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	<title>Nei Duclós</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>BANHO</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:53:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Lavou-te o mar, beldade urbana cultivada no ácido do trânsito o banho moldou-te o mármore gotas na taça do champagne Umbigo que prova o sal, vândala vinda de fomes e jogo de ânsias teu gesto endurecido cede à onda e o corpo ganha ritmo no balanço Estás pronta, como noiva do Oriente que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Lavou-te o mar, beldade urbana<br />
cultivada no ácido do trânsito<br />
o banho moldou-te o mármore<br />
gotas na taça do champagne</p>
<p>Umbigo que prova o sal, vândala<br />
vinda de fomes e jogo de ânsias<br />
teu gesto endurecido cede à onda<br />
e o corpo ganha ritmo no balanço</p>
<p>Estás pronta, como noiva do Oriente<br />
que busca no olhar a face lânguida<br />
e ondula os braços como serpentes</p>
<p>Desça da carruagem e descalça alcance<br />
o que te dou de graça, neste recanto<br />
de pedra e fendas que sem dó afundo</p>
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		<title>AMOR É O QUE VOCÊ SENTE, NÃO O QUE VOCÊ AMA</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:52:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Amor é o que você sente, não o que você ama. Muda o alvo da fogueira, a essência mantém a chama Quem te adora vai embora, o coração não reclama porque a seta de Cupido já faz parte da tua trama O amor não abandona, ao contrário do poema prometido em noite alta, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Amor é o que você sente, não o que você ama.<br />
Muda o alvo da fogueira, a essência mantém a chama<br />
Quem te adora vai embora, o coração não reclama<br />
porque a seta de Cupido já faz parte da tua trama</p>
<p>O amor não abandona, ao contrário do poema<br />
prometido em noite alta, ilusão que se esparrama<br />
só tua pulsão fica firme como saiote em arame<br />
da equilibrista imodesta em seu abismo de manhas</p>
<p>No lugar de quem querias virá o encanto de novo<br />
importa é que tenhas vivo o sopro do teu espanto<br />
aprendeste com as brasas o que aquece sem feridas</p>
<p>A solidão não te pesa pois tens a força por perto<br />
abres caminho onde passas com o dom da tua alegria<br />
que o sentimento cultiva onde um dia foi deserto</p>
]]></content:encoded>
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		<title>ESPARRAMO</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:51:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Tudo é mistério e delicia, doçura, tudo é prazer na diferença. Barba antiga no batom vermelho, rouquidão na seda. Beijo traiçoeiro. Garra que afunda até ficares trêmula. Colar de desejos. Posta sem sossego cheiro de pêssego. Ombro no cabelo umbigo de extrema consistência Agora sem complexo. Ardor que configura o gesto esparramado pelo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Tudo é mistério e delicia, doçura,<br />
tudo é prazer na diferença.<br />
Barba antiga no batom vermelho,<br />
rouquidão na seda. Beijo traiçoeiro.</p>
<p>Garra que afunda até ficares trêmula.<br />
Colar de desejos. Posta sem sossego<br />
cheiro de pêssego. Ombro no cabelo<br />
umbigo de extrema consistência</p>
<p>Agora sem complexo. Ardor que configura<br />
o gesto esparramado pelo ermo. Lá onde<br />
morava a desventura de estar preso</p>
<p>Rompemos o relento com a mão no meio<br />
penugem em curva, floresta de espelhos<br />
sonhas concêntrica, pétala de joelhos</p>
]]></content:encoded>
