SINISTRUS JOE NO DIÁRIO DA FONTE
dez 13th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: ContosNei Duclós
ENTREVISTA COM SINISTRUS JOE
Quando todos se mandaram do sonho de viver na praia, aí pela grande crise do Plano Cruzado, ele permaneceu. Foi se afastando de todos os expedientes e hoje vive só, numa casa de pau-a-pique, ao lado de gigantesco menir arqueológico, na ponta de uma praia oculta. É direto e definitivo sobre todos os assuntos. Usa longo cabelo crespo branco revolto e vive de pequenos peixes que lhe atiram. Tem o olhar azul furibundo. De perto parece assustador. Mais de perto, sai da frente. Olha agora as pessoas que, cansadas das megalópoles, voltam a sonhar à beira do mar, e sacode a cabeça. Fui entrevistá-lo. De longe, aos berros. As respostas serviram para me deixar desconfiado: estaria ele me tirando um sarro?
P – Ei, Sinistrus, quando é que você vai voltar para a civilização?
R – Tomorrow after rain, responde, recompondo em inglês fajuto o clássico “amanhã depois da chuva”.
P – Como você consegue sobreviver nesta ilha?
R – Killing dog screaming (matando cachorro a grito), continua o ermitão.
P – Você torce para qual time?
R – O da véia, sempre torço para o time da véia.
Ele estava mesmo me gozando. Mas não desisti. Subi mais alguns lances da pedra para vê-lo melhor. Usava roupa de papel crepom desbotado e segurava um cajado de osso. De baleia, possivelmente.
P – Você já viu uma baleia?
R – A toda hora. Elas engordam na civilização e chegam aqui para suar um pouco. Sempre penso que é para perder peso, mas é só para abrir o apetite.
P – Falo das baleias mesmo, as do mar.
Não me respondeu. Parece que gritava, não dava para ver. