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	<title>Nei Duclós</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>CAMPANELLA: TRÊS VIAGENS NUM CARROSSEL</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 02:07:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós
O segredo dos seus olhos, melhor filme estrangeiro no Oscar 2010, de Juan Jose Campanella, é a composição de uma peça clássica em três movimentos. É um filme de amor dentro dos parâmetros conhecidos, ou seja, um casal próximo demais que não consegue se tocar durante o filme todo e só encontra uma solução [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p><em>O segredo dos seus olhos</em>, melhor filme estrangeiro no Oscar 2010, de Juan Jose Campanella, é a composição de uma peça clássica em três movimentos. É um filme de amor dentro dos parâmetros conhecidos, ou seja, um casal próximo demais que não consegue se tocar durante o filme todo e só encontra uma solução no final. É um filme policial seguindo os trilhos do filme noir, onde um investigador solitário procura saber algo que todos querem esconder. E é um filme político, na linhagem das grandes obras do gênero, pois denuncia a origem da injustiça nas tramas do poder, e não na natureza humana.</p>
<p>A demonstração de força de um assassino estuprador diante de dois funcionários da Justiça, num elevador fechado, é a cena mais assustadora do filme. O bandido foi descoberto numa investigação criminal, mas está solto graças aos bons serviços de deduragem para a ditadura argentina. Quem treme não é o criminoso, mas as pessoas pagas pelo Estado para fazer valer a lei. Essa é a fonte da tragédia: o país condena as vítimas e estimula os algozes. O resultado é uma sociedade amordaçada, amores frustrados, casamentos partidos, processos arquivados.</p>
<p>Essa três viagens estão imbricadas de tal forma que não se distinguem os limites de cada gênero funcionando na trama. Assim como não existe hegemonia de um vetor cinematográfico sobre o outro, não existe também o vício fatal de focar tudo num só protagonista. Mesmo que a sobriedade, a seriedade, a gravidade e o carisma desse ator fundamental que é Ricardo Darin, no papel do investigador Espósito, costure todo o filme, ao lado da performance avassaladora de Soledad Vilamil no papel de sua chefe Irene, cada personagem ganha status de protagonista no carrossel de Campanella, que gira o prato diante da câmara e nos revela o quanto vale o indivíduo numa sociedade onde ele costuma sumir.</p>
<p>Guillermo Francella no papel do companheiro de Espósito, o bêbado Sandoval, é o “escada” que toma as rédeas da trama quando decifra o código do esconderijo do assassino. É o companheiro desesperado e fiel que assume a identidade do amigo tanto para escapar da vida insuportável como para livrar o outro de um assassinato. Pablo Rago como o viúvo Morales é o alter ego de Espósito quando este se aposenta e resolve escrever um romance sobre o caso da bela esposa violentada. Assume o comando várias vezes no filme, quando desperta em Darin a intensidade da sua concentração, em momentos de grandeza inigualável no cinema contemporâneo.</p>
<p>Javier Gondino como o criminoso Gómez é o bruto que, por vaidade, se entrega na hora do interrogatório, quando Irene, de propósito, faz pouco de sua macheza. Ele se trai quando mostra, nas fotos, sua obsessão pela vítima, pois os olhos falam e fazem Justiça quando tudo mais falha. José Luis Gioia, como o vingativo Inspetor Bañez, o corrupto que se beneficia da ditadura, assume a cara monstruosa da repressão no momento em que mais se precisava da lei.</p>
<p>Cada momento do filme, que se desdobra em três caminhos entrelaçados, ganha assim a riqueza de personagens diferentes, assumidos por grandes intérpretes. Os olhos são a pista que atrai o investigador, pois é a radicalidade do amor revelada no rosto do viúvo que o leva a perseguir o assunto até descobrir tudo sobre si mesmo.</p>
<p>Mas devemos abrir um claro para falar mais de Darin. Notamos como os mais notórios atores de hoje transparecem o esforço que fazem para trabalhar. De Niro extrai suas expressões no fórceps. Brad Pitt tem valor, mas basta se distrair um pouco para sua massa física se diluir na tela. Bem Affleck é um dos milhares bonecos de Hollywood que somem junto com o que faz. Phillip Seymour Hoffman é brilhante, mas deixa a afetação tomar conta dos seus papéis.</p>
<p>Em contrapartida, vejam Ricardo Darin neste e nos outros filmes, como Nove Rainhas ou O Filho da Noiva. Parece fácil fazer o que faz, mas tudo é fruto de vocação, talento e intensa elaboração. Quando medita, quando vê, quando aguarda, quando está indeciso e, especialmente, quando se ilumina, ficamos em frente ao grande ator do nosso tempo. É difícil de provar essa afirmação, num universo que tem Al Pacino entre outras estrelas. Mas voto em Darin. Nunca decepciona e sempre comparece com o melhor de sua arte. Não é pouco, neste mundo vazio que clama por espíritos habitados.</p>
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		<title>DESPLANTE</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 02:05:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós 
O comportamento agressivo é fruto da indiferença. O mau exemplo vem de cima e se espalha até atingir o episódio mais ordinário. A pessoa que atravanca o caminho fazendo cara de paisagem, enquanto ao redor todos se esforçam para manobrar, mostra que o tecido social ultrapassou o limite do egoísmo. O que temos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós </strong></p>
<p>O comportamento agressivo é fruto da indiferença. O mau exemplo vem de cima e se espalha até atingir o episódio mais ordinário. A pessoa que atravanca o caminho fazendo cara de paisagem, enquanto ao redor todos se esforçam para manobrar, mostra que o tecido social ultrapassou o limite do egoísmo. O que temos é algo mais intenso, uma crueldade endêmica, que coloca no mesmo reduto a gang incendiária e o sujeito convencido de sua boa índole, enquanto exerce seu direito de colocar o som hediondo para atormentar a vizinhança.</p>
<p>Temos muitos suspeitos na origem do drama. Prefiro destacar a ausência do remorso. Não há mais culpa, base de uma vida espiritual consciente do ônus de compartilhar com o próximo o mesmo espaço terreno. Identificada pela psicanálise, a culpa acabou sendo erradicada pela sociedade do espetáculo, que precisa da falta de cidadania para empurrar toda tralha de consumo. Não há mais amargura depois da maldade, estimulada para que todos possam devorar o mundo em busca da realização ou do gozo.</p>
<p>O desplante atinge todas as idades e congestiona o tráfego das ações humanas. Usa-se o que está aparentemente disponível e joga-se os resíduos fora. O álibi perfeito para isso é o sentimento de injustiça. Como as autoridades estão sendo investigadas por desvio de dinheiro, as famílias se estraçalham por motivos variados e a educação marca passo entre o discurso politicamente correto e o caos na sala de aula, então tudo está permitido. Agir errado é a vingança dos que encaram o mundo como a prova definitiva de uma perseguição pessoal.</p>
<p>Vemos assim o chamado motivo fútil assomar no noticiário cada vez com mais freqüência. Um deslize de alguém ao lado pode significar a soma de todos os erros detectados ao longo de uma vida. Nem precisa de uma arma para desencadear a ocorrência. Uma janela que não fecha direito, um olhar atravessado, um empurrão involuntário, tudo é motivo para que o muro entre as pessoas desabe sobre corpos expostos à hostilidade triunfante.</p>
<p>Essa constatação assustadora não pode gerar desesperança, que também é insumo para atos desumanos. O único cuidado é não dourar a evidência com a ilusão. Basta entender como o processo funciona e, munido pela racionalidade, investir sentimento no convívio com o semelhante.</p>
<p><em>Crônica publicada no dia 9 de março de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.<br />
</em></p>
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		<title>CAMERON E BIGELOW: CÓDIGOS DA DOR, A BOMBA LACRADA</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 02:03:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós

O Oscar 2010 terminou com a vitória de Kathryn Bigelow, diretora de The Hurt Locker, que tinha sido desprezado, lançado direto nas locadoras e tardiamente incluído no circuito dos cinemas, de onde pulou para a seleção e a dupla vitória (filme e direção). Seu ex-marido, James Cameron, diretor de Avatar, grande promessa da noite, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
O Oscar 2010 terminou com a vitória de Kathryn Bigelow, diretora de The Hurt Locker, que tinha sido desprezado, lançado direto nas locadoras e tardiamente incluído no circuito dos cinemas, de onde pulou para a seleção e a dupla vitória (filme e direção). Seu ex-marido, James Cameron, diretor de Avatar, grande promessa da noite, saiu lambendo as feridas. De que tratam as duas obras? Sobre a dor provocada pela sinuca de bico onde os americanos se meteram com sua civilização voltada para a guerra. Duas abordagens opostas, que invadem a reflexão contemporânea, já que reflexão não precisa de convite.</p>
<p>The Hurt Locker significa uma dor intensa impossível de ser adiada. O filme trata dos esquadrões especializados em desarmar bombas na guerra do Iraque e a demência que isso provoca. A câmara no ombro e diálogos obsessivos revelam personagens insanos palmilhando o território conflagrado e tentando justificar a invasão, como se a liberdade estivesse fazendo uma visita ao fundamentalismo obscurantista. Mas sabemos do que se trata: do armário lacrado (locker) onde a dor, o ferimento, a mágoa (hurt) estão encerrados. Trata-se de uma bomba que não pode ser desmontada. Não há especialista que dê conta.</p>
<p>Por ser completamente tomado pelo seu ofício, o oficial que desarma bombas torna-se prisioneiro da atividade e dela não consegue sair, mesmo depois de ter voltado para a família. A vida doméstica não faz sentido para quem está treinado para não deixar que os artefatos expludam destruindo tudo ao redor. Ele testa a adrenalina metendo a mão na massa de maneira desassombrada, surpreendendo e enlouquecendo seus companheiros. Quando um dos seus parceiros é gravemente ferido, o acusa de espichar o limite até o extremo só para satisfazer a vontade de ação compulsiva.</p>