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		<title>CHORO DE PEDRAS</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:50:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Sigo os russos do século 19, a era do esplendor da literatura e das artes, tão vilipendiada pelo século 20, irmão mais novo e cheio de inveja. Na seleta que tenho comentado aqui, lançado pela Martins Editora em 1964, seleciono mais duas obras primas. Uma delas é de Tchirikov, “Fausto”, sobre o casal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Sigo os russos do século 19, a era do esplendor da literatura e das artes, tão vilipendiada pelo século 20, irmão mais novo e cheio de inveja. Na seleta que tenho comentado aqui, lançado pela Martins Editora em 1964, seleciono mais duas obras primas. Uma delas é de Tchirikov, “Fausto”, sobre o casal pequeno burguês que vive vida vegetativa , ele bancário viciado em jogo de cartas que odeia sua casa, ela a esposa ressentida e frustrada que lamenta a perda da juventude e da beleza. Mas ao quebrarem a rotina e irem ao teatro ver a peça de Charles Gounod sobre o homem que vendeu sua alma, eles recuperam o viço e resgatam a emoção de viver. Descobrem que são invejados pelos amigos e se flagram mais próximos do que nunca.</p>
<p>O teatro que reaproxima o casal por meio do drama e da música é um dos fundamentos da civilização. Não se pode viver sem ele. Há décadas que não vou a um, mas houve uma época em que eu viajava sem dinheiro e de carona só para assistir as grandes peças de São Paulo e Rio. Foi assim que vi Cemitério de Automóveis, Gracias Señor, O casamento do pequeno Burguês, Mockinpott (que deu prêmio de revelação da APCA para nosso Miguel Ramos), entre outras preciosidades. Manter um teatro permanente, como tínhamos no século 19 em Uruguaiana, o Carlos Gomes, que trazia espetáculos de Buenos Aires, Montevidéu e das capitais brasileiras e européias, é um luxo que hoje não dispomos. Por que?</p>
<p>O outro conto também tem a ver com Uruguaiana, pois fala de via férrea. Assistir à derrocada da estrada de ferro no país continental, ao contrário de outros países que transformaram o trem no mais moderno meio de transporte do mundo, é de uma tristeza só. Nossa cidade tinha o perfil definido pelos trilhos. Era nosso contato com o mundo, viajamos para terras importantes vendo pela janela o esplendor do pampa. Foi pela via férrea que conheci Porto Alegre e todas as outras cidades do caminho. Destruíram tudo por burrice e traição à pátria. Mas eu falava do conto O Sinal, de Garshin, autor que morreu cedo demais, com 33 anos.</p>
<p>Ele conta a história de um camponês que foi pra a guerra e lá exercia atividade subalterna de servir samovar para os oficiais. Pegou reumatismo nos rigores da campanha e não podia mais lavrar a terra. Saiu pela estrada de ferro afora atrás de emprego e encontrou um veterano a quem servia no front, que lhe deu o emprego de guarda-trilhos. Uma cabana onde poderia plantar e viver com a mulher e enfrentar o inverno e pronto, lá estava ele feliz e orgulhoso com sua lanterna e suas ferramentas. Quis fazer amizade com vizinho, que era muito revoltado e acabou cometendo um crime: arrancou um trilho na iminência da chegada de um trem cheio de famílias pobres.</p>
<p>Nosso herói foi para o meio da estrada e como não tinha jeito de avisar a tempo, cortou profundamente o braço e embebeu um pano de seu sangue e o colocou na ponta de um mastro como bandeira. O maquinista viu e freou. Como saiu muito sangue, ele desmaiou no meio da sua ação, mas a bandeira foi assumida pelo próprio criminoso. “Amarrem-me. Eu arranquei um trilho”, disse o culpado.</p>
<p>Grande literatura. Faz chorar as pedras.</p>
<p><em>Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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		<title>ABRIGO</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:49:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Romance em prosa poética]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Vou moderar na linguagem. Falar só no teu ouvido. Poesia completa é quando até o mar recita. Esqueci meu verso mas o recolheste no abrigo. Ele veio no teu colo me olhando meio sentido. É segredo o que digo. Mas os passarinhos escutam e levam o poema no bico Ninguém me ensinou, só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Vou moderar na linguagem. Falar só no teu ouvido.</p>
<p>Poesia completa é quando até o mar recita.</p>
<p>Esqueci meu verso mas o recolheste no abrigo. Ele veio no teu colo me olhando meio sentido.</p>
<p>É segredo o que digo. Mas os passarinhos escutam e levam o poema no bico</p>
<p>Ninguém me ensinou, só ela. Quando joguei o barco na corrente da chuva, lá estava a poesia, de vestido curto e pés descalços.</p>
<p>Nunca a procuro, ela me acha. Por mais que eu tente a palavra me segura e joga para o alto.</p>
