LINHO NO ENTRUDO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

A tocaia, no alto do muro ou na quebra da esquina, usava o balde com água até a borda, derramado sobre o linho branco e o vestido engomado. O ato selvagem do entrudo, que ainda vislumbrei na primeira infância, possuía o charme de uma carga de cavalaria. Os adultos, tão sérios no resto do ano, enlouqueciam no vale-tudo. Por ser perigoso, o carnaval era circunscrito a quem tinha recursos elementares de defesa, como idade e físico para se arriscar fora de casa.

Ninguém escapava. Os marmanjos, de calças arregaçadas e sem camisa, armavam-se de toneladas de água. O sentimento de vingança tomava conta de pessoas tão cordatas. Queriam ver os renitentes, que insistiam em sair com suas roupas domingueiras, serem enxovalhados sem dó pela barbárie.

Havia peso no ar, e não era apenas o calor e o mormaço. Havia a proibição de ser normal. A criminalidade do comportamento tinha carta branca para se manifestar, sem o favor de nenhuma lei, a não ser a do calendário. Era uma fenda que se abria no regime fechado das virtudes e por ela despencavam as personalidades mais notórias. E não emergia apenas o jogo bruto do banho forçado, mas cenas mais sutis de deboche, inspiradas por grossa malvadeza.

A vítima poderia ser o vizinho de terno impecável que olhava para os lados antes de se abaixar diante da nota de um Cruzeiro, jogada a esmo sob o sol das três da tarde. Um Tamandaré, como era chamada a nota, já não valia muita coisa naquele início dos anos 50, e isso dava graça maior à empreitada. O dinheiro estava bem amarrado por algum moleque que, oculto, segurava uma linha invisível. No momento em que o distinto se esforçava para alcançar a prenda, tendo o cuidado de não amarrotar o friso, o espetáculo patético chegava à consagração.

A determinação desmascarava a pompa. O sujeito que costumava selecionar o cumprimento, restrito à vizinhança feminina, não passava de um espertalhão vistoso. Ao ser flagrado quando estendia o braço miseravelmente, enquanto a nota arisca escapava para baixo do portão, uma onda de gargalhadas tomava conta da rua, aparentemente deserta, mas lotada de foliões anônimos.

Diante da radicalidade dos eventos, a máscara não era apenas sinal de brincadeira, mas de sobrevivência. Era preciso manter a dignidade a partir da quarta-feira de cinzas, mas sem abrir mão da oportunidade de se transformar no monstro que pedia para mostrar a cara. Isso tinha serventia, especialmente para achacar as casas a bordo de um turbulento bloco de rua.

Lembro do Pátio dos Milagres em que se transformava a calçada em frente onde morávamos. Nela evoluíam o bizarro e grotesco vestidos de trapos, exibindo um estandarte forrado de lantejoulas e de algumas notas pregadas com alfinete, que deveriam ser acompanhadas por outras, as que tínhamos nas gavetas. O som violento de latas, já que os couros eram escassos e não havia gato suficiente para atender a demanda, era espichado até a insânia. A turba não saía da frente enquanto não depositássemos os trocados mais escondidos da residência.

Mais tarde, conheci o carnaval organizado dos desfiles das escolas de samba, com seus cordões e baterias impecáveis, e dos salões, lavado por lança-perfume e sopro de metais. Tudo muito civilizado. Nada parecido com o entrudo, que era a denúncia de uma sociedade falsamente equilibrada. Ao contrário de hoje, quando a transgressão do carnaval reitera a falta geral de compostura.

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