O SOM DO TECLADO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara        

Nei Duclós

Havia um piano na minha casa, fazia parte da formação das moças. As teclas pareciam de marfim, brancas e pretas, de onde jamais tirei som que preste, nem mesmo um bife básico. Ao redor do piano vinham de fora as sanfonas, manipuladas com estardalhaço por talentos reconhecidos na cidade. A cascata de teclas me confundia ainda mais. Como podiam acertar as notas com tanta oferta para os dedos? Música sempre foi um mistério para mim. Acabei ganhando a vida no teclado mais banal, o das máquinas de escrever.

Há uma mística sobre as velhas Olivetti. Mas batucar nas pretinhas era um exercício de várias marcas. Lembro que por mais de uma vez martelei em antiqüíssimas Underwood, além das Remington de vários calibres. A gurizada de hoje que desliza as mãos para produzir em massa vai rir quando souber como eram as máquinas de escrever na Folha de S. Paulo. As mesas eram de fórmica e o monstro do teclado estava embutido nelas. Para produzir o texto, era preciso puxar a maçaneta que o mecanismo funcionava: do ventre da mesa saltava a ferramenta de uso diário.

Depois do rec rec e do tec tec intermináveis para desovar matérias ou fechamentos (título, olho, legenda, etc.), o que gerava um lixo considerável de laudas jogadas fora, acionava-se de novo o mecanismo para que a máquina voltasse ao ventre da baleia. Assim, com a mesa desimpedida, passávamos a caneta nos textos, antes de enviar para as oficinas. Funcionava assim: em cima das mesas, havia potes de goma arábica. Servia para colar as laudas uma na outra. Eram tripas enormes, conforme o tamanho da matéria.

Você enrolava a coisa, fazia um canudo com aquilo e gritava para o office-boy: desce! O rapaz então vinha e levava até o centro da enorme redação, e jogava dentro de um orifício, que era o bocal de um cano curvo, comprido, que se dirigia aos porões. O canudo de papel deslizava para lá, onde os gráficos compunham a sua obra em letrinhas da composição. No primeiro dia de Folha, recém vindo dos pampas, não tive dúvida. Gritei: Baixa! , o que provocou gargalhadas por alguns meses. Sempre me perguntavam como estava o baixamento.

É preciso dizer essas coisas, pois irão se perder e ninguém vai mais atinar como tudo funcionava. Os teclados faziam o som das profissões em plena atividade. Os locais de trabalho era os escritórios, lugares onde se escrevia. Trabalhar, durante toda minha vida, sempre foi escrever. Se você está escrevendo no escritório, está trabalhando. Havia pose nos veteranos, que teclavam com a espinha reta, quase olhando para o infinito. Era um jeito cool de se mostrar, exclusivo para quem era observado, estrelas do ofício.

Mas havia os mais espertos, que jamais curvavam a espinha e davam ordens de pé o tempo todo, sem batucar no teclado. Não eram respeitados como operários das letras, como nós. Quem pegava no pesado, a estiva das redações, fazia parte de um grupo identificado com a força bruta da profissão. Garantíamos o que chamam de conteúdo pregando em milhões de páginas os milhões de letras que batíamos sem parar pela vida afora.

A sensação é que éramos eternos, aquilo iria ser sempre assim. Falávamos muito em mudanças, mas jamais pensamos que essas iriam cavar fundo na essência da nossa atividade. Mudar era a palavra de ordem e lutávamos por isso. Tudo realmente mudou e o mundo que conhecemos e ajudamos a construir e levar nos ombros acabou indo para o ralo. Hoje, confinados em blogs, sites e até mesmo nos veículos de comunicação que sobrevivem e irão seguir em frente, somos o resultado de um século desse som no teclado.

Somos os peões das palavras, os árduos fazedores de textos, os compositores da música da linguagem, o que fabricam o andar dos carrilhões do tempo que nos devora. Nas rebarbas do nosso ofício, cultivávamos a poesia, como se fosse a primavera. Mas ela era mais do que isso. Era nosso futuro e sobrevivência. Hoje, os que vivem de escrever, espalhados pelo Brasil ágrafo e bruto, são o poema humano de um barro brindado pelo sopro imortal: a vocação e o talento, esse mistério da sabedoria, que sobrevive a todas as mudanças e atinge o tempo como a seta envenenada de Cupido, o deus travesso.

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