<p>Não ganhamos prêmios, nós e a poesia. Jamais incentivam vícios. Preferem suas virtudes, cheias de firulas.</p>
<p>Eram tão mesquinhos. Abandonaram o poema ao seu destino. Encontrei-o na calçada, juntando bitucas. Vendia para os mendigos.</p>
<p>JOGO</p>
<p>Rodeiam nosso abraço como moscas. Mas aprendemos alguns truques. Fazemos marola quando é onda, redemoinho quando há vento e escapamos pelos becos como nos filmes de suspense.</p>
<p>Tua liberdade me escolhe. Ninguém tasca.</p>
<p>Queres uma lista do que me interessa. Moito, para te deixar invocada. Gosto que insistas, auto-centrada.</p>
<p>Pior é quando silencias e voltas de surpresa. Somes imediatamente se não estou desperto</p>
<p>Me contrarias, implicante, desconfiando de tudo, querendo explicações que não tenho e não há maior carinho.</p>
<p>Não notei que tinhas ido. Só quando o eco me respondeu vi que o amor estava mudo.</p>
<p>Fico feliz quando me xingas com teu jeito doce, posto que assumes só para me agradar, domadora de urso.</p>
<p>Esse jogo de empurra é puro divertimento. Nosso amor nasceu antes do primeiro encontro. É uma espécie de vocação que deixa as pessoas de cara</p>
<p>Os dias tem sido intermináveis. O verão se demora em torrar calçadas. Derreto na hora da caminhada. Só a noite traz esperança de um milagre.</p>
<p>É abominável que não tenhas respondido. Deixei um recado bomba e duvido que não exista para ti, falsidade.</p>
<p>Chegaste tarde, meio com fome, mas desabaste. De manhã recolhi os cacos. Antes de sair, preparei teu banho e pus uma flor no vaso.</p>
<p>Você quer de derrubar? ela perguntou, surpresa. Não, respondi, e empurrei-a até o veludo da sua beleza.</p>
<p>Ligue quando chegar da praia. Esnobe o poema que deixei na sua cama. Eu nem me importo.</p>
<p>Não implore. Não vale a pena. Mantenha a serenidade que só faltam mil horas para ela voltar das férias.</p>
<p>Meu olho cansado pede um tempo, falei. Deixe sua voz que eu continuo enxergando, disse ela.</p>
<p>Promete que volta? ela perguntou quando fui atender o telefone na sala.</p>
<p>Vou levar minhas palavras embora, eu disse antes de partir. Nem pense nisso! gritou. Suma daqui e me deixe os poemas</p>
<p>LUA</p>
<p>A Lua me viu atrás da neblina, quando olhou para baixo. Tentei me esconder, mas até a sombra ela adivinha.</p>
<p>Pus tudo na mochila. Peguei carona. A Lua aproveitou e deu uma uma canja. Brilhou todas as noites até chegarmos ao miolo do soberbo deserto.</p>
<p>A lua branca transparente praticamente cheia parece jogada para o alto e se confunde com as nuvens na visão súbita do fim do dia.</p>
<p>CENA</p>
<p>Ela está lendo uma peça de teatro americana embaixo de uma castanheira em praia isolada. Foi de moto. Desligou o celular. Espiões elementais leem por cima do seu ombro. Sinto daqui alguns ruídos telegráficos da cena. Eu me vingo: faço download de um filme com Greta Garbo e não mando mensagem nenhuma.</p>
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		<title>MALHO</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:48:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Melhor assim, separas a palavra nicho a qual pertence meu ofício e mexes na rotina desta mágoa avesso perfil de solitário artífice Manobro o verbo de jeito ríspido aprendido nas dobras do meu vício os mestres decidiram esse destino que cumpro no malho em ferro frio Armas mortais em corações aflitos são meus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Melhor assim, separas a palavra<br />
nicho a qual pertence meu ofício<br />
e mexes na rotina desta mágoa<br />
avesso perfil de solitário artífice</p>
<p>Manobro o verbo de jeito ríspido<br />
aprendido nas dobras do meu vício<br />
os mestres decidiram esse destino<br />
que cumpro no malho em ferro frio</p>
<p>Armas mortais em corações aflitos<br />
são meus instrumentos de suplício<br />
choram por nada na ponta do marfim</p>
<p>Mas enxergaste o homem e não a forja<br />
o joio longe do trigo. Sou o que sobra<br />
resto de palha grudado em tuas costas</p>
