comuns, nos terrenos baldios ou nos quintais eram o espetáculo mais explícito de uma realidade: a de que havia extrema incompatibilidade entre o governo federal e estadual e a elite comercial e industrial paulistana, já que o bombardeio (a maior parte foram de alvos civis, como fábricas, bairros operários, hospitais e igrejas) foi a macabra opção de um poder que se viu ameaçado e encarou como traição o fato de a elite comercial e industrial paulista tentar salvar o próprio património.</p>
<p>É isso o que nos interessa para a nossa análise. No momento em que a Igreja procura canais de sintonia com as autoridades, viu-se, de repente, entre dois senhores: entre os que bombardeavam (as autoridades legais) e os que eram bombardeados( os donos de fábricas e armazéns e autoridades de fato da cidade sitiada &#8211; prefeito, revoltosos, empresários, mocidade engajada na segurança pública). De que lado ficar? A Igreja Católica teve um papel dúbio: acompanhou as ações da elite para preservar o património privado e público da cidade e ao mesmo tempo adotou a argumentação de ilegitimidade da revolução dos militares sediciosos.</p>
<p>Vamos descer a alguns detalhes tomando três casos exemplares como referência: a Igreja da Penha, a Igreja da Consolação e o Lyceu Sagrado Coração de Jesus. Permeando esses exemplos, vamos destacar as figuras de: D. Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo de São Paulo, Fernando Bastos, pároco da Consolação, padre Luiz Marcícaglia, Inspetor do Liceu Sagrado Coração de Jesus e padre Antão Jorge Heckenbleinchner, da Igreja da Penha.</p>
<p>3. O EX-QUASE CARDEAL</p>
<p>Antes, vamos reproduzir o documento do arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva, divulgado no dia 12/julho/1924, dois dias depois do início dos bombardeios e uma semana depois do início da revolta. Esse documento define a posição da Igreja durante aquelas férias de julho e foi fatal para que D. Duarte caisse em desgraça perante os governos estadual e federal. Sabe-se que, por adotar uma política de proteção da população e sintonizada com as providências que a elite tomou para garantir o património da cidade, D. Duarte perdeu a chance de virar cardeal. Seus inimigos foram até a Santa Sé para argumentar contra sua nomeação. Eis o documento:</p>
<p><em>&#8220;Aos católicos em geral:</em></p>
<p><em>Na situação angustiosa em que se encontra a população da capital, obrigada a contínuos e imprevistos deslocamentos, são inúmeras as pessoas, sobretudo velhos, mulheres e crianças, que se acham desprovidos de abrigo e alimentação. Nessa dura emergência, aconselhamos ao revmo. clero, às instituições religiosas e aos nossos caríssimos diocesanos em geral a prática da caridade para com os necessitados, sem distinção de espécie alguma, consoante a exigência e conforme as circunstâncias. É difícil traçar regras especiais para cada um dos operários do Bem, pelo que estaremos à disposição de quantos precisarem do nosso ministério, direção ou conselho, recebendo a todos indistintamente. Como quer que seja, parece conveniente que, desde já, se abram aos desabrigados os edifícios mais vastos quaisquer que sejam, inclusive as igrejas, se tal for necessário. As pessoas bem intencionadas, com prudência e critério, poderão evitar depredações sempre reprováveis, bem como obstar que a população seja explorada e desfalcada no que respeita ao necessário para a vida. Os revmos. Sacerdotes dirão na missa a oração Pro-Pace, e poderão usar de todas as faculdades que lhes forem necessárias no exercício do ministério e da caridade cristã, com exceção apenas dos que se requerem jurisdição especial. Confiamos na misericórdia de Deus, intercedemos todos pela breve e completa restabelecimento da paz entre nós, multiplicando as nossas preces e fervorosas orações. </em>&#8221;</p>
<p>Segundo Macedo Soares, D. Duarte fez visitas a bairros atingidos pelo bombardeio, transportou gente no seu automóvel particular para além das linhas militares, transformou as igrejas em abrigos populares, cedeu escolas e casas paroquiais para práticas hospitalares e instituiu comidas publicas para alimentar os retirantes.</p>
<p>4. IGREJA DA CONSOLAÇÃO: ENTRE A DUPLICATA E O ABRIGO</p>
<p>Uma das casas paroquiais que virou abrigo foi o da Igreja da Consolação. Essa paróquia, que estava a cargo do jovem cónego Francisco Bastos, merece uma atenção à parte. Bastos era um brilhante aluno de teologia formado em Roma, que num primeiro instante foi convocado para servir a pequena capela do bairro dos operários da fábrica do industrial Jorge Street. Bastos conseguiu romper o bloqueio dos líderes anarquistas por meio do futebol. Isso quebrou o gelo com os operários e fez com que ele promovesse algumas tertúlias para discutir religião e política. Não foi bem visto pelo industrial e foi logo removido por D. Duarte para uma dura missão: assumir a Consolação, que estava enterrada em dívidas.</p>
<p>O responsável anterior tinha levantado duplicatas para poder reconstruir a velha igreja da Consolação. Endividou-se e acabou renunciando ao cargo. O dinheiro era manobrado por especuladores que conseguiam dinheiro da população, entre velhos e viúvas. Macedo Soares veio em socorro do padre,</p>
<p>numa jogada imobiliária: um vasto terreno de Cerqueira César tinha sido doado pelo pai do escritor Oswald de Andrade para a paróquia, que não conseguia assumi-lo porque precisava pagar uma dívida referente ao imóvel. Macedo Soares pagou essa dívida, loteou o terreno e trocou partes da terra pelas duplicatas vencidas.</p>
<p>Veja-se aí um exemplo das ligações profundas entre Igreja Católica em São Paulo e a elite comercial e industrial de São Paulo. Na hora em que esta resolveu ficar na cidade e salvar as fárbricas e armazéns das bombas e dos saques da população, a Igreja veio em seu socorro.</p>
<p>5. PENHA: UM PÓRTICO PARA OS CANHÕES</p>
<p>Hoje a velha Igreja da Penha está cercada de edifícios. Em 1924 ela estava &#8220;a cavaleiro&#8221; da cidade e foi um dos pontos escolhidos para o governo (por meio das tropas do general Eduardo Sócrates) colocar peças de artilharia para bombardear a cidade. O objetivo dos agressores era disseminar o pânico na cidade para forçar a migração da população e a rendição dos revoltosos Padre Antão Jorge Heckenbleinchner, seguindo as recomendações de D. Duarte, buscava alimentos para os retirantes, atravessava lugares perigosos e inúmeras vezes foi preso. Conseguia ser solto invocando sua posição de sacerdote. Por diversas vezes, Padre Antão tentou ser mediador entre os chefes do movimento. Na pregação de padre Antão e outros padres redentoristas, a revolução de 1924 era uma espécie de advertência do Senhor. Segundo Hedemir Linguitte, &#8220;nas revoluções de 1924 e 1930, os padres redentoristas conclamavam o povo, não para o desespero e o desalento, mas para que, aos pés de Nossa Senhora, implorasse o perdão das faltas e</p>
<p>misericórdia para todos os paulistas.&#8221; A população, naquela época, vinha sendo seduzida pelo canto de sereia do anarquismo e das greves.</p>
<p>6. BOMBAS NO LICEU</p>
<p>O Liceu Sagrado Coração de Jesus, nos Campos Elísios, foi um dos primeiros prédios a sofrer com a revolução. O Padre Marcicaglia, inspetor da instituição, atribuiu as bombas aos revoltosos e ao longo de todo o livro &#8220;Férias de Julho&#8221; em que historia os acontecimentos, ele se coloca numa posição conservadora, contra a revolução e o povo que promovia os saques. A legenda de uma foto de um pai de família negro, com suas crianças, coçando a cabeça diante do peso do saque, depositado no chão diz o seguinte: &#8220;Depois do saque, a saúva negra, embaraçada coça a cabeça&#8221;.</p>
<p>O episódio mais importante narrado pelo autor é o da grande manifestação dos alunos do colégio logo após a revolução. Num evento que contou com a presença de autoridades locais, entre as quais o governador Carlos de Campos, foi reafirmada, depois de desfile dos alunos uniformizados, a importância da legalidade.</p>
<p>7. CONCLUSÃO</p>
<p>A partir de um tipo ideal &#8211; a reaproximação da Igreja Católica com o Estado, em todo o Brasil, nos anos 20 &#8211; analisamos a participação da Igreja Católica num momento de ruptura política entre as elites. A Igreja teve uma postura de apoio à elite paulistana e de momentâneo confronto com as autoridades</p>
<p>estaduais e federais constituídas. Mas essa ruptura, apesar das sequelas, foi restaurada logo após o fim dos conflitos na capital, já que a posição do clero era claramente legalista.</p>
<p>Além do mais, a lição do bombardeio serviu para que a elite emergente pusesse as barbas de molho. Não é por nada que o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo é fundado em 1928, nessa fase entre 1924 e a revolução de 30, em que São Paulo teve que se reciclar para impor-se diante de outros poderes mais fortes.</p>
<p>A Igreja continuou na sua postura conservadora, de reaproximação com os poderes da República, mas só acabou reassumindo sua importância com o regime páos 1930, que restabeleceu as ligações da Igreja com o Estado. Não apor acaso, a grande figura da Igreja logo depois de 30 é exatamente o Cardeal D. Sebastião Leme, o homem que acompanhou o presidente Washington Luís na sua última viagem para o exílio.</p>
<p>8. BIBLIOGRAFIA</p>
<p>Francisco Bastos, Monsenhor &#8211; REMINISCÊNCIAS DE UM PÁROCO DE CIDADE &#8211; - 192 páginas, Edições Paulinas, SP., 1973</p>
<p>Hedemir Linguitte &#8211; SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DA PENHA -SUA HISTÓRIA, SEUS SACERDOTES, SUA GENTE -, 168 páginas, SP, 1989.</p>
<p>Luiz Marcicaglia, Padre &#8211; FÉRIAS DE JULHO &#8211; ASPECTOS DA REVOLUÇÃO MILITAR DE 1924 AO REDOR DO LYCEU SALESIANO DE SÃO PAULO- -1927, II Edição, Escolas Profissionais do Lyceu Coração de Jesus, 257 páginas.</p>
<p>Paim, António e Barreto, Vicente &#8211; EVOLUÇÃO DO PENSAMENTRO POLÍTICO BRASILEIRO &#8211; Itatiaia/EDUSP, 464 pgs., 1989.</p>
<p>9. ANEXO BIBLIOGRÁFICO91.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Tipo ideal</span>.</p>
<p>Pg.106 &#8211; Construção de um tipo ideal.</p>
<p>■       obtém-se um tipo ideal mediante a <span style="text-decoration: underline;">acentuaçã</span></p>
<p>A &#8220;OBJETIVIDADE&#8221; DO CONHECIMENTO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS. IN WEBER &#8211; SOCIOLOGIA. Org: Gabriel Cohn, Coordenador: Florestan Fernandes. Editora Ática, Quinta Edição, São Paulo, 19<span style="text-decoration: underline;">o</span> unilateral de um ou vários pontos de vista e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenómenos <span style="text-decoration: underline;">isoladamente</span> dados, difusos e discretos</p>
<p>■   esses dados podem acontecer em maior ou menos número ou mesmo faltar por completo e se ordenam segundo os pontos de vista unilateralmente acentuados, a fim de se formar um quadro homogéneo de pensamento</p>
<p>■   trata-se de um <span style="text-decoration: underline;">utopia</span> onde torna-se impossível encontrar empiricamente na realidade esse quadro na sua pureza conceituai</p>
<p>■   a atividade historiográfica determina em cada caso particular a proximidade ou afastamento entre a realidade e o quadro ideal</p>
<p>■   desde que cuidadosamente aplicado o conceito escolhido cumpre as funções específicas que dele se esperam em beneficio da investigação e da representação</p>
<p>Pg. 107. Significação dos conceitos de tipo ideal para uma ciência empírica</p>
<p>■ é possível formular muitas e mesmo inúmeras utopias, nenhuma parecida<br />
com a outra</p>
<p>■   nenhuma poderia ser observada na realidade empírica como ordem realmente válida numa sociedade, mas cada uma pretenderia ser uma representação da ideia da cultura capitalista</p>
<p>■   cada uma poderia pretender reunir certas características da nossa cultura, significativas na sua especificidade, num quadro ideal homogéneo</p>
<p>■   é possível, assim usar diferentes princípios de seleção para as relações suscetíveis de serem integradas num tipo ideal de uma determinada cultura</p>
<p>■   é preciso sublinhar que os quadros de pensamento ideais são no sentido puramente lógico, e não no sentido de <span style="text-decoration: underline;">exemplar</span></p>
<p>Pg. 108 &#8211; Especificidades do tipo ideal</p>
<p>■   construção de tipos ideais abstratos não interessa como fim, mas única e exclusivamente como meio do conhecimento</p>
<p>■   quem quiser determinar a significação cultural de um evento individual tem que trabalhar obrigatoriamente com conceitos determinados de modo preciso e unívoco sob a forma de tipos ideais</p>
<p>■   a clareza de uma exposição não é prejudicada pelo caráter impreciso dos conteúdos, basta uma vaga concepção ou a presença difusa de uma especificação particular do conteúdo conceituai</p>
<p><em>Trabalho Para O Curso De Pós Graduação História Da Igreja Professor Augustin Wernet Aluno: Nei Carvalho Duclós</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>CULTURA, CARNAVAL E CINZAS</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/cultura-carnaval-e-cinzas</link>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 22:19:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[O bilontra da virada do século, o malandro que domina a cena carioca a partir dos anos 30 e o bandido que se consolida principalmente depois de 64 - que militarizou a sociedade - são, no fundo, o mesmo personagem. (Revolta da vacina, Ideologia da malandragem, O gênio da chanchada, Tom Jobim e os etnocêntricos e Zé Kéti foi à luta são os temas de um trabalho que analisa a mão pesada do Estado na fonte do conceito e das ações da marginalidade).