<p>A história desse soldado louco é a representação da ação americana no Oriente Médio. Massa de manobra da política e da indústria petrolífera, as Forças Armadas desenvolvem no front uma percepção corporativa do conflito. Tudo se resume a bombas, explosões, tiros, luta pela sobrevivência. Não há enfoque político, território pantanoso onde a farda aparentemente não se mete. Há o envolvimento institucional com a tal liberdade, mas o que impera é o espírito de grupo, ou de corpo, onde a obediência cega às ordens é o único valor diante de um inimigo que se mistura a uma população pacífica.</p>
<p>Avatar é sobre o fim do militarismo tradicional americano, que por sua vez é retratado no filme de Bigelow. Propõe a substituição por outro tipo de conflito, fundado na transfusão genética, nas ciências ecológicas, na devoção à natureza, mas sem abrir mão do poder destrutivo das armas modernas. No fundo, quer que o velho coronel turrão que adora mandar queimar tudo e promete pagar a primeira rodada depois da batalha seja substituído pelos jovens voluntariosos que engrossam as fileiras ecológicas da luta contra o desmatamento e a o aquecimento global. É uma maneira de escapar do lugar onde estão metidos hoje: uma arena onde, por comparação, o inferno não passaria de uma colônia de férias.</p>
<p>O inferno de James Cameron é fazer parte de uma nação imperial que invadiu o mundo matando o Outro. Lançando mão de todos os chlichês do vídeogame, da série Guerra nas Estrelas, do faroeste (como a doma de pássaros gigantes), ele tece sua aventura fazendo sonhar quem que está acorrentado, a civilização em estado terminal representado pelo mariner de cadeira de rodas. No seu lugar está o mestiço capaz de façanhas heróicas e que dispõe do corpo de maneira renovada, pois chupa toda a energia dos nativos, os hominídeos com orelhas de morcego e rabo.</p>
<p>Os avatares são criaturas hibridas usadas para invadirem o núcleo adversário que detém a força dos recursos naturais, futuro para civilizações doentias que precisam de terra, planta, água e tesouros minerais. O exército que aparece destruindo tudo é o americano, mas Cameron finge que é uma tropa mercenária, como se fôssemos acreditar nisso. Os hominídeos seriam seres moralmente superiores, mas não passam de sub-raça (“baratas”, diz o coronelão) dedicada à magia e que imita a ferocidade dos bichos.</p>
<p>Os animais que aparecem em Avatar são inventados, já que os tradicionais &#8211; leões, rinocerontes, elefantes – estão no index politicamente correto. A saída foi criar bichos que cruzam aparências distintas para que a saga mantenha a rotina dos filmes americanos, em que a natureza é sempre ameaçadora, e seus habitantes precisam ser exterminados, ou no mínimo devem obedecer a um líder branco, tenha ele o disfarce que tiver.</p>
<p>Ambos os cineastas trabalham a dor encerrada em casulos indevassáveis. Sabemos que por mais bombas que sejam desmontadas, ou por mais fofos que pareçam os habitantes da floresta, prevalecerá a dor de participar do extermínio. A dor tem um código ainda não decifrado. Quem sabe eles começam admitindo a existência de outros países? Eis aí um bom caminho para deixar de ver a Terra como o lugar nefasto que precisa ser enquadrado.</p>
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		<title>REPRESSÃO E PERMISSIVIDADE CONTRA A DISCIPLINA</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 02:01:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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Dois filmes opostos dizem a mesma coisa. A Onda (2008), de Denis Gansel, baseado no livro de Morton Rhue, por sua vez inspirado num episódio real acontecido em Palo Alto, na Califórnia, quando o professor de história Ron Jones tentava explicar o nazismo para seus alunos, em 1967, é sobre a necessidade da permissividade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Dois filmes opostos dizem a mesma coisa. <em>A Onda</em> (2008), de Denis Gansel, baseado no livro de Morton Rhue, por sua vez inspirado num episódio real acontecido em Palo Alto, na Califórnia, quando o professor de história Ron Jones tentava explicar o nazismo para seus alunos, em 1967, é sobre a necessidade da permissividade para evitar a repressão. <em>Harry Brown</em> (2009), de Daniel Barber, é sobre a necessidade da repressão para evitar a permissividade. Ambos são contra a disciplina, base da liberdade.</p>
<p>Os alunos de <em>A Onda</em>, criados no caos do excesso de liberalidade, tanto em casa como na escola, ficam fascinados pelos lugares comuns que formaram a juventude até a minha geração, ou seja, a ordem integradora e o respeito à coletividade. Mas isso, segundo o filme, leva ao fascismo. O velho fuzileiro aposentado Harry Brown, farto dos assaltos no gueto onde mora, resolve fazer justiça com as próprias mãos. Isso, segundo o filme, leva à diminuição da criminalidade. A solução, no primeiro, é manter o caos na formação dos alunos para não cair na tentação nazista. E no segundo é tocar fogo no gueto para que os cidadãos possam cruzar livremente o túnel para pedestres.</p>
<p>Sentar-se em aula como se você estivesse no sofá da sua casa é um vício de comportamento que estimula a preguiça e a arrogância. Vi isso quando, tardiamente, freqüentei a faculdade de História. Um dos alunos rodeava-se de cadeiras para colocar os pés, a pasta, o casaco, os braços, enquanto se estendia quase como numa cama no lugar feito para sentar. Como um sujeito desses vai levar a sério a educação? Cansei de falar aqui: se você transforma o ensino em algo lúdico, o que a meninada vai fazer no recreio, dar tiros?</p>
<p>O professor que dá um curso sobre autocracia confunde tudo em <em>A Onda</em>. Ele corrige postura, comportamento e exige disciplina. Era o que acontecia no meu colégio. Tínhamos também uniforme, não farda fascista nem nada, apenas uma camiseta com o logo da instituição e calça a gosto. Mas a uniformização eliminava as diferenças sociais, como é dito no filme. Mas isso jamais levou à formação de gangs e a Hitler. O que leva às gangs e Hitler é exatamente o oposto, a permissividade. Quando você aceita que meia dúzia de bandidos uniformizados imponham comportamentos para a massa e acha tudo muito bonito até que multidões comecem a ser levadas em trens imundos para a câmara de gás, a culpa não é da disciplina.</p>
<p>Trata-se de um crime contra a juventude incentivar a promiscuidade, o desleixo e a falta de cobrança. Quem está em formação precisa de parâmetros e isso só se consegue com disciplina. Não se pode deixar a meninada à mercê de traficantes, como acontece em <em>Harry Brown</em>. Racismo, indiferença e políticas públicas de exclusão levam ao desespero as novas gerações, que reage contra tudo e todos, de maneira caótica, sem ideologia nem finalidades. O “remédio” usado é a brutalidade policial, a incompetência das investigações e a vingança pura e simples. O filme poderia ser encarado como uma denúncia da situação, mas não cola. Celebra o que mostra e que deveria condenar.</p>
<p>Mas disciplina não é fascismo? Claro que não. As gerações criadas na disciplina lutaram não pela anarquia, mas pela seriedade no ensino. Fomos às ruas em 1968 não porque queríamos nos locupletar, mas porque faltavam vagas nas universidades públicas, porque a educação brasileira estava sendo pautada por um acordo com os Estados Unidos (o MEC-Usaid). Queríamos a disciplina com que fomos criados e víamos a traição impetrada pela ditadura. O resultado está ao nosso redor hoje: analfabetismo geral, evasão escolar, violência em sala de aula, decepção dos professores.</p>
<p>A solução não é a repressão nem a permissividade, mas a boa e velha disciplina, a que nos ensinava desde cedo a respeitar os outros e a entender melhor como funciona o mundo. Se alguém é criado como se não houve qualquer limite para nada, o resultado forçosamente é o tiro a esmo que atinge crianças, mulheres e idosos, como vemos em <em>Harry Brown</em>.</p>
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		<title>MEDICINAS</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:57:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós
Os parlamentares britânicos decidiram que a homeopatia é perda de tempo e tiraram a especialidade do serviço público. Não faz sentido. Não existe charlatanismo maior do que a política, e no entanto ela domina a vida de todo mundo, muitas vezes à revelia da população. Ao contrário da homeopatia, que só é usada por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Os parlamentares britânicos decidiram que a homeopatia é perda de tempo e tiraram a especialidade do serviço público. Não faz sentido. Não existe charlatanismo maior do que a política, e no entanto ela domina a vida de todo mundo, muitas vezes à revelia da população. Ao contrário da homeopatia, que só é usada por quem quer. Os políticos alegaram que não se trata das 500 mil libras por ano que são gastas na oferta dessa medicina alternativa com mais de um século de vida. Mas porque seria incorreto envolver as pessoas numa enganação.</p>
<p>Para quem sofreu nas mãos da incompetência endêmica da alopatia para curar coisas simples como um resfriado ou pelo uso excessivo de antibióticos para tentar solucionar viroses ou alergias, essa medida é um desrespeito à memória e à saúde geral. É preciso lembrar que hoje há mais prudência no receituário da medicina tradicional graças à pressão da medicina alternativa, com a homeopatia à frente. O problema é que a poderosa indústria dos remédios invasivos não suporta qualquer sombra de concorrência.</p>
<p>Um equívoco comum sobre a homeopatia é que ela é uma espécie de terapia à base de ervas, que serviria apenas para desconfortos menos importantes. Passa-se assim por cima de uma ciência de resultados comprovados, tanto é que é adotada por milhões de pessoas em todo o mundo e tem um sem número de médicos dedicados inteiramente a ela. A homeopatia enxerga o paciente como um conjunto que, originalmente harmônico, entre em colapso. O mal que afeta um pulmão pode ter origem num desequilíbrio fora das certezas canônicas do poder incontestável dos homens de branco.</p>
<p>Homeopatia cura todo tipo de ameaça ao corpo humano. Depende apenas da competência do médico no uso da substância certa na dose certa. Como em qualquer nicho profissional, está nas mãos de quem entende. Hoje, tanto o roubo de patentes, como a disseminação de vírus concomitante à fabricação de vacinas específicas para o mal da moda, fazem parte de uma guerra. Erradicar a homeopatia é um lance desse conflito mundial que envolve bilhões em recursos financeiros.</p>