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		<title>CAMAFEU DE OURO</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:47:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Romance em prosa poética]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Já pensei na Lua cheia antes que surja. Antecipo o principal da noite, seu camafeu de ouro. Com o vestido bordado de estrelas a noite aguarda em seu camarim de seda. Talvez não a chamem para o palco e seja mais um abuso do coral das nuvens Não devia ter saído para ver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Já pensei na Lua cheia antes que surja. Antecipo o principal da noite, seu camafeu de ouro.</p>
<p>Com o vestido bordado de estrelas a noite aguarda em seu camarim de seda. Talvez não a chamem para o palco e seja mais um abuso do coral das nuvens</p>
<p>Não devia ter saído para ver a Lua. Ela nem tinha nascido. Lembrei de um verão, há tempos.</p>
<p>É sangue que existe na Cheia. Vem do amor que sente toda semana quando surge a pleno. O rosto rubro da brasa acesa. Tonta de devaneio.</p>
<p>Não vamos perder tempo com a Lua. Ela que fique sapateando sua dança enquanto o eco responde bêbado.</p>
<p>Agora sim a Lua resolveu brilhar. Estava só retocando a maquiagem. E providenciou que as estrelas mais brilhantes ficassem longe dela</p>
<p>A Lua cheia seca as roupas esquecidas no varal, que ficam impregnadas de paixão.</p>
<p>A Lua cheia é teu espelho. Ficas diante dela com tua grandeza feminina. Montas em meu olhar, cavalgada de Walkirias.</p>
<p>No recital de poemas, a Terra entorna o rosto para abarcar o sopro que lhe traz o verso. Não quer chorar, só tremer antes de liberar o dia.</p>
<p>Por aqui, custou a aparecer a Lua. Ela está meio tímida, moeda de luz que se encaixa no cofre de céus cinzas. Como visitante apenas, não rainha. Pelo menos, assim lhe parece quando me engana.</p>
<p>Quando voltas, o que sempre esteve oculto se abre. E de lá sai a luz que me prepara , diamante.</p>
<p>COLARES</p>
<p>Você acenou porque estava ocupada. Fazes questão de me dizer que sou apenas passagem.</p>
<p>Os amores são colares que se rompem. Colho conchas no chão veloz do tempo.</p>
<p>Desisti da tua oferta. Comprei à vista o sentimento que um dia perdi por inadimplência.</p>
<p>Ah, estavas a passeio? Por isso me deixou esperando? Entendo. Me procure quando estiver chorando.</p>
<p>Ela ficou muda. Talvez esteja ruminando meu convite. Ou então deixa o tempo passar para ver se eu esqueço. Mas eu faço plantão porque o amor não permite outra coisa.</p>
<p>Não adianta dizer que está a caminho. Conheço a dúvida quando azeda o vinho.</p>
<p>Não corra o perigo de deixar o coração seco. Abasteça com a ilusão, pelo menos. Não haverá ressaca se houver escuta.</p>
<p>Cada letra preparou o ninho. Mas em vez de livros, teremos gritos.</p>
<p>Tudo já foi dito. Agora vale o escrito.</p>
<p>Fiz uma declaração por escrito. Mas você leu na areia antes da viração.</p>
<p>A felicidade não dura. Essa é a sua sina. Por isso o choro convulso que adivinha o desfecho mal a descobrimos no primeiro momento de cama</p>
<p>O estranho gigante apagou tudo o que estava escrito nas mídias sociais e foi dormir.</p>
<p>PARTITURA</p>
<p>Chove spams sobre apimentar relações ou ponto G. Não se dão conta que as palavras que usam são brochantes, portanto, anti-comerciais, para usar a linguagem deles. Mesmos as mais &#8220;ousadas&#8221;. Palavras são criaturas vivas, caprichosas, incorporam sentimentos, desencadeiam paradoxos. Obedecem à sinceridade, ao amor embutido na letra inventada, que se sintoniza com os mistérios do corpo e da alma. E são uma partitura, se manifestam pela música. Você não fala de prazer sem dominar a linguagem. A não ser que trema no bilhete apressado, jogado na sacada onde a beldade pontifica com sua majestade. É quando a declaração gaga tem chance de derrubar um monumento ou abrir caminho na mata fechada só com um gesto ditado pelo coração.</p>
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		</item>
