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	<title>Nei Duclós &#187; TV</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>A HIERARQUIA DOS GESTOS</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 21:53:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[TV]]></category>

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		<description><![CDATA[O gesto favorito dos nossos estadistas de estádio (como diria Ulysses Guimarães) é virar a cabeça junto com o tronco. Sinal que sugere integridade física, ou seja, não se torce o pescoço para olhar ninguém, vira-se inteiramente como a proclamar autoridade e expressar com esse gesto que se está ali para mandar e ensinar, e jamais para escutar. Nisso FHC e Lula também se parecem. A rigidez de ombros que ostentam significa que são rochedos. Em volta deles, pululam como ondas os ombros frenéticos da mídia, a lamber-lhes as ostras.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Na literatura, o movimento do corpo é descrito e imaginado. No cinema e na TV, o gesto explícito é a vitrine dos nossos erros, já que os acertos não dependem do desenho feito pelo andar, linhas do rosto e trejeitos: a sinceridade vira pelo avesso a máxima de que somos o que parecemos. Somos o que somos quando não queremos parecer alguma coisa &#8211; nesse caso, o gesto faz parte do nosso encanto. Quando fingimos, forçamos os gestos, nos transformamos num conjunto de posturas artificiais. O mais trágico é quando os gestos denunciam a posição social que cada um ocupa na pirâmide das exclusões.</p>
<p>LITTLE BROTHER &#8211; O programa da Globo, Big Brother, é uma pequena loja de horrores. Um grupo é escolhido para exibir uma sucessão de gestos didáticos, que ensinam as pessoas a gozar a vida e a não trabalhar. Eles se deitam, se agridem e se fuzilam: toda hora tem &#8220;paredão&#8221;. É como se fossem ratos de laboratório, a provar a pesquisa científica dos idealizadores desse pesadelo, de que brasileiro é mesmo vagabundo, gosta de mordomia, odeia o próximo e só quer se dar bem na vida. Esse conjunto de conceitos é reforçado pelas cenas doentias, todas elas ostentando um falso improviso, quando está na cara que foram escritas, tanto é que tem personagem que não consegue dizer a fala direito (como no caso das crianças nos comerciais com aquela voz forçada, pois a meninada não está em condições de articular toda a complexidade e oportunismo da mensagem, o que inclui estrutura de frase, entonação etc). Costuma-se dizer que o povo gosta mesmo disso tudo, pois o Ibope (quá!) está alto. Me coloquem em horário nobre falando abobrinhas numa rede poderosa que terei Ibope alto. É tudo uma questão de oportunidade e horário. Sempre tenho a impressão que os programadores esperam dar traço na pesquisa (lá pela uma da manhã) para então colocar um belo documentário (como Roger and me, de Michael Moore, que passou na madruga do SBT) ou algum clássico (como acontece uma vez por semana na Bandeirantes, que ainda tem a manha de corromper a obra retaliando-a em blocos o­nde os intervalos são preenchidos com mídia interna, propaganda exaustivamente repetida sobre as outras atrações da rede). O público não tem opção, tem porcarias na hora em que tenta ver alguma coisa- e ainda é chamado jocosamente de &#8220;ô da poltrona&#8221; ou &#8220;você aí do sofá, que fica parado&#8221;. A malandragem costuma se deitar quando tem algum trabalhador pela frente. Principalmente quando está no poder.</p>
<p>OMBROS, CARAS E BOCAS O entusiasmo de estar diante das câmaras falando qualquer coisa costuma deixar marcas, como o frenético sacudir de ombros, quando há a intenção de reforçar o que está sendo dito (normalmente um conjunto de redundâncias ou de informações plantadas). É o recado claro do exibicionismo, falta de assunto e desimportância da reportagem. Outro gesto é o leve inclinar para a frente, que acontece no final das frases do atual jornalismo de breque &#8211; aquele que também faz uma paradinha no meio frase para fazer suspense ou preparar o pobre do telespectador para a emissão do crédito. Acho até que, para os repórteres de TV (de todo o mundo) o mais importante é dizer o próprio nome. Não importa a informação, o que vale é &#8220;Fulano de Tal, de Caixa Prego&#8221;. O recado também é claro: &#8220;Eu sou o maior, o mais importante. Dane-se a reportagem. Você aí da poltrona, admire-me.&#8221; Pois o mundo, caro leitor (você e eu) existe para admirá-los. E cuidado, senão você toma o lugar daquelas criaturas que vivem alcançando coisas ou aturando quem está hierarquicamente acima. O cara que alcança a toalhinha para o campeão de tênis, o lavrador que fica virando a forragem enquanto o repórter, de microfone na mão, explica como a coisa funciona, sem falar na plêiade de empregadas nas novelas, todas uniformizadas e aturando desaforo das starlets. Isso chama-se reiteração permanente dos papéis sociais.</p>
<p>O CORPO TODO &#8211; O gesto favorito dos nossos estadistas de estádio (como diria Ulysses Guimarães) é virar a cabeça junto com o tronco. Sinal que sugere integridade física, ou seja, não se torce o pescoço para olhar ninguém, vira-se inteiramente como a proclamar autoridade e expressar com esse gesto que se está ali para mandar e ensinar, e jamais para escutar. Nisso FHC e Lula também se parecem. A rigidez de ombros que ostentam significa que são rochedos. Em volta deles, pululam como o­ndas os ombros frenéticos da mídia, a lamber-lhes as ostras.</p>
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		<title>A INTENÇÃO EM CLAUDIA ABREU</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Dec 2009 19:11:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[TV]]></category>

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		<description><![CDATA[Atuar nem sempre significa encarnar personas, transmutar-se em personagens marcantes. Basta ficar de rosto inteiro na tela, como aconteceu num desses dias em Belíssima, em que Claudia Abreu enfrentou a ira da cunhada. Ela estava impotente diante do drama. Mas sua impotência não foi anunciada em expressões de dor ou raiva ou desencanto. Sem mover uma linha do rosto, ela simplesmente vestiu em camadas os conflitos que a levaram para aquela situação.

