POSE

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós (*)

Pose é posse: a imagem pública pertence a quem briga para formatá-la. Quando esse perfil arduamente conquistado escapa e rola na sarjeta, a biografia corre perigo. É preciso então intensificar as poses para recuperar o espaço perdido e definir o que chamam de “virada”. Vemos isso a toda hora. Depois de fazer uma besteira, a celebridade diz em rede nacional que vai colocar a casa em ordem, ou seja, recuperar a identidade ferida.

A pose faz parte da luta pela sobrevivência, dessa verdadeira vida social, que é comparecer todos os dias, por décadas, em lugares lotados de pessoas desconhecidas. O resto – almoço de domingo, entardecer no bar, festas, bailes, visitas – são ralos minutos de convivência, jamais comparados à extensa rede de relações estabelecidas nos empregos, projetos, empresas, negócios em geral. Entre as duas realidades, que às vezes se confundem (quando, por exemplo, sua sala é transformada numa redação) proliferam os gestos estudados, essa dramaturgia necessária, que formata uma persona, a cara com que você se apresenta no teatro humano.

As celebridades intensificam a arte de parecer porque dependem disso. Usar óculos escuros é o truque mais recorrente. Significa que o famoso não enxerga os outros, já que não é platéia, está ali para ser visto e não ver. Quem usa óculos escuros mostra que é cem por cento observado. O olhar para o nada é acompanhado pelo sorriso vazio de qualquer significado, a não ser o de expor a dentadura ou sugerir intimidade com os fãs. Existe mais impacto quando a pessoa famosa fecha a cara, como a dizer que está farta de tanto assédio, mas não abre mão da sessão de fotos.

Quem ocupa um lugar menos privilegiado no pódio faz o que pode. A estrela simpática evita frases completas e pontua sua fala com alguns risos aparentemente espontâneos, para aumentar sua dose de bem-querer. Sincopar o texto emitido é um velho hábito que ronda a gagueira, sem se entregar ao desconforto de uma deficiência.

Mas tudo depende. Não gagueje numa reunião ministerial. Nem pontifique em entrevista de bastidores. É preciso manter a persona afiada para cada ocasião. Não vá fazer como aquele jornalista excêntrico que recebia o “bom dia” dos colegas com um sonoro e desesperador “tu achas, é?”.

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