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		<title>THE HELP E THE FLOWERS OF WAR: O CLICHÊ FUNCIONA</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/the-help-e-the-flowers-of-war-o-cliche-funciona</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:45:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Dois filmes diferentes – The Flowers of War, do bom Yimou Zhang e The Help, da estreante Tate Taylor, ambos de 2011 &#8211; se identificam no uso do clichê, recurso quase obrigatório na narrativa da indústria cinematográfica, que depende do sucesso para sustentar sua caríssima produção. O clichê funciona e por isso é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Dois filmes diferentes – The Flowers of War, do bom Yimou Zhang e The Help, da estreante Tate Taylor, ambos de 2011 &#8211; se identificam no uso do clichê, recurso quase obrigatório na narrativa da indústria cinematográfica, que depende do sucesso para sustentar sua caríssima produção. O clichê funciona e por isso é tão usado. Yimou Zhang, que já nos deus grandes filmes quando não estava a serviço do império predador chinês e do lucro americano, oferece a clássica situação do sujeito meio bruto e desqualificado que se humaniza ao assumir um papel heróico, o de salvar meninas adolescentes de um convento em Nanking na guerra contra o Japão nos anos 30. Já vimos isso em vários filmes, inumeráveis, desde a época em que Robert Mitchum salvava Debora Kerr nos confins do Pacífico em Heaven Knows, Mr. Allison (1957).</p>
<p>Ymou mostra como os japoneses são malvadíssimos e os chineses essas flores que se cheiram, desde o soldado que se sacrifica até as prostitutas que adquirem virtude ao se entregarem para o inimigo e assim salvarem vidas. A China tocou o puteiro da carnificina no Tibet e em outros lugares, mas no seu cinema são essas preciosidades milenares que todos conhecem. O filme escorrega para o dramalhão com cenas arrastadas de choro diante da presença nefasta dos inimigos, destacando as qualidades de caráter dos protagonistas. Christian Bale, como sempre, convence no papel do maquiador profissional e falso padre. Ator de talento e gana, carrega o filme, com ajuda de excelentes coadjuvantes, como a bela o Ni Ni no papel da prostituta Yu Mo.</p>
<p>Em The Help, todas as mulheres brancas do Mississipi dos anos 60 são horrorosas megeras falsas e coquetes que torturam suas exemplares, sábias e magníficas empregadas domésticas negras – ou afro-americanas, como quer o vocabulário politicamente correta. Só se salva a aspirante a escritora e jornalista Skeeter Phelan interpretada por Emma Stone. Viola Davis no papel da empregada Aibileen Clark e Octavia Spencer como Minny Jackson detonam protagonizando as fontes de uma história de crueldade e que vira best-seller. O filme é uma espécie de Casa Grande e Senzala americana, pois os gringos enfim admitem que foram criados por suas escravas domésticas, como sempre soubemos por aqui desde Gilberto Freyre.</p>
<p>Por que o clichê funciona? Porque é preciso marcar no espectador as balizas da história para que não haja confusão. Várias vezes noto, em filmes de emergentes, o problema de saber exatamente quem estava fazendo o que, por falta exatamente dos recursos consagrados do cinema. Devem ser usados, mas não podem contaminar totalmente a narrativa como nessas duas obras. Somos levados à emoção plantada, tão evidente e explícita que chega a ser desdramática, pois sabemos que produção e a direção estão dizendo: agora chorem, trouxas. Só um grande texto e uma grande interpretação poderão salvar o clichê, como acontece na antológica despedida de George Clooney da mulher em coma em os Descendentes, de 2011 e já abordado aqui.</p>
<p>Há uma cena especial em Flores da Guerra, graças ao script. Vou te levar para casa depois que tudo isso acabar, diz o americano. Meu corpo não vai mais me pertencer a partir de amanhã quando eu for distrair os japoneses, diz a prostituta. Leve-me para casa agora. E começa a cena de amor e sexo. Maravilhoso. Mas o resto são o sangue espirrando por todo lado (cenas sensacionais de guerra), adolescentes sendo estupradas brutalmente e momentos poéticos sussurrados. Clichês que fazem do filme um bom espetáculo, mas não sobrevivem a um olhar mais exigente.</p>
<p>The Help escolhe um foco raro no cinema americano, o da vida doméstica sendo protagonista da cidadania (normalmente é a vida exterior que determina as ações e os sentimentos). Inova quando destaca as babás negras e seu universo crítico e sofrido. Poderia ser um grande filme se evitasse ser tão marcado em suas intenções de manipulação do espectador. É difícil sugerir sem mostrar com clareza. Isso quem sabe fazer são os gênios da Sétima Arte, que não existem mais. Má notícia para os comerciantes: nós não esquecemos e fomos formados pelos mestres. Seremos sempre assim duros na hora de ver, com parâmetros de infinita competência, que colocam no chinelo o que se faz em massa hoje.</p>
