MODERNISMO: UMA RELIGIÃO OFICIAL

jul 27th, 2011 | Por | Categoria: Política        

Nei Duclós

A Flip, festa literária em Paraty, celebrou o Modernismo, a atual religião oficial do regime que governa o Brasil, a ditadura de fato sob a capa da falsa democracia. O crítico e intelectual Antonio Candido, que acha Lula um modelo de antropofagista cultural, pois é capaz de reelaborar tudo o que escuta sem jamais clonar o que absorve, como disse no evento, é o grão-sacerdote dessa seita, que tem como diácono e Relações Públicas o dramaturgo e ator José Celso Martinez Correa, recentemente agraciado com uma fortuna de R$ 569 mil por ter enfrentado a ditadura, além dos cinco mil mensais a que tem direito na sua regia indenização. Não por acaso, José Dirceu, denunciado pela Procuradoria Geral da Justiça como chefe da gang do mensalão, e mourixaba do petismo oficial, acaba de ser nomeado patrono da Fundação Nemirovsky, detentora de um dos mais importantes acervos de arte moderna do país.

Os santos dessa religião, o Modernismo assimilado oficialmente pela ditadura, são o herói sem nenhum caráter e o comedor de carne humana, o antropófago (representado pelo quadro de Tarsila Amaral, Abaporu, que tem a imagem chupada –já que não foi citada a fonte – de uma foto de Edward West). Dois personagens que na época em que foram criados assumiam o perfil da denúncia, viraram modelos culturais. O herói sem nenhum caráter está em toda parte na corrupção que faz o sistema funcionar e no chamado pragmatismo político, que substituiu o “rouba mas faz” pelo simplesmente “rouba porque é assim é que se faz”.

E a antropofagia, que era uma proposta de reelaboração cultural de influências estrangeiras, é tomada ao pé da letra, pois se celebra o banquete de carne humana baseado na deglutição do bispo Sardinha (exemplo radical de Oswald de Andrade para se fazer entender) como se fosse a coisa em si. Vendo o morticínio e a carnificina nacionais na violência urbana e rural, no trânsito, nos assassinatos políticos, notamos que a metáfora encarnou na realidade sem a transcendência do conceito. Também não é por acaso que a grande proposta do Teatro Oficina, o festim bacante e dionisíaco da vida, faça parte das práticas do submundo do poder, como mostraram inúmeras denuncias.

Um dos vetores do Modernismo,foi o operarismo, espécie de sintonia com as lutas mundiais da classe operária mas que aqui acabou elegendo um falso trabalhador para implantar a atualização do sistema que favorece a indústria financeira internacional. Temos assim que conviver com o paradoxo em que a casca da esquerda está no bolso dos bancos e leva uma grana preta para exercer o papel de laranja da especulação. A oposição, que se deteriorou como direita, desmoralizada na brutalidade dos anos de chumbo, diluiu-se no tucanato de resultados e exerce comportamento endogenamente antropofágico, com lideranças que se entredevoram como se fossem personagens de uma peça oswaldiana do teatro Oficina.

O Modernismo brasileiro assim é a justificativa cultural de um regime que se alimenta de carne humana e processa o poder por meio de personalidades sem nenhum caráter. E também a fonte de deglutição de recursos públicos num país que sucateou o ensino e tornou milionários os apaniguados do poder com seus eleitos recorrentes, dos prêmios literários às curadorias suspeitas.

O Modernismo foi uma reação à macaquice do estrangeiro, uma forma de apontar caminhos para a nacionalidade num ambiente que se desvinculava das tradições seculares. Mas se transformou, via engessamento das consciências e comodismo político, num paradigma, num modelo de pensamento, comportamento e produto cultural. “Como ficou chato ser moderno”, escreveu uma vez Carlos Drummond de Andrade. Agora é pior: ficou perigoso. O Modernismo, do jeito que está, é excludente e permite a fritura decana de Monteiro Lobato e impede que novos protagonistas, opostos às certezas endossadas por decreto, emerjam no cenário cultural do país, entregue às moscas da predação e da barbárie. Trata-se de um ex-Modernismo, que se esconde no talento e coragem de gerações passadas para vibrar o malho da anti-cultura.

Poucas décadas depois da Semana, Manuel Bandeira, que era colunista de arte em vários veículos, dizia que o Modernismo era um novo academismo (“Como tem portinarices nesta exposição”, dizia ele num artigo). O Modernismo acabou substituindo o que mais criticava, não graças a seus fundadores, mas aos acólitos e seguidores. Engessou-se de tal maneira que sucessivas ondas que se insurgiram contra seu cânone acabaram quebrando na praia. Geração 45, Praxis, Concretismo, Catequese Poética, tudo virou manifestação referencial do Modernismo. Foram anexados, por motivos políticos, absorvidas pelo poder devorador, já que se formaram gerações de burocratas que cuidam da cultura e precisam de um paradigma sólido para manter seus nichos de poder e dinheiro.

Trata-se de um paradoxo, pois o Modernismo não nasceu engessado, ao contrário, é cheio de contradições, já que se ofereceu ao público como um patrocínio da elite e ao mesmo tempo manifestou a radicalidade da “Ode ao Burguês”, de Mario de Andrade. Era um evento a favor da nacionalidade, mas crivado de vanguarda europeia, uma contradição que se subdividiu no manifesto Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, que pregava a absorção criativa do que vinha de fora, e o movimento verde-amarelista, que procurava voltar ao nativismo do século 19.

Hoje, como uma das personas da ditadura mascarada de democracia, o Modernismo precisa de um confronto mais radical para ceder de vez.  É preciso ir fundo, revisitar os pioneiros com a mesma acidez com que eles enfrentaram os paradigmas da época e desmascarar o truque do poder que posa de revolucionário mantendo as injustiças seculares.

Texto publicado no Jornal Opção (a versão acima contém algumas modificações mínimas em relação à capa da Opção Cultural;originalmente, uma versão menor do texto foi publicado no Diário da Fonte, do blog Outubro).

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