<p>É preciso desconfiar quando a arrogância pseudocientífica tenta limitar ao máximo os caminhos que levam à cura. Siga o dinheiro, dizem os romances policiais. Só assim poderemos achar a pista certa e os meliantes que estão por trás da campanha difamatória e da perseguição pura e simples.</p>
<p><em> Crônica publicada no dia 2 de março de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. </em></p>
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		<title>FILME DE AMOR É AMOR AO FILME</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:55:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós
O grande caso de amor numa comédia romântica é entre o filme e o espectador. Há uma fidelidade ao gênero que faria inveja aos amantes. De onde vem essa paixão? Da fé no destino ou na predestinação, que se consuma depois que seu oposto (a separação, a impossibilidade da relação) parece ter vencido. Contrariando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>O grande caso de amor numa comédia romântica é entre o filme e o espectador. Há uma fidelidade ao gênero que faria inveja aos amantes. De onde vem essa paixão? Da fé no destino ou na predestinação, que se consuma depois que seu oposto (a separação, a impossibilidade da relação) parece ter vencido. Contrariando a lógica dos acontecimentos, o insight final dele ou dela joga um nos braços do outro, de maneira irresistível. Trair esse princípio, como faz <em>500 dias com ela</em>, de Marc Webb (2009) significa matar o amor arduamente cultivado ao longo do roteiro.</p>
<p>Webb quis inovar, desmascarar o esquema e colocou o acaso acima do destino. Não cola. Todo acaso é predestinação. Isso é sabido não só pelos que amam, mas em geral pelos que enxergam. Chegar dez minutos depois não significa que você jamais encontraria seu par, mas sim que essa não era a sua chance. Esse erro ótico leva o diretor a investir emoção, frustração, amor, esperança, decepção, ruína numa relação que acaba de repente, graças a um coadjuvante obscuro que nem aparece, o rival que põe tudo a perder. Isso não se faz.</p>
<p>Os dois atores principais, Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel, são bons e conseguem transmitir o encanto de uma relação que começa timidamente e chega até a engrenar, mas não se consuma como deveria. Essa é uma das crueldades do filme, pois os espectadores se apaixonam também pelo casal e torcem para que fiquem juntos no final, quando a lágrima é inevitável. Jogar Joseph e Zooey, maravilhosos em sua juventude, amarrados por uma alegria de estar juntos que se esparrama pela tela, numa enrascada sem solução, é uma coisa que deveria ser proibida. Ou então nos avisem: ei, eles se amam, ou pelo menos o cara se apaixona, mas a moça casa com outro! Pronto, contei o final. É a minha vingança.</p>
<p>Ficamos assim torcendo pelo rapaz, quase menino, que acredita no destino. Mas aos poucos vemos que seu objeto de desejo não passa de uma vigarista emocional, pois evita se envolver de maneira definitiva com o apaixonado (a quem trata de amigo, apesar de tudo o que rola entre eles) para cair na mais batida cantada do mundo, a do cara que se aproxima e comenta o livro que ela estava lendo (no caso, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde). A moça, Summer, acaba convencendo o menino que ele não dava mesmo no couro, já que se entrega para outro que lhe presenteia com um anel de diamantes e casa com ela. Mas eis que vem outro caso, Autumn, entenderam a sutileza (Outono depois do Verão, pois não?)? Haja.</p>
<p>Como se as chances cíclicas existissem no encontro da alma gêmea, aquela que era próxima e ficou distante e que quando é perdida exige um esforço acima dos limites para ser recuperada. A magnífica comédia romântica Forget Paris (1995), com Billy Cristal (também diretor) e Debra Winger quase nos convenceu de que o amor impossível não teria solução. Mas estávamos, felizmente, enganados. O árbitro de basquete e a musa que escapa por entre os dedos em vários lances desesperadores são enredados na teia da narrativa que aos poucos resgata o desfecho que todos aguardam.</p>
<p>Mas isso era no tempo em que havia honestidade no cinema. Hoje, o sujeito te enreda com uma história de conquista e paixão e joga a mulher amada nos braços de um fantasma. Trata-se de uma traição, da pior espécie, daquelas que acabam destruindo a fé no filme romântico. Mas a sorte é que os espectadores acreditam no gênero e se apaixonam pelos filmes. O cinema é o grande amor de nossas vidas e se algum diretor pisa na bola é porque desconhece o básico.</p>
<p>Ninguém escapa do seu destino nem deixa de acreditar que o sentimento é soberano e ele sempre tem razão.</p>
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		<title>A AMÉRICA DEVORA O MUNDO</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:53:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nei Duclós
O Chile descamba com o terremoto, mas qual foi a grande notícia? As ondas gigantes que iriam atingir o Havaí. Não aconteceu nada, desmascarando assim o discurso de Obama, uma das muitas personalidades fake que representam o poder do mundo. O poder não está neles – de Sarkozy a Kirchner – mas eles são [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>O Chile descamba com o terremoto, mas qual foi a grande notícia? As ondas gigantes que iriam atingir o Havaí. Não aconteceu nada, desmascarando assim o discurso de Obama, uma das muitas personalidades fake que representam o poder do mundo. O poder não está neles – de Sarkozy a Kirchner – mas eles são fantoches que se prestam a uma representação perigosa. Obama encarna a vontade e necessidade de mudança que, como definiu Lampedusa, acaba fortalecendo o Mesmo &#8211; as coisas precisam mudar para tudo continuar como está.</p>
<p>Quando Obama torce a cabeça para o lado, num cacoete de campanha que acabou fazendo parte de sua natureza, é para parecer incisivo e ao mesmo tempo mostrar seu perfil de estadista. Nunca me enganou. Continua matando muito no Oriente Médio. O que ele quis provar com seu espetáculo pirotécnico em que todas as câmaras do mundo ficaram apontadas para o Havaí enquanto o Chile se partia em mil pedaços? O que importa é a América, não o que eles chamam de Resto do Mundo. Eles são o parâmetro de tudo, mesmo que aparentemente as coisas tenham mudado.</p>
<p>A propósito, vi <em>Crossing Over</em>, do sulafricano naturalizado americano Wayne Kramer, com o politicamente correto Harrison Ford à frente de grande elenco (Ashley Judd e Jim Sturgess, o ótimo Jude de <em>Across the universe</em>, entre outros, como Ray Liotta e Alice Braga). Como sou monoglota, achei que crossing over queria dizer passando por cima, uma referência ao cruzamento da fronteira. Deve ser isso mesmo. Mas vencendo a preguiça (coisa que os críticos que abordaram o filme não fizeram) descobri o óbvio: esse é o nome de uma recombinação genética, “a troca aleatória de material genético durante a meiose”, segundo a wikipédia. Uma solução da natureza em que cromossomas homólogos (mas não irmãos!) resolvem discutir a relação e daí sai uma realidade genética diferente.</p>
<p>A genética é a ciência fundamental da América. A nação wasp (caucasiana) foi incorporando as outras raças, como asiáticos, hispânicos, afros. Mas manteve a diferenciação. Como os cavalos árabes, as pessoas lá são definidas pela sua raça, um conceito já desmoralizado pela ciência em se tratando de gênero humano. O cinema acompanha esse processo. Quando Clint East Wood faz <em>Gran Torino</em>, descobrimos que a América tradicional está morrendo e que a única saída é encontrar identificações mútuas para que a nação, recombinada, continue. Esse é o sinal do carro que é símbolo da América ser herdado pelo coreano baixinho imigrante.</p>
<p>A América de Clint se sacrifica para que a honradez, a honestidade e a esperança prevaleçam sobre o crime e o esgarçamento do tecido social. O velho rabugento continua firme na sua e enfrenta o mal com suas armas conhecidas (que ficam guardadas dentro de casa e são usadas quando necessário). O ex-combatente leva para as ruas a camaradagem de guerra para enfrentar a sacanagem das gangs aplicadas na destruição da América que os acolheu.</p>
<p>Em <em>Crossing Over</em> acontece o contrário. Não se trata de uma retirada de cena para dar espaço para uma nação refeita em outros termos. Mas de uma voragem explícica de todas as outras raças e nações (os “buracos de Terceiro Mundo”, como diz a advogada interpretada por Ashley Judd). A América, nesse caso, devora o mundo e não se adapta ao que a pressiona via imigração. A repressão da era Bush continua em vigor, basta ver que o senado americano acaba de dar sobrevida ao Patriotic Act, a lei que dá plenos poderes à pressão contra a cidadania suspeita de terrorismo. No filme, é representada pela agente do FBI que não cede nada para a advogada dita esclarecida e que não consegue impedir a destruição de uma família “asiática”.</p>
<p>As blitze violentas contra os imigrantes ilegais continuam com a mesma brutalidade e o Harrison Ford faz o trabalho sujo de sugerir de que existe no ventre do monstro alguma humanidade. O funcionário da imigração que prostitui a australiana em troca do green card e o assassino árabe da própria irmã vão para a cadeia. Ou seja, dá tudo certo no final e os vários vetores genéticos que desaguaram na América são selecionados pelos princípios imutáveis da nação imperial, que assim ganha diversidade, mas jamais se transforma.</p>
<p>Gran Torino é a despedida da América e a sobrevivência de princípios universais, como a tolerância e o convívio entre desiguais, a paz na diferença. Crossing Over é a reafirmação da América repressora, que continua selecionando geneticamente os imigrantes para, numa recombinação, manter intacta sua capacidade de devorar o mundo. É de notar que o filme errado é obra de um imigrante, e o certo é de um americano turrão. Assim são as coisas: nada é o que parece e nem devemos nos entregar às evidências.</p>
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		<title>QUANDO OUVIR É VER E VER É NÃO ENXERGAR</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:51:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Dculós
A diferença entre os dois filmes – A Cor do Paraíso (1999), de Majid Majidi, e A Mulher Invisível (2009), de Cláudio Torres &#8211; é brutal. Mas quando se trata de cinema, tudo conflui para percepções afins.