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		<title>ALVORADA</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/alvorada</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:43:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Todo dia o poema é deserto não tem portas nem jardins nem habitantes ou pérgulas Sopra o siroco mau por perto Verso é design de arquiteto paisagista amador de concreto pedreiro de nuvens, solo de insetos Verbo é chuva de remotas terras Soneto é como João de barro construtor de um abrigo sem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Todo dia o poema é deserto<br />
não tem portas nem jardins<br />
nem habitantes ou pérgulas<br />
Sopra o siroco mau por perto</p>
<p>Verso é design de arquiteto<br />
paisagista amador de concreto<br />
pedreiro de nuvens, solo de insetos<br />
Verbo é chuva de remotas terras</p>
<p>Soneto é como João de barro<br />
construtor de um abrigo sem glória<br />
os predadores atacam como loucos</p>
<p>Tudo por um fio até que despertas<br />
e levantas o busto no lençol revolto<br />
Voa então meu coração de poeta</p>
]]></content:encoded>
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		<title>FOLHA</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/folha</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 18:42:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Romance em prosa poética]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós A noite cai, inútil, sobre o poema, folha amassada no ventre do verão exausto. Não sinta vergonha. Sumiremos no ar em pouco tempo. Ficará apenas esse gesto de amor, como nuvem suspensa no eterno Sou teu alvo, Cupido. Onde guardas as setas para alguém que compartilho? Virou o tempo e o calor acabou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>A noite cai, inútil, sobre o poema, folha amassada no ventre do verão exausto.</p>
<p>Não sinta vergonha. Sumiremos no ar em pouco tempo. Ficará apenas esse gesto de amor, como nuvem suspensa no eterno</p>
<p>Sou teu alvo, Cupido. Onde guardas as setas para alguém que compartilho?</p>
<p>Virou o tempo e o calor acabou em vento. Fim da tarde neste fevereiro tão grudento. Nuvens intensas prometem não ter Lua novamente. Só dentro de nós o amor tempera o clima mais ameno.</p>
<p>Vem que tarda coração de manteiga. Te prometo tesouros, até os falsos, do meu sentimento, já que deixas escorrer os dias sem teu beijo. Faço qualquer coisa para ter teu abraço esplêndido.</p>
<p>Não tem mistério a palavra de amor posta no bolso. É como moeda antiga sem serventia. Todos conhecem mas ela nada compra. É uma espécie de sinal coletivo de chamegos.</p>
<p>Não sou brilhante, sou tua bijouteria.</p>
<p>Já perdi, agora aguardo com meu sentimento. É uma pomba que me ensina o vôo quando se lança sobre a noite incalculável de estrelas.</p>
<p>Sopro teu rosto para ver se piscas. Estás no meu colo, indiferente, seriíssima. Como último recurso, em vão, choro, matriarca de delícias.</p>
<p>Sumiste de vez. Fiquei a ver navios em plena seca. O mar foi tragado pela saudade. Não voltará a ventura de ser teu.</p>
<p>Estou aqui, disse ela, em outro planeta.</p>
<p>E sabe então o que ela falou? Nada.</p>
<p>Por que sonhamos? Para projetar a vida que não deveríamos perder.</p>
<p>Não fugirás do que amo. Não que estejas presa, mas porque assim combinamos, sem sequer saber onde estivemos.</p>
<p>Tão bonita, de tão poucas palavras. Elas me bastam e me ensinam pelo corte enxuto e o passo trêmulo na calçada forrada de flor.</p>
<p>Você passou por mim e tive coragem de dizer. Se não deu certo, não foi culpa do poema, mas do destino, esse pregador de peças.</p>
<p>Agora repousa e sonha. Sou o confisco do teu corpo em movimento de águas. Mergulhe no que parece não existir, mas é só o que temos.</p>
<p>Boa noite, coração ao vento. Pássaro é o verso, que te alcança.</p>
<p>Moro no poema, exílio de esperança. Ame.</p>
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