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Claudia Abreu não precisa das mãos, nem de sotaques, nem de máscaras. Ela não grita, não faz pose, não se agiganta. Precisa apenas do que tem e não é muito: uma beleza discreta, uma presença pequena, uma voz comum. Atuar nem sempre significa encarnar personas, transmutar-se em personagens marcantes. Basta ficar de rosto inteiro na tela, como aconteceu num desses dias em Belíssima, em que Claudia Abreu enfrentou a ira da cunhada. Ela estava impotente diante do drama. Mas sua impotência não foi anunciada em expressões de dor ou raiva ou desencanto. Sem mover uma linha do rosto, ela simplesmente vestiu em camadas os conflitos que a levaram para aquela situação.</p>
<p>Sua cara se desmanchou, não em lágrimas, porque os olhos estavam secos. O queixo não tremeu, o nariz não fungou. Ela foi se transformando numa ruína humana. Conseguiu isso apenas trabalhando a intenção. Seu sofrimento era sua impossibilidade de ação, a dúvida de que estivesse fazendo o certo para proteger os filhos, o remorso frente à evidência. São como peles transparentes que vão se superpondo no rosto desfigurado pelas emoções em transe.</p>
<p>Ela não podia chorar, nem gritar, nem pedir perdão. Não podia dizer o verdadeiro motivo da sua decisão. Não podia prometer, nem jurar, nem implorar. Ela estava presa na armadilha da farsa que precisou assumir. Sua imobilidade é a transparência total. Sem músculos da face que a apoiassem, sem rugas significativas na testa, sem brilho nos olhos, ela ficou ali por incontáveis segundos, eternos enquanto víamos não a Vitória que se decompunha, mas a atriz que atingia o estado de arte.</p>
<p>No minuto seguinte ela chorou e fez tudo a que tinha direito. Mas naquele momento em que ficou amarrada à chantagem que a prendia, em que correntes opostas se jogavam no paredão de uma aparente submissão e indiferença, sua humanidade chegou à tona por meio desse desenho que Claudia compôs como tragédia, num folhetim que é pura apelação e falsidade.</p>
<p>Tem ator ruim demais ao redor de Claudia Abreu. Os caricatos, os anódinos, as potrancas, as bibelôs, os abestalhados. Uma galeria pobre para o ofício da interpretação. Mas não é isso que transforma Claudia num destaque. Com qualquer elenco, ele faria o mesmo. O que a faz intensa e maior é essa capacidade de reduzir-se à essência da profissão, que nada mais é do que trabalhar o que existe de subterrâneo, para que a aparência, o que é visto, convença, pela força da sinceridade tomada emprestada por uma técnica.</p>
<p>Não é para qualquer um. Pois existem divas, estrelas, damas, promessas, revelações. Mas poucas pessoas como Claudia Abreu, que interpreta confiando na inteligência do espectador, que aposta no sucesso do seu recado. E que cruza o tempo mau como se ela fosse a boa notícia de uma catástrofe chegando ao fim.</p>
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		<title>OLHAR OS CONTEMPORÂNEOS</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Dec 2009 23:06:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[TV]]></category>

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		<description><![CDATA[No convívio com tantas pessoas ao nosso redor, melhor é enxergar o que melhor nos agrada, relevar as partes fracas, ser generoso nos detalhes, apostar no sucesso alheio e esperar reciprocidade. Se ela não vier, paciência. Você está no lugar exato: na amurada de um navio, tentando ver quem se aproxima na neblina. São as pessoas, com seus defeitos e qualidades. Bem-vindos todos a bordo. Mas não usem o que nos aproxima para aprofundar o que nos afasta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>O Mal está na falta de empatia, diz o personagem psicólogo da série produzida para a TV, Nuremberg, de 1999, de Yves Simoneau. Sentir-se desconfortável entre as pessoas gera maldade, segundo essa abordagem. É o que vemos diariamente. Não enxergar quem está ao seu lado ou à sua frente, preparar o bote quando ele se mostra vulnerável, apostar no pior quando se fala de alguém, são posturas recorrentes que tornam o país insuportável. É tão explícito que falar disso chega a ser insumo para mais maldade. Precisamos abrir mão de uma série de preconceitos para ver o que vai sumir com o tempo. Não adianta lamentar depois a oportunidade perdida, a de não ter lançado alguma ponte com alguém. É difícil manter a integridade quando a má-fé toma conta dos debates, e a falta de diálogo nos empurra para o isolamento. O mais difícil é que o estoque de frustrações coloca uns contra os outros. O tempo passa e nada restará a não ser ruínas. A não ser que a empatia que temos por algumas pessoas se estenda para todo o gênero humano.</p>