Texto apresentado na cadeira de História da Cultura, do professor Arnaldo Contier, da USP.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>A mão pesada do Estado na fonte do conceito e das ações da marginalidade</p>
<p>A) Revolta da vacina</p>
<p>No final do século 19, o braço pesado do Estado num país ainda cindido pela herança de quatro séculos de escravidão, a serviço de uma elite com os olhos voltados para o exterior, criou um conceito excludente de povo. A lei, o recrutamento militar forçado, o voto seletivo &#8211; reservado aos que tinham posses -, uma inexistente distribuição de renda, entre outros motivos, acuaram a população pobre, forçando-a gerar um universo próprio, avesso ao mundo oficial.<br />
Na cidade do Rio de Janeiro, a política de erradicação dos cortiços e a decisão de sanear a cidade por meio, entre outras iniciativas, da vacina obrigatória, foi o estopim gerador do confronto entre o povo marginalizado e o poder. Esse embate deu-se por meio da arruaça, da baderna, da guerrilha urbana espontânea, que se aglutinava, muitas vezes, em torno dos criminosos, dos capoeiras, dos que detinham o poder nas ruas. Normalmente, esses eram os mesmos que, pela força, em época de eleições, definiam a vitória dos candidatos que pagavam seus serviços</p>
<p>O termo bilontra surge para definir o indivíduo que consegue sobreviver apesar da repressão e se safa dessa presença estatal &#8211; ou consegue usá-la em proveito próprio &#8211; por meio da esperteza e da falta de escrúpulos. Como foi dito em aula, o bilontra da virada do século, o malandro que domina a cena carioca a partir dos anos 30 e o bandido que se consolida principalmente depois de 64 &#8211; que militarizou a sociedade &#8211; são, no fundo, o mesmo personagem. A fonte é uma só. Como nota José Murilo de Carvalho: “A lei era desmoralizada de todos os lados, em todos os domínios. Essa duplicidade de mundos, mais aguda no Rio, talvez tenha contribuído para a mentalidade de irreverência, de deboche, de malícia. De tribofe” (trapaça, logro, segundo o dicionário Aurélio).</p>
<p>O bestializado é o termo usado pela elite intelectual, cevada no evolucionismo e no darwinismo social, para expressar seu desencanto em relação ao povo disponível no país.</p>
<p>Na expressão de Silvio Romero, era um povo “apático, sem iniciativa, desanimado, que imitava o estrangeiro, sofria de apatia intelectual, irritabilidade, nervosismo e superficialidade”. A idéia de “melhorar” a raça por meio da imigração européia é antiga, data de 1831, quando o biólogo francês Louis Couty disse que “o Brasil não tinha povo” e era preciso trazê-lo de fora.</p>
<p>Quando o americano grita “power to the people”, ele fala de “nós, as pessoas” (people, sintomaticamente, tem esse duplo sentido unificador) . Quando falamos “povo”, ocorre o contrário, estamos nos referindo a algo exterior a nós. Queremos dizer “pessoas pobres, marginalizadas”, que fazem parte de um universo que não é o nosso. O povo, no Brasil, é formado pelos “brasileiros”, que sempre são os outros.</p>
<p>Só que esse Brasil mestiço, índio e negro, escondido pelas veleidades européias da elite brasileira, estava vivo, batucando, dançando e cantando nas rodas de capoeira, nas festas religiosas, no carnaval, nos botecos. “Essa gente” &#8211; como se refere ao povo, até hoje, a elite bestializada pela mídia &#8211; opunha baião, xote, fandango, moda, rancho, lundu, maracatu, toadas e cordões ao universo sonoro branco das valsas, polcas, óperas. O batuque e o aboio tomavam conta do povo brasileiro enquanto a elite e os setores médios entregavam-se às operetas de uma belle époque tropical.</p>
<p>Mas essa dissidência não pode ser tomada ao pé da letra. É também uma época, como todas, de sincretismo e transição. O universo sonoro popular, sintetizado na Fita Magnética número 1, do curso, ao interpor valsa e opereta com pregões e modinhas, nos alerta para essa diversidade na escuta, que se expressava e era absorvida de maneira simultânea pelos artistas da época. Um exemplo do resultado são as polcas misturadas com lundús, e os tangos e valsas convivendo com cateretês na pesquisa de campo recolhida por Regis Duprat e reorquestrada por ele e Rogério Duprat. Há neste LP, inclusive, uma polca lundú.</p>
<p>Outros Lps escutados mostram o universo rural povoando as mentes urbanas, e os sentimentos de saudade e melancolia alternando-se com o ritmo das danças populares. O bilontra está mais relacionado com o batuque e o ritmo sincopado, mas seu isolamento é também território propício para a nostalgia. É o que atestam artistas como Maria Livia São Marcos tocando ao violão “U Capim mais mimoso”, de Catulo da Paixão Cearense, Maria Lucia Godoy e Miguel Proença interpretando “Peregrinos de Joazeiro”, anônimo e Modinha (Xisto Bahia), ou o Grupo de Serestas João Chaves, de Montes Claros interpretando modinhas como “Perdão Emília”, domínio público e “Chuá Chuá”, de Pedro Sá Pereira e Ari Pavão.</p>
<p>O povo brasileiro expressou-se de maneira diferente do que esperava a elite da época, gerando um universo sonoro ao mesmo tempo avesso e complementar ao que fora importada através dos teatros, das partituras e dos artistas estrangeiros. Isso faz parte da natureza do bilontra, que finge ser um bestializado para acabar impondo, por vias transversas, a sua maneira de ver e lidar com o mundo.</p>
<p>O bilontra é a verdadeira face do bestializado. O bilontra é o que vê (ou o que compõe e canta) e o bestializado é o que é visto (ou o que apenas escutae cala). Essa dupla percepção até hoje assombra o universo ideológico e cultural do Brasil.</p>
<p>Fontes:</p>
<p>CARVALHO, JOSÉ MURILO DE &#8211; Capítulos 4 &#8211; “Cidadãos inativos: a abstenção eleitoral” e 5 &#8211; “Bestializados ou bilontras?”, in “Os Bestializados”, SP, Companhia das Letras, 1987, pgs 66-160<br />
LEITE, DANTE MOREIRA &#8211; Capítulo 9 “Realismo e Pessimismo”, in “O Caráter Nacional Brasileiro, 5ª edição, SP, Atica, 1992, pg. 178-259.<br />
LP MÚSICA POPULAR BRASILEIRA DO SEC XIX NO VALE DO PARAÍBA &#8211; Regis e Rogério Duprat, Som Livre.<br />
LP MODINHAS &#8211; Grupo de Serestas “João Chaves”, de Montes Claros, Discos Marcus Pereira.<br />
LP SAUDADES DO BRASIL &#8211; Maria Livia São Marcos, RGE-Fermata<br />
ALBUM DUPLO FRUCTUOSO VIANNA na interpretação de Maria Lucia Godoy e Miguel Proença &#8211; Obra seleta para canto e piano e Obra seleta para piano solo. Àrsis Promoções Artísticas Ltda.</p>
<p>B) Ideologia da malandragem</p>
<p>A ideologia da malandragem é oposta à ideologia do trabalho. O malandro é o bilontra refinado, que substitui a violência pela manha, o isolamento pelo exibicionismo. Ele justifica seu comportamento porque a nação excluiu o trabalhador nacional e, como diz Wilson Batista em Lenço no Pescoço, “eu vejo quem trabalha andar no miserê”. Seu sonho é ganhar no jogo do bicho, uma contravenção que é porta de entrada para a riqueza. Ele se opõe ao esforço disciplinador do governo em relação ao trabalhadores, que precisam ser encaminhados para a rotina da produção. Pelo menos até o Estado Novo &#8211; 1937-45, Wilson Batista e outros sambistas podiam sentir orgulho de ser vadio &#8211; e dizer isso em voz alta.</p>
<p>Mas toda ascensão social fundada na seletividade lotérica é fonte de tensão. Wilson Batista sabe disso e portanto cai na real quando confessa que seu grande prêmio no jogo do bicho tinha sido apenas um sonho. Esse contraponto no final da música é também um modo malandro de disfarçar a vadiagem, já que o personagem de Acertei no Milhar é chamado para o batente. Ou seja, o trabalhador tem um sonho malandro, mas continua preso à ideologia do trabalho. Sinal de que Wilson Batista, na época em que compôs essa música, 1940, já estava totalmente entregue aos ditames da censura. Dizer que tudo fora um sonho era uma maneira de driblar a censura.</p>
<p>No mesmo o ano, ele compôs “Ganha-se pouco mas é divertido”, onde conseguia colocar o universo da vadiagem no fim de semana. Sambar era permitido, desde que não atrapalhasse a rotina do trabalho. Vemos assim dois Wilson Batista. Um é anterior ao Estado Novo, quando usava lenço no pescoço, arrastava tamanco, levava uma navalha no bolso e passava gingando, provocando desafio &#8211; um retrato falando dos velhos capoeiras, do bilontra bruto do passado. Já em Acertei no milhar e Ganha-se Pouco ele compactuava com a ideologia do trabalho, mas de maneira malandra, pois acabava passando o seu recado. O povo trabalha, mas gosta mesmo é do fim-de-semana, pois o trabalho é fonte de desprazer, de opressão, de miséria. E também sonha em viver sem trabalhar, como os ricos. A loteria é a maneira rápida de adquirir o status que o oprime.</p>
<p>Numa composição interessante para esta análise &#8211; “Malandro Medroso” &#8211; Noel Rosa destaca a figura do malandro que também está presente em Lenço no Pescoço. A letra enfoca o malandro que explora mulheres, joga fora o dinheiro com jogo e bebida e foge do “coronel” &#8211; o protetor da moça. Gravado em 1930, esse samba ficou esquecido porque era o outro lado do mega- sucesso “Com que roupa.”. Diz Noel: “Eu devo, não quero negar/ mas te pagarei quando puder/ se o jogo permitir/ se a polícia consentir/ e se Deus quiser. Em 1931, João de Barro pôs letra em outro samba de Noel, “Samba da Boa Vontade”, onde diz: “Viver alegre hoje é preciso/ conserva sempre o teu sorriso/ mesmo que a vida esteja feia/ e que vivas na pinimba/ passando a pirão de areia.”</p>
<p>Ou seja, até 1937, o malandro pode aparecer. Começa então a atrapalhar o projeto modernista, que não contava com o surgimento da malandragem na manipulação que fazia do universo sonoro popular. O malandro escapava da ingenuidade, matéria-prima para a erudição modernista. O que chama a atenção é o descaramento do malandro, que anunciava sua vadiagem, assumindo a imagem grotesca que a elite fazia do povo.</p>
<p>O malandro, portanto, foi o personagem que transformou uma desvantagem numa espécie de virtude. Vale destacar que a maneira de cantar, debochada, reforçada pela oscilação do som dos metais como eterno contraponto definiu o clima de uma época, praticamente batizou Lamartine babo, salpicou de molho a voz de Mário Reis e chegou até nós, feitas as devidas ressalvas, através de João Gilberto. Há malandragem no tom que João usa para cantar.</p>
<p>É preciso também falar que o tema ocupou a música popular até recentemente, com a “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, com o sambão-jóia dos anos 70, com o sambinha chôcho de João Nogueira etc. Hugo Carvana, autor de dois filmes chamados “Vai Trabalhar Vagabundo I e II”, confessou que não teria ambiente nem clima para repetir a dose porque os anos 90 acabaram com a figura do malandro. É que ele foi substituído pelo traficante, pelo bandido com AR-15, que dita a lei na favela abandonada pelo Estado. O malandro também tentou fugir do braço pesado do Estado, mas quem partiu para a guerra foi o traficante.</p>
<p>Fontes:</p>
<p>MATOS, CLÁUDIA &#8211; ”O Samba e Seu Lugar” In “Acertei no Milhar &#8211; Malandragem e Samba no Tempo de Getúlio. RJ, Paz e Terra, 1982, pgs. 25-59.<br />
LP O FINO DA MALANDRAGEM &#8211; com a música “Acertei no Milhar” (Wilson Batista) cantada por Jorge Veiga. Warner.<br />
CD NOEL ROSA &#8211; FEITIÇO DA VILA &#8211; com a música “Malandro Medroso” (Noel Rosa), Selo Revivendo.<br />
CD NOEL ROSA &#8211; INÉDITO E DESCONHECIDO” &#8211; com a música “Samba da Boa Vontade” Noel Rosa, Estúdio Eldorado M, série Memória. em A M</p>
<p>C) O gênio da chanchada</p>
<p>A paródia era um instrumento teatral comum no Brasil do século 19. A carnavalização do poder manifestava-se em relação à política e aos costumes. A música sempre ocupou posição de destaque nesse mimetismo debochado da cultura importada da Europa. As grandes companhias teatrais francesas, que estocavam a moral da época com suas ousadias, deixavam um rastro de ambigüidade num mercado cultural movimentado. Esse aspecto do teatro foi transplantado para o cinema, que dele importou artistas e idéias. A chanchada brasileira nasce dessa herança do teatro de costumes, dos espetáculos circenses e do carnaval.</p>
<p>A cena de Romeu e Julieta com Oscarito e Grande Otelo é um exemplo tão impactante do talento como isso foi feito que chega a ofuscar muitas outras cenas célebres da dupla. Praticamente, toda vez que se enfoca a chanchada, essa cena é obrigatoriamente lembrada. Parodiando Shakespeare &#8211; ou melhor, debochando do espetáculo dito sério sobre Shakespeare (do qual o filme de Franco Zefirelli, embora feito muitas décadas depois, é um exemplo típico) Oscarito e Grande Otelo começam introduzindo um elemento vital para a carnavalização: o homem vestido de mulher. Grande Otelo no papel de Julieta, além do mais, é negro, contrariando assim &#8211; muito tempo antes que os politicamente corretos entrassem na moda &#8211; os fetiches da cultura branca, que tem em Shakespeare seu monstro sagrado.</p>
<p>O homem negro no papel da Julieta branca introduz também outro elemento detonador: a personagem mulher com opinião própria. “Ela” contraria seu amado num bate boca, esculhambando de vez uma cena pretensamente amorosa. O tombo do falso casal, os trejeitos exagerados, as vozes estridentes completam a palhaçada. É importante destacar que, no contexto do filme, os dois personagens eram marginalizados do mundo teatral e faziam essa cena para provar que entendiam do riscado, pois queriam ser aproveitados no espetáculo que estava sendo encenado. Fica assim evidente que o povo, fora do circuito da cultura, força a barra por meio da carnavalização para se impor. É a sua saída.</p>
<p>Se em Romeu e Julieta Oscarito era apenas um “escada” de Grande Otelo, em “Melvis Prestes” ele é a estrela principal. O alvo dessa dança alucinada de um ator com mais de 50 anos é a indústria cultural, que importava música, modismos, ídolos sem nenhuma barreira. Melvis Prestes é uma paródia que afirma a nacionalidade. O estrangeiro é exposto ao ridículo, ao mesmo tempo em que o brasileiro que imita o americano também é colocado no miolo do deboche.</p>
<p>Não se pode chamar isso de arte vulgar. É arte da cultura da escassez, é sofisticação exposta sob o invólucro do improviso, é profundidade não reconhecida &#8211; o que é mais um elemento para a paródia e o deboche. Não é também popularesca porque não é alienada na sua apelação explícita. Ela é crítica apelando para o excesso, ela desdramatiza o consumo usando o distanciamento ator/personagem, que é feito de maneira consciente por esse gênio que é o Oscarito. A cultura acadêmica deve, portanto, render-se a ele e jamais acusá-lo, procurar entender sua arte e seu talento e não renegá-lo como artista menor.</p>
<p>A chanchada &#8211; um dos tantos termos criado pelos inimigos e que foi incorporada pelos que eram criticados &#8211; era um modelo a ser destruído pelo chamado cinema de arte do Cinema Novo. Lembro até hoje a reação do público que foi assistir Deus e o Diabo na Terra do Sol na minha cidade, nos anos 60 (interior do Rio Grande do Sul). Era um público cativo da chanchada e que foi assistir mais um filme brasileiro. Só que saiu berrando no meio das sessões.</p>
<p>Foi uma oposição brutal que espantou as platéias, as mesmas que nos anos 40 e 50 lotavam os cinemas. O Cinema Novo foi uma revanche do modernismo traído pela malandragem, que via na carnavalização um elemento de dominação das elites e dos estrangeiros sobre um povo indefeso e ingênuo. Isso não tira o mérito do melhor filme brasileiro de todos os tempos, Deus e o Diabo na Terra do Sol.</p>
<p>As chanchadas musicais parodiavam o cinema americano, mas era um produto tipicamente nacional. Muitas delas até hoje conservam a graça original. Muitas eram grossas, apelativas e sofriam de uma crônica indigência intelectual. Mas grandes artistas, como Oscarito e Grande Otelo, souberam, em alguns momentos, colocar a chanchada entre a grande arte da cultura brasileira.</p>
<p>Fontes:</p>
<p>Chanchadas vistas nos anos 50 no Cine-Teatro Carlos Gomes, de Uruguaiana (RS) e aulas expositivas do curso.</p>
<p>D) Tom e os etnocêntricos</p>
<p>Quando Tom Jobim morreu, as televisões americanas e européias destacaram o compositor brasileiro que tinha se inspirado na selva amazônica para fazer canções conhecidas em todo o mundo. Esse enfoque, tipicamente etnocêntrico, revela como a cultura dos países mais ricos é impenetrável em relação à complexidade cultural existente fora dos seus domínios, especialmente no Brasil. Tom Jobim foi o único compositor com quem Frank Sinatra &#8211; fetiche da mídia internacional &#8211; arriscou fazer um álbum exclusivo. Sua música, a Bossa Nova, influenciou a música americana, um fato reconhecido pelos próprios artistas de lá. Mas na hora do necrológio, ele é apenas o índio que cruzou o mar.</p>
<p>Essa eterna visão do paraíso é que está presente no depoimento de Henry Barraud no filme sintomaticamente intitulado “Índio de Casaca”. O mais chocante é que ele pensa estar elogiando Villa-Lobos, um compositor que não pode se equiparar a uma força da natureza, já que sua vasta obra, numerosa e complexa, é fruto de uma civilização &#8211; não reconhecida no chamado Primeiro Mundo. Comparar a aparição de Villa-Lobos à carroça de feno do filme Le Chien Andalous é de uma limitação atroz. Um francês não poderia levantar a hipótese de que Villa-Lobos não estava na carroça de feno &#8211; nem com ela se confundia. Ele estaria entre os convidados &#8211; usando, talvez, um bom chinelo para amenizar a gota.</p>
<p>O que não é reconhecido é que existem artistas do Terceiro Mundo capazes de fazer um trabalho de apropriação e de alta elaboração erudita a partir de uma vasta matéria-prima da realidade e da cultura popular. Isso, naturalmente, na visão etnocêntrica, é exclusivo de quem nasceu e foi criado numa nação rica. Quem, do lado de baixo do Equador, resolver trabalhar o folclore como fez Villa-Lobos, acaba sendo confundido com o próprio material que magistralmente manipula.</p>
<p>O tom respeitoso dos folcloristas românticos &#8211; matriz dessa visão etnocêntrica &#8211; estava relacionado apenas com os próprios povos e, em parte, com os povos do Oriente, reconhecidamente detentores de uma cultura muito mais antiga e complexa. Em relação à América, respeitava-se apenas a diversidade da fauna e da flora. Índio, povo ou elite tupiniquim jamais poderiam alcançar status cultural. A antropologia ainda não tinha irrompido com suas análises relativistas.</p>
<p>O toque essencialmente brasileiro dessa pequena tragédia é que Villa-Lobos assumiu o papel que lhe imputaram na França &#8211; na época, ainda uma espécie de capital da civilização ocidental. Villa-Lobos tinha berço: era filho de classe média pobre, tinha tocado em cinema para sobreviver e também fazia parte, portanto, desse universo brejeiro do Brasil do começo do século, de um povo que procurava fugir das amarguras por meio da música. Ele gostava de assustar as senhoras francesas descrevendo o prazer que sentia em comer as mãos dos macacos &#8211; uma alegoria da antropofagia exaltada mais tarde por Oswald de Andrade. Aí está um compositor erudito misturado com o mais refinado deboche popular.</p>
<p>Talvez Villa reconhecesse a ironia de ser tratado como índio quando tinha um sentimento de ascendência sobre o povo, como todo elitista. Ele confessou sentir inveja dos outros países que conseguiam disciplinar as massas e chegou a desenvolver e a implantar um projeto &#8211; o do canto orfeônico &#8211; que revelava essa preocupação. Mas era também de natureza ambígua. Ele conhecia o povo e se identificava com ele. Sua defesa apaixonada da inteligência dos compositores populares, numa cena mostrada no curso &#8211; quando reconheceu que eles não eram cultos, mas tinham criatividade &#8211; revela esse fato.</p>
<p>Também a memória emocionada de D. Nelma, da Mangueira, lembrando que ele sentava no barraco para escutar samba, é sinal dessa identificação. Era uma identificação autêntica , pois Villa tem força e permanência. O verdadeiro gênio não é fundado na mentira.</p>
