DISTORÇÕES

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

Quando era proibido ter dúvidas e ninguém podia desconfiar de nada, o mundo se assentava em princípios eternos. Eles foram varridos mais tarde quando Baudelaire publicou suas “Flores do Mal” e Marcel Duchamp decidiu que seu mictório era arte. A diferença entre tradição e ruptura gerou impasses. Uma poltrona antiga foi concebida para sentar, um celebrado banco de design ultra chic é feito para expor. Uma obra de Oscar Niemeyer é um encanto para os olhos, mas vai passar uma tarde de verão nos seus ambientes de concreto.

Na poesia, é infinita a capacidade de produzir coisas sem nenhum significado. O romance chegou a perder a linhagem narrativa, que fazia a cumplicidade entre a curiosidade do leitor e a maestria do autor. Retomou, mas com excesso de pipas e Kabul. O cinema é um espanto. Mata-se milhões em frente às câmaras para públicos cada vez mais anestesiados.

Se o cinema de autor começa a dar sinais de vida, ele chega sem a radicalidade que o definia. Passou a fase de obras-primas insuperáveis, que entrou em descenso a partir do aperto sobre a Sétima Arte, indústria estratégica por excelência. Todos tiveram chances de produzir seus filmes de propaganda, a exemplo do modelo hitlerista. CIA, FBI, Pentágono, Marinha, Serviço Secreto, lobby dos advogados contrataram estrelas, diretores e roteiristas por milhões para provarem como são necessários à humanidade.

Enquanto isso, fica no limbo filmes fundamentais como “O Intendente Sansho”, de Kenji Mizoguchi, ou “O Barba Ruiva”, “Céu e Inferno” e “Cão Danado”, de Akira Kurosawa. A majestade em Luchino Visconti, a erudição em Godard, a grandeza épica em David Lean, a civilização popular em Vittorio de Sica, o mágico realismo em Fellini, tudo ficou para trás. Hoje, arte em cinema é alvo de deboche. Triunfou a nulidade posuda de filmes pomposamente descartáveis e de bilheteria fácil.

Os mestres são esquecidos, enquanto cresce a corrida arrivista. A vanguarda foi clonada pelo oportunismo. Perdeu-se a capacidade de somar, unindo o acervo acumulado e as experimentações. Faz falta sentar num tradicional banco de praça. Haveria algo mais inovador do que usufruir, sem medo e com relativo conforto, uma porção do espaço público?

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