Em A Cor do Paraíso, a natureza pode ser lida pelo alfabeto Braille. O menino Muhammad (interpretado por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Dculós</strong></p>
<p>A diferença entre os dois filmes – <em>A Cor do Paraíso</em> (1999), de Majid Majidi, e <em>A Mulher Invisível</em> (2009), de Cláudio Torres &#8211; é brutal. Mas quando se trata de cinema, tudo conflui para percepções afins.</p>
<p>Em <em>A Cor do Paraíso</em>, a natureza pode ser lida pelo alfabeto Braille. O menino Muhammad (interpretado por Mohsen Ramezani, que é cego) tenta enxergar o que o cerca por meio da lógica oferecida por seqüências de eventos: folhas mortas, galhos, sons de pássaros, água corrente, barro. O tato ajuda a ouvir, que o leva a ver, à sua maneira. Mas ele está cercado pela cegueira dos que enxergam. Do pai, que se sente injustiçado pela vida e quer se livrar dele. Do professor da escola do interior que fica pasmo diante da sua capacidade de leitura das lições de aula. Dos colegas das irmãs, que se debruçam para tentar decifrar o segredo de sua alfabetização, aprendida numa escola especial.</p>
<p>O pai se assusta com o que ouve, porque não tenta descobrir o sentido oculto das manifestações só percebidas por outros sentidos. Preso pelo que vê de maneira tão limitada por sua dor e preconceito, o pai se transforma num personagem trágico, que encontra o mesmo desfecho de Zampano (interpretado por Anthony Quinn) de La Strada, de Fellini, o saltimbanco que ao perder o amor da sua vida urra de remorso na praia deserta.</p>
<p>O que está próximo demais não pode ser percebido. É preciso distância para experimentar a fundura da falta, entender a natureza da dor, avaliar a intensidade do amor. A avó e as duas irmãs, que vivem longe do menino durante o ano letivo, redescobrem o prazer da fraternidade no reencontro, assim como a avó, agricultora que extrai das flores a cor necessária para o tapete consagrado ao seu Deus. Todos fazem parte do mundo que o menino impedido de ver enxerga com sua concentração e devoção.</p>
<p>É cinema total. Nós vemos o que há na tela, mas o protagonista menino abre uma janela maior para o que ele ouve e toca. Aprendemos a enxergar o que ele não percebe pelos olhos, mas nos mostra com seu talento. O filme assim é sobre duas camadas superpostas de cinema: o visível e o oculto, ambos explícitos. A tragédia que se abate sobre tudo tem a ver com a incapacidade do protagonista-chave, o pai, de acumular essas percepções aparentemente dispersas. Ele se tortura com o fato de ter um filho cego, e assim se fecha para as chances da própria redenção.</p>
<p>Já em <em>A Mulher Invisível</em>, de Cláudio Torres (diretor do excelente Redentor) ocorre ao contrário. O protagonista enxerga demais: a mulher ideal, uma visão não compartilhada com ninguém. No fundo está cego para a própria loucura, pois acaba de sair de pesada desilusão amorosa intensificada pelo fim do casamento. Ele se refugia no invisível para torná-lo real. Entrega-se ao que vê e não decifra o que, para os outros, está oculto, mas explícito: uma presença virtual com força física, pois interfere nos gestos do protagonista (Selton Mello, excelente aqui).</p>
<p>O que nós vemos é uma exceção, e que só o amante transtornado enxerga, uma criatura não enquadrada na realidade convencional. Em tese, ela faz parte do mundo dos desejos, como querem os Rosacruzes, ou do imaginário. Pedro (Selton Mello) e Amanda (Luana Piovani) reconhecem que Amanda não existe. Ao compartilhar com a mulher ideal o que enxerga, e que para os outros não é visto, ele encontrou uma forma de fazer valer sua visão seletiva. Está preso a ela, como o pai de A Cor do Paraíso. E isso é sua danação.</p>
<p>Mesmo quando faz as pazes com a amada real (que por um tempo foi confundida com outra alucinação), ele traz como encosto a gostosa que inventou para se compensar. Pior para o pai do filme iraniano, que perde a noiva, a mãe e o filho, numa sucessão de castigos por seus erros. Pois, se o filme brasileiro encontra saída para o desespero, por meio do convívio com a loucura, no iraniano, nada tem volta. Ficam apenas as imagens, belíssimas, de uma saga partida.</p>
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		<title>PERCEPÇÃO E FATO</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:48:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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O fato de existir planeta é indiscutível. Todos sabem que é absolutamente normal uma criatura gigantesca, cheia de água, animais e gente, boiar no cosmo frio ao redor de alguma estrela contando apenas com a força da gravidade. O que deve se colocar em debate é a hegemonia dessa evidência sobre outra, a da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
O fato de existir planeta é indiscutível. Todos sabem que é absolutamente normal uma criatura gigantesca, cheia de água, animais e gente, boiar no cosmo frio ao redor de alguma estrela contando apenas com a força da gravidade. O que deve se colocar em debate é a hegemonia dessa evidência sobre outra, a da existência de países.</p>
<p>Vista do alto, a terra é um conjunto geográfico e não político. Suas riquezas e recursos se espalham independente das fronteiras, tornadas reais por força de inúmeros acordos, por sua vez fruto de conflitos de longa duração. Uma linha divisória é a garantia de paz na diferença, mas hoje é moda pregar o seu fim como sinal de ultra-modernidade. Como se o mapa-múndi, tornado obsoleto, representasse um fato que todos procuram superar.</p>