<p>Fontes:</p>
<p>ORTIZ, RENATO &#8211; Notas Históricas Sobre o Conceito de Cultura Popular in “Cultura Popular &#8211; Românticos e folcloristas”, SP, PUC/SP, 1985, pgs. 1-29.<br />
RENAULT, DELSO &#8211; A Transição Social &#8211; O Fluminense Foge à Amarguras in “Rio de Janeiro: A Vida da Cidade Refletida nos Jornais”. RJ, Civilização Brasileira,1978, pg. 15-27.<br />
LP VILLA-LOBOS &#8211; OS DOZE ESTUDOS PARA VIOLÃO &#8211; Suite Populaire Brésilienne, com Julien Brean, RCA.<br />
LP VILLA-LOBOS E AS CRIANÇAS VOLs.1 e 2 &#8211; Alberto Boavista, piano. Associação Brasileira dos Produtores de Disco- MEC/Funarte/ INM, EMI-Odeon. LP TONI BESSES PIANO VILLA-LOBOS, RGE-Fermata.</p>
<p>E) Zé Kéti foi à luta</p>
<p>Em 1989, Zé Kéti tinha um sonho: remontar o show Opinião. Chegou até a apresentar algumas sessões da versão tardia daquele que foi um marco da cultura brasileira. Mas Zé Kéti não tinha mais dinheiro, apoio ou prestígio, apesar de estar com a gaveta e a memória cheia de novas composições &#8211; que mantêm aquela força antiga, que foi esquecida pelas gravadoras e pelo público. Tentava mesmo arranjar financiamento. Quando ligava para as empresas, se identificava:</p>
<p>- Aqui é o Zé Kéti.<br />
- Da onde? perguntava mecanicamente a secretária.<br />
- Da música popular.</p>
<p>Para um empresário a quem foi visitar numa feira de negócios, apresentou-se cantando Máscara Negra. O timbre poderoso da sua voz, nos ensaios para sua versão do show, lembrava: “Foi o jornal que me disse&#8230;” Às vezes convidam Zé Kéti para dar depoimentos, mas ele não gosta de ser História, ele gosta de fazer. Por isso é malcriado, como aconteceu num especial da Cultura durante o carnaval.</p>
<p>Zé Kéti não pertence à pós-modernidade dos anos 90. Ele foi um artista engajado, cantou musica de protesto, colocou a cara para bater no palco na época da ditadura, quando os que hoje se dizem democratas nem eram nascidos ou se eram, estavam calados.</p>
<p>No meio de uma feijoada, Zé Kéti confessou-se duro, sem dinheiro e levou as mãos ao rosto.</p>
<p>- Minha vida é muito sofrimento.</p>
<p>Não foi o jornal que me disse. Foi o que aconteceu naquele ano, véspera da grande crise desencadeado por Collor, que acabou sepultando todas as esperanças de financiamento para o show de Zé Kéti, da música popular.<br />
Mas o show não podia ser remontado. Faz parte de uma época (1964-65), quando surgiu a música de protesto. Opinião, sucesso de Zé Kéti, tinha sido feita antes e foi aproveitada de maneira que não correspondia ao seu sentido original. O personagem que canta a música não muda de opinião porque não quer sair do morro. Ele vive pertinho do céu, numa espécie de paraíso, ou seja, longe do braço pesado do Estado. Desse não-lugar ele não sai, porque uma vez, no século passado e início deste, ele foi arrancado do seu cortiço e foi preciso subir o morro para escapar da polícia. Agora ele não muda mais, tornou-se imóvel.<br />
A cultura da esquerda identificou-se com essa imobilidade. Permanecer no mesmo lugar, não ser deslocado por um poder ilícito, que se impôs pela força, é sinal de resistência e de luta. Mas a música de Zé Kéti faz parte da linhagem romântica da música popular. Como em “Ave Maria do Morro” (Herivelto Martins), ele vive pertinho do céu. Mas a música era apenas um mote para o protesto que vinha no resto da peça, que era dito, gritado, colocado com todas as letras.</p>
<p>Carcará, de João do Vale, é mais explícita. O gavião do sertão não morre de fome, ele pega, mata e come. Ou seja: é um recado para o povo revoltar-se, pegar em armas, tomar posse do que é seu. Comer os borregos da baixada é como saquear um supermercado, ação que aconteceu de fato nos anos 80 em todo o Brasil.</p>
<p>A música de protesto inaugura uma fase idealista revolucionária na música popular, convocando as pessoas para a luta. Na época da ditadura, era proibido manifestar-se. A política estava erradicada da cidadania, que só podia se existir no teatro fechado. Mobilizar as massas pela canção era a saída. Por isso que a canção, metáfora de luta, durante o resto da década serviu para esse propósito, até explodir com “Caminhando”, de Geraldo Vandré, um hino-síntese desse movimento. O dia virá pela força da mobilização da massa, que se concentra em torno da música de protesto.</p>
<p>Canção é luta e foi a música popular que serviu para mobilizar a massa nos anos 80, na época das Diretas Já, quando cantou-se “Caminhando” até a exaustão. E a canção realmente abriu caminho para a redemocratização. Essa análise contradiz frontalmente o texto de Walnice Galvão &#8211; “Saco de Gatos “. Ela sustenta que a mitificação da canção propõe uma alienação e uma falsidade ideológica. “Quem sabe o canto da gente seguindo na frente prepare o dia da alegria”, previu Vandré e por essa previsão pagou caro. O dia certo e preciso de toda a gente cantar (“Louvação”, de Gilberto Gil), a canção que chama a primavera (também de Gil) é ação, é proposta de luta.</p>
<p>O dia que viria, anunciado e preparado pela canção popular, chegou. Mas a canção de protesto continua ativa. Quando morre Paulo Freire, canta-se “Caminhando”. E o líder dos Sem Terra propõe para o povo pegar, matar e comer (não com essas palavras, mas com o mesmo sentido). Esse é um universo sonoro que ainda pede uma análise mais detalhada e mais atualizada. Ele é mais complexo do que ao primeiro ouvido pode parecer.<br />
Para começar, quem vai abrir a gaveta do Zé Kéti? As novas canções são de arrepiar.</p>
<p>Fontes:</p>
<p>GALVÃO, WALNICE NOGUEIRA &#8211; MMPB: Uma análise Ideológica” in “Saco de Gatos &#8211; Ensaios Críticos. SP, Duas Cidades, 1976, pg. 93-119.<br />
Conversas pessoais com Zé Kéti, 1989.</p>
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		<title>O PAPEL DA POLÍCIA POLÍTICA NO PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DA UNIDADE DAS FORÇAS ARMADAS (1930-1945)</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Dec 2009 18:11:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Militar]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[A divisão das Forças Armadas foi a herança mais preocupante da República Velha e o maior desafio para o novo Governo Provisório encabeçado por Getúlio Vargas. A busca de coesão interna dentro dos quartéis foi um processo que se arrastou pela década de 30 e só se consolidou com a implantação do Estado Novo - que no fundo é o produto dessa vitória. Ao mesmo tempo, ele se desenvolveu concomitantemente à idealização de uma nova nacionalidade, de cunho autoritário, baseada nos princípios da disciplina, obediência, organização, respeito à ordem e às instituições. (Um mergulho nos arquivos do Deops paulista).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Um mergulho nos arquivos do Deops paulista, apresentado como trabalho de graduação na faculdade de História da USP. Uma sugestão de projeto de pesquisa.</p>
<p>I -Introdução</p>
<p>A divisão das Forças Armadas foi a herança mais preocupante da República Velha e o maior desafio para o novo Governo Provisório encabeçado por Getúlio Vargas. A busca de coesão interna dentro dos quartéis foi um processo que se arrastou pela década de 30 e só se consolidou com a implantação do Estado Novo &#8211; que no fundo é o produto dessa vitória. Ao mesmo tempo, ele se desenvolveu concomitantemente à idealização de uma nova nacionalidade, de cunho autoritário, baseada nos princípios da disciplina, obediência, organização, respeito à ordem e às instituições.<br />
O Exército liderou esse trabalho, partindo da extrema fragmentação interna para a unificação do espírito corporativo. Era preciso dar o exemplo à Nação, que deveria despertar para grandes responsabilidades. Como disse o general Góes Monteiro em seu depoimento para Lourival Coutinho: “Nos primeiros meses do novo governo havia, praticamente, como que uma espécie de Exército duplo: o que obedecia diretamente às ordens GQG revolucionário e o que obedecia ao Ministério da Guerra”. Assumir o comando no Ministério da Guerra e neutralizar a ação dos oficiais e soldados revolucionários foi um árduo exercício de poder, que precisou de todos os recursos para se consolidar.<br />
Um deles, naturalmente, foi o papel desempenhado pela polícia política na ação repressiva à multiplicidade ideológica dentro dos quartéis, onde legalismo, comunismo, integralismo e tenentismo mediam forças para controlar a tropa. O Arquivo do Departamento de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo nos fornece um valioso acervo para detectarmos esse aspecto importante do processo de implantação da unidade das Forças Armadas. Nos poucos prontuários consultados para a elaboração deste anteprojeto, um vasto universo oculto revelou-se intensamente, apontando vetores fundamentais para entendermos essa fase riquíssima da história brasileira.<br />
A divisão interna nos quartéis tornou-se tema tabu, especialmente depois do regime militar de 64, de cuja esfera de influência ainda não nos libertamos. Levantar esse assunto, detectando as variadas nuances que ele assumiu com a ajuda da minuciosa documentação do Deops paulista &#8211; e de outros acervos, como o Arquivo do General Góes Monteiro, a vasta memorialística militar, além da extensa bibliografia sobre o período &#8211; nos ajudaria a entender uma instituição que ainda não esgotou totalmente seu potencial intervencionista (como demonstram os projetos da Calha Norte, os enfrentamentos com os sem-terra, a resistência em abolir o serviço militar obrigatório, além do fascínio que a farda exerce no imaginário popular).<br />
O que me levou a escolher esse tema são perguntas antigas, relacionadas com a defasagem entre o pouco que se sabe sobre as Forças Armadas e o enorme espaço que elas ocupam na História do Brasil. Essas perguntam vem de longe, do Brasil profundo ao qual pertenço. Nasci nos anos 40 no extremo oeste do Rio Grande do Sul e fui criado escutando histórias de dois ex-combatentes da Brigada Militar gaúcha: meu pai, que lutou em 1930 e 1932, e meu tio, que participou da guerra &#8211; essa era a palavra usada &#8211; desde 1924 até 1932.<br />
Quando comecei a ler os primeiros livros sobre o tema, em 1980, meu tio já estava velho e doente. Eu não sabia, na época, fazer as perguntas certas. Como sempre, limitava-me a ouvir. Pouco antes de morrer, revelando a imagem que tinha de si mesmo na longa luta de sua vida, ele costumava murmurar:<br />
- Caiu a montanha.<br />
A montanha era ele. Para conhecer melhor essa parcela da humanidade que nos legou a vida e entender este país que “não é para amadores” &#8211; como dizia Tom Jobim &#8211; é que comecei a estudar os militares. Este projeto será um passo importante nesta caminhada.</p>
<p>II -Objetivos: revelações da guerra surda.</p>
<p>Neste trabalho, pretendo provar que a repressão política dentro dos quartéis foi fundamental para consolidar a implantação da unidade das Forças Armadas. Ou seja, não desempenhou um papel marginal nesse processo, mas ocupou uma importância decisiva para erradicar os dissidentes da tropa, torná-la imune às influências externas, compor um espírito corporativo com unidade granítica e preparar os militares para grandes tarefas nacionais &#8211; o que se revelou em 1937, com o Estado Novo; durante a II Guerra, com a campanha da Força Expedicionária Brasileira; em 1945, com o golpe que depôs Getúlio; com o governo Dutra; e com as tentativas, desde os anos 50 (1955, 1961 e, finalmente, 1964) de tomar o poder dos civis.<br />
A divisão das Forças Armadas tinha sido um fator decisivo para a vitória da Revolução de 30. Se elas estivessem coesas, o movimento revoltoso nem sequer teria sido desencadeado. Haviam três focos principais dessa divisão no momento em que Getúlio Vargas assumiu o governo provisório. O primeiro é representado pelos tenentes que na década de 20 levantaram-se em armas contra o governo federal e por isso foram presos, expulsos da corporação, exilados. As figuras principais dessa vertente são Juarez Távora &#8211; que assumiu o poder no Norte e Nordeste &#8211; João Alberto Lins e Barros, que assumiu o governo de São Paulo; e Luís Carlos Prestes, que antes de outubro de 1930 tinha sido posto de lado como comandante das forças revolucionárias.<br />
A figura mítica, depois de Prestes, era Siqueira Campos &#8211; que morreu meses antes da revolução, num acidente aéreo sobre o Mar del Plata.<br />
O outro foco é o dos chamados “jovens turcos”, elite militar cevada pelas reformas de Hermes da Fonseca e que, numa viagem à Europa, tinham se deslumbrado com a organização do exército alemão. Bertoldo Klinger e Góes Monteiro fazem parte dessa vertente, pois mantinham-se fiéis ao governo, mas assumiam uma postura crítica, expressa no jornal Letras em Marcha. Esse foco foi que assumiu o comando das Forças Armadas pegando carona no carisma dos tenentes revolucionários da década de 20 e acabou consolidando a unidade militar. E o terceiro foco era dos militares legalistas que acabaram dando o golpe de 24 de outubro que depôs Washington Luís. Um dos seus representantes era o general Andrade Neves, que assumiu a Casa Militar do governo Provisório.<br />
Os anos 30 foram o embate entre as facções resultantes dessa divisão. Os militares dissidentes custaram a entender que a situação era diferente em relação aos anos 20, quando os dois 5 de julho e a Coluna Prestes formataram uma imagem carismática de heróis militares jovens, idealistas e determinados. Para eliminar a ruptura nas Forças Armadas, Góes Monteiro teve que enfrentar a agitação tenentista, comunista e integralista, e, especialmente, a revolução constitucionalista, a Intentona e o putsch de Plínio Salgado.<br />
A Intentona foi um marco desse processo, pois definiu a importância de um Exército coeso, forte, unificado, sem as dissidências que o atormentavam e ameaçavam o governo. O golpe militar de 1937 definiu a vitória para a facção de Góes Monteiro. As Forças Armadas unidas dariam mais tarde o golpe de 29 de outubro de 1945 e o de 31 de março de 1964. Dois episódios que lembravam a velha ruptura &#8211; 1955, com o Marechal Lott e 1961, com o General Machado, no Rio Grande do Sul &#8211; foram acidentes de percurso. A unidade estava consolidada e só a insatisfação da caserna pós 1985 &#8211; aprofundada nos anos 90 &#8211; poderá lembrar vagamente o clima latente antes da irrupção do primeiro 5 de julho, em 1922.<br />
O fracasso da Intentona revela que a repressão política na primeira metade dos anos 30 foi eficiente, já que o movimento comunista esvaziou&#8211;se e não levantou os quartéis, como esperava Prestes. As perguntas que devemos fazer para desenvolver esta tese devem ser as seguintes:<br />
- como era tratada, nos arquivos do Deops, a infiltração comunista nos quartéis?<br />
- quem eram e o que faziam as pessoas que foram detidas ou presas fazendo agitação a favor da dissidência das Forças Armadas?<br />
- quais eram as tendências da ação desestabilizadora? Onde elas se manifestavam? Quais organizações estavam por trás delas?<br />
- Que importância dava o governo para essa agitação?<br />
Nesse levantamento, vamos detectar o perfil do militar dissidente, a literatura da agitação ideológica, a lista completa dos prontuários que se referem ao tema e servem para desvendá-lo, os motivos aparentes e reais para a repressão, o grau de envolvimento dos militares nas dissidências propostas pela agitação. Vamos levantar os elementos de ligação entre Forças Armadas e a polícia política, verificando o grau de subordinação hierárquica e os problemas resultantes. Pelos prontuários consultados, podemos dizer com segurança que podemos levantar a pregação do Partido Comunista Brasileira nas Forças Armadas, os motivos do fracasso dos dissidentes e do sucesso do governo.<br />
A partir desse levantamento, poderemos escrever sobre as repercussões políticas desse processo &#8211; como a militarização progressiva da polícia, por exemplo, o que aconteceu integralmente com o regime de 64, as relações da repressão política e o tenentismo e o ambiente macropolítico que originou esse processo &#8211; tratado, naturalmente, com a especificidade necessária para atingir nossos objetivos de levantar o véu dos porões da repressão política dos militares. Precisamos escutar os estampidos dessa guerra surda, pouco conhecida e que ainda ecoam no inconsciente e na vida da nação.</p>
<p>III. Balizamento: da fragmentação à unidade</p>
<p>O período escolhido é 1930-1945. Da fragmentação à unidade, as Forças Armadas cruzaram um período extremamente agitado, onde facções em conflito brigavam pelo poder dentro e fora dos quartéis. Essa refrega interna foi decisiva para a implantação definitiva do estado autoritário, a partir de 1937. Mas precisamos detectar as raízes desse conflito e, para efeitos da nossa pesquisa, elas se situam no salvacionismo militar, que é uma idéia explícita no imaginário nacional e se manifestou decisivamente em várias oportunidades como em 1922 ( os 18 do Forte), 1924 ( revolução de Isidoro Dias Lopes em São Paulo e a sublevação dos quartéis no Sul), e a Coluna Miguel Costa-Luís Carlos Prestes.<br />
O salvacionismo está intimamente ligado à idéia de identidade nacional, à fragilidade do País diante da ameaça estrangeira, a necessidade de união em torno da Força e do Ideal para enfrentar os inimigos internos e externos. No século passado, os militares escolheram o positivismo como antídoto ao bacharelismo, à retórica, à herança ibérica do ócio e da contemplação (conforme detectado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil). Decidiram-se pelo heroísmo suicida &#8211; 1922 &#8211; depois que esse mesmo bacharelismo &#8220;usurpou&#8221; o poder tão arduamente consolidado por Floriano Peixoto na grande guerra civil entre 1893-1895.<br />
O grande desafio do tenentismo foi criar uma mitologia própria, tão forte quanto a mitologia dos militares legalistas, fundada no mito de Caxias, na Proclamação da República e na ação do Marechal de Ferro. A mitologia tenentista explodiu no imaginário do País em 1922, quando a bandeira brasileira foi repartida como pão entre os heróis que saíram de peito aberto para enfrentar as forças legalistas. Esse rito de passagem desabrochou numa mitologia completa a partir da Revolução de 1924 e a conseqüente Coluna Miguel Costa-Prestes. O segundo 5 de julho é uma data fundamental do tenentismo, pois nessa data houve uma estratégia mais bem elaborada em relação ao primeiro 5 de julho e teve desdobramentos muito mais amplos.<br />
É a partir desse mitologia que um advogado e político &#8211; Getúlio Vargas &#8211; toma o poder em 1930 vestindo farda. Getúlio não podia fazer uma revolução vestindo a roupa dos bacharéis, mas encarnando a mitologia tenentista. Incapaz de tomar o poder pelo voto &#8211; a lei da Velha República &#8211; ele tomou o poder à força, vestindo a roupa deixada sob encomenda por Prestes &#8211; que, como escrevemos acima, foi afastado do comando militar da revolução &#8211; e Siqueira Campos &#8211; que tinha morrido um pouco antes. Vargas assume o poder com duas armas &#8211; a roupagem militar dissidente e a eloqüência do discurso em praça pública substituindo a retórica de gabinete. O delírio popular que as imagens sobre 1930 revelam a força do salvacionismo tenentista e o jogo político de Vargas, que transforma-se no demiurgo dessa mitologia.<br />
O tenentismo é a encarnação radical da idéia de salvação da pátria, pois implica agredir o país para defendê-lo. Isso faz com que o heroísmo, mesmo ostentando a pureza moral das intenções, adquira na prática uma sobrecarga de vilania. Essa contradição alimenta a repressão e devolve a violência revolucionária aos seus próprios autores, levando-os ao fracasso, através da aliança entre impulsividade e despreparo técnico. O resultado é o suicídio (1922), a fuga (1924), a renúncia (1930) ou a ilusão (1935).<br />
O salvacionismo militar gira em torno do tenentismo, mas não é através dele que se consolida. Ao contrário, o salvacionismo utiliza o tenentismo, nutre-se da força poderosa do mito, para negá-lo e assumir o poder em seu lugar. É exatamente aí que reside o núcleo da nossa pesquisa. Nos prontuários consultados, verificamos que os agitadores nos quartéis baseavam-se na precedência tenentista para tentar convencer a tropa. Mas cometeram um erro básico. Enquanto o tenentismo agia essencialmente sobre os oficiais &#8211; isso, de quebra, influenciava a tropa &#8211; a agitação do PCB dos quartéis nos anos 30 tentava fazer uma paródia da Agitprop leninista especialmente com o soldados &#8211; que vinham das classes trabalhadoras e portanto, “revolucionárias”.<br />
Essa tática mostrou-se inoperante, já que as Forças Armadas fundam-se na hierarquia, na camaradagem e na confiança mútua. O agitador dos quartéis não pode tentar convencer pessoas isoladamente, mas grupos coesos que existem dentro da fragmentação interna. O problema é que a Revolução de 30 deu vez a um tipo de oficial que se fortaleceu à sombra do tenentismo. Como nota João Quartim de Moraes em “A Esquerda Militar no Brasil”: “À época em que os tenentes despendiam suas energias em rocambolescas rebeliões sem futuro e numa longa caminhada pelo interior do país, um novo tipo de oficial se formava nas escolas da Missão Francesa. Tratava-se de um tipo de militar que não ganhou as manchetes dos jornais nem inspirou a criação de mitos.”<br />
Esse militar assumiu o comando de um Exército fragmentado, apanhou durante anos até conseguir consolidar a coesão interna e nesse processo descobriu que para manter as Forças Armadas unidas era preciso compor um Estado Nacional adequado, igualmente forte e indissolúvel.</p>
<p>IV &#8211; Fontes: na pista do anti-mil.</p>
<p>Os prontuários do Deops são excelente material de pesquisa. Vamos pegar alguns exemplos. O de número 270, por exemplo, que faz o fichamento das atividades do ex-aluno-oficial da Força Pública Aurélio Gomes, baiano nascido em 1912, indiciado em 1937 e preso em 1938. A partir dessa pasta, chegamos a uma outra, bem mais rica, a de Waldemar Schulz, de número 4635, um elemento dissidente chave, pois trabalhava a soldo do PCB, tinha servido no Exército e na Força Pública &#8211; como músico! &#8211; e estava encarregadode formar uma célula dentro de um quartel da Força Pública em São Paulo e tomá-lo à força no dia do golpe planejado.<br />
Com esses dois prontuários, fica clara a atividade do Anti-Mil, a Seção de Agitação e Propaganda das Classes Armadas do PCB encarregada de desestabilizar as Forças Armadas “burguesas”, conforme a literatura apreendida pela polícia. O personagem central do Anti-Mil é João Raimondi, civil do PCB e que contratou Aurélio Gomes e Waldemar Schulz para a agitação. Segundo a polícia, Raimondi fazia agitação nos quartéis desde 1932, tinha fundado o jornal “A Sentinela Vermelha” e era encarregado do trabalho militar do partido, dentro e fora do Exército.<br />
Nos boletins apreendidos na casa onde morava, a intenção do PCB era clara: ação de desorganização do Exército relacionada com a ação política diária, com lançamentos de palavras de ordem. “O Soldado”, diz um dos boletins, “deve conhecer a palavra de ordem e os objetivos do PCB e adotá-los.“ A idéia era combinar trabalhos secretos dentro do Exército com ação revolucionária de massa, pela conquista do próprio Exército. O objetivo era a decomposição absoluta do exército “imperialista” e a passagem de soldados para o lado do proletariado.<br />
Ao mesmo tempo, era preciso “desmascarar os métodos empregados pela militarização imperialista em benefício da burguesia”. A palavra de ordem era o armamento do proletariado. Era preciso fortalecer o soldado de origem proletária ou camponesa. Uma observação manuscrita de João Raimondi, apreendida pela polícia, notava que o movimento militar de novembro de 1935 só funcionou nas unidades que tinham o plano de levante elaborados, estudados e descritos minuciosamente. O trabalho não se limitava ao Exército, mas também à Marinha, à Guarda Civil, à Força Pública e às associações militares.<br />
O objetivo do PCB era formar quadros para a futura Guarda Vermelha. Raimondi chegou a fazer, segundo a polícia, levantamento nos quartéis e seu movimento. O elemento de ligação entre Raimondi e a Força Pública era Waldemar Schulz. Muitos nomes foram levantados nestes prontuários, como por exemplo Davino Francisco dos Santos, Antônio Mendonça, José Aparecido da Fonseca, Fraterno Borba de Araújo, Hermógenes de Oliveira, José de Castro Corrêa, Carlos Rocha, Carlos do Nascimento Rosa, Osvaldo Ribeiro da Silva, Waldemar da Silva Braga, todos condenados em 1938 junto com Aurélio Gomes e João Raimondi e portanto ligados à agitação dentro dos quartéis.<br />
Os civis eram: Raimondi, Starsys Macilevicius, José Constatino Costa, Gumercindo Ferreira Martins. Os militares eram: cabos Maurício Manoel Mendes, Antônio Donoso Vidal, Fraterno Borba de Araújo; tenentes Waldemar da Silva Braga, Davino, Matheus Feliz de Moura; alunos oficiais José Aparecido da Fonseca, Paulo Sannevend; sargentos Antonio Mendonça, Gregorio Norberto de Oliveira, Armando Ferreira de Paula, José de Castro Corrêa, Carlos Rocha, Júlio Geraldo de Mendonça; soldados Celso Nascimento, Antônio Ferreira e Orildo Ribeiro da Silva.<br />
Os militares que deram apoio ao movimento estavam encarregados da divulgação e preparo dos boletins e panfletos, além da propaganda verbal nas reuniões. Cada unidade militar possuía células organizados que aguardavam a palavra de ordem. Diz a polícia: “Tão bem organizada estava a célula comunista da Força Pública e tão intensa era a propaganda desenvolvida nessa milícia que, se não fora a eficiente e oportuna ação policial, dentre em breve teríamos que presenciar novo levante armado, semelhantes aqueles que felizmente foram prontamente sufocados em 1935 na capital e no nordeste do País.” A pesquisa precisa detectar se o movimento abortou pela ação policial ou pela ineficiência interna. O discurso da polícia, naturalmente, se auto-elogia.<br />
O processo dos indiciados, segundo descrição contida no prontuário 270, possui provas documentais e autos de busca e apreensão, termos de declarações das qualificações, provas testemunhal e pericial dactiloscópica.<br />
Para apoiar o levantamento nos prontuários do Deops, vamos utilizar também a memorialística militar, que é uma fonte primária riquíssima em elementos históricos que ainda guarda um excelente potencial de análise. Esses dois elementos, a evidência da idéia salvacionista e a obscuridade a que ainda estão relegados os importantes livros de memórias dos militares, justificaria, no nosso entender, a utilização dos militares autores de livros nesta pesquisa. A sintonia entre os dois elementos &#8211; salvacionismo e memorialística &#8211; está fundada na idéia da permanência. O herói entra na luta para dar seu sangue pela pátria &#8211; e um herói nunca morre. Ao mesmo tempo, escreve um livro de memórias para ser lembrado, ou seja, sobreviver.<br />
Outro motivo é que nas memórias estão os argumentos psicológicos mais profundos de um personagem histórico &#8211; até mesmo as eventuais mentiras sobre os fatos narrados são relevantes. Nesse tipo de texto, poderemos detectar tranqüilamente as idéias que motivaram o autor a entrar numa luta de vida ou morte. Mais um motivo seria a sobrevivência do salvacionismo militar. Hoje os quartéis estão silenciosos, mas a idéia de que eles um dia poderão se manifestar para colocar ordem na bagunça da democracia civil, ainda permanece. A simpatia com que é vista a possível fujimorização do País comprova esse dado.<br />
Para fazer a pesquisa, é preciso primeiro definir as fontes: livros de memórias publicados ou inéditos; depoimentos escritos, gravados, televisionados; reportagens, artigos e textos que contenham depoimentos pessoais de militares que participaram das revoltas . Serve também os depoimentos dados por terceiros sobre os personagens dessa história: parentes, amigos, colegas de farda, subalternos, superiores hierárquicos, inimigos, etc. Os documentos restritos, sigilosos ou não, da área militar, podem também servir como subsídios.</p>
<p>V &#8211; O que diz a historiografia?</p>
<p>No longo período de leitura a que me dediquei em uma década e meia sobre os militares brasileiros revoltosos, e na pesquisa que fiz no sistema Dedalus da USP, não detectei nenhuma obra exclusivamente voltada para esse tema, o do papel da polícia política no processo de coesão interna das Forças Armadas. O principal título referente ao assunto polícia política no período proposto, pelo que vi, é o de Elizabeth Cancelli &#8211; “O mundo da violência &#8211; a Polícia da Era Vargas. Mas, mesmo esse livro nada diz sobre o assassinato de dois militares presos no presídio político paulista durante uma tentativa de fuga e que consta no prontuário de Waldemar Schulz. Ou seja, existe um acervo valioso escondido nos arquivos do Deops que guarda muitas surpresas.<br />
Em geral, a historiografia especifica sobre os militares ainda está muito presa às paixões que a intervenção militar nos destinos do país suscita, ou seja, muito voltada a temas como o espírito anti-popular dos tenentes, muito presa a distorções metodológicas como a questão da luta de classes e seu relacionamento com o movimento militar, entre outras dificuldades. Na minha opinião, deve-se mergulhar no espírito corporativo das Forças Armadas, é lá que reside seus segredos.<br />
O núcleo de pesquisas estratégicas sobre as Forças Armadas, da Unicamp, é que desenvolve o trabalho mais interessante sobre o assunto. Os livros de Alain Rouquié e João Quartim de Moraes, apesar de suas limitações, são muito importantes para esta pesquisa. Mas acho que o assunto militares brasileiros ainda encerra os principais desafios para a historiografia.</p>
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		<title>CONTEMPORÂNEOS DA DÚVIDA</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Dec 2009 15:50:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[A neve foi fatal para Francis Bacon e René Descartes. Uma experiência criogênica com carne de frango em 1627 expôs demais ao frio o ex-chanceler da corte de Jaime I, enquanto uni convite da Rainha Cristina, da gelada Suécia, atraiu Descartes para a pneumonia e a morte em 1650. Mas os dois contemporâneos têm mais coisas em comum do que os rigores do clima. Cercados pelo muro alto da escolástica, eles compartilharam da insatisfação diante de uma filosofia que, acreditavam, nada acrescentava à vida humana. E estimulados pelo dinamismo da sua época, de invenções e descobertas, souberam lançar os alicerces de um conhecimento sintonizado com as novas conquistas da aventura humana]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>1. Introdução: Missão no inverno.</strong></p>
<p>A neve foi fatal para Francis Bacon e René Descartes. Uma experiência criogênica com carne de frango em 1627 expôs demais ao frio o ex-chanceler da corte de Jaime I, enquanto uni convite da Rainha Cristina, da gelada Suécia, atraiu Descartes para a pneumonia e a morte em 1650.</p>
<p>Mas os dois contemporâneos têm mais coisas em comum do que os rigores do clima. Cercados pelo muro alto da escolástica, eles compartilharam da insatisfação diante de uma filosofia que, acreditavam, nada acrescentava à vida humana. E estimulados pelo dinamismo da sua época, de invenções e descobertas, souberam lançar os alicerces de um conhecimento sintonizado com as novas conquistas da aventura humana.</p>
<p>Os dois possuem também a feliz combinação entre a dura disciplina e a ousadia. A primeira provém de rígida formação religiosa e a segunda foi gerada pelas necessidades das classes a que pertenciam &#8211; a burguesia comerciante e proprietária de terras, no caso da família de Descartes, e a nobreza aburguesada da Inglaterra, no caso de Bacon. Esses fatores influíram em temperamentos decididos, que desde cedo revelaram uma vocação explosiva, a missão de servir a humanidade. Entre 1619 -quando Descartes teve o insight dessa missão num rigoroso iiryerno na cercanias de Ulm, na Alemanha &#8211; e 1620 &#8211; quando Bacon lançou sua principal obra, o Novo Organum &#8211; o mundo começou a provar de receitas inéditas que o lançaram numa espiral de renovação.</p>
<p>Mas o que caracteriza a comparação entre os dois filósofos não é a identidade, mas as diferenças de seus métodos, definidos a partir de um obstáculo evidente: a percepção humana. Bacon quer libertar os sentidos dos preconceitos cevados no hábito, na tradição e na herança cultural &#8211; e através da experiência e da observação chegar a sínteses esclarecedoras sobre a funcionamento da natureza. O processo indutivo fica assim colocado a serviço da evolução da ciência. Descartes é também radical na sua desconfiança em relação aos sentidos, mas não abraça o empirismo e coloca todas as fichas na dedução racionalista para se chegar ao conhecimento: &#8220;Na verdade, não percebemos qualquer objeto, tal como é, apenas pelos sentidos (mas somente por nossa razão, que se exerce sobre os objetos sensoriais&#8221; (Princípio 73, citado por Edwin Burtt).<br />
A seguir, vamos esmiuçar um pouco esses dois caminhos.</p>
<p><strong>2. Descartes: A matemática do ser.</strong></p>
<p>Da variedade de leituras de e sobre Descartes, precisamos, para efeitos desse seminário, selecionar alguns argumentos para entender pelo menos os aspectos principais da sua proposta.</p>
<p>A partir do texto de Edwin Arthur Burtt, a pesquisa nos levou ao ensaio &#8220;Vida e Obra&#8221;, de José Américo Motta Pessanha, publicado na Coleção Os Pensadores, da Nova Cultural, que cita o livro Geometria, de 1637: &#8220;Em matéria de progressões matemáticas, quando se tem os dois ou três primeiros termos, não é difícil encontrar os outros&#8221;. Pessanha escreve que &#8220;essa idéia de uma ordem natural, inerente à progressão do conhecimento, é fundamental para o projeto cartesiano de construir uma matemática universal.&#8221;</p>
<p>Bastaria, portanto, criar uma cadeia de razões para desvendar um termo desconhecido. Mas para que isso aconteça, é preciso trabalhar com aquilo que for verdadeiro e só é verdadeiro o que for evidente, o que for intuível com clareza e precisão. Como ter certeza das evidências? O truque usado por Descartes foi ampliar a dúvida até o máximo, num processo radical de filtragem.</p>
<p>Desse processo, ele tira uma certeza &#8211; &#8220;Se duvido, penso**. Por enquanto, essa constatação faz parte apenas da subjetividade, do interior do homem, pois nada garante que ela exista no mundo objetivo. Mas já é o primeiro elo de uma cadeia de razões. O desdobramento natural é: &#8220;Se penso, logo existo&#8221;, ou seja, existo como coisa pensante. &#8220;Do pensamento ao ser que pensa&#8221;, diz Pessanha, &#8220;realiza-se então o salto sobre o abismo da objetividade.&#8221;</p>
<p>Como explica Burtt, o dualismo cartesiano é formado por duas entidades independentes, o mundo de corpos (res extensa) e o reino do interior (res cogitans). A essência do primeiro é a extensão e a do segundo é o pensamento. Um consiste numa enorme máquina matemática, estendida no espaço, que não depende em qualquer medida do pensamento e todo o seu mecanismo continuaria a existir e a operar mesmo que não existisse qualquer ser humano. Nela, não há espontaneidade em ponto algum; tudo continua a mover-se em concordância fixa com os princípios da extensão e do movimento. Tudo acontece de acordo com a regularidade, a precisão e a inevitabilidade de uma máquina que opera suavemente.</p>
<p>O outro é formado de espíritos pensantes, sem extensão. &#8220;O que Descartes pretendia dizer era que, por meio de uma parte do cérebro, uma substância desprovida de extensão entrava em relação efetiva com o reino da extensão&#8221;, escreve Burtt Enquanto o universo da matéria estende-se infinitamente por todo o espaço, o universo da mente fica encerrado em uma série de pequenas e insignificantes localizações no interior dos corpos humanos.</p>
<p>Descartes foi muito bem sucedido no trabalho de estabelecer pontes entre mundos aparentemente incompatíveis. Logo depois que teve seu insight em Ulm, ele conseguiu, com a geometria analítica, descobrir uma correspondência explicita e absoluta entre os números e o espaço. Com isso, as relações espaciais poderiam ser vertidas para a aritmética e a álgebra e as verdades numéricas representadas sob o ponto de vista espacial. O reino da física ficava assim ser redutível a qualidades geométricas. Como a natureza é um mundo geométrico e seus objetos são grandezas em movimento, dotadas de extensão e figuração, a matemática teria condições de decifrá-la.</p>
<p>Descartes chegou a esses resultados depois de uma constatação. Segundo Pessanha, ele tinha descoberto que apesar da solidez e perfeito encadeamento, as matemáticas serviam de base para um campo limitado de aplicações. Ao mesmo tempo, embora dotadas de tão grande riqueza racional, elas não ensinavam nada de fundamental para os problemas da vida, que permaneciam objetos de especulações vagas. Sua ambição ia além da geometria analítica. Ele queria &#8220;unificar, com o auxílio do instrumental matemático, todo o vasto campo de conhecimentos, até então dispersos em débeis construções isoladas. Mas para isso era necessário que, antes, o terreno fosse preparado de modo a que nele não medrasse qualquer dúvida. Só então a árvore da sabedoria poderia expandir-se com o pleno viço da certeza. &#8221; ,</p>
<p>Artigo de Jean-Luc Marion publicado na seção Cultura do Caderno 2 do jornal &#8220;O Estado de São Paulo&#8221; (12/10/96), adverte que precisamos ficar atentos para evitar as idéias cristalizadas sobre o assunto, já que hoje impõe-se resgatar o autor da &#8220;escola&#8217;&#8221; formatada ao seu redor, o cartesianismo. Marion atualiza a importância de Descartes em três aspectos principais:</p>
<p>a) Ele desenvolveu seu Método para unificar as ciências em um só saber humano, a partir de então universal. Mas segue-se um paradoxo: as certezas da ciência repousam em fundamentos íínitos. Dessa questão as ciências não conseguem sair e principalmente penam freqüentemente por permanecer;</p>
<p>b) Não sabemos ainda qual a identidade do Ego de Descartes (ele nem emprega o termo &#8220;sujeito&#8221;), e é por isso que ainda o estudamos;</p>
<p>c) Não sabemos a essência do Deus de Descartes. Ele dá inúmeros nomes a uma ente não-conhecido?( Descartes tenta provar a existência de Deus pelo Método: como um ser limitado e imperfeito poderia conceber o infinito e a peifeição? Essa concepção divina dentro do homem seria a marca do artista em sua obra.)</p>
<p>Para Marion, Descartes se antecipa em formular antes e melhor do que os filósofos de hoje, as questões do nosso tempo. Mesmo lançamento mão de artifícios como a teoria do vórtice &#8211; citada por Burtt, que ocultava as causas das variações físicas no meio ambiente vago e invisível &#8211; ele conseguiu contrapor-se a uma concepção teleológica e espiritual dos processos da natureza e que controlara o pensamento humano por mil e quinhentos anos.</p>
<p>A estagnação do conhecimento &#8211; contra o qual Descartes e Bacon se insurgiram &#8211; era provocada por um poder absolutista que opunha nobreza e burguesia para manter-se no poder e que, se estimulava a burguesia, não se dispunha a colocar todas as armas nas mãos dessa classes emergente. Isso ficou claro na França com a ascensão do Cardeal Richelieu &#8211; que esteve no poder de 1624 a 1642 &#8211; e na Inglaterra com a indiferença de Jaime I em seguir as instruções de Bacon de patrocinar as ciências.</p>
<p>Essa pressão absolutista serviu para tolher a ação dos dois filósofos, que, cada um a seu modo, apesar de irem longe nas respectivas obras, apenas esboçaram o progresso científico. Bacon, devido à sua carreira política e Descartes, por medo da Inquisição, não exploraram ao máximo as suas propostas, mas a possível rebeldia seria suficiente para levar essa tarefa a bom termo?</p>
<p><strong>3. Bacon: o fim do desperdício.</strong></p>