<p>IMAGENS &#8211; Outra observação importante do filme (que tem muita bandeirinha americana para o meu gosto, enquanto os russos, que decidiram a guerra, são apresentados como fanfarrões) é que o nazismo foi viabilizado graças à comunicação moderna. As imagens da coesão das tropas em desfile, a oratória insana do líder, os signos tomando conta das mentes, o espírito coletivo sendo conduzido para o ódio e a guerra. Como antídoto, os filmes impressionantes sobre os campos de concentração decretam a condenação dos algozes. Li montes de relatórios sobre os acontecimentos, diz o promotor interpretado (mal) por Alec Baldwin, mas só depois que vi esses filmes soube do que se tratava. A diferença entre Baldwin e um ator de primeira, que é Anthony Hopkins , é brutal. Hopkins faz apenas uma cena importante em Amistad, de Steve Spielberg. É advogado de defesa dos negros. O discurso tem bem menos impacto do que o dito por Baldwin em Nuremberg. Mas enquanto Baldwin se esganiça, deitando tudo a perder, Hopkins segura a cena de maneira magistral. Um grande ator faz a diferença.</p>
<p>FRASES &#8211; Um filme vale quando todos os seus elementos estão bem resolvidos. Os que citei acima e mais O Assalto, de David Mamet, deixam vários pontos em falso. Mamet é um roteirista fantástico, autor de frases ótimas. Vou citar algumas desse filme: &#8220;Sou tão silencioso quanto uma formiga mijando em algodão. Todo mundo precisa de dinheiro, é por isso que se chama dinheiro. Ele era bom antes de você nascer. O cara foi salvo de uma bala porque carregava uma Bíblia no peito. Se levasse também outra Bíblia na cara, estaria hoje contando a história&#8221;. Mas seu roteiro intrincado e cheio de furos estraga o filme, que tem excelentes atores, a começar com Gene Hackman (tem ainda Danny de Vito e Sam Rockwell). Assim mesmo, gosto de selecionar o que me agrada e e de me debruçar sobre obras que ficam pela metade. Tudo o que é imperfeito chama a atenção. Mas é claro que nada substitui uma obra-prima.</p>
<p>NAVIO &#8211; Talvez essa seja a saída para o convívio com tantas pessoas ao nosso redor. Enxergar o que melhor nos agrada, relevar as partes fracas, ser generoso nos detalhes, apostar no sucesso alheio e esperar reciprocidade. Se ela não vier, paciência. Você está no lugar exato: na amurada de um navio, tentando ver quem se aproxima na neblina. São as pessoas, com seus defeitos e qualidades. Bem-vindos todos a bordo. Mas não usem o que nos aproxima para aprofundar o que nos afasta.</p>
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		<title>O EXORCISMO EM CÁSSIA KISS</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 15:38:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Cássia Kiss, no papel de Mariana na novel Paraíso, da Globo, incorpora a insanidade da mãe que acredita na santidade da filha. Está obsedada pelo Mal apresentado como a intensificação do Bem. Ela se transformou naquela criatura, por isso suas falas parecem ser espontâneas (deve ter improviso, mas isso faz parte). Trata-se de uma personagem-imã, que atrai o vazio da nacionalidade ágrafa e o preenche com palavras marcadas, idéias fixas, arranques, rezas, invocações, maldições, calúnias. É assustadora.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
Cássia Kiss, no papel de Mariana na novel Paraíso, da Globo, incorpora a insanidade da mãe que acredita na santidade da filha. Está obsedada pelo Mal apresentado como a intensificação do Bem. Ela se transformou naquela criatura, por isso suas falas parecem ser espontâneas (deve ter improviso, mas isso faz parte). Trata-se de uma personagem-imã, que atrai o vazio da nacionalidade ágrafa e o preenche com palavras marcadas, idéias fixas, arranques, rezas, invocações, maldições, calúnias. É assustadora.</p>
<p>Mariana defende sua loucura em posição de combate, sempre em guarda e assim consegue dobrar quem a circunda. Todos desistem de lutar contra ela, a não ser por vias indiretas. Confrontá-la resulta no embate contra uma parede. Cássia entope a personagem dessa brutalidade para que possamos vê-la e, assim, nos livrar dela. Faz um auto-exorcismo, denunciando a obsessão como sintoma de uma doença maior, que toma conta do país. Não pode haver debate se cada indivíduo está tomado pelo fundamentalismo de suas certezas toscas, e com elas tenta manipular os semelhantes.</p>
