O PEREGRINO ENCONTRA O ABISMO
mai 23rd, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: Música 2.927 visitas
Nei Duclós
O que diz Romaria, a obra-prima de Renato Teixeira, imortalizada por Elis Regina? Numa leitura livre, narra pela voz de um peregrino o encontro com a possibilidade de um milagre, que seria a paz nos desaventos, a tranqüilidade de espírito no país insuportável. Não há treinamento para se chegar a esse objetivo. O cavaleiro que conta sua desdita justifica seu despreparo traçando o perfil de suas origens, família, negócios, andanças. Ele não se conforma com o Mesmo, a repetição da tragédia que é sua vida e vai em busca do Milagre, que significa interrupção, quando o chão falta e tudo pode acontecer. Para encontrar o Milagre, ele vai embora (dá o pira), sabendo que veio do pó e que o pó (de Pirapora) não é território do sagrado, a não ser que haja fé. Por isso o abismo se abre diante do seu olhar, seu olhar.
SANTA POPULAR – A grandeza do poema nos pega na primeira nota: É de sonho e de pó/ O destino de um só/ Feito eu perdido em pensamento/ Sobre meu cavalo. A solidão é o monólogo, a fala sem interlocução, o som sem eco, a palavra perdida no infinito do deserto, o pó de que somos feitos, o sertão, o interiorzão, onde nada existe, a não ser o cavaleiro e sua montaria. Nessa vida, não há espaço para a imaginação, a transcendência: É de laço e de nó/ De jibeira ou jiló/ Dessa vida/ Cumprida a sol. A saída é a invocação à Santa, para conseguir superar esse laço apertado da pobreza e a dura luta pela sobrevivência. Uma invocação que não esconde a origem do narrador, caipira, pertencente a uma comunidade (caipira nossa), devota à Senhora de Aparecida. A santa é a prova de que, sob as águas da luta sem igual entre o homem e seu ambiente, entre a miséria e a vontade de continuar vivendo, é possível existir o milagre. Do fundo das águas, surge a representação da Santa, a imagem, o sinal, e desse evento nasce sua intensa carga popular. É uma santa do povo, porque está debaixo dágua, invisível, e foi pescada por pessoas de fé, que por seu intermédio encontram a fartura. Não é de outra natureza a lenda da Santa: sobreviver com dignidade, usufruindo do Milagre, ou seja, da mesa farta e generosa, contrariando assim os desmandos que geram a fome e a morte prematura. O milagre é possível, ele aparece no meio do trabalho e provê os frutos da água e da terra. Essa possibilidade (a fartura em meio ao deserto social) é que precisa iluminar a mina escura e funda dessa vida pessoal condenada ao fracasso. Ilumina a mina escura e funda/ O trem da minha vida. Essa iluminação, ao mesmo tempo, funda o movimento (trem), que carrega os bens (trem) de uma vida que então se renova. A dupla significação da palavra funda é um dos achados mais preciosos da cultura brasileira e merece sempre ser celebrada como um dos momentos de esplendor da nossa poesia.
FORMAÇÃO - De onde vem o peregrino? Vem da dor ancestral de um país partido: O meu pai foi peão/ Minha mãe solidão/ Meus irmãos perderam-se na vida/ Em busca de aventuras. O narrador cumpre a sina da imobilidade social, pois é peão como o pai. A mãe é o conformismo, a solidão diante do massacre social. Os irmãos tentaram sair da miséria, mas perderam-se em busca das aventuras que o livrariam da sina. O peregrino também tentou sair daquele jogo que o matava: Descasei, e joguei/ Investi, desisti/ Se há sorte, eu não sei, nunca vi. Por meio da sorte fica impossível encontrar uma saída, pois trata-se de uma armadilha: a ascensão social via loteria é um jogo mortal de cartas marcadas. Não sobra sorte para quem vem do povo. Mas existe uma possibilidade, a romaria até a Santa: Me disseram porém/ Que eu viesse aqui/ Pra pedir em/ Romaria e prece/ Paz nos desaventos. Que paz é essa? A paz social. Eliminar os desaventos, conseguir superar as dificuldades da sobrevivência, conseguir viver em paz, sem ficar permanentemente à mercê das intempéries. Há, porém , um problema: Como eu não sei rezar/ Só queria mostrar/ Meu olhar, meu olhar, meu olhar. Eis uma estrofe que merece ser colocada no alto da casa, para iluminar a noite. Pouca coisa se compara a esses versos finais. Impressiona pela ousadia, e nos revela que música popular é criação do mais alto nível.
ESPERANÇA - Sem saber rezar, sem ter cultivado a herança da oração, por ter se perdido em tantas tentativas, por estar absolutamente descrente de tudo, o peregrino está mudo diante da possibilidade de um milagre. Ele não espera mais nada, tem apenas a oferecer a sua expectativa, a sua integridade de pessoa à margem, de espectador permanente. Ele observou tudo na vida, a luta dos pais, as desventuras dos irmãos, sua falta de sorte. Agora, convocado pela comunidade que ainda acredita na interrupção do Mesmo, ele vai até Aparecida mas chega lá e não encontra palavras de oração, que não possui mais, ou nunca teve. Fica então diante do Abismo, a possibilidade do Milagre. Ele olha para aquela chance sem poder tocá-la. O narrador se transforma na voz do cantador, no recado do compositor, na devoção dos ouvintes. Só com essa canção, Renato Teixeira atingiu a glória. Graças a Deus, e a Nossa Senhora Aparecida, naquela época em que a música foi feita, tínhamos um milagre chamado Elis Regina, aquela que nos revelava o Brasil profundo, hoje mais oculto do que nunca. Tantas canções se perdem em função do horror do ruído que nos massacra. Redenção, um milagre, pedimos neste dia. Para que a Inocência do peregrino ainda criança diante da Santa esteja totalmente protegida. Rogai por nós, Nossa Senhora Aparecida, pela música do Brasil, que nos falta, como o chão no precipício.
Quando era criança li um conto húngaro sobre um homem que operava catarata com uma faca de cozinha e muita precisão. Daí apareceu um médico na aldeia e se pôs a explicar-lhe como era o olho e como qualquer imperícia poderia provocar cegueira para sempre e ele nunca mais conseguiu operar. Assim aconteceu comigo: Depois de ver aqui como é que se escreve, nunca mais me meto a fazer nenhuma crítica. Resenha nunca mais! Estou até com medo de corrigir os trabalhos dos meus alunos. Que porrada!
Só me resta agradecer, emocionado, por tão bonito exagero, plavras que são presentes para a vocação em devoção permanente.