<p>Artesãos tinham inventado a imprensa, a pólvora e a bússola sem nenhum projeto sistemático e no entanto essas descobertas revolucionaram o mundo. O que poderia ser feito se houvesse planejamento e coordenação das experiências? &#8220;Minha intenção1&#8243;, escreve Bacon no livro &#8220;O Progresso da Ciência&#8221;, é fazer o circuito do conhecimento, observando quais as partes que estão sendo desperdiçadas, não foram cultivadas e estão abandonadas pela indústria do homem; com vistas a engajar, por um fiel mapeamento dos tratos desertos, as energias de pessoas públicas e privadas no seu melhoramento.&#8221;</p>
<p>Essa proposta &#8211; que é a essência da sua utopia, revelada no livro &#8220;Nova Atlântida&#8221; -serviu de roteiro para as gerações seguintes dos cientistas. Não é por nada que a Real Academia inglesa e a Enciclopédia francesa rendem tributo a ele. Segundo C. Hill, no capítulo &#8220;Francis Bacon e os Parlamentaristas, no livro &#8220;Origens Intelectuais da Revolução Inglesa, ele criou um programa de cooperação e consciência de objetivos a mercadores, artesãos e filósofos e ao mesmo tempo erradicou a culpa na ciência, sintonizando-;* com a teologia. Como a ciência era virtuosa, foi apoiada pelo Parlamento inglês e isso foi fundamental para o progresso científico no país.</p>
<p>Além disso, a ciência, com a proposta de Bacon, ganhou status social e coerência filosófica, afastando-se da imagem passadista da magia e da alquimia. Ele proporcionou uma teoria que conjugava dois fatores. Por um lado, o otimismo coerente sobre o futuro da humanidade. Por outro, a crítica a Aristóteles e aos escolásticos, considerados não apenas inúteis, mas malignos. A compreensão da verdade era uma maneira de reparar o pecado original. Foi uma sanção moral que livrava a ciência do mero utilitarismo.</p>
<p>Bacon compreendeu que a inteligência e o saber eram decisivas para resolver conflitos, numa época em que o capital libertava o indivíduo e convertia-se no grande igualador de homens, demonstrando ser mais poderoso do que o nascimento e a casta. De família aristocrática, filho de alto funcionário de governo e mãe erudita, vislumbrou na carreira política uma maneira de desenvolver seus métodos e aplicá-los para o progresso da humanidade. De rígida formação escolástica, ele achava que a filosofia tinha ficado estéril por mais de mil anos porque precisava de um novo método para torná-la fértil. &#8220;Passar além de Aristóteles usando a luz de Aristóteles é pensar que uma luz tomada por empréstimo pode aumentar a luz original de onde ela é tomada, &#8220;escreve ele no Novo Organum, citado por Will Durant no manual &#8220;A História da Filosofia&#8221;, da Coleção os Pensadores.</p>
<p>O primeiro passo é despir a mente de preconceitos e predisposições e resgatar a inocência da percepção, identificando quatro classes de erros. A primeira são os ídolos da Tribo, comuns a toda humanidade. &#8220;A mente humana são como aqueles espelhos irregulares que dão propriedades suas a diferentes objetos e os distorcem e os desfiguram&#8221;. Suspeitar de tudo o que a mente capta deve ser a regra primordial para evitar essa armadilha. A segunda classe de erros são os ídolos da Caverna, pois &#8220;todo mundo tem uma caverna que refrata e descolore a luz da natureza&#8221;.</p>
<p>A terceira são os ídolos de Mercado, nascidos do comércio e da associação dos homens entre si, pois &#8220;de uma inata a de uma prejudicial e inapta formação de palavras surge uma maravilhosa obstrução da mente&#8221;. E a última são os ídolos da o Teatro, pois &#8220;todos os sistemas de filosofia recebidos não passam de tantas peças teatrais, representando mundos criados por elas mesmas segundo um estilo irreal e cênico.&#8221;</p>
<p>Contrapondo-se ao dogma e à dedução. Bacon descreve o método científico da investigação. A experiência que se manifesta por acidente é empírica, se for provocada é experimento. A hipótese arranja e delimita o experimento e desse processo infere-se axiomas. Dos axiomas estabelecidos, parte-se para novos experimentos. &#8220;Temos que colocar a natureza na câmara de tortura e fazê-la testemunhar&#8221;. Ele acha que a natureza só será dominada se for compreendida. Para Bacon, é preciso reunir elementos de toda a parte, fazer pesquisa conjunta, estreitando e fechando o campo de investigação, para capturar a presa &#8211; o conhecimento.</p>
<p>O método de indução não significa simples enumeração de dados, mas uma técnica de classificação e a eliminação de hipóteses. Através do progressivo cancelamento de possíveis explicações, só deve restar uma. O item mais útil dessa técnica é a Tabela do Mais ou Menos que relaciona ocasiões em que duas qualidades ou condições aumentam e diminuem juntas e assim podem revelar uma relação causai entre os fenômenos que variam simultaneamente.</p>
<p>Unindo o desenvolvimento das matemáticas e da astronomia, a medicina paracelsana e a tradição puritana, Bacon conseguiu convertê-las num sistema intelectual que reforçou o movimento científico de maneira incalculável.<br />
<strong><br />
4. Bibliografia</strong></p>
<p>BURTT, EDWIN ARTHUR &#8211; Descartes, Capítulo TV in &#8220;As Bases Metafísicas da Ciência Moderna &#8211; Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1991.<br />
DESCARTES, RENÉ   &#8211; Discurso sobre o Método &#8211; Para Bem Dirigir a Própria Razão e Procurar a Verdade nas Ciências, tradução de Márcio Pugliesi e Norberto de Paula Lima, São Paulo, Hemus, 1995.<br />
DURANT, WILL &#8211; Francis Bacon, Capítulo III in A História da Filosofia, Coleção Os Pensadores, São Paulo, Nova Cultural, 1996.<br />
HILL, C. &#8211; Francis Bacon e os Parlamentaristas, capítulo 3 in &#8220;Origens Intelectuais da Revolução Inglesa, São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1992<br />
MARION, JEAN-LUC &#8211; René Descartes é Resgatado do Cartesianismo in Cultura, Caderno 2, jornal O Estado de São Paulo, 12/10/96.</p>
<p>PESSANHA, JOSÉ AMÉRICO MOTTA &#8211; Vida e Obra, ensaio in &#8220;Descartes, Coleção Os Pensadores, São Paulo, Nova Cultural, 1996. (&#8230;) &#8211; Capítulo 20 de &#8220;Francis Bacon&#8221;, Coleção Os Pensadores.</p>
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		<title>O TEXTO REVOLUCIONÁRIO NA AMÉRICA LATINA</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 13:33:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[Por uma feliz disposição cronológica dos textos selecionados para o curso, os documentos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) acabam se revelando como o estuário, a atualização e o apogeu de uma linhagem do texto revolucionário latino-americano. Pela voz do Subcomandante Marcos, estão presentes alguns elementos importantes de Bolívar, Marti, Madero, Zapata, Sandino, vetores que se entrelaçam e se transmutam, enriquecendo e dando consistência a uma revelação renovada. Isso resgata uma tradição que povoou o imaginário do continente no século 20 e que, com o final da Guerra Fria, parecia condenada ao passado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Subcomandante Marcos e a linhagem do texto revolucionário<br />
</em><br />
<strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Por uma feliz disposição cronológica dos textos selecionados para o curso, os documentos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) acabam se revelando como o estuário, a atualização e o apogeu de uma linhagem do texto revolucionário latino-americano. Pela voz do Subcomandante Marcos, estão presentes alguns elementos importantes de Bolívar, Marti, Madero, Zapata, Sandino, vetores que se entrelaçam e se transmutam, enriquecendo e dando consistência a uma revelação renovada. Isso resgata uma tradição que povoou o imaginário do continente no século 20 e que, com o final da Guerra Fria, parecia condenada ao passado.</p>
<p>Mas essa congregação de valores históricos não configura uma síntese ou uma mistura, já que Marcos tem sua especificidade como proposta e sua originalidade como autor. É mais uma herança assumida, um referencial que reforça a convocação para a luta. Para identificar esses pontos de contato entre Marcos e seus ascendentes, é importante mergulhar nos documentos e comunicados do EZLN, que se estruturam ao redor de um personagem-símbolo. Seu nome de batismo é: Nosotros.</p>
<p>Vamos seguir essa pista. Nosotros são os pequenos, os esquecidos, os despojados, os sem rosto e sem nome. Nos primeiros textos, Nosotros não chega a ser o povo, mas aquela parte dos oprimidos que resolveu lutar contra um governo ilegítimo, o revolucionário messiânico, herdeiro da história, de uma luta de 500 anos e que encerra suas principais lições pelo exemplo dos heróis mortos.</p>
<p>&#8220;Queremos saudar a memória dos nossos mortos, que sob essa mesma terra nos cuidam e nos guiam&#8221;, diz o Subcomandante Marcos. O messianismo inspirado no espírito dos heróis tem a força do cristianismo primitivo, de revelação herdada: &#8220;Vimos nosotros que es buena Ia palabra de nuestros muertos, vimos que hay verdade y dignidad em su consejo. &#8221; Trata-se de reviver os mortos que lutaram, reencarnar seu heroísmo. &#8220;Mandar obedecendo, para viver morremos e para nosotros, nada&#8221; são os lemas desse cristianismo primitivo sem Cristo, despojado, autêntico, fundado na herança dos mortos. Como nota John Womack Júnior, Zapata, fonte inspiradora do ELZN, também buscava nos líderes do passado os precedentes e a inspiração. Para ele, o Plano de Ayala era uma outra declaração a mais na defesa dos povos.</p>
<p>Com o tempo, a verdadeira identidade do personagem-símbolo se revela. &#8220;Nosotros somos indígenas mexicanos&#8221;. Ou, como diz claramente a declaração do EZLN ao povo mexicano por ocasião do 502 aniversário do descobrimento da América: &#8220;Nosotros, índios mexicanos. Nosotros, olvidados. Nosotros, humillados. Nosotros, enganados. Nosotros, maltratados. Nosotros, muertos. Nosotros, rebeldes. Nosotros, dignos. Nosotros, verdaderos. Nosotros, muertos vivos. Nosotros no nos rendimos.&#8221;</p>
<p>O povo não representado agora fala e tem sua força na luta pela democracia, a liberdade e a justiça. De armas na mão &#8211; que são guiadas pela razão &#8211; as bases do EZLN, indígenas em sua maioria, precisam da sociedade consciente para poder ganhar a luta contra o capitalismo. Contra as trevas do dinheiro, o EZLN é a estrela de um povo em armas, que brilha na noite da opressão e da miséria. &#8216;Tor suicídio o flisilamiento, Ia muerte dei actual sistema político mexicano es condicion necesaria aunque no suficiente, dei transito de Ia democracia en nuestro país. Chiapas no tendrá solución si no se soluciona ei México.&#8221;</p>
<p>Segundo os textos do EZLN, os inimigos que estão no poder, exercido ilegitimamente pelo presidente Salinas e pelo PRI, são os mesmos que se opuseram a Hidalgo e Morelos. A revolução inacabada do México precisa concretizar-se, opondo-se a um líder (Salinas) que mente, usurpa o poder, que gera dor, raiva, humilhação e lamentos entre os oprimidos. &#8220;Nosotros queremos ser simplesmente Ia antesala dei mundo nuevo. Un mundo nuevo com una nueva forma de hacer política, un nuevo tipo de política de gente dei gobierno, de hombre s y mujeres que mandam obedeciendo.&#8221;</p>
<p>Os pontos em comum entre os textos do ELZN e dos seus antecessores são: a afirmação de uma identidade revolucionária, a ilegitimidade do poder estabelecido, a argumentação emocional &#8211; o coração convoca para a luta, a revolta é desencadeada pela indignação, mais do que pela razão -, a clássica referência à revolução mexicana, a legitimidade da posse do território latino-americano pelos seus habitantes, o espírito de sacrifício etc.</p>
<p>A emoção é um insumo revolucionário na América Latina. Nota Maria Ligia Coelho Prado que &#8220;o circuito da mulher ou o campo em que se movia era o das emoções.&#8221; As mulheres combatentes estavam dispostas a sofrer pelo bem da pátria. Na América Latina, vemos pelos textos, isso não era exclusivo das mulheres. Os guerreiros de Chiapas, os de &#8220;noturno passo, os que montanha somos&#8221; também se guiam pela emoção e o sacrifício -&#8221;para nosotros, nada&#8221;.</p>
<p>Basta ver que toda a argumentação de Bolívar contra a Espanha é fundada na emoção. Vamos pegar algumas palavras da Carta de Jamaica. Para descrever os espanhóis, os termos são &#8220;tormentos, destruidores, barbaridades, atos horrorosos, nocivos, império da dominação, Espanha madrasta&#8221;. Para falar dos revolucionários, os termos são &#8220;Novo Mundo comovido e armado, a luta purificou o território, os indômitos e livre araucanos, morigerados e bravos moradores do interior&#8221;. A luta legitima-se assim contra a ambição, a vingança e a cobiça da Espanha, endurecida e insensível. Trata-se de uma justificação que é emocional e histórica, base de uma sustentação ideologicamente correta e legitima. Esse enfoque romântico da revolução está fortemente enraizado no espírito e na formação de Bolívar, um homem do século 19 que recebeu educação européia.</p>
<p>A linguagem emocional também está presente nos textos de Madero . &#8221; A virilidade do patriota resolvido a sacrificar-se, se for preciso, pra conquistar a liberdade e ajudar o povo a livrar-se da odiosa tirania que o oprime&#8221;, escreveu ele.</p>
<p>O texto poético &#8211; comum a Bolívar, Marti, Marcos e Sandino &#8211; é construtor de mitos. Falando da Virgem de Guadalupe e a importância para a revolução mexicana, Bolivar diz que &#8221; o entusiasmo político mesclou-se com a religião, produzindo um veemente fervor pela sagrada causa da liberdade.&#8221; Em Marti, a revolução cubana é mitificada, idealizada:</p>
<p>&#8220;E lindo ver a atuação unida do Partido Revolucionário Cubano, pela dignidade, jamais gerida por intrigas.&#8221; Sandino, ao batizar com seu nome uma cidade conquistada, também participa dessa construção de mitos no fragor da luta.</p>
<p>A Nuestra America de Marti precisa de líderes autênticos, criativos, que conhecem os problemas reais da terra e do povo, que governa abrindo os braços para a diversidade do povo. Assim, a América Latina precisa agir com uma só alma, uma só mentalidade, dando-se a conhecer para evitar que a ignorância e a prepotência dos Estados Unidos sejam seus algozes. A unidade na diversidade na luta contra o capitalismo &#8211; eis algo de Marti que o ELZN assume inteiramente nos seus documentos.</p>
<p>O programa do APRA &#8211; Aliança Popular Revolucionaria Americana identificava-se com a Bolívar, ao pregar a unidade política da América Latina, com Marti ao falar do perigo que ameaça a &#8220;nuestra America&#8221; (também batizada de Indoamerica), com a revolução mexicana, ao propor a nacionalização das terras, e com o ELZN, ao reivindicar a realização da Justiça e a aliança com as classes médias.</p>
<p>A solidão do guerreiro latino-americano diante da opressão interna e externa &#8211; que identifica Sandino e Marcos &#8211; é a solidão do homem que se sente injustiçado e traído. Como antídoto &#8211; e resultado &#8211; o texto poético serve como arma, para convocar, unir, lutar. As palavras &#8211; herdadas e criadas &#8211; formam uma revelação sempre renovada, que alimenta os mitos, reconstroi a religiosidade em novos termos e prepara os espíritos para uma definitiva salvação. Essa é a utopia latino-americana que a revolução, aliada à História e à poesia, procura instaurar, apesar das derrotas sucessivas.</p>
<p>Nosotros é filho de Nuestra America. É o rosto da revolução sem rosto, a identidade secreta, anônima e autêntica de uma idéia que reivindica terra para adquirir consistência histórica, justiça para recobrar a dignidade e liberdade para ocupar um lugar no futuro.</p>
<p>Indicações bibliográficas:</p>
<p>El Pensamiento Vivo de Sandino. Colección Rueda dei tièmpo.<br />
Bolívar &#8211; Textos. Org. de Manoel Leio Belloto e Anna Maria Martinez Corrêa. SP, Atica.<br />
EZLN &#8211; Documentos y Comunicados. Ediciones Era.<br />
Haya de Ia Torre &#8211; El Antimperialismo y ei Apra.<br />
Herzog, Jesus Silva &#8211; Breve Historia de ia Revolución Mexicana. Fondo de Coltora<br />
Econômica, México.<br />
José Marti &#8211; Nossa América &#8211; Antologia. Huicitec, SP, 1991.<br />
Prado, Maria Ligia Coelho &#8211; Em Busca da Participação das Mulheres nas Lutas pela Independência Política na América Latina. In Política e Cultura, Marco Zero/Anpuh.<br />
Womack Jr., John. &#8211; Zapata y Ia Revolución Mexicana. Siglo Veiteuno.</p>
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		<title>MICHELET INVENTA A HISTÓRIA</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 13:30:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[A análise dos sete primeiros capítulos do clássico de Jules Michelet, "A História da Revolução Francesa", propostos pelo curso, revelam uma visão romântica e moderna de uma ciência hoje em crise de identidade. A partir da obra do autor, vamos identificar seus elementos principais e, com a ajuda de Lucien Febvre e Jacques Rancière, sua gênese e atualidade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>-  <em>O que é preciso ler para entender Shakespeare? perguntou uma professora do interior.</em></p>
<p>-  <em>Leia Shakespeare, respondeu o poeta Mario Ouintana.</em></p>
<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>A análise dos sete primeiros capítulos do clássico de Jules Michelet, &#8220;A História da Revolução Francesa&#8221;, propostos pelo curso, revelam uma visão romântica e moderna de uma ciência hoje em crise de identidade. A partir da obra do autor, vamos identificar seus elementos principais e, com a ajuda de Lucien Febvre e Jacques Rancière, sua gênese e atualidade. Seguindo o conselho de Mario Quintana, vamos começar pegando Michelet a unha.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">1. A razão vence a loucura.</span></p>
<p>O povo foi, convocado pela aristocracia para as eleições de 1789. O objetivo era servir de massa de manobra no jogo político da corte. Michelet destaca a inocência do povo, que atende ao chamado votando maciçamente, de maneira correta, nos eleitores certos, esperando deles a solução para os problemas gerais.</p>
<p>O truque narrativo do autor ainda pode ser encontrado hoje no cinema americano: o herói só radicaliza depois que sofre a brutalidade dos inimigos, depois que se decepciona, quando sua boa fé vira do avesso e transforma-se em arma de guerra. O texto tece essa inocência para imantar o Povo &#8211; que ao agir atrai para si a Razão. O povo jejuava &#8211; com a crise &#8211; aguardava pacientemente, pois tinha esperança nos Estados Gerais.</p>
<p>O instrumento do Povo era o Terceiro Estado, que tradicionalmente sempre fora modesto, respeitoso, adestrado para concordar com o poder. Mas, desta vez, a população comportou-se de maneira diferente, elegendo, no interior, os padres aguerridos, que eram contra os bispos. E, para desespero de Roberto Darnton, que insiste, na sua obra, em subestimar a importância do Iluminismo na Revolução, &#8220;o povo das cidades, um pouco mais preparado, tendo recebido alguns lampejos da filosofia do século, mostrou um admirável ardor, uma viva consciência do seu direito&#8221;. Essa determinação definiu dois pólos opostos: a nação de um lado, o privilégio do outro. A nação estava unida entre povo e burguesia, mas dividida entre letrados e iletrados. Vemos assim que Michelet identifica as raízes da Revolução Francesa como conseqüência direta do Iluminismo, uma visão épica que hoje virou moda desmoralizar.</p>
<p>&#8220;A Assembléia seguinte seria um Messias; bastava que ele falasse e as pedras se transformariam em pão. &#8221; Ou: &#8220;Ah! Quem não ficaria comovido à lembrança desse momento único, que foi nosso ponto de partida? Durou pouco, mas permanece para nós o ideal a que sempre tenderemos, a esperança do futuro.&#8221; A emoção do historiador e a ética do comportamento popular costuram o texto todo o tempo. Ao longo do relato, o povo é honesto, revoltado, firme e esperançoso.</p>
<p>A oposição é entre o povo, que está na legalidade &#8211; e portanto se distingue da populaça, dos arruaceiros &#8211; e a aristocracia, que encarna a ilegalidade do privilégio: &#8220;Os nobres da Bretanha haviam dado o exemplo de perturbação das operações legais dos Estados provinciais, agitando os camponeses, lançando contra o povo uma populaça entremeada de lacaios.&#8221; O povo encarna a lei, que tem legitimação divina e que será hegemônica no futuro. Segundo Michelet, o privilégio está de um lado, o direito do outro. E, portanto, direito do povo transformar o</p>
<p>Terceiro Estado em Assembléia Nacional soberana. Com isso, a Revolução toma impulso e torna-se irreversível. E o povo representa toda a Nação e não apenas parte dela.</p>
<p>O Terceiro Estado representava o advento da lei. Ele era uma massa de homens &#8211; onde não se destacava nenhum grande inventor, nenhum herói &#8211; que representava a pátria acima de todas as classes. A paixão e a audácia do Terceiro Estado opunha-se à repulsa, ao ódio e à arrogância da aristocracia. O comportamento da nobreza é fonte de fraqueza, e o do povo, de força. O Rei teve uma chance nesse momento, de aliar-se ao povo contra a nobreza, mas ignorou-o, apesar dos esforços do Terceiro Estado em manifestar lealdade. O Rei aliou-se aos privilegiados da nobreza e com isso decretou a própria sentença. Ele não encarna mais a nação, mas apenas o privilégio, ou seja, a fraqueza, a ilegitimidade. Com a radicalização do processo, a Revolução começa a sua trajetória, como um navio em direção ao futuro. Ou seja, a irreversibilidade da vitória da nação nasce desse antagonismo não resolvido.</p>
<p>Para uma nação sensível ao gênio da palavra, é fundamental que a Revolução aproprie-se da linguagem regia para tornar visível e exercer sua legitimidade temporal. Da legitimidade divina, cuida Michelet de identificar a Assembléia com uma manjedoura de Belém. Ela nasce como um novo cristianismo para substituir a religião. Os locais onde a Revolução se manifestou pela primeira vez, são considerados sagrados pelo historiador. No processo narrado, evidencia-se a cautela da França, encarnada no seu povo, nos passos decisivos que está dando.</p>
<p>Mas chega um momento em que, de posse da legitimidade, da razão, o povo revolucionário deixa a moderação de lado e investe contra a loucura, a desrazão do privilégio. Michelet descreve como a nobreza e o Rei vão perdendo todas as chances ao tentar suprimir a liberdade depois de outorgar voz a milhões de eleitores através das eleições. O legislador do lado da loucura, o legislador idiota acaba impelindo os acontecimentos para a violência, a força e a espada. Como diz Mirabeau: &#8220;Ide dizer àqueles que vos enviam que estamos aqui pela vontade do povo e que daqui só nos arrancarão pelo poder das baionetas.&#8221;</p>
<p>Pela força da sua legitimidade, por ser instrumento da Razão, a Revolução tem validade universal. Assim a França, &#8220;correndo todos os riscos, acertava as contas do gênero humano&#8221;. Ela tinha poder para mudar os homens, a selecionar aqueles que estavam ao lado da lei e da mudança, contra os outros, que aproveitavam a confusão para defender interesses mesquinhos. Estes é que difundiam a subliteratura. Ou seja, ao contrário do que Darnton sustenta, as brochuras da subliteratura instigavam o povo contra a Revolução (pg. 135).</p>
<p>O movimento tinha grandeza, tinha imensidão. O povo agia de maneira transparente, contra a obscuridade da conspiração da nobreza. Como o fosso entre as duas posições se aprofundava, a Revolução avançava e o povo precisava se armar. Nessa fase, moderação era tida como traição. Era preciso ousar. A insurreição tornava-se o instrumento do patriotismo, já que a nação era o povo lutando pela liberdade. O povo armado defrontava-se com os soldados estrangeiros, mercenários em oposição ao soldado cidadão, francês, que engajava-se na luta revolucionária.</p>
<p>A tomada da Bastilha &#8211; uma &#8220;prisão do pensamento&#8221; &#8211; é uma vitória contra a anarquia moral, é um ato de fé dò &#8220;povo inteiro&#8221; (a nação unida), contra a arbitrariedade caprichosa, o despotismo fantasioso, a inquisição eclesiástica e burocrática. No dia 14 de julho, a liberdade nasce num berço puro e sem mácula. Essa pureza opõe-se à má consciência encarnada na Bastilha, sua loucura que acabou minando a própria resistência.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">2. Um historiador sem mestre.</span></p>
<p>A força poética do texto de Michelet costuma contaminar a análise que se faz dele. E o que acontece com Lucien Febvre, ao decompor a gênese do historiador num curso dado em 1942. Mas a homenagem não obscurece a lucidez da análise, que está centrada na seguinte tese: a de que Michelet criou a História porque não teve mestre. Ele faz parte de uma geração cevada no</p>
<p>silencio sobre os eventos da revolução: &#8220;A ruptura com o passado e a tradição foi total e não somente com a tradição do Antigo Regime, mas também, propriamente, com o Novo. Porque, da revolução, ninguém falava jamais aos filhos que, nascidos por volta de 1795 (Michelet é de 1798), cresciam sob o império. A palavra de ordem era o silêncio.&#8221;</p>
<p>A ruptura deu-se na tradição oral, na família: &#8220;Guardar silêncio com os filhos é romper a tradição, quebrar o fio dos tempos.&#8221; Michelet precisou resgatar a história da Revolução do silêncio, através do seu amor pelos mortos e assumindo o Romantismo, que surgiu como reação à aridez da razão logicista e o cálculo utilitarista do passado. Segundo Lucien Febvre, ele criou a História porque primeiro a sentiu, porque captou com maravilhosa sensibilidade, todas as correntes que cruzavam a atmosfera da sua época. Os sinais dessa revolução sentimental e moral seriam a reabilitação &#8211; e logo, a exaltação &#8211; da sensibilidade e da poesia.</p>
<p>Como vemos na página 121 do texto de Michelet, ele sentia-se em dívida com o passado: &#8220;Ah! O tempo não andou depressa, as gerações se sucederam, a obra pouco avançou&#8230; Quando pusemos os pés sobre suas lajes veneráveis, a vergonha nos veio ao coração pelo que somos, pelo pouco que fizemos. Sentimo-nos indignos e saímos daquele lugar sagrado.&#8221; Na raiz da obra de Michelet estão também as Confissões, de Rousseau. O historiador resgata a si mesmo quando resgata o passado. Ele procura conciliar os acontecimentos com sua identidade pessoal Os sentimentos, as emoções profundas da História foram revividas por Michelet porque ele reviveu suas causas dentro de si.</p>
<p>O historiador deve estar preparado interiormente para a grandeza da História. Como diz Michelet na página 134: &#8220;O ódio e o espírito do partido rebaixaram tudo isso, desfiguraram essas grandes cenas, obscureceram a história a seu bel prazer. Apegaram-se a essa ou à qual anedota ridícula. Digno divertimento de espíritos pequenos! Atribuíram-se a esses movimentos imensos não sei quais miseráveis, quais imperceptíveis causas&#8230;Ah!, infelizes, explicai então, pela palha que a vaga leva, a agitação do oceano.&#8221; Lucien Febvre reporta-se à geração de historiadores entre 1870 e 1890 que &#8220;durante anos, não cessaram de trabalhar para apequenar a História, para achatá-la em todos os sentidos da palavra, para fazê-la voltar ao ponto em que Michelet a tomou.&#8221; Como se vê, a síndrome de Darnton é cíclica na História.</p>
<p>Insuflar vida aos arquivos, extrair sangue quente e vida dos papeis mortos exige exaltação, poesia. &#8220;Como eu gostaria de falar em prosa&#8221; escreve Michelet citado por Lucien Febvre. &#8220;O ritmo oratório me persegue e faz de mim um poeta abortado.&#8221; O poeta escolheu a filosofia como caminho para a história. Sua intenção era enfocar a evolução dos costumes e das idéias das sociedades desaparecidas. O historiador filósofo &#8220;queria romper com o espírito do século XVIII, com a filosofia das idéias claras e da razão seca, numa palavra, com a maneira de Voltaire.&#8221; Esse passado foi rompido pela Revolução: &#8220;A História é filha do Romantismo e da Revolução&#8221;, diz Lucien Febvre. &#8220;E o que fez a Revolução? Promoveu o povo à dignidade de agente e por conseguinte de sujeito mesmo da História. &#8221; Num arroubo de puro Michelet, diz Lucien Febvre: &#8220;Digamos a palavra certa: a revolução foi a nação tomando o poder na França.&#8221;</p>
<p>Homens saídos do nada, como Danton, Robespierre e Napoleão, que não usurparam o poder antigo, mas se identificaram com o novo poder emergente, assomaram no cenário. Desse nada criador é que Michelet tirou a História. Os professores que sua geração dispunha, do tempo do império napoleônico, eram extremas nulidades, segundo Lucien Febvre. Só depois de 1815 é que a surgiram os professores de verdade para uma França ávida por conhecimento. Nesse caldeirão o jovem Michelet começou a se destacar.</p>
<p>3. Paradoxos de uma obra moderna</p>
<p>O que um poeta romântico que se insurgiu contra o esquecimento e contra a aridez do passado tem de moderno? Jacques Rancière, a partir de Lucien Febvre, responde a essa pergunta, ao lembrar que este saudou Michelet como o pai fundador da Escola dos Annales: &#8220;Face ao modelo real-empirista, Michelet inventou um paradigma republicano-romântico da história sobre a qual esta deve ainda regular-se quando quer permanecer uma história e não uma sociologia comparada ou um anexo da ciência econômica ou política.&#8221; Segundo Rancière, Michelet opera esta revolução pela qual o relato do acontecimento tornar-se o relato do seu sentido. Sua modernidade, que fez Lucien Febvre transmitir seu estilo para a escola dos Annales, provém do fato de que ele soube definir uma estrutura poética essencial do novo saber histórico. &#8220;A história não pode tornar-se ciência permanecendo história senão pelo desvio poético que dá á fala um regime de verdade.&#8221;</p>
<p>Isso serve de lição para os historiadores de hoje, segundo Rancière: &#8220;É no universo simbólico estruturado pelas identidades ordenadoras do corpo real, da fala divina e da Musa poética que a história erudita da idade das massas deve ir buscar suas ancoragens. O problema não é, pois, saber se o historiador deve ou não fazer literatura, mas qual ele faz. O sacrifício da história à afirmação da crença cientificista levou ao fim de uma certa historicidade, o fim da crença na história como figura da racionalidade.&#8221;</p>
<p>Conclui Rancière: &#8220;Nada ameaça a história senão seu próprio cansaço relativamente ao tempo que a fez ou seu medo diante do que fez a matéria sensível de seu objeto: o tempo, as palavras e a morte. A história não tem que se proteger contra nenhuma invasão estrangeira. Ela tem necessidade apenas de se reconciliar com seu próprio nome&#8221;.</p>
<p>O objetivo dessas citações é relatar o paradoxo criado por um historiador que inventou a ciência histórica sendo poeta e romântico e tornou-se mais atual do que nunca depois de um longo silêncio que a crise da modernidade nos condenou. Resgatar a grandeza da História parece ser, à moda de Michelet, a obra atual dos historiadores.</p>
<p>BIBLIOGRAFIA</p>
<p>FEBVRE, LUCIEN &#8211; Michelet e a Renascença &#8211; SP, Scritta, 1995.</p>
<p>MICHELET, JULES &#8211; A História da Revolução Francesa &#8211; SP, Companhia das Letras, 1989. RANCIÈRE, JACQUES &#8211; Os Nomes da História &#8211; Um Ensaio de Poética do Saber &#8211; SP, Educ/Pontes, 1994.</p>
<p>v</p>
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		<title>Joaquim Nabuco e a Imigração Chinesa</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/joaquim-nabuco-e-a-imigracao-chinesa</link>
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		<pubDate>Sun, 15 May 2005 16:26:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[O discurso do deputado Joaquim Nabuco - um representante de Pernambuco, filho de fazendeiros e na época ocupando pela primeira vez uma vaga no Congresso -]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/nab1.jpg" alt="" align="left" /><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>O discurso do deputado Joaquim Nabuco &#8211; um representante de Pernambuco, filho de fazendeiros e na época ocupando pela primeira vez uma vaga no Congresso &#8211; faz parte de um tema fundamental no Brasil da segunda metade do século 19, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, e está nas raízes de uma questão ainda em aberto no final do século 20, a ocupação da terra.</p>
<p>Nesta análise do texto proposto, destaco vetores que remetem a contextos complementares entre si, ou seja:</p>
<p>- as opiniões de Joaquim Nabuco indicando o perfil intelectual das elites numa época em que a ciência ficou a serviço do racismo (ver item 2);</p>
<p>- a imigração chinesa encarnando a própria transição em debate e servindo para que os abolicionistas evidenciassem a tese do branqueamento da raça(ver item 3);</p>
<p>- o debate sobre a abolição e a imigração gerando diretrizes para a formação da nacionalidade (ver item 4);</p>
<p>- a atualidade da polêmica num imaginário ainda atrelado a problemas mal resolvidos (ver item 5).</p>
<p>2. UMA POSTURA DISSOCIADA.</p>
<p>Abolicionistas como Nabuco atribuíam-se um grande papel na história, fruto de suas qualidades morais. &#8220;Vim defender uma causa grande, a causa da liberdade do trabalho, do futuro da nossa raça, do progresso e prosperidade da nação&#8221;, diz ele logo no início do discurso. E quase no final: &#8220;Quis pôr-me sempre ao lado da liberdade, da justiça, do progresso, da humanidade, que são para mim os maiores interesses do país, de maneira que qualquer homem verdadeiramente liberal e de sentimentos generosos, me pudesse sempre dar um aperto de mão.&#8221;</p>
<p>Nabuco ao mesmo tempo atacava e pertencia a uma elite que fez uma verdadeira mágica, na visão de Roberto Schwarz: &#8220;É sabido que a emancipação política do Brasil, embora integrasse a transição para a nova ordem do capital, teve caráter conservador. As conquistas liberais da independência alteravam o processo político de cúpula e redefiniam as relações estrangeiras, mas não chegavam ao complexo sócio-econômico gerado pela exploração colonial, que ficava intacto, como que devendo uma revolução. Noutras palavras, o senhor e escravo, o latifúndio e dependentes, o tráfico negreiro e a monocultura de exportação permaneciam iguais, em contexto local e mundial transformado. No tocante às idéias caíam em descrédito as justificações que a colonização e o Absolutismo haviam criado, substituídas agora pelas perspectivas oitocentistas do estado nacional, do trabalho livre, da liberdade de expressão, da igualdade perante a lei etc., incompatíveis com as outras, em particular com a dominação pessoal direta&#8221;. Ao mesmo tempo, segundo ele, &#8220;O Brasil se abria ao comércio das nações e virtualmente à totalidade da cultura contemporânea moderna mediante a expansão de modalidades sociais que se estavam tornando a execração do mundo civilizado&#8221;. Nabuco, que pertencia ao advento de um espírito reformador que varreu o país especialmente a partir da guerra do Paraguai, segundo Thomas Skidmore, estava vinculado ao ideário liberal do capitalismo e às suas implicações, especialmente a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre.</p>
<p>Neste discurso parlamentar de 1879, ele provoca reação (&#8220;oh!oh!&#8221;) ao dizer que &#8220;o período de transição há de ser quando não houver no país mais escravos e ficar ele reduzido a seus braços livres&#8221;. É sutil como as palavras que usa traem sua verdadeira intenção, a de abolir (esconder, esquecer, eliminar) o escravo negro junto com a escravidão &#8211; pois outro não seria o sentido da expressão &#8220;reduzido a seus braços livres&#8221;. Sem os escravos, a nação ficaria &#8220;apenas&#8221; com os trabalhadores livres &#8211; e isso não incluiria os ex-escravos (ver item 3). Deve-se também fazer a ressalva, amparada em Maria Lúcia Lamounier, de duas posições antagônicas de Nabuco. Nessa época de 1879 ele acreditava que &#8220;o Brasil precisava urgentemente da abolição a fim de constituir uma nacionalidade apropriada com base no imigrante europeu com seu &#8216;sangue caucásico, vivaz, enérgico e sadio.&#8217;&#8221; Mas em 1884, de volta de um estágio de três anos na Inglaterra, &#8220;embora continuasse a apoiar a imigração européia, Nabuco só a admitia desde que fosse espontânea, isto é, não subsidiado pelo Estado, pois somente assim pensava ser possível priorizar a incorporação da população nacional no mercado de trabalho livre.&#8221;</p>
<p>Nabuco carregava dentro de si o mesmo espírito contraditório dos seus adversários, vale dizer, da elite mais conservadora. Como nota Thomas Skidmore: &#8220;O pensamento abolicionista, como toda doutrina reformadora no Brasil, nasceu do liberalismo europeu do século 19 que seguira de perto a revolução industrial, a urbanização acelerada e o crescimento econômico. Todas essas mudanças tinham sido possíveis, por sua vez, graças à aplicação da ciência e da tecnologia. A fé européia no liberalismo parecida justificada pela prosperidade econômica do continente. No Brasil, todavia, a o liberalismo surgiu como resultado de tendências intelectuais mais do que por qualquer mudança econômica profunda. Embora as cidades crescessem rapidamente depois de 1850, não houve salto comprável no desenvolvimento econômico do Brasil. Os brasileiros estavam, então, a aplicar as novas idéias liberais num contexto social que não diferia, de maneira significativa, do mundo dos seus avós.&#8221; A propósito da colonização moderna, Marx observa que as realidades da colônia tem muito o que ensinar sobre a natureza relativa do trabalho livre na metrópole.</p>
<p>Ou seja, apesar da contradição entre valores coloniais e idéias liberais, o conservadorismo da elite brasileira servia aos interesses do liberalismo internacional, mesmo que a contradição tenha se manifestado de maneira aguda na proibição do tráfico dos escravos. Eis aí, segundo Schwarz, a raiz da desfaçatez e a volubilidade do personagem Brás Cubas, de Machado de Assis, síntese dessa elite dos oitocentos no Brasil.</p>
<p>Schwarz explica que Machado destaca a contradição entre o escravocrata e a modernidade que ele finge encarnar &#8211; modernidade aí no sentido das idéias liberais burguesas, baseada no trabalho livre e remunerada e contra a escravidão. No perfil ambíguo que Brás Cubas faz do cunhado Cotrim, segundo Schwarz, &#8220;contrabando de africanos e castigo físico se encaixam a seco no contexto das idéias liberais, território inimigo o­nde causam repulsa por princípio. &#8221; Pois &#8220;o indivíduo evoluído não tem escravos, não bate neles e não contrabandeia no ramo; a filantropia não serve para humilhar o vizinho ou alcançar a honra de um retrato pintado a óleo, as boas ações que pratica não são divulgadas nas folhas.&#8221;</p>
<p>Emília Viotti da Costa em &#8220;Da Monarquia à República &#8211; Momentos Decisivos&#8221;, diz o seguinte sobre esse tema, falando dos grandes proprietários da elite brasileira: &#8220;Purgando o liberalismo dos seus aspectos radicais, adotaram um liberalismo conservador que admitia a escravidão da mesma forma que seus avós haviam conciliado a escravidão com o cristianismo.&#8221;</p>
<p>Deve-se levar em conta também, no debate sobre a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, que a solução adotada por Nabuco era o parlamentar, ou seja, através das leis, e não da força. Isso significava fazer concessões aos adversários escravocratas. O objetivo era não assustá-los com as leis abolicionistas. Ao mesmo tempo, era preciso apaziguar a opinião dos países estrangeiros, que tinham receio em enviar sua população para um país o­nde o ódio racial colocaria a vida em risco.</p>
<p>Os abolicionistas como Nabuco propuseram então a transição para o trabalho livre de maneira pacífica, sem riscos revolucionários &#8211; já que os acontecimentos da revolução haitiana assustavam os escravocratas. Como escreve Lamounier: &#8220;A miscigenação como premissa explicava, portanto, a ausência de problemas raciais e acenava decididamente para a possibilidade de instauração de um paraíso racial ao abolir-se a escravidão.&#8221;</p>