<p>Na política, temos os eternos tungadores do dinheiro público. Na religião, os papa-bíblias com suas arengas em praça pública. Nas ciências humanas, os guetos ideológicos deglutindo teorias para o enriquecimento ilícito. Na literatura, os prêmios com cartas marcadas. Na mídia, a frescura instaurada como verdade única. Nos microfones, os falsos moralistas. Nas consultorias e auto-ajuda, os espertalhões superficiais e focados na desgraça alheia. Na educação, a burrice crescente e o analfabetismo endêmico. Nas instituições, o abandono. Nos negócios, a criminalização. Nas ruas, os assassinatos. Nas casas, os conflitos insolúveis. Na juventude, a morte em massa. Na terceira idade, a falta a de sobriedade.</p>
<p>Tudo isso conflui para uma personagem exagerada como Mariana, que não escuta, só cria monólogos, não luta pela felicidade da filha, só quer que ela cumpra o falso destino. Cássia Kiss não é apenas um destaque, é um petardo, uma bomba nuclear em meio à palermice interpretativa geral, capitaneada por Carlos Vereza, que, como o cura da aldeia, repete sua performance preguiçosa do coitadinho de voz trêmula. Cássia Kiss é o oposto. Ela mergulha fundo na sua obsessão, fazendo um contraponto poderoso numa narrativa frouxa, proposital para o horário, onde, acreditam os executivos da televisão, só existe abombado(a) sentado(a) em frente à telinha.</p>
<p>Suas conversas com a santa, suas orações autistas, as certezas criminosas, os monólogos aos arranques, a coerência de uma psicopata dão firmeza ao personagem, único rochedo em meio à maresia, onde o resto dos atores e atrizes, com algumas exceções, se escudam no falso sotaque caipira e choram o tempo todo. Os homens são uns bobalhões de chapéu de cowboy, menos o Reginaldo Faria, que tanto pode ser Brás Cubas quanto aquele coronel de fala mansa e dura da novela. Reginaldo poderia muito bem assumir uma fazenda e dar ordens, que todos obedeceriam; o cara detona.</p>
<p>As mulheres são umas frangas fofoqueiras &#8211; com exceção da Fernanda Paes Leme (na foto ao lado), subaproveitada no papel de filha do prefeito e que poderia fazer um estrago se tivesse admirador do gênero na direção. Com Fernanda em cena, há sempre graça e contenção. É uma interpretação suave, bem feita, mas que aparece pouco. Fica o &#8220;fio do demo&#8221; tomando conta de tudo, aquele bananão.</p>
<p>Cássia Kiss diz que para ela não tem personagem menor. Gosta de pegar um papel de pouca importância e arrasar. No caso de Mariana, é uma peça chave da novela. Ela aproveita ao máximo. Tira leite de pedra. Há espaço para a interpretação de nível mesmo em espaços condenados. Achei que Paraíso copiava a novela Cabocla. É pior: copia a própria novela Paraíso, de anos atrás. Sorte que tem Cássia Kiss para virar a mesa. Pode parecer óbvio fazer a beata louca. Pode parecer um lugar comum. Mas nesse caso, não é. Cássia manda ver na sua arte e quem ganha é o público.</p>
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		<title>O QUE NOS DIZ “NO LIMITE”</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 15:10:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O programa global “No Limite” – e seus clones nas redes circunvizinhas – é a visão asquerosa da pobreza. De que se trata o show de brutalidades? De separar pessoas bem nutridas de seus bens, de seus ambientes, de suas casas, suas vidas e confiná-las numa situação de miséria. Não se trata de promover o “contato com a natureza”, mas sim de jogar a classe média (para assustá-la e assim mantê-la no redil) na pobreza, onde terão direto a viver todas as distorções da percepção da sociedade de classes brasileira. Ali as mulheres não se depilam, ninguém passa desodorante, todos comem porcarias e obedecem cegamente a um mestre de cerimônias que representa a opressão tirânica dos velhos feitores, os que se comprazem em humilhar os escravos para exibi-los como troféus.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
A sociedade de classes, no Brasil, é o inferno. Uma vez, vi num baile infantil no clube Pinheiros em São Paulo, uma criança negra uniformizada de empregada acompanhando uma sinhazinha. Era a “fantasia” real da criada, seu passaporte para o evento da classe média metida besta, pois sem esse hábito jamais poderia freqüentar os salões privilegiados. Vestindo a roupa da servidão, podia. Essa é a radicalidade da nação que não permite ascensão social, a não ser por meio do acesso ao butim, como vemos a canalha petista atualmente se servindo do dinheiro público, assim como fizeram peemedistas no governo Sarney e tucanos no de FHC.</p>
