QUADRINHOS E BOBAGENS

jul 27th, 2011 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

Certa vez José Onofre foi definido por Luis Fernando Veríssimo como o melhor produto de Bagé em duas pernas. Lembro bem dessa crônica. Foi na Folha Tarde, em 1974 ou 75, na véspera de LFV tirar férias, quando deixaria JO como substituto. Há pouco tempo Onofre foi-se para sempre, deixando pistas da sua personalidade brilhante e contraditória. Escritor magnífico, frasista de mão cheia, intelectual como poucos, jornalista de destaque, foi lembrado como um sujeito complicado numa redação, território de vaidades e traições.

Um dos seus hábitos era achincalhar algum colega tido como erudito ao flagrá-lo lendo gibi, como aconteceu com Jotabê Medeiros, outro exemplar dessa geração de grandes jornalistas. Medeiros conta que, depois de feito o serviço, Onofre lhe arrebatava a revistinha e ia para sua sala se deliciar com as bobagens em quadrinhos. Uma de suas paixões eram as frases dos grandes romancistas policiais como Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Gostava de aplicar frases de filmes de ação, como uma de “Os 12 condenados”. Diante de um prato feito no restaurante muito popular da Lapa de Baixo, onde trabalhávamos em São Paulo, disse, citando a frase do filme: “Já pisei nisso. Comer, é a primeira vez”.

No tempo em que tínhamos sólida formação, por aconselhamento de bons professores, ambiente escolar ou só por iniciativa autodidata, a cultura supérflua e descartável era uma das nossas predileções. Hoje, quando o lixo tomou conta de tudo e a qualidade literária foi para o ralo, perdeu a graça. Mas gostávamos demais de repetir as expressões de Tarzan, como “Bandolo matar”, ou as tiradas de Tonto, o índio do Zorro, como na célebre “nós quem, cara pálida?” quando a dupla viu-se cercada de apaches e o mocinho branco achava que ambos estavam ralados.

Cultura também é bobagem, principalmente se for engraçada e compartilhada sem pose, já que esse parece ser o objetivo da asneira, romper com o circulo vicioso da seriedade chata e muitas vezes falsa. Em Blumenau, quando fazíamos o Jornal de Santa Catarina, tínhamos a companhia de Virson Holderbaum, que criava tipos hilários e os interpretava. Um deles era um agente funerário alemão chamado Herr Lubow, de cara impassível , que se curvava diante dos familiares da vítimas e dizia em tom carregado: “Pêêêsames!” isso dito numa cidade fechada, no inverno, era uma forma de afastarmos as nuvens. Outro grande personagem seu era um general chamado Ostil Vanderlei. “Ostil com O”, explicava.

Essa verve era fruto da leitura compulsiva de gibis, imagino. Desde a antiga Billiken argentina, passando pelo faroeste do Cavaleiro Negro, e curtindo as aventuras do Batman, Capitão Marvel e do Marvel Jr., também navegávamos em Bolinha, Tio Patinhas, Pinduca etc. Disputávamos a tapa as revistas e às vezes algum gatuno nos assaltava na fila do cinema, onde íamos trocar preciosidades. Confiscavam até os trocados. Meu irmão deitava na sopa: “Leva dois cruzeiros para a entrada e seis para os batedores de carteira”!, dizia, rindo da minha ingenuidade de mostrar grana e quadrinhos diante de petizes de olho espichado para nossos tesouros.

Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana

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