<p>Quando há crise e um país não consegue resolver coisas banais como escoar água da enchente ou evitar milhares de mortes no trânsito, cresce o sentimento de universalidade. Que no fundo é abandonar o verde-amarelo e vestir logo a camisa do Milan. É o sonho de viver longe de monstruosidades como o assassínio frio de crianças ou o roubo explícito dos recursos públicos.</p>
<p>O abandono da idéia de pátria em função de algo maior não passa de instinto de sobrevivência, quando se emigra para nações que exibam condições econômicas e sociais opostas às nossas. A percepção ideal é ser do planeta quando o fato é sumir para um país remoto, já que a vizinhança ameaça com os mesmos problemas endêmicos.</p>
<p>Eliminar a idéia de Brasil como solução final faz com que o país seja visto como a porção mais generosa dessa terra de ninguém vislumbrada pelos satélites. O resultado é que Itália e França ficam na Europa, os Estados Unidos na América do Norte, mas só o Brasil fica no planeta. Quando abordam nossa realidade, enxergam florestas e instintos selvagens, além de uma pujança de leões jovens, como se nossos índices produtivos obedecessem ao impulso dos predadores das savanas.</p>
<p>Numa nação existe o sentimento de pertença, mesmo com as ameaças, confusões e problemas. Ela costuma ser maior do que a emergente idéia de fazer parte do sistema solar. A verdade é que, mesmo quando queremos ser universais, não nos apresentamos como seres planetários, mas como cidadãos do mundo. E cidadania implica passaporte e não apenas lagos ou montanhas.</p>
<p><em> Crônica publicada no dia 23 de fevereiro de 2010 no caderno Variedades, do Diário Catarinense. </em></p>
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		<title>MUITO ABAIXO DO PETRÓLEO</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:45:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>nei</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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O ministro Linóleo Bólio foi recebido em caráter de urgência pelo presidente Prospectus Erectus. O assunto era explosivo: tinham descoberto, muitos quilômetros abaixo da sueperfície totalmente tomada pelo petróleo, algo parecido com o Mar, entidade mítica que existia nos relatos muito antigos. A alta tecnologia desenvolvida para procurar água no planeta oleoso era considerada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
O ministro Linóleo Bólio foi recebido em caráter de urgência pelo presidente Prospectus Erectus. O assunto era explosivo: tinham descoberto, muitos quilômetros abaixo da sueperfície totalmente tomada pelo petróleo, algo parecido com o Mar, entidade mítica que existia nos relatos muito antigos. A alta tecnologia desenvolvida para procurar água no planeta oleoso era considerada caríssima pela oposição, totalmente fundamentalista, que não admitia a mudança de paradigma da civilização petrolífera. O mundo era petróleo e nada iria mudar. Nem mesmo uma grande descoberta:</p>
<p>- Mas me diga, Linóleo, o que descobriram de fato?<br />
- Uma gigantesca reserva de água salgada, totalmente azul, com ondas brancas, que banha lugares de areia fofa e fina, tudo com um cheiro agradável, cheio de peixes, cheio de vida!<br />
- Como pode ter certeza disso? Não existem peixes, apenas nos arquivos.<br />
- Foi tudo fotografado, excelência. Os peixes saltam para fora da superfície. Há de tudo: golfinhos, baleias, algas marinhas, uma maravilha.<br />
- Mas isso tudo está soterrado embaixo da rocha?<br />
- Sim, será preciso desenvolver mecanismos seguros para explorarmos esse tesouro oculto nas entranhas da Terróleo. Poderemos vender Mar para quem quiser e puder comprar.<br />
- Mas o que há de proveito no Mar que nós, da civilização do petróleo, não tenha? Temos tudo: carros, caminhões, máquinas de todos os tipos, tudo movido a diesel, gasolina. Para que Mar? Não vejo utilidade nenhuma.</p>
<p>O ministro suspirou. Era difícil convencer o estadista que aquela descoberta iria revolucionar tudo, que as pessoas descobririam como é chato viver com a pele suja de petróleo. Todos iriam querem Mar, Mar, Mar. E praia, meu Deus, como dizem os livros antigos. Mas a dúvida tinha fundamento: como transformar isso em ouro? Há muito que existia uma grande crise, pois o petróleo dominava e era praticamente de graça. Tinham conseguido extrair todo o petróleo da terra e ela tinha virado uma coisa só, pegajosa, imunda, que acabou endurecendo e soterrando fontes, planícies, lagos, e desconfiava-se até o antigo Mar. E que agora se revelava de maneira bizarra, oculta, mas intacto, a sete quilômetros da superfície.</p>
<p>- Podemos inaugurar uma colônia de férias no subsolo. Venderíamos caríssimo o privilégio de navegar no Mar e tomar banho na praia. As pessoas iriam adorar se livrar dessa merdalhada toda que nos envolve.<br />
- Você acha ruim Linóleo? O petróleo está no seu sangue, você é o petróleo! Não, não iria dar certo. Vamos esquecer isso.<br />
- Mas excelência, poderíamos repartir os royalties advindos dessa riqueza.<br />
- E quem iria pagar os royalties?<br />
- Ora, os marcianos, eles sonham com o Mar. Odeiam nos visitar e só ver petróleo. Um mergulho lá e eles pagariam os tubos para nós, que acha?<br />
- Metade para mim, metade para vocês?<br />
- Fechado!</p>
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