<p>Quem vive nos andares de cima, desconhece completamente o que se passa embaixo. Para isso existe o preconceito de berço, que faz, desde cedo, uma criatura de uma classe social mais alta, ainda engatinhando, torcer naturalmente o nariz quando vê alguém saindo do elevador de serviço. Como desconhecem completamente a vida das classes oprimidas, cria-se uma série de ilusões sobre elas. Essas ilusões são reforçadas por reportagens que reiteram o Mesmo, pois essa é a forma de consolidar a percepção equivocada sobre o Outro pobre, aquele tipo de pessoa que é chamada de “essa gente”.</p>
<p>Pobreza, no Brasil, é relacionada com a sujeira. Nunca viram uma casa de chão batido, varrido até o osso, com panelas areadas e tudo organizado no capricho. Não reconhecem, na pela escura, o asseio. Não imaginam uma refeição saborosa feita com poucos recursos. Desconhecem a dignidade de quem tem vergonha de abrir as portas da sua residência não porque esteja tudo ensebado, mas porque os pobres sabem o horror que é o olhar demolidor de um brasileiro esnobe diante da realidade da má distribuição de renda.</p>
<p>O programa global “No Limite” – e seus clones nas redes circunvizinhas – é exatamente essa visão asquerosa da pobreza. De que se trata o show de brutalidades? De separar pessoas bem nutridas de seus bens, de seus ambientes, de suas casas, suas vidas e confiná-las numa situação de miséria. Não se trata de promover o “contato com a natureza”, mas sim de jogar a classe média (para assustá-la e assim mantê-la no redil) na pobreza, onde terão direto a viver todas as distorções da percepção da sociedade de classes brasileira. Ali as mulheres não se depilam, ninguém passa desodorante, todos comem porcarias e obedecem cegamente a um mestre de cerimônias que representa a opressão tirânica dos velhos feitores, os que se comprazem em humilhar os escravos para exibi-los como troféus.</p>
<p>Qual o prêmio para quem conseguir sobreviver num grupo que depende visceralmente da violência uns contra os outros e do egoísmo? Dinheiro, ou seja, a volta ao status de classe média. Você vai lá, chafurda na lama, come porcaria, fede até não poder mais e se conseguir agir como um pobre, destruindo os outros, então será premiado, poderá escapar do gueto. Não existe talvez algo mais perverso, a não ser sua matriz, o BigBrother, do que essa perda de tempo televisiva, inoculada como vírus mortal na cidadania desarmada.</p>
<p>“No Limite” reflete o estágio atual do Brasil, em que as pessoas, desprovidas de uma sociedade organizada nos princípios da solidariedade e da ética, se jogam como cães no primeiro butim que lhe atiram. Para isso se sujam e rosnam, ferozes, para quem se aproximar. Há também o fator fingimento, os namoros forjados e a exibição de corpos numa arena menos digna do que a dos gladiadores. No Coliseu, os guerreiros escravos tinham alguma chance. Em &#8220;No Limite&#8221;, ninguém vale um real furado.</p>
<p>Até quando? Até quando durar a atual ditadura.</p>
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		<title>ESCUTE BELCHIOR, O QUE ANDA SUMIDO</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 15:04:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[TV]]></category>

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		<description><![CDATA[Em todas as suas letras, Belchior dá seu principal recado, sintetizado nestes versos: “Eu não estou interessado/ Em nenhuma teoria/ Nem nessas coisas do oriente/ Romances astrais/ A minha alucinação/ É suportar o dia-a-dia/ E meu delírio/ É a experiência/ Com coisas reais...” O incrível é que agora querem saber apenas onde anda, para solucionar o mistério e não para decifrar seu enigma. Continuam não querendo saber como ele anda, como é ou foi seu caminho, o que percorreu com sua arte.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Aconteceu de verdade. Eu trabalhava na Ilustrada da Folha de S. Paulo, lá por 1976/77. Estava chegando na redação da Barão de Limeira para mais uma tarde de trabalho quando Belchior, que estava passando na calçada, saindo do jornal, chegou para mim e disse: “Nei, li Outubro em Porto Alegre na casa de uma amiga, gostei muito mas não consegui levar o exemplar, a dona não deixou. Você consegue um para mim?” Eu tinha lançado meu livro de estréia um ano antes e recebia ali, por parte do grande poeta que hoje anda sumido, uma demonstração de apreço, reconhecimento e consideração tão raro quanto improvável. Parece um sonho, mas é fato. Nem lembro direito o que disse para este que é o mais radical artista da música popular, mas enviei um livro autografado mais tarde. E nunca mais nos falamos.</p>
<p>Assim como surge, Belchior vai embora. Tem motivos de sobra. Vá a esse <a href="http://letras.terra.com.br/belchior/">endereço</a> e reviva todos seus grandes clássicos e me diga se não tem razão em fazer o que o Fantástico revelou no domingo, 23 dde agosto de 2009. Belchior deixou imóveis com tudo dentro, com contas a pagar, um automóvel estacionado no aeroporto de Congonhas, que já soma 18 mil em dívidas, não liga nem escreve para ninguém conhecido e, segundo alguns fãs, é visto no Chile, no Uruguai, em Salvador desde quando deixou de aparecer e de atender as solicitações de shows, isso já faz dois anos. Bem que ele avisou em seus versos: “Gente de minha rua/ Como eu andei distante/ Quando eu desapareci”</p>
<p>Vamos imaginar que não aconteceu o pior (não seria o caso de acionar o setor de Pessoas Desaparecidas?), que Belchior não esteja no outro lado nem precisando de ajuda e que apenas cumpriu sua própria profecia, fruto de sua radicalidade em não compactuar com o sistema de ilusões e sacanagens que nos envolveu nos último 45 anos. Em todas as suas letras, Belchior dá seu principal recado, sintetizado nestes versos: “Eu não estou interessado/ Em nenhuma teoria/ Nem nessas coisas do oriente/ Romances astrais/ A minha alucinação/ É suportar o dia-a-dia/ E meu delírio/ É a experiência/ Com coisas reais&#8230;” O incrível é que agora querem saber apenas onde anda, para solucionar o mistério e não para decifrar seu enigma. Continuam não querendo saber como ele anda, como é ou foi seu caminho, o que percorreu com sua arte.</p>
<p>Com seu talento ele chamou a atenção de Elis Regina (que por um tempo lhe deu visibilidade), mas isso foi apenas um passo, não resume sua grandeza. Belchior é muito maior do que a percepção que temos dele. Pode ser tarde demais, talvez tenha mesmo desistido de nos falar o que sempre nos disse com todas as letras. Mas não importa. É hora de escutá-lo de novo: “Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso/ Eu vos direi no entanto:/ Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não/ Eu canto.” Por ser completo, Belchior também não se limitou a essa insistência sobre a necessidade de nos transformar, de nos expressar, de superarmos o passado, de resgatar o que perdemos, de apontar para o futuro. É também e principalmente um cantor do amor e seus desdobramentos: “Deixando a profundidade de lado /Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia/ Fazendo tudo de novo e dizendo sim à paixão morando na filosofia”.</p>
<p>Belchior também carrega nos seus versos, nas suas músicas, nas suas interpetações, as citações do que lhe emociona e faz a cabeça. Ninguém cita tanto quanto ele. Faz referências a Caetano Veloso (seu Outro em negativo), Poe, Lorca, John Lennon, João Cabral. Nascido e criado no Ceará, tendo vindo para o Sul, Belchior não cai nas armadilhas dos lugares comuns da “gente do sertão” e levanta a voz contra a mesmice da nossa percepção, em que colocamos essa dualidade entre uma parte rica do Brasil em confronto com a parte pobre. E debocha, com lirismo e grande metáfora: “Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade,/ disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade”.</p>
<p>É impressionante a quantidade de obras-primas produzidas por Belchior ao longo de sua vida. Para quem, como ele, extrapolou todos os limites da canção, inaugurou um novo canto, alertou sobre os pesadelos que nos assassinaram, que cantou o amor sem fechar os olhos, que carregou esse andor pesado pelo país em ruínas, é compreensível que tenha abandonado tudo e saído porta afora. Só rezamos para que ele continue em algum lugar, vivo. &#8220;O passado é uma roupa que já não serve mais&#8221;.</p>
<p>Mas a verdade, Belchior, é que todos nós sumimos. Fomos soterrados pela incúria, a inveja, a mediocridade, a brutalidade, a dor, a morte da esperança. Fomos destruídos, jogados fora, esquecidos. E agora que estamos sumidos querem nossas pistas. “Anjos mexem nos armários/ procuram pálidos/ o que perdi na aventura trágica” como digo num poema em Outubro. O mesmo livro que te emocionou e que ainda espero conversar sobre ele e sobre a tua poesia. Pois se tudo some pelo ralo, fica a nossa voz e a vontade do reencontro.</p>
<p>Como você mesmo diz: “O que é que eu posso fazer/ com a minha juventude/ quando a máxima saúde hoje/ é pretender usar a voz?/ O que é que eu posso fazer/ um simples cantador das coisas do porão?/ Deus fez os cães da rua pra morder vocês/ que sob a luz da lua,/ os tratam como gente &#8211; é claro! &#8211; a pontapés.”</p>
