O CÍRCULO DE GIZ DA AMÉRICA

mai 22nd, 2005 | Por nei | Categoria: Cinema    1.183 visitas    Print This Post  

Nei Duclós

O cinema é a prisão do imaginário americano. Melhor: é o reflexo, ou subproduto, da percepção fechada sobre a própria fronteira mental, que é muito mais sólida e perene do que a fronteira física pois, ao contrário desta, trabalha com a inclusão para que tudo permaneça inalterado. Nada escapa a esse círculo, mesmo quando se trata dos seus mais brilhantes diretores, seus maiores atores, seus melhores filmes. Vencer e perder ou fazer o que se deve fazer são os clichês dessa inflexível Parca Átropos (a deusa grega responsável por cortar o fio da vida) tornada, pela repetição, inevitável.

MYSTIC RIVER – O filme de Clint Eastwood “Sobre Meninos e Lobos” é, segundo ele, sobre a perda da inocência, mas prefiro dizer que é sobre a costura possível dessa cultura americana na época em que tudo desmorona – e intensifica a necessidade da sobrevivência. Agulha e linha, neste caso, não fluem diretamente só do roteiro, mas da postura de toda a obra. Não existe traição à pátria, consentida pela cultura, nos Estados Unidos. O Império não tolera defecções. Obrigatoriamente, estejam onde estiverem seus personagens, tenham ou não cometido o mais hediondo dos crimes, estará lá de plantão, batida pelo vento, altiva ou murcha, a bandeira do país tremulando na tela. Pois o crime maior é negar a América, portanto tudo cabe na teia tecida pela segunda Parca, Lachesis, responsável pelo destino, a duração e as ações da vida. Já que todos obedecem à primeira Parca, Clotho, que manobra com o nascimento, já que todos pertencem ao mesmo mundo fechado, o que qualquer filme feito nos Estados Unidos se preocupa é o lugar ocupado pela América. No caso de Clint, fica na ação, não na moral, fica no fazer, não no refletir, fica no presente, jamais na memória. A América se constrói todos os dias e para essa árdua tarefa é preciso que o homem seja o rei da sua família, a mulher o apóie, seja qual for o crime do marido, e os filhos não se desencaminhem, mesmo que tenham passado pela ruptura ocasional do relacionamento familiar. A maldição é para os perdedores: os que não conseguem chegar ao fim de suas ações (como a vítima Dave, que escreveu apenas as primeiras letras do seu nome no cimento fresco). Prisioneiros do destino, os americanos só podem escolher o inevitável: reconhecer que os perdedores caíram na armadilha e que para vencer é preciso perseverar, mesmo que seja necessário mentir, matar, roubar. Encontramos essa inevitabilidade em Os Imperdoáveis. Tudo o que contraria essa lei faz parte da cultura alienígena, que na maioria das vezes, é o catolicismo.

MEDO DA CRUZ – Os americanos temem a Igreja Católica e este filme de Clint mostra a dimensão desse pavor. Eu achava que eles simplesmente a desprezavam, pois costumam sempre debochar da cruz em todos os seus filmes. O filme cumpre a escrita e identifica o catolicismo com o Mal. Mas, mesmo marcado com a cruz tatuada nas costas, o líder familiar (Sean Pen, excepcional) assume seu papel na América, onde não há espaço para arrependimentos. Não é que a ação tudo justifique, a ação é a única lei, e ela precisa estar orientada para a costura do país, que experimenta uma fase de Queda absoluta. Nada existe fora do fazer, do verbo. Para isso, Clint usa a qualidade teatral de seus magníficos atores (como Tim Robbins, no papel do adulto Dave que fica confuso diante das manifestações do Mal, ou Kevin Bacon, um carismático e clássico investigador da Polícia). O rosto de Tim é a decadência física da América, assim como as ruas e prédios da cidade exausta. A liquidez dos gestos de Kevin e a solidez física de Sean fazem parte da América que pega o touro a unha. No roteiro enxuto, na composição visual perfeita, sobra justiça para Lawrence Fishburne, que livra-se de sua pretensiosa interpetação em Matrix e comporta-se sob o tacão de mestre Clint. Se “Na Linha de Fogo” pátria era elegância, em Mystic River a América é uma sobrevivente, que reitera sua cultura na parada escolar, apoteose da vitória, bem o oposto da primeira comunhão da irmã da moça assassinada, quando os dois eventos – morte e eucaristia – coincidem. O valor do filme é revelar os limites desse círculo mental que oprime a América e o mundo. Tudo está por um fio. Talvez tenham que chamar de volta Dirty Harry para recolocar as coisas no eixos.
O rio místico é a metáfora do mito fundador da nação. Ele lava os crimes em nome de um destino maior. Nada mais criminoso, mas nas mãos de Clint Eastwood, nada mais brilhante.

Deixar comentário

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes