ONDE NÃO HÁ ESPAÇO, HÁ ROMÁRIO

mai 23rd, 2005 | Por | Categoria: Esportes    2.792 visitas    Print This Post  

Nei Duclós

Não importa o tamanho do país. Importa quanto espaço existe nele para se viver. A posse folgada do território por parte do privilégio confina a maior parte do povo aos limites impostos ao menino Romário. Nessa escassez o grande craque inventou sua arte. Não se trata de sistemas decimais de metragem. Mas de possibilidades que a rua clandestina, o terreno derrubado para a estrada, o muro que rouba o calçamento oferecem para que o corpo possa driblar o limite e encontrar um caminho na área cercada de zagueiros ferozes. Para peitar essa barra, é preciso chamar a si a responsabilidade. E foi isso o que aconteceu. Em 1994, quando a nação estava erma de vitórias, depois de uma década perdida em fracassos sucessivos, veio de longe, do outro lado do mundo, curado de uma fratura nas pernas, o cara que tirou o país do atoleiro das certezas e inaugurou a dúvida, ou seja, a chance de um salto bem sucedido no abismo. Não havia espaço para nada: estávamos por um fio no jogo decisivo das eliminatórias. Havia apenas Romário. E isso bastou para que o grande país se reconciliasse com seu destino.

CHUTE
– Foi nesse momento, quando perdíamos a esperança de participar na Copa dos Estados Unidos, no último jogo contra o Uruguai, que o grande craque disse: vamos nos classificar e vamos ganhar a copa. Foi a única promessa cumprida feita por um homem público no Brasil do final do século. Quando ele rompeu com o Fluminense e preparava-se para despedir-se dos jogos internacionais com um amistoso contra o México em Los Angeles dia 8 de novembro, Romário novamente chamou para si a responsabilidade. Declarou-se o maior depois de Pelé. Ronaldo Fenômeno deveria ter aprendido algo na sua vida e calado a boca. No lugar de dar uma resposta malcriada, de menino que não reconhece a liderança e superioridade de quem o precedeu (e o ajudou no início de carreira), deveria ter aplaudido. Foi preciso que Romário dissesse o óbvio para que caíssem em cima dele. Mas ninguém dirá por ele. Assim como ninguém arriscava nossa classificação em 94, como ninguém acreditava que a teimosia retranqueira de Parreira fosse dar frutos naquela Copa. Romário mudou Parreira para sempre e transformou-o num vencedor. Chamou o jogo para si e levou de trambolhão os adversários, compôs tabelas primorosas com Bebeto, homenageou com os quadris que se retiravam da reta o chute direto e salvador de Branco, e veio enrolado na bandeira da Pátria num momento em que estávamos feridos pelas traições da política e da economia e com o sucateamento crescente (que enfim se realizou) do futebol brasileiro. Romário carregou o Brasil nas costas. Estava no lugar certo naquela cabeçada contra os holandeses. Provou que a altura não interfere no futebol, apesar das insistências dos comentaristas que ficam medindo o tamanho dos zagueiros para provar alguma coisa, como se futebol fosse basquete.

PONTARIA -
Romário não tem altura, não tem corpo de craque, possui pernas levemente tortas, herança talvez de uma infância sem proteínas suficientes. Suas armas são as posições que toma em campo, a inteligência com que acompanha e arma as jogadas, a pontaria mortal de suas investidas, o senso de oportunidade, a liberdade para inventar latifúndios virtuais em cubículos sem ventilação. O que mais incomoda no genial craque é que ele esnobou a riqueza, deixou de lado a grana dos gringos para voltar a morar no Rio de Janeiro. É preciso fazer uma leitura desse seu ferrenho nacionalismo. A copa nos Estados Unidos é fruto da opção feita por Pelé, que ensinou os gringos a jogar e tornou-se um mito movido a dólares (o que não lhe tira a glória de ser o Rei). Naquele campeonato, poderíamos ter falhado, dando certificado seguro para nos retirar do pódio definitivamente. Tivemos até a oportunidade de cair aos pés de nossos alunos, os gringos ruins de bola. Mas vencemos por um apertado um a zero e fomos em frente. Romário trouxe da terra americana a libertação do imaginário nacional do futebol campeão do mundo. Deixou os espanhóis furiosos porque não queria mais sair da praia. E, para quem é humano, por que abandonar o azul do mar, o cheiro de maresia, a areia branca e fofa, os corpos embalados pela divindade? Por que optar pela neve, pelo cofre, pela correria em campo? O mar, espaço infinito sem cercas ou sesmarias, é a melhor representação do sonho de quem superou as limitações físicas da geometria e da classe social.

DOMÍNIO
– Romário posta-se na área como um predador. Não há espaço para jogo nenhum. A retranca triunfa. Mas a bola é aliada e resolver quicar na área, meio assim de graça. Caem em cima dela todos os jogadores do mundo. Romário apenas pensa e sai com a bola dominada, que já está no fundo do gol. Não havia espaço para coisa nenhuma. Havia, portanto, Romário. Vida longa ao herói da Pátria.

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