PECADOS MORTAIS DO JORNALISMO
dez 10th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: Redação sem MáscaraNei Duclós
Apesar dos bons serviços prestados pela imprensa, às vezes fica impossível aturar o que alguns apresentadores e repórteres dizem ou escrevem. O pior é que os lugares comuns não dão sinais de desistência e fica cada vez mais explícito que eles jamais mudarão os jargões, pois estão certo de que é assim desde que “o mundo é mundo”.
O QUE POUCA GENTE SABE – Em algum momento da profissão, o jornalista se sente uma divindade por deter o conhecimento do mundo, em todos os tempos. Ele faz parte de uma elite, a dos sabichões.
A SEGUIR, MAIS INFORMAÇÕES – Dizem isso no noticiário, mas o que poderia vir a seguir num jornal a não ser mais informações? É o mesmo que dizer: A seguir, vamos continuar respirando. Aguarde.
QUALIDADE DE VIDA – O jargão das consultorias contaminou as redações e de lá não saem mais. Qualidade de vida é poder exercer um estilo próprio, destacar-se da mesmice e publicar o que deve ser publicado e não o que ordenam os podres poderes.
VONTADE POLÍTICA – Essa se diferencia da vontade pura e simples porque a política dá mais dinheiro. Quando dizem falta vontade política é porque não chegaram ainda a um acordo sobre o montante a ser gasto na negociação.
JAMAIS PODERIA IMAGINAR – Já citei aqui, mas vale entrar neste novo cânone. O leitor ou a fonte são desprovidos de imaginação, talento que só o jornalista possui e costuma sempre destacar, para que todos morram de inveja de sua criatividade.
CLARO – Dito em tom peremptório, como aposto, expressa a obviedade do assunto que o espectador não consegue capturar e o apresentador, com um gesto ou cara de enfado, destaca não sem antes denunciar, no tom, que aquilo lhe custa muito esforço.
ESSA COISA DO “PERSONAGE” – Como ninguém verdadeiro chama a atenção da mídia, a moda é interpretar um papel e, o melhor, falar sobre o “personage”. Os repórteres, como fazem parte do show, adoram perguntar como que é essa coisa.
COMO SE SENTE PERDENDO TUDO? – Quem fizer essa pergunta deveria ser condenado e morar um ano na favela e todas as semanas responder como está se sentindo ao lado do esgoto, em barraco podre, na enchente ou abaixo de tiroteio.
Esse troço de “qualidade de vida” alcançou uma proporção inaceitável, já que é algo que vem do nada e nada significa, além de dar margem às maiores pretensões cretinas.. Não tem nenhum precedente teórico clássico na filosofia ou na sociologia, mas além das consultorias, do textículo do jargão corporativo, contamina o meio acadêmico e torna-se hegemônico.
Para tirar sarro da importância que um geólogo advogava para sua profissão, agora em destaque e com alto piso salarial, o desafiei a falar sobre ela. Comecei dizendo algo como:
“A geologia é muito importante para a sociedade de hoje, pois melhora a qualidade de vida e o futuro do planeta”. E pedi a resposta.
Aì fui ver e os textos não se distanciam muito da ironia:
http://www.vale.com/pt-br/carreiras/profissoes-na-vale/Paginas/geologo.aspx
Até na USP!!!: http://www.igc.usp.br/index.php?id=158
“definição da maneira adequada (não destrutiva) de utilizar os materiais e fenômenos geológicos como fonte de matéria prima e energia para melhoria da qualidade de vida da sociedade;”
Disse que esse troço foi inventado recentemente pela ideologia CIA e FMI para rankear países e pessoas. Aí fui pesquisar para fundamentar e achei um trabalho acadêmico em portugal sobre ele:
http://www.porto.ucp.pt/lusobrasileiro/actas/Carla%20Leal.pdf
“Lyndon Johnson, presidente dos Estados Unidos, foi o primeiro a empregar a expressão qualidade de vida, ao declarar, em 1964, que “os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos. Eles só podem ser medidos através da qualidade de vida que proporcionam às pessoas”.”
http://jornale.com.br/wicca/?p=530
Surgiu em 1964 esse interessante conceito…dito pelo então presidente dos EUA, pra falar de politica financeira.
Apesar de não ter nenhum precedente clássico e ser mal-definido, deve-se, de certa forma, ao velho Aristóteles, mal lido e mal aplicado, já que a “qualidade” é definida no Organon, o trabalho sobre as Categorias, e não quer dizer necessariamente algo bom, positivo.
Miguel
Mais uma aula esclarecedora, Miguel. Matou a charada!