O SUFOCO DO OLHAR

mai 25th, 2005 | Por | Categoria: Cinema    1.210 visitas    Print This Post  

Nei Duclós

Sofia Coppola, em Encontros e desencontros (Lost in translation), mostra como o loteamento do olhar (em Tóquio, onde ela filmou, todos os espaços da percepção estão tomados) pode significar o momento de impasse na vida dos personagens envolvidos. Para ser fiel ao que vi no filme, prefiro trair o sentido pretensamente original de “translation”, que seria tradução, para o que acho mais apropriado: baldeação. Explico melhor a seguir.

VIDA PROVISÓRIA – A onda de equívocos que a crítica provocou quando a filha de Coppola estreou no cinema, como atriz, somou-se às asneiras ditas em relação à seminal obra-prima Poderoso Chefão III , o melhor da série dirigida pelo pai, Francis Ford, que pagou caro pela escolha que fez ao colocar sua garota nesse filme num dos papéis mais importantes. Sofia interpretou tão bem a filha do mafioso, que a confundiram como uma amadora, que estava ali representando a si mesma, como se naquele trabalho – à altura das grandes performances da estudada escola “naturalista” americana, filha dos ensinamentos do Actor’s Studio – já não estivesse presente a fagulha do gênio. Em Lost in translation, ela mostra mais uma vez que não é uma artista qualquer.

O cinqüentão (Bill Murray, excepcional, como sempre) que desce do trem do seu casamento – pelo menos temporariamente, enquanto está filmando um comercial de uísque para os japoneses – está perdido nessa estação intermediária, esse lugar que confluências, que serve para despejar os passageiros de um comboio e recolher os passageiros de outro. Acontece o mesmo com a jovem (Scarlett Johansson), que duvida do seu casamento e é despejado dele também provisoriamente, já que o marido fotógrafo tem outras preocupações.

Este pode ser encarado como um filme para fotógrafos: a arte da imagem, nele, está totalmente identificada com o sufoco do olhar, a comercialização do que deve ser visto por todos. É por isso que o diretor do comercial é um bruto incompreensível, o fotógrafo que tenta tirar emoções do rosto do ator é um ignorante de cinema e o maridinho cool da principal personagem feminina é um imbecil corporativo, que cai nas artimanhas de uma starlet vazia. Eles reforçam o tema do filme, que é mostrar como o mercantilismo multinacional ocupa todos os espaços da visão para dela tirar o máximo proveito, jogando fora o que há de mais valioso, as relações verdadeiramente humanas.

Assim, o homem maduro e a jovem bacharel em filosofia, desencontrados de si, despejados de seus vagões, procuram fazer a baldeação na estação-Tóquio, encontrar um trem que os resgate.

VIVA A DIFERENÇA – A maldição do olhar viciado nas imagens comercializadas é reproduzir eternamente o imaginário do Mesmo. O truque é carregar nas cores, nos movimentos de luz, nas trucagens, para dar a falsa impressão de diversidade. Não existe diferença entre o Monte Fuji visto ao longe de maneira bem comportada, a partir de um campo de golf (o monte é apenas uma paisagem fake, mural que imita a natureza) e a animação de um dinossauro no centro de Tóquio. É tudo o Mesmo, que se reflete nas palavras gastas, nos cumprimentos forçados, na gentileza caríssima dos hotéis de luxo, no strip-tease profissional e bizarro. Os dois personagens – o cinqüentão e a jovem – fogem do que costumam conectar, pois estão à procura da diferença, que dará sentido às suas vidas (mesmo que não saibam disso conscientemente). O ator escapa dos fãs, da troupe que o escolta, e faz gestos cínicos para quem tenta manipulá-lo. No outro lado do bar, ela foge das conversas sobre anorexia da mesa o­nde está, exausta do esforço que os viciados na mesmice tentam impor por meio de falsos impactos nos gestos e idéias. Essa fuga mútua empurra os dois para vários encontros e daí para uma relação que se transmuta numa revelação. Quando finalmente eles assumem esse amor frutificado na diferença, o olhar deixa de ser refém da cidade e Tóquio aparece como nunca, dando espaço para um travelling inesquecível, onde a imagem divide-se entre o perfil dos edifícios e o céu, território quer não pode ainda ser loteado.

PAISAGEM – A libertação pelo amor vindo da diferença é o fim do sufoco do olhar. É pegar um trem que não estava programado, é inventar uma linha que, em vez de ir para a capital, pegue uma estrada imaginária que nos leve para o alto da serra, por exemplo. De lá, podemos descortinar uma nova paisagem, soma do que herdamos com o que adquirimos neste filme magnífico, meu favorito para todos os Oscar.

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