O LIMBO É REAL

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

A chamada realidade é algo “fora” de nós. Um filme “baseado em fatos reais” é sempre uma armadilha, já que toda representação é uma obra interior, fruto da percepção. Nessa arapuca se enrodilhou a História por muito tempo, até que as escolas dessa ciência abriram inúmeras janelas para o conhecimento. O que chamam de micro-história, ou história das mentalidades, e seus desdobramentos, são, no fundo, uma forma de colocar no seu devido lugar a realidade consensual, aquela soma de eventos definitivos que formatariam nações e épocas.

O cinema pode ir mais fundo: abordar essa realidade pela ausência, ou melhor, conseguir desvendá-la colocando uma cortina divisória entre o que se passa no céu ou no inferno da realidade hegemônica das representações coletivas, e privilegiar o limbo, aquele não-lugar que a inocência (a dos cidadãos comuns) ocupa quando se vê desprovida de culpa e de batismo (o envolvimento direto com os “fatos”). O filme maravilhoso e imprescindível que é O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, tem essa qualidade.

O que oculta (e por tabela, mostra) essa obra que arrebatou os críticos? Ela esconde, para revelar, do protagonista Mauro, de 11 anos, o que se passou com os pais e o país. Mauro está envolvido na História oficial: a Copa de 1970, que aguarda como um sinal de que os pais irão voltar, conforme promessa feita antes da separação. O que não enxerga (e o que o filme só aponta em alguns insights) é a fonte da sua dor, ou seja, a repressão que se abateu no Brasil na primeira fase da ditadura, a dos militares. Isso é assunto para os adultos, que confabulam fora do quadro, olhando para a orfandade súbita do menino.

Mauro está no limbo: não passou pela circuncisão, ou seja, não é judeu (numa metáfora propositalmente inapropriada, já que o limbo é um conceito católico, mas que aqui serve como referência); não tem vida escolar, pois está só na casa do avô morto; não sabe seu lugar no time de futebol na rua e prefere jogar botão, onde o goleiro, a testemunha solitária do jogo, é o destaque; espera desesperado a volta da sua família, enquanto se ocupa de atividades efêmeras, como espiar as mulheres numa loja de roupas; sofre a presença de um desconhecido, o vizinho judeu do seu avô que o trata com secura e rispidez; faz o sinal da cruz imitando o goleiro do seu time, gesto que é punido com um safanão pela comunidade judaica. No céu ele não está, pois liga para sua casa em Belo Horizonte e ninguém atende; e nem no inferno, pois consegue se distrair com roupas e fotos antigas e faz amizade com a meninada do bairro. Está no limbo, sozinho, e essa é sua realidade.

Mas o limbo guarda a esperança de uma redenção (a volta dos pais). Enquanto essa não vem, resta-lhe o consolo da Copa do Mundo, quando fomos tricampeões. Mas a coincidência entre a vitória final no México e a notícia de que seu pai não iria voltar é o confronto mais memorável do filme, que faz assim uma denúncia pelo avesso, sem cair no lugar comum da catequese política.

Entre tantas qualidades, o filme ainda dá uma lição de como se deve filmar a repressão, por meio de uma cena de prisão de militantes que deixa no chinelo o que se fez até aqui. Costuma-se, no cinema nacional, pecar pelo anacronismo: sempre há a evidência de que pessoas e fatos atuais se interpõem no resgate da violência dos anos 60 e 70. Fica tudo muito falso, o que não ocorre com este filme, esmerado nos detalhes, eficiente nas ações, emocionante na costura de gestos e rostos.

O conceito de limbo está na pauta desde que o Papa confirmou parecer de uma comissão teológica (para a fúria dos conservadores) de que trata-se de uma hipótese, não um dogma. O menino Mauro, protagonista desse grande filme, navega na confirmação do seu isolamento e nos convence do dogma de sua danação. Do bairro do Bom Retiro (não por acaso, retiro nos remete ao limbo), ele parte para o exílio, órfão de pai, um guerreiro que enfrentou a realidade oficial. Descobriu que esse estado em que se encontrava, de solidão e amadurecimento, iria lhe acompanhar por toda a vida.

Obra de um país temperado pela dor e pela sofrida reinvenção da alegria, “O ano em que meus pais saíram de férias” insere-se na grande cinematografia nacional e internacional contemporânea. É como um goleiro, que não participa do jogo até ser convocado para o vôo. Quando pula no abismo, levantamos da arquibancada. Esse é o gol que merecemos, a vitória que nos redime, a taça que levamos pelo Tempo sem que ninguém tenha a oportunidade de roubá-la.

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