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		<title>PARADIGMAS EM “CARAS E BOCAS”</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 14:53:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na novela, a heterossexualidade é contaminada pela desconfiança, a chantagem, o ódio mútuo ou pelo esforço chato e inútil de gerar uma criança. Ou simplesmente nojenta, como acontece com o mau-caráter que a todas seduz com sua lábia, como a provar que relacionamento com mulher é sempre suspeito. Em contraponto, a homossexualidade é lúdica, bizarra, circense, ingênua e amorosa e atinge a maioria dos personagens, à revelia deles ou não. Os dois funcionários do bar (que chamam o galã de “patrãozinho”) estão sempre de avental brincando de se pegar; o amante e o marido da baiana são flagrados por ela abraçados na cama.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Como novela é considerada perda de tempo, e é verdade, já que substitui atividades mais proveitosas, como ler livros importantes, ver filmes antológicos, criar alguma coisa, vou elencar em itens o que vejo nessa “obra” escrita por Walcir Carrasco e dirigida por Jorge Fernando. Os paradigmas insuflados pela novela são estes, muito bem expostos e repisados na trama:</p>
<p>1. O marido corno é, no fundo, homossexual, pois se traveste de gueixa, baiana, perua, para tentar flagrar a mulher com o falso irmão, colocado pela mulher dentro de casa sob o álibi de ser da família, quando não passa de amante. Está na cara de todo mundo, menos do maridão enrustido, que não perde ocasião de colocar uma saia. Talvez ele já esteja convencido da sua homossexualidade, apenas usa o relacionamento dos dois para se vestir de mulherzinha, que é, no fundo, o que sempre desejou.</p>
<p>2. O garoto bobão é, no fundo homossexual, por isso aceita ser vestido de mulherzinha para agradar seu pretenso objeto de desejo, a garota arrivista e pragmática, que faz dele gasto e sapato. Os gestos atrapalhados, a gagueira, o jeito meio afrescalhado sugerem que ele pode servir de divertimento para homossexuais adultos que estão no poder na novela e gostam de ver adolescente usando saia florida.</p>
<p>3. O marido da vilã dominadora é, no fundo, homossexual, pois é destratado pela mulher de todas as maneiras e nem quando sabe do caso que ela tem com seu assessor deixa de ser o bobalhão que é. Não toma atitude, não rompe, fica sempre à mercê das ordens dela, como o filho homossexual dominado pela mãe castradora.</p>
<p>4. O “bofe escândalo”, amante da perua passadaça, é explicitamente homossexual, mas surpreende com o relacionamento hetero, apesar de a toda hora ter recaídas, quando toca em algum galã ou suspira diante de homens considerados, pelos mandões da novela, bonitos (são apresentados como irresistíveis).</p>
<p>5. A heterossexualidade é contaminada pela desconfiança, a chantagem, o ódio mútuo ou pelo esforço chato e inútil de gerar uma criança. Ou simplesmente nojenta, como acontece com o mau-caráter que a todas seduz com sua lábia, como a provar que relacionamento com mulher é sempre suspeito. Em contraponto, a homossexualidade é lúdica, bizarra, circense, ingênua e amorosa e atinge a maioria dos personagens, à revelia deles ou não. Os dois funcionários do bar (que chamam o galã de “patrãozinho”) estão sempre de avental brincando de se pegar; o amante e o marido da baiana são flagrados por ela abraçados na cama.</p>
<p>6. Todos estão á venda, vítimas da garota ambiciosa que compra e chantageia todo mundo, da vilã que quer dirigir a grande empresa, do executivo gordo e canalha que a toda hora dá um golpe. Os amigos traem, as ex-mulheres sacaneiam, a apaixonada compra o marido por meio de um contrato draconiano, a enfermeira é uma espiã, o assessor é bandido, o pintor falsifica, os namorados mentem, o avô manipula.</p>
<p>7. A arte e os artistas não prestam. Quadros modernos podem ser feitos por macacos. Basta jogar uns baldes de tinta nas telas e dar umas pinceladas a esmo, aos guinchos. Isso deslumbra o mercado de arte, feito por babacas idiotas e cheios da grana.</p>
<p>Chega? “Não tem nenhuma”, como costumam dizer. Isso é inoculado para milhões de pessoas, todos os dias, de maneira divertida. É tão gostoso deixar-se levar pela baixaria! Solidariedade, talento, seriedade, grandeza, tudo isso não vale nada. São princípios perigosos. Se estivessem em vigor no país, a mediocridade criminosa não tomaria o poder para sempre, como aconteceu no Brasil.</p>
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		<title>ANJOS NA AMÉRICA: A PALAVRA E A CORAGEM</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jun 2005 00:23:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A premiada série da HBO Angels in America impressiona pelo impacto visual, a performance dos atores, a crueza e qualidade dos diálogos, a intensidade do desespero, a abordagem de temas aterradores e a aposta na esperança em pleno Apocalipse. É o que a arte americana tem a nos oferecer.