<p>Vemos aí a raiz do mito do paraíso racial e das dificuldades de instaurar uma mudança que beneficiasse o país &#8211; caminho que só poderia se percorrido se os interesses dos escravocratas fossem radicalmente contrariados, o que não acontecia. Neste item, notamos que as contradições no imaginário das elites, expressas no discurso de Nabuco, serviram para encaminhar de maneira truncada a questão do abolicionismo e a instauração do trabalho livre no Brasil.</p>
<p>3. A TRANSIÇÃO TEM OLHOS PUXADOS.</p>
<p>A maneira contundente com que Nabuco, no seu discurso, condena a imigração chinesa revela a hegemonia, na época, das teorias racistas encaradas como ciência e importada dos países desenvolvidos. O debate sobre a imigração chinesa, segundo Skidmore, levara &#8220;muitos brasileiros a revelar suas opiniões raciais. E o que emergiu foi a vigorosa adesão à idéia de um Brasil paulatinamente mais branco. A raça branca é considerada por Nabuco de audaz, superior, mais inteligente, mais brilhante, com qualidades intelectuais, com caráter e coração, arte e relances de gênio (palavras tiradas do seu discurso). Os chineses, em contrapartida, são amarelos, inferiores, mongólicos. Eles poderiam &#8220;degradar&#8221; as raças existentes no país, introduzindo uma &#8220;lepra de vícios&#8221;.</p>
<p>Diz Skidmore: &#8220;Nabuco não deixava dúvidas de que seu alvo era um Brasil mais branco. Era suficientemente honesto para dizer que, se tivesse vivido no século 16, ter-se-ia oposto à introdução de escravos africanos, da mesma maneira como se opunha agora ao plano da escravatura asiática &#8211; a proposta de importar trabalhadores chineses para substituir os escravos. Na sua opinião era uma lástima que os holandeses não tivessem permanecido no Brasil pelas alturas do século 17. Embora explicasse, cuidadosamente, que as grandes contribuições holandesas tinham sido &#8216;a liberdade do comércio e a liberdade de consciência&#8217;, as implicações étnicas pareciam inconfundíveis: &#8216;a nossa evolução social foi demorada pela pronta terminação do domínio holandês&#8217;&#8221;.</p>
<p>O perigo amarelo, contra o qual Nabuco se insurge, é motivado por uma &#8220;lei&#8221; determinista histórica, a de que no embate entre raças &#8220;superiores e inferiores&#8221;, nem sempre a &#8220;superior&#8221; leva a melhor. Nabuco coloca na resistência e na capacidade de sobrevivência os fatores determinantes da vitória de uma raça sobre outra. E lembra que a civilização grega e a romana sucumbiram ante a pressão dos bárbaros.</p>
<p>Skidmore cita alguns nomes importantes que influenciaram o pensamento racista dos abolicionistas, como Henry Thomas Buckle e Arthur de Gobineau. A influência era tão gritante que até mesmo descendentes de mulatos, como José do Patrocínio (como vimos num seminário em aula sobre sua obra literária) e André Rebouças, mulatos, tinham preconceitos raciais contra os negros.</p>
<p>A polêmica sobre a imigração chinesa não era nova. Houve um debate no fim da década de 70 sobre a sua conveniência e as discussões do Senado em meados de 1877 sobre a lei dos contratos de trabalho lembravam do tema. É preciso lembrar que em dezembro de 1878 foi aprovada uma nova lei de locação de serviços &#8211; a anterior era de década de 30. Em março, foi sancionado o decreto nº 2827, dispondo sobre o modo como deviam ser feitos os contratos de locação de serviços. Segundo Lamounier, em setembro do mesmo ano &#8211; data do discurso de Nabuco &#8211; a Câmara aprovava, numa ardente controvérsia, um crédito para uma missão especial à China. O objetivo, diz a historiadora, era estabelecer relações diplomáticas com a China e promover a imigração de chineses para o Brasil. Mas, mesmo o crédito tendo sido aprovado, a imigração não se verificou, entre outros motivos, por forte oposição internacional, segundo Lamounier..</p>
<p>Deve-se ressaltar a característica principal do enfoque sobre essa imigração: a de que não se tratava de um projeto de colonização, mas de utilização da mão-de-obra como máquina do trabalho. A idéia era trazer o trabalhador sem a família, usá-lo como instrumento para a lavoura por um determinado período, até que fosse providenciada a colonização com trabalhadores europeus.</p>
<p>É por isso que existe o aparte do Sr. Zama no discurso: &#8220;A introdução de chins não é colonização, é instrumento de trabalho.&#8221; Um outro deputado: &#8220;Eles não ficam no Brasil, voltam para o seu país.&#8221; Nabuco prova que os chineses não vão se comportar dessa maneira, que irão vir para ficar, deitar raízes, não ir para lavoura e ficar nas cidades disputando vagas com os operários brasileiros. &#8220;O chim não é um elemento de transição&#8221; diz Nabuco. Como nos referimos acima, para ele, a transição só poderia acontecer se a abolição fosse decretada. Lamounier chama a atenção para os interesses existentes nesse debate. Os partidários da imigração chinesa, como os ministros Cansansão de Sinimbu e Moreira Barros (este, presente no discurso de Nabuco) eram os cafeicultores de São Paulo, que necessitava de chineses sobretudo como jornaleiros, pois os colonos estabelecidos com contratos somente para limpar e colher o café não eram suficientes para os outros manejos da fazenda.</p>
<p>4. CRISE DE IDENTIDADE.</p>
<p>O aparte de Antônio Siqueira ao discurso de Nabuco revela um assunto delicado no Brasil: &#8220;A vitória dos portugueses foi uma fatalidade para o Império&#8221;, diz o deputado, apartado por apoiados e não apoiados. O problema da origem atormenta a formação da nacionalidade. Um país com problemas de origem cria problemas de identificação. A origem pobre era normalmente identificada com a a vadiagem e a criminalidade, e não com o trabalho honesto.</p>
<p>Diz Boris Fausto em &#8220;Crime e criminalidade&#8221;: &#8220;A estigmatização das camadas sociais destituídas com o rótulo de vadios é um dado que percorre a história brasileira desde o período colonial. Brevemente, lembro como a reduzida diversificação das atividades econômicas e a utilização em larga escala da mão-de-obra escrava na agricultura de exportação deixou poucas possibilidades de emprego estável para os homens livres sem recursos. &#8221; Por que se consolidou entre nós esse antagonismo ao trabalho? Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Hollanda defende a seguinte posição: &#8220;Enquanto povos protestantes preconizam e exaltam o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da antiguidade clássica. O que entre elas predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor.&#8221;</p>
<p>Schwarz observa a difícil situação dos brasileiros pobres, que se situavam no meio da escala social, entre os escravos e os senhores, e que sofriam discriminação por pertencerem a uma nacionalidade problemática: &#8220;Não sendo proprietários nem escravos, estas personagens não formam entre os elementos básicos da sociedade, que lhes prepara uma situação desconcertante. O seu acesso aos bens da civilização, dada à dimensão marginal do trabalho livre, se efetiva somente através da benevolência eventual e discricionária de indivíduos da classe abonado&#8221;.</p>
<p>A sobrevivência do trabalhador livre depende, portanto, do beneplácito da classe dominante, conforme observação de Schwarz. &#8220;A vida honesta e independente não está ao alcance do pobre, que aos olhos dos abastados é presunçoso quando a procura e desprezível quando desiste, uma fórmula aliás, do abjeto humor de classe praticado por Brás Cubas e exposto por Machado de Assis. Do ângulo das relações econômicas, a gama vai da mendicância ao trabalho remunerado, passando por diferentes espécies de dependência pessoal.&#8221;</p>
<p>Diz Heloisa de Faria Cruz em &#8220;Trabalhadores em serviço: dominação e resistência&#8221;: &#8220;O mesmo processo e lógica que constituem as noções definidoras do vadio e as políticas de repressão à vadiagem engendram a discussão e as propostas destinadas a assistir, amparar, regenerar ou educar os pobres das cidades.&#8221;</p>
<p>Diz Sandra Jutahy Pesavento em &#8220;Trabalho Livre e ordem Burguesa&#8221;: &#8220;A elite legislou, interveio, normatizou, vigiou e pautou as condutas, os papéis e os espaços a serem desempenhados e ocupados por este novo trabalhador que surgia. &#8221; Vemos assim que o problema de classe social interpenetra no conceito de raça e de formação da nacionalidade. São vetores que estão ou explícitos ou subentendidos no discurso de Nabuco.</p>
<p>5. A ATUALIDADE DOS EQUÍVOCOS.</p>
<p>Uma simples consulta a uma edição recente do jornal &#8220;Folha de São Paulo&#8221;, &#8211; a de domingo, 30 de junho de 1996 &#8211; , serve para nos convencer da atualidade dos temas detectados no discurso parlamentar de Joaquim Nabuco. Primeiro, a questão da origem. Na página 3-11 (anexa), com o título de &#8220;Tese tenta derrubar o mito da colonização&#8221;, uma pesquisa do arquiteto Nireu Cavalcanti prova que a maioria dos portugueses vindos para o Brasil &#8220;tinha de saber ler e fazer operações básicas de aritmética&#8221;. Pesquisando arquivos de Portugal, ele constatou a presença de militares, sacerdotes, servidores públicos e profissionais diversos, como alfaiates, armeiros, carpinteiros, sapateiros, pintores e ourives. Assim ele tenta derrubar o mito de que Portugal só mandou gente de baixa qualificação para colonizar o Brasil, como desocupados e criminosos. Na mesma edição, mas em outro caderno, o Mais!, o filósofo político francês Jacques Rancière mostra como os discursos ditos liberais e progressistas acabam inventando novas formas de racismo e discriminação. Segundo Rancière, eles &#8220;não fazem mais do que conferir uma forma provocativa aos modos de pensamento e às formas de crença que pertencem ao regime dominante de opinião&#8221;. Isso nos remete, guardadas as devidas proporções e diferenças de época, ao tema da adoção de teses ditas científicas alimentando o ideário conservador, tal como aconteceu na época em que Nabuco discursava no Parlamento. Já no primeiro caderno da edição, na página 1-4, temos o exemplo da sobrevivência do pensamento conservador sobre a questão da terra e do trabalho livre. No artigo &#8220;Cheiro de Terra&#8221;, Roberto Campos coloca a culpa dos problemas de ocupação da terra no marxismo e no trabalhismo que estava no poder antes de 1964, sem lembrar que as origens do problema é mais antigo.</p>
<p>Numa significativa edição, a revista &#8220;Notícias&#8221;, da Fiesp-Ciesp, de 5 de junho de 1995, revela a sobrevivência do medo da China e da concorrência dos trabalhadores chineses ao nosso trabalhador. Diz a reportagem: &#8220;Uma vez que a ofensiva chinesa é também mundial, o Brasil está perdendo mercado tanto interna quanto externamente, conforme vem argumentando por exemplo a indústria de calçados. Segundo estimativas preliminares, a concorrência predatória já cortou ou ameaça ceifar perto de 500 mil empregos na indústria brasileira até o final deste ano. Vemos assim que imigração chinesa, a formação da nacionalidade, o pensamento conservador sobre a posse da terra e o trabalho livre são questões com seus desafios ainda intactos. Estudar suas raízes serve para iluminar a situação do Brasil de hoje e a absorver o noticiário de maneira mais crítica e conseqüente.</p>
<p align="center"><strong>BIBLIOGRAFIA </strong></p>
<ul type="square">
<li>Azevedo, Célia Maria M. de &#8211; o­nda Negra, Medo Branco. O Negro no Imaginário das Elites., RJ, Paz e Terra, 1987</li>
<li>Marx, Karl &#8211; Formações Econômicas Pré-Capitalistas &#8211; Paz e Terra, RJ, 1981</li>
<li>Schwarz, Roberto &#8211; Um Mestre na Periferia do Capitalismo/ Machado de Assis. Livraria Duas Cidades, SP, 1990.</li>
<li>Skidmore, Thomas E. &#8211; Preto no Branco: Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro. RJ, Paz e Terra, 1976.</li>
<li>Lamounier, Maria Lúcia &#8211; Da Escravidão ao trabalho Livre (A Lei de Locação de Serviços de 1879) Campinas, SP, Papirus, 1988.</li>
<li>Rancière, Jacques &#8211; À cata de bodes expiatórios &#8211; in Folha de São Paulo, 30/6/96.</li>
<li>Campos, Roberto &#8211; Cheiro de Terra.. In Folha de São Paulo, 30/6/96.</li>
</ul>
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		<title>A luz que a treva revela</title>
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		<pubDate>Sat, 14 May 2005 23:55:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[A fé e a dúvida sobem o rio Quebec encarnadas em dois grupos humanos: um formado por dois franceses, um padre e um carpinteiro, e o outro por uma clã de índios. No início da viagem, rumo a uma longíngua missão, a fé prevalece: o padre está convencido de que poderá catequisar os nativos e para isso conta com absoluta confiança nos desígnios de Deus]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p><img src="../../../neiduclos/imagens/fotos/blackrole.jpg" alt="" /></p>
<p>A fé e a dúvida sobem o rio Quebec encarnadas em dois grupos humanos: um formado por dois franceses, um padre e um carpinteiro, e o outro por uma clã de índios. No início da viagem, rumo a uma longíngua missão, a fé prevalece: o padre está convencido de que poderá catequisar os nativos e para isso conta com absoluta confiança nos desígnios de Deus &#8211; e também nenhum temor em relação à morte, considerada certa diante dos perigos esperados (índios inimigos, inverno, ingleses).</p>
<p><img src="../../../neiduclos/imagens/fotos/blackrole4.jpg" alt="" align="left" /> Mas aos poucos a dúvida assoma na paisagem humana e reflete a dura geografia de uma realidade pagã. Ela cristaliza a diferença entre os dois mundos: um fixo, do signo da terra, formado por hábitos negros, relógios e ferramentas; outro móvel, do signo da água, composto por guerreiros, mulheres e canoas. A divisão cava fundo no coração dos índios, cresce com a aparição de um feiticeiro e torna-se irrefreável com a alegria debochada das jovens nativas.</p>
<p>A dúvida também finca bandeira em terreno sagrado: o padre, voyeur involuntário do sexo alheio, começa a provar a tentação; sua castidade sofre diante da promiscuidade alheia, enquanto seu único aliado, o carpinteiro &#8211; que sonhava em seguir a carreira eclesiástica -, aos poucos escorrega para o feitiço de uma cultura mais integrada ao ambiente. Esse clima acaba fazendo o patriarca indígena quebrar sua promessa de levar os franceses até o destino, a desviar o caminho em direção ao território de caça, deixando para trás o padre desprotegido.</p>
<p><img src="../../../neiduclos/imagens/fotos/blackrole2.jpg" alt="" align="left" /> A ruptura gera a fraqueza dos viajantes. Arrependido, o patriarca volta com seu grupo para apanhar o padre, mas todos são emboscados pelos índios inimigos. A prisão, a tortura, a fuga e a morte coroam a narrativa, que versa sobre a humanização viabilizada pelo fracasso. Quem buscava a glória, encontra a decepção, quem pregava a fé, encontra a superstição, quem propunha Deus, enxerga o Homem. O velho padre moribundo da missão distante, desesperançado diante do abismo entre culturas, é o retrato explícito dessa queda católica no meio da neve.</p>
<p>Como toda narrativa que usa a História como matéria-prima, o filme peca pelo anacronismo. O padre é encaminhado para o fracasso pelo roteiro, que o pinta frágil na sua fé, esquecendo a determinação granítica dos missionários católicos no Novo Mundo. Por sofrer de má-vontade crônica diante da Igreja Católica, o cinema do Primeiro Mundo, como os índios, é incapaz de entender os padres e sua civilização inspirada na cruz e fundada na pedra.</p>
<p><img src="../../../neiduclos/imagens/fotos/blackrole3.jpg" alt="" align="left" />Sem querer, o cineasta comete o pecado que condena ao compor o universo indígena com os lugares comuns da idéia que faz da barbárie : o coito por trás (em oposição ao sexo frontal entre o carpinteiro e a índia); o feiticeiro anão, da mesma estatura da visão que o filme dedica à espiritualidade dos índios; a violência gratuita &#8211; e pseudo-ritualística dos índios inimigos.</p>
<p>Assim, a fé que o espectador dedica ao filme no seu início abre espaço para a dúvida forjada por estes equívocos. E fortalece a certeza de que, se não nos é possível fugir ao anacronismo, nos resta detectá-lo. Talvez pesquisar e refletir sobre essa defasagem entre o passado e os desígnios de cada narrador seja o único objetivo possível da História. O que não nos cabe é deixar-nos levar por essa luz difusa e colorida das certezas datadas. Com todos os seus problemas, o filme nos adverte sobre o Hábito Negro, nome do intruso que, ao pregar a luz, encarnou a treva.</p>
<p>*A resenha sobre o filme &#8220;Hábito Negro&#8221;, de Bruce Beresford, foi apresentado para a professora Laura de Mello e Souza, da USP.<br />
© Nei Duclós &#8211; todos os direitos reservados</p>
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		<title>Uma Coreografia Iluminista da Hidra</title>
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		<pubDate>Fri, 13 May 2005 23:49:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[ Sobre o livro "O Espectador Noturno - A revolução francesa através de Rétif de La Bretonne" (Rouanet, S.P.,1988) Revolução Francesa revisitada por meio da obra de Rétif de la Bretonne - escritor libertino, memorialista, historiador, repórter e cronista do século XVIII - revela-se, neste livro, desprovida da aura mística original e "contaminada" pela multiplicidade de enfoques. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p><em>Sobre o livro &#8220;O Espectador Noturno &#8211; A revolução francesa através de Rétif de La Bretonne&#8221; (Rouanet, S.P.,1988) </em></p>
<table border="0" cellspacing="1" cellpadding="0" width="100%" align="center">
<tbody>
<tr>
<td background="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/bgs/bghidra.jpg">
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0" width="85%" align="center" bgcolor="white" background="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/bgs/cinza2.gif">
<tbody>
<tr>
<td>
<table border="0" cellspacing="1" cellpadding="0" width="75%" align="center">
<tbody>
<tr>
<td>
<div><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/hidra4.jpg" border="0" alt="Livro" /></div>
<div><span style="font-family: ARIAL; color: #404040; font-size: xx-small;"><strong>UMA COREOGRAFIA ILUMINISTA DA HIDRA</strong>*</span><br />
<span style="font-family: ARIAL; color: #808080;">- O que os chineses acham da revolução francesa? perguntou Henry Kissinger.</span><br />
<span style="font-family: ARIAL; color: #808080;">- Ainda estamos observando, respondeu Lin Piao.</span><br />
<span style="font-family: CoURIER NEW,Courier;"><strong>Nei Duclós</strong></span></div>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/hidra3.jpg" border="0" alt="Livro" /> <img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/icons/a2.gif" alt="" /> Revolução Francesa revisitada por meio da obra de Rétif de la Bretonne &#8211; escritor libertino, memorialista, historiador, repórter e cronista do século XVIII &#8211; revela-se, neste livro, desprovida da aura mística original e &#8220;contaminada&#8221; pela multiplicidade de enfoques. O autor da análise, um diplomata de carreira que foi ministro da Cultura, produz um ensaio que se propõe a estabelecer um fluxo de identificações entre as contradições da época e as da obra analisada. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">Para isso ele assume uma atitude prudente ao cercar seu objeto de estudo. Sua intenção é não atiçar a desconfiança natural de seus eventuais e selecionados leitores &#8211; ele dirige-se a um público restrito, já que jamais traduz citações em latim e francês, inacessíveis para quem está fora dos muros da universidade. é evidente que esse caminhar de gato escaldado sobre brasas serve para evitar ser confundido com um admirador de Rétif, ou com o que esse escritor considerado menor representa &#8211; a princípio (antes que o leitor chegue à última linha) a subliteratura e o oportunismo. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;"><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/hidra2.jpg" border="0" alt="Livro" align="right" /> Esse distanciamento é denunciado pelo uso sistemático de adjetivos na hora de classificar as obras do seu personagem. Estranho vai para &#8220;Drame de la vie&#8221; e &#8220;As Póstumas&#8221;; inclassificável para &#8220;As noites de Paris&#8221;; espantoso para &#8220;Noite revolucionárias&#8221;; curioso para um trecho de &#8220;Paysan Perverti&#8221;; descabelada para uma determinada narrativa sobre a perseguição a uma família republicana. Sobre a personalidade de Rétif, o adjetivo mais utilizado é excêntrico. Parece, com isso, que o personagem nunca merece confiança.</span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">O olhar oblíquo sobre o texto de Rétif transforma-o assim numa hidra enjaulada, que exige atenção em cada cabeça ameaçadora rediviva. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">A providência seguinte é identificar essas cabeças &#8211; ou seja, as contradições de um muralista de produção fluvial &#8211; para poder manejá-las como instrumentos de análise do período revolucionário.</span></p>
