REPRESSÃO E PERMISSIVIDADE CONTRA A DISCIPLINA
mar 11th, 2010 | Por Nei Duclós | Categoria: Cinema 66 visitas
Nei Duclós
Dois filmes opostos dizem a mesma coisa. A Onda (2008), de Denis Gansel, baseado no livro de Morton Rhue, por sua vez inspirado num episódio real acontecido em Palo Alto, na Califórnia, quando o professor de história Ron Jones tentava explicar o nazismo para seus alunos, em 1967, é sobre a necessidade da permissividade para evitar a repressão. Harry Brown (2009), de Daniel Barber, é sobre a necessidade da repressão para evitar a permissividade. Ambos são contra a disciplina, base da liberdade.
Os alunos de A Onda, criados no caos do excesso de liberalidade, tanto em casa como na escola, ficam fascinados pelos lugares comuns que formaram a juventude até a minha geração, ou seja, a ordem integradora e o respeito à coletividade. Mas isso, segundo o filme, leva ao fascismo. O velho fuzileiro aposentado Harry Brown, farto dos assaltos no gueto onde mora, resolve fazer justiça com as próprias mãos. Isso, segundo o filme, leva à diminuição da criminalidade. A solução, no primeiro, é manter o caos na formação dos alunos para não cair na tentação nazista. E no segundo é tocar fogo no gueto para que os cidadãos possam cruzar livremente o túnel para pedestres.
Sentar-se em aula como se você estivesse no sofá da sua casa é um vício de comportamento que estimula a preguiça e a arrogância. Vi isso quando, tardiamente, freqüentei a faculdade de História. Um dos alunos rodeava-se de cadeiras para colocar os pés, a pasta, o casaco, os braços, enquanto se estendia quase como numa cama no lugar feito para sentar. Como um sujeito desses vai levar a sério a educação? Cansei de falar aqui: se você transforma o ensino em algo lúdico, o que a meninada vai fazer no recreio, dar tiros?
O professor que dá um curso sobre autocracia confunde tudo em A Onda. Ele corrige postura, comportamento e exige disciplina. Era o que acontecia no meu colégio. Tínhamos também uniforme, não farda fascista nem nada, apenas uma camiseta com o logo da instituição e calça a gosto. Mas a uniformização eliminava as diferenças sociais, como é dito no filme. Mas isso jamais levou à formação de gangs e a Hitler. O que leva às gangs e Hitler é exatamente o oposto, a permissividade. Quando você aceita que meia dúzia de bandidos uniformizados imponham comportamentos para a massa e acha tudo muito bonito até que multidões comecem a ser levadas em trens imundos para a câmara de gás, a culpa não é da disciplina.
Trata-se de um crime contra a juventude incentivar a promiscuidade, o desleixo e a falta de cobrança. Quem está em formação precisa de parâmetros e isso só se consegue com disciplina. Não se pode deixar a meninada à mercê de traficantes, como acontece em Harry Brown. Racismo, indiferença e políticas públicas de exclusão levam ao desespero as novas gerações, que reage contra tudo e todos, de maneira caótica, sem ideologia nem finalidades. O “remédio” usado é a brutalidade policial, a incompetência das investigações e a vingança pura e simples. O filme poderia ser encarado como uma denúncia da situação, mas não cola. Celebra o que mostra e que deveria condenar.
Mas disciplina não é fascismo? Claro que não. As gerações criadas na disciplina lutaram não pela anarquia, mas pela seriedade no ensino. Fomos às ruas em 1968 não porque queríamos nos locupletar, mas porque faltavam vagas nas universidades públicas, porque a educação brasileira estava sendo pautada por um acordo com os Estados Unidos (o MEC-Usaid). Queríamos a disciplina com que fomos criados e víamos a traição impetrada pela ditadura. O resultado está ao nosso redor hoje: analfabetismo geral, evasão escolar, violência em sala de aula, decepção dos professores.
A solução não é a repressão nem a permissividade, mas a boa e velha disciplina, a que nos ensinava desde cedo a respeitar os outros e a entender melhor como funciona o mundo. Se alguém é criado como se não houve qualquer limite para nada, o resultado forçosamente é o tiro a esmo que atinge crianças, mulheres e idosos, como vemos em Harry Brown.