GANHAR TEMPO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

Teorias novas levam um tempo para se instalar no discurso de massa, mas depois que pegam não saem mais da moda. Principalmente se o conjunto de idéias pode ser sintetizado numa palavra de impacto, como relativizar.

Foi preciso desestabilizar as percepções consagradas nas ciências humanas para instaurar enfoques inéditos sobre eventos passados ou acontecimentos emergentes, que desafiam nossa capacidade de análise. Por exemplo: quando todos estavam convencidos que a História era uma sucessão de feitos militares heróicos, a abordagem específica do que era deixado de lado subverteu os velhos manuais. Quando todos achavam que os fatos eram incontestáveis, os mestres apontaram para a impossibilidade de abarcarmos o real apenas com nossa vista cansada.

Mas como todo mundo relativiza a toda hora, perdeu-se a responsabilidade pelo excesso de uso, que acaba beneficiando o jogo bruto de interesses. Hoje, relativizar é negar tudo, principalmente as evidências, quando deveria ser apenas o recurso de afastar o olho para enxergar melhor. O óbvio foi expulso do seu status de consenso. Perde-se tempo e dinheiro em pesquisas que provam que o leite faz bem, por exemplo, ou que, respirando, a pessoa sobrevive.

Se um grupo de pessoas pratica assalto e roubo em nome da justiça social, a nova onda diz que isso pode, pois o alvo do crime também exerceria o mesmo tipo de prática. Essa influência no cabo de guerra da política coloca o relativismo na agenda do dia, ainda mais que nos aproximamos de uma campanha eleitoral decisiva. A propaganda partidária é o paraíso do relativismo. Tudo pode ser, desde que se faça a expressão certa e se adote o tom adequada da voz.

Para ganhar tempo, o cidadão deve voltar-se aos conceitos clássicos e redescobrir o sabor da leitura proveitosa. A batida opção de levar um livro para uma ilha deserta, no fundo, quer dizer o seguinte: precisamos ler o que vale a pena sem a tralha que o envolve, sem o cerco dos autores coadjuvantes. Ter os olhos livres diante das palavras arduamente elaboradas é gerar, dentro de si, os instrumentos necessários para enfrentar todo tipo de manipulação.

Aí, sim, poderemos relativizar. Ou seja, colocar no seu devido lugar as certezas comercializadas em função do assalto aos tesouros nacionais.

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