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
A premiada série da HBO <em>Angels in America</em> impressiona pelo impacto visual, a performance dos atores, a crueza e qualidade dos diálogos, a intensidade do desespero, a abordagem de temas aterradores e a aposta na esperança em pleno Apocalipse. É o que a arte americana tem a nos oferecer.</p>
<p>DELÍRIO &#8211; A palavra é o delírio seminal. A partir dela, os anjos da América mergulham no horror, na coma dos condenados. A peça de Tony Kushner, que virou mini-série dirigida por Mike Nichols, bate na civilização das aparências, desmascarada pela peste. Sem nada a perder, os que vão morrer passam por três processos: ao descobrirem a condenação, reagem com ironia; ao se convencerem da morte certa, entram em parafuso; ao cruzarem o umbral da agonia, se resignam; e ao enfrentarem o tribunal da passagem para a eternidade, cobram.</p>
<p>O maior ator do mundo, Al Pacino, e o festejado ator de teatro Justin Kirk, estão magistrais em cada uma dessas fases. Ao redor dos moribundos, brilha a estrela maior, Meryl Streep, o talento e a contundência de Jefrey Wright e mesmo Emma Thompson, sempre tão previsível, neste trabalho também participa da galeria de grandes interpretações. Trata-se de uma arte que não foge da raia, que enfrenta seus demônios sem pedir misericórdia, apostando alto na humanidade dos seus personagens, colocando para fora o que parecia estar oculto. Uma lição de coragem para nós, brasileiros, que sempre escorregamos pela tangente quando se trata de pegar o touro a unha.</p>
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		<title>SEINFELD: A PERIFERIA CULTURAL NO CENTRO DO PÓS-CAPITALISMO</title>
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		<pubDate>Fri, 13 May 2005 23:29:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Amizade, em Seinfeld, é o último refúgio do canalha. Especialmente para quem foge do relacionamento amoroso, como Jerry e Elaine, que acabam amigos quando o individualismo faz fracassar o namoro. Ou como George, que mantém-se no grupo num comportamento esquizofrênico: está noivo de Susan, mas não permite que o universo da relationship (palavra chave da mídia americana) interfira no bem-bom da irresponsabilidade entre "amigos".]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/icons/seinfeld_logo.gif" border="0" alt="" /></p>
<p>Nei Duclós</p>
<p>Amizade, em Seinfeld, é o último refúgio do canalha. Especialmente para quem foge do relacionamento amoroso, como Jerry e Elaine, que acabam amigos quando o individualismo faz fracassar o namoro. Ou como George, que mantém-se no grupo num comportamento esquizofrênico: está noivo de Susan, mas não permite que o universo da relationship (palavra chave da mídia americana) interfira no bem-bom da irresponsabilidade entre &#8220;amigos&#8221;. Ou como Kramer, vampiro de Jerry, que usufrui o espaço e a geladeira do apartamento dele junto com as sobras dos seus casos, sem jamais se envolver com alguém.</p>
<p>Essa fuga permanente acaba fortalecendo, de maneira patogênica, a amizade dos quatro personagens, que precisam uns dos outros. A natureza humana gregária sempre dá um jeito de driblar o isolamento, mesmo que este seja voluntário. Fica engraçado porque a situação é assumida sem culpa, como se os valores, enfim, pudessem ser erradicados junto com a consciência. O humor também é gerado pelo contraste entre a superficialidade do grupo &#8211; tornada séria pelas circunstâncias -e a seriedade dos seus familiares &#8211; tornada superficial pelo longo tempo de relacionamento</p>
<p><img src="http://consciencia.org/neiduclos/imagens/fotos/seinfeld.jpg" border="0" alt="" align="left" /> A briga entre Jerry e George com seus respectivos pais é a lembrança permanente da transição entre o núcleo familiar obsoleto &#8211; a velhice reduz a velha família a um casal neurótico &#8211; e o novo núcleo social, representado pelo grupo de Seinfeld, que se alimenta dos excessos da sociedade da pujança descartável. Ninguém tem uma profissão séria &#8211; todos rodam entre a preguiça, o desemprego e o sub-emprego &#8211; e o fato de Jerry ser comediante é, neste sitcom, uma óbvia metáfora. Eles se ocupam da periferia dos produtos da indústria cultural -o que há de mais consumível entre festas e filmes &#8211; e qualquer tipo de profundidade assusta.</p>
<p>Funciona também o humor que surge desse distanciamento total da atitude cultural. No fundo, eles são personagens culturais sem cultura, ou seja, tão reais quanto a maioria dos habitantes das megalópoles &#8211; iludidos de que vivem uma vida especial. Desenraizados, cínicos, indifirentes, eles conhecem, entretanto, todos os rituais do politicamente correto, não para contraporem à própria crueldade, mas como parte do show particular de cada um. Eles aprenderam todos os códigos dessa insanidade urbana e a desmascaram a todo momento, pois o que se sobrepõe a tudo é o instinto predador da individualidade.</p>
<p>Extra-oficialmente, o egoísmo é incentivado pelo ambiente no que este tem de pior. A grosseria do pós capitalismo (a pax americana imposta pela força em todos os mercados do mundo), exatamente por ser explícita, gerou seu placebo, o fingimento pseudo correto. O humor em Seinfeld deriva da consciência da fragilidade da situação. Os personagens, acobertados pelo mútuo consentimento, agem sem máscara na certeza da impunidade. Aqueles personagens coadjuvantes que fazem parte do tecido de relações &#8211; como o vizinho carteiro Newman e os chefes no trabalho de Elaine e George &#8211; competem em insânia, como a reforçar a inversão dos valores que se concentra no apartamento de Jerry.</p>
<p>O desfecho trágico do sitcom &#8211; que ganhou todos os prêmios e bateu todos os recordes de audiência entre 1989 e 1997 -, com a prisão do grupo, foi a maneira mais fácil que os autores &#8211; o próprio Seinfeld mais Larry David &#8211; encontraram para safar-se das responsabilidades. Simplesmente os encarceraram, como fariam Jerry, George, Elaine e Kramer se tivessem oportunidade. Mais uma vez, prestaram contas para o politicamente correto e saíram com as burras cheias de dinheiro.</p>
<p>Mais genial impossível.</p>
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