CONSENSO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Política    152 visitas    Print This Post  

Nei Duclós

As palavras são expulsas de seus significados originais ou embaladas para prestar novos serviços. “Conteúdo”, por exemplo. Dez anos atrás era água num copo, agora é nota sobre celebridade. “Consenso” virou moda quando a ditadura precisou se consolidar depois de vários estragos. Os maganos se uniram e criaram o centrão de direita, que atropelou a emenda das Diretas Já e empossou no Planalto o atual presidente do Senado.

Hoje, o conteúdo do consenso é a chamada democracia, a que viveu à sombra da especulação financeira até o mercado explodir e ser chamado de bolha. Dois comediantes ingleses, em vídeo espalhado pela rede, mostram como se faz uma crise. Basta empacotar mentiras, vender por um bilhão de dólares e depois exigir ressarcimento por perdas e danos. Contra isso nenhum poder “democrata” foi contra. Ao contrário.

Quando um presidente pretende se perpetuar no cargo e para isso compra os congressistas ou convoca um plebiscito ilegal, é de se perguntar se essa democracia cevada no império da ciranda financeira não estaria revertendo o uso das palavras por puro interesse. É um trabalho possível, já que na indústria cultural visível (e patrocinada) foi erradicado o desmascaramento do sistema. É lei: humorista de TV se veste de mulherzinha, ponto.

Rir do poder era a forma de manter saudável a mente da cidadania expurgada de direitos básicos. O escracho e a crítica política, que tomam conta de milhões de espaços criados na internet, não chegam ao osso do sistema por excesso de dispersão. Permanece assim intacto o voto manipulado pelo marketing milionário e o rodízio de duas forças políticas idênticas, mas aparentemente antagônicas. Quando vemos ex-adversários de campanhas gargalhando juntos nos palácios republicanos, perguntamos por que nos submetemos ao novo voto de cabresto, o voto útil.

Para manobrar consciências, é convocada a antiga divisão legislativa, em que a situação ficava à direita e a oposição à esquerda. Levantar a hipótese de que estamos sendo manipulados por palavras soa como a verdadeira ingenuidade. Fica mais cômodo ceder à indiferença e deixar como está. As palavras acabam prisioneiras dessas caricaturas que ocupam o noticiário distorcendo tudo, para que saiam vencedores e se mantenham à tona até o final dos tempos.

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