<div><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/hidra5.jpg" border="0" alt="Livro" /></div>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;">As contradições são de natureza política e social, revelando um devasso que é ao mesmo tempo moralista, um aristocrata que orgulha-se das raízes camponesas, um monarquista que acaba convertido à causa da República e um ser múltiplo que aspira permanentemente à unidade. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">Rouanet propõe-se a provar que as contradições são necessárias, sem deixar de desmontar os elementos justapostos de cada uma delas e apresentar a chave para entendê-las. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">Vamos selecionar um exemplo da metodologia de Rouanet. Ele analisa a posição do escritor francês, em alguns textos, contra a propriedade privada, e em outros, a favor dela. Uma racionalização vagamente marxista, segundo Rouanet, para solucionar esse impasse, seria a de que Rétif via o socialismo como objetivo último e não como possibilidade imediata. Mas isso é insuficiente. A chave da questão estaria na posição assumida por Rétif de que é preciso manter a propriedade privada antes que a revolução política seja completada por uma revolução social. Como esse tipo de explicação encobre a questão central, Rouanet muda de perspectiva: o importante é saber de onde vem a contradição e o que ela nos ensina sobre o autor analisado e a Revolução. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;"><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/hidra6.jpg" border="0" alt="Livro" /> A demonstração evolui a favor de Rétif que, mesmo sendo uma figura marginal da sua época, acaba ocupando nela um papel central. Isso serve para eliminar as resistências do leitor quanto ao objeto de estudo e abre caminho para alguns elogios, como a competência profética de Rétif em muitas questões e às avançadas posições que assume, apesar de oscilar, muitas vezes, entre a bajulação e o delírio. Selecionar o trigo maduro da erva daninha é um trabalho que Rouanet estabelece sem esmagar e queimar as cabeças da hidra, mas fazendo com que elas obedeçam a uma mesma coreografia. Trata-se de uma dança racionalizada por Rouanet, herdeiro do Iluminismo que, ao mexer com as vísceras do século XVIII, empreende ao mesmo tempo uma assepsia. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">Separando 1789 &#8211; a revolta popular &#8211; de 1793 &#8211; o Terror -, Rouanet confessa ser impossível assumir em bloco a Revolução ou desmembrá-la abstratamente, mas coloca Rétif como um elemento esclarecedor para o dilema. Descobrir que a mítica Revolução das liberdades é também a fonte dos totalitarismos é uma constatação dura demais para quem navega nas águas iluministas. A hidra coreografada &#8211; a obra de Rétif na versão de Rouanet &#8211; serve como antídoto para a perplexidade gerada pela evolução das ciências históricas.</span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;"><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/hidra1.jpg" border="0" alt="Livro" /> Faltou reforçar um aspecto que é marginal em Rouanet em relação ao trabalho de Robert Darnton, que em livros como &#8220;Boemia Literária e Revolução&#8221; e &#8220;O Iluminismo como negócio&#8221; destacou a natureza profissional do trabalho dos escritores panfletários, fonte maior das suas contradições, já que escreviam para vender e acompanhavam as oscilações do poder. Entre o sucesso de público e a censura, Rétif equilibrava-se sobre uma navalha &#8211; mais um ponto a favor para identificar sua obra com a revolução.</span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">O importante é que o período analisado permanece em aberto. O trabalho de Rouanet abre espaço inclusive para aprofundarmos a questão da proximidade entre o intelectual e o poder, um assunto que naturalmente toca o ex-ministro de maneira especial. </span></p>
<div><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/hidra.jpg" border="0" alt="Livro" /></div>
<div>
<img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/icons/frufru.jpg" border="0" alt="" /><br />
<span style="font-family: ARIAL;"><strong><span style="color: #333333;">BIBLIOGRAFIA</span></strong></span></div>
<div>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="10" width="100%" bgcolor="#333333">
<tbody>
<tr>
<td><span style="font-family: ARIAL; color: #ffffcc;">ROUANET, SéRGIO PAULO- <em>&#8220;O Espectador Noturno &#8211; a Revilução Francesa através de Rétif de la Bretonne&#8221;,</em>-Companhia das Letras, SP, 1987 </span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><span style="font-family: ARIAL;"><span style="font-family: Courier New,Courier,mono;">© Nei Duclós &#8211; todos os direitos reservados</span></span></div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
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		<title>A Dança dos Sete Véus</title>
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		<pubDate>Fri, 13 May 2005 23:47:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trabalhos Acadêmicos]]></category>

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		<description><![CDATA[Um bom livro vale tanto pelas perguntas que provoca quanto por suas revelações. No caso desta obra publicada originalmente em 1978 por Edward W. Said, da Universidade de Stanford, da California, esse duplo benefício se impõe, primeiro, por ser uma tese bem fundamentada de um fenômeno cultural atualíssimo,]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong> <em>Sobre o livro &#8220;Orientalismo &#8211; O oriente como invenção do ocidente&#8221;, de Edward W. Said </em></p>
<table border="0" cellspacing="1" cellpadding="0" width="100%" align="center" background="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/bgs/bgorientalismo.jpg">
<tbody>
<tr>
<td background="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/bgs/bgorientalismo.jpg">
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0" width="100%" align="center" bgcolor="white" background="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/bgs/cinza2.gif">
<tbody>
<tr>
<td>
<table border="0" cellspacing="1" cellpadding="0" width="100%" align="center">
<tbody>
<tr>
<td>
<div><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/orientalismo6.jpg" border="0" alt="" /></div>
<div><span style="font-family: ARIAL; color: #94280a; font-size: xx-small;"><strong>A DANÇA DOS SETE VÉUS</strong>*</span><br />
<span style="font-family: ARIAL; color: #b9201b;">O oriente &#8220;real&#8221; é a virgem prometida que no fim da festa é sonegada ao leitor </span><br />
<span style="font-family: CoURIER NEW,Courier;"><strong>Nei Duclós</strong></span></div>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/icons/U2.gif" alt="" align="left" />m bom livro vale tanto pelas perguntas que provoca quanto por suas revelações. No caso desta obra publicada originalmente em 1978 por Edward W. Said, da Universidade de Stanford, da California, esse duplo benefício se impõe, primeiro, por ser uma tese bem fundamentada de um fenômeno cultural atualíssimo, especialmente no cinema, na televisão, no noticiário e na visão distorcida que costumamos fazer do Outro. Podemos assim sistematizar nossa posição crítica em relação ao orientalismo que, segundo o autor, foi uma invenção européia para conquistar e dominar terras e povos situados numa vasta região geográfica da Ásia e da África e que mantém-se até hoje, imutável na sua essência, servindo especialmente como instrumento da política imperialista norte-americana. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">Entre as inúmeras definições de Said para seu objeto de estudo, o orientalismo é descrito como uma rede de interesses, um estilo de pensamento e uma instituição organizada para negociar, dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente. É também um corpo criado de teoria e prática, uma obra humana induzida e uma distribuição de consciência geopolítica em textos estéticos, eruditos, econômicos, sociológicos, históricos e filológicos. </span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;">Said adverte que idéias, culturas e histórias não podem ser estudadas sem que a sua força, ou mais precisamente, sua configuração de poder seja também estudada. Por isso, procura mostrar que a cultura européia ganhou em força e identidade comparando-se com o Oriente como uma espécie de identidade substituta e até mesmo subterrânea, clandestina. Sua intenção, ao ilustrar, analisar e refletir sobre o orientalismo como um exercício de força cultural, é promover o estudo das alternativas contemporâneas ao tema. Quer, assim, contribuir com uma perspectiva libertária &#8211; segundo sua própria expressão &#8211; na investigação de outras culturas e outros povos. </span></span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;">Ele entende que o &#8220;orientalismo acomodou-se com êxito ao novo imperialismo&#8221; e propõe um novo enfoque para evitar os perigos e tentações de se empregar esse tipo de estrutura cultural sobre si mesmo e sobre os outros. A perspectiva libertária de Said é bastante ampla, extensiva a todos os estudiosos sérios, pois ele encara como uma limitação a idéia de que apenas os muçulmanos podem escrever sobre muçulmanos, ou negros sobre negros e assim por diante. Sua proposta é descolonizar totalmente os estudos da área para evitar que o orientalismo seja mais uma das &#8220;algemas forjadas pela mente&#8221;. </span></span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;">A consistência do seu enfoque não elimina, entretanto, algumas dúvidas que se manifestam como o segundo benefício do livro, pois a partir desta pesquisa, somos obrigados a colocar em xeque o maior número de aspectos possíveis sobre o assunto. A primeira delas é sobre a resistência granítica do paradigma (ou &#8220;consenso de pesquisa acadêmica&#8221;, conceito emprestado de Thomas Kuhn) transformado em dogma. Por dois séculos o orientalismo manteve-se idêntico, sem mudar de natureza? Ou seja, a especialidade da época de Napoleão conserva-se no tempo até chegar aos nossos dias para servir de arma ideológica no Oriente Médio? Essa dúvida persiste, mesmo levando-se em consideração todas as transformações apontadas por Said, de que o orientalismo nasce a partir dos antiquários, cresce no século 19 junto com a expansão européia, especializa-se na função de artigo de uso na virada para o século 20 e torna-se moeda de capital simbólico fundamental para a política externa dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra. </span></span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"> <span style="font-family: Courier New,Courier;"> A impressão que se tem &#8211; e isso precisaria de um estudo mais detalhado &#8211; é que Said partiu da situação de hoje &#8211; onde o orientalista participa da guerra ideológica contra os árabes &#8211; e projeta sua crítica até o século 18, numa viagem anacrônica apresentada no livro pelo avesso &#8211; ou melhor, de trás para diante. Um dos embasamentos para esta observação é a maneira unilateral (sempre negativa) como Said se refere a uma das forças culturais que impulsionaram o orientalismo no início, ou seja, o Romantismo. </span> </span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;">Como nota Gerd Bornheim, os românticos &#8220;valorizaram também a Ásia e sobretudo a Índia, dando início a uma atitude não apenas exterior, mas voltada, respeitosamente (grifo meu) , para a cultura e para a religião dos países asiáticos. Isso é tão importante que podemos dizer que, desde o Romantismo, a Europa já não é apenas a Europa, a ponto de Paul Valéry poder perguntar se ela não seria tão-somente um cabo da Ásia.&#8221; A procura do Outro, o entranhamento nas terras ignotas, a busca de conhecimentos anteriores ao cristianismo, o estudo de línguas mortas, todas as preocupações, enfim, dos românticos que influenciaram o nascimento do orientalismo e acabaram relativizando a própria noção de Europa, são excessivamente reduzidas ao impulso político, aos interesses comerciais, à barbárie imperialista. </span></span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;">Isso é verificado quando o autor reconhece que o orientalismo era uma erudição, apesar de ser um equívoco. A dúvida é: por que, neste livro, a erudição é todo o tempo subestimada em favor dos erros? Não estaria, neste caso, o orientalismo sendo submetido a uma camisa de força? Será que este livro é capaz de conter toda a diversidade ( não no sentido de extensão, mas no de significados múltiplos e muitas vezes contrários) do orientalismo? É claro que Said adverte sobre esse problema metodológico no primeiro capítulo, mas será que ele não estaria delimitando o campo de estudo à custa da mutilação do tema? </span></span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;">Um exemplo dessa limitação é o papel atribuído por Said aos orientalistas que atuaram no período próximo à Primeira Guerra Mundial. Bastaria dizer que o individualismo impunha uma visão diferenciada dos estudiosos dessa época? Ou seria preciso colocar a contradição ética de T.E.Lawrence, por exemplo, que é a espinha dorsal do roteiro de Richard Bolt para a obra-prima de <a href="http://consciencia.org/neiduclos/jornalismo/lean.html"><span style="color: black;">David Lean</span></a> (&#8220;Lawrence of Arabia&#8221;, 1967), baseado nos &#8220;Sete Pilares de Sabedoria&#8221;? </span></span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;">Acusar este texto de Lawrence &#8211; admirado pelo pragmático Churchill &#8211; de ser &#8220;patentemente ficcional&#8221; não elide o problema focal, que é a divisão interna do orientalista, puxado de um lado pelo mundo que escolheu e por outro pelo mundo ao qual pertence. Pode-se argumentar que, ao fim e ao cabo, o filme de Lean obedece aos parâmetros apontados por Said ( personagens árabes importantes, como o príncipe Feisal, são representados por atores ocidentais) e que Lawrence realmente serviu ao imperialismo anglo-americano na briga contra os turcos e na manipulação dos árabes. Mas isso só seria válido se Said pudesse provar que a contribuição da Revolta Árabe &#8211; onde Lawrence foi uma figura central &#8211; para os futuros movimentos nacionalistas no Oriente Médio foi absolutamente nula. </span></span></p>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier;"><br />
</span><span style="font-family: Courier New,Courier;"> <span style="font-family: Courier New,Courier;">Outra dúvida importante é sobre o conceito de Oriente real que aparece de surpresa no livro &#8211; compactuando com a visão pré-concebida do leitor &#8211; e que, ao longo da exposição, como numa dança dos sete véus, revela-se uma ilusão, uma representação. Ele usa as expressões &#8220;Oriente real, realidade moderna do Oriente, o Oriente vivo, contemporâneo, o Oriente tal qual ele é&#8221; e conclui que &#8220;não é tese deste livro sugerir que existe algo como um Oriente real ou verdadeiro.&#8221; É como prometer a virgem e não entregá-la ao noivo na hora das bodas.<span style="font-family: Courier New,Courier;">A dúvida é a seguinte: por que Said não assume todas as implicações da análise do discurso logo no início do livro? Ao basear a tese na pesquisa do discurso orientalista, não seria fundamental voltar-se metodologicamente para esse enfoque, abraçando todo o aparato teórico decorrente dessa opção? Por que Said prefere envolver o leitor com uma análise do discurso fundada no paradigma marxista &#8211; já que é o poder, a política e o comércio que definem a delimitação do campo? Com um pé em Ranke &#8211; já que ele cuida, no fundo, do orientalismo como um vetor da história do Estado -, outro em Marx &#8211; onde a força cultural, a superestrutura, é condicionada pelas forças econômicas e políticas do imperialismo, a infra-estrutura &#8211; Said invoca Hayden White de leve, como se temesse ser confundido com os modismos que carregaram o debate da historiografia nos anos 60, mais tarde denunciada por Pierre Bourdieu .</span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">Se essas observações forem corretas, o autor estaria projetando no seu livro o crime que detecta no seu objeto de estudo. Pois o orientalismo denunciado por Said fica parecido com o árabe dos orientalistas &#8211; eterno e imutável. A diversidade do tema não convence Said de que o orientalismo é um tema rebelde a qualquer esforço reducionista. Ao contrário: para Said, toda a multiplicidade das manifestações orientalistas volta-se contra o próprio orientalismo, servindo apenas para confirmar o tom reacionário imputado ao tema ao longo de todo o livro. Talvez seja essa projeção &#8211; o estigma do assunto contaminando a análise crítica &#8211; a grande dificuldade no estudo das ciências humanas, um perigo tão real quanto o anacronismo. O historiador e o cientista social se envolvem tanto com o campo delimitado que acabam ocupando nele uma posição incômoda. </span><br />
<span style="font-family: Courier New,Courier;">Essa ameaça assemelha-se à síndrome de aprendiz de feiticeiro. É como se o autor fosse levado, como Lawrence, de roldão pelas forças que desencadeia.</span></p>
<div><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/orientalismo.jpg" border="0" alt="filme" /></div>
<p><strong><span style="color: #cc9933;"><br />
<span style="font-family: ARIAL;">BIBLIOGRAFIA</span></span></strong><span style="font-family: ARIAL;"><br />
</span></span></span></p>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="10" width="100%" align="center" bgcolor="#cc9933">
<tbody>
<tr>
<td><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: Courier New,Courier;"><span style="font-family: ARIAL; color: #660000;">BORHEIM, GERD-<em>&#8220;A filosofia do romantismo&#8221; in &#8220;O Romantismo&#8221;,</em> de J. Guinsburg (org.), RJ, Ed. Duas Cidades<br />
BOURDIEU, PIERRE-<em>&#8220;Sur les rapports entre la sociologie et l&#8217;histoire en Allemagne et en France&#8221;,</em> Entretien avec Lutz Raphael, in &#8220;Actes de la recherce&#8221; número 106/107, março de 1995, pgs. 108-122<br />
SAID, EDWARD W.- <em>&#8220;Orientalismo, o Oriente como invenção do ocidente&#8221;-</em>SP, Companhia das Letras, 1996 </span></span></span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><span style="font-family: Courier New,Courier; color: blue;"><em></p>
<div><span style="font-family: Arial,Helvetica,sans-serif;">*texto apresentado na cadeira de Teoria da História ll, da professora Nanci Leonzo.</span></div>
<p></em></span></p>
<div>
<div><span style="font-family: Courier New,Courier;">© Nei Duclós &#8211; todos os direitos reservados</span><em><span style="font-family: Courier New,Courier;"> </span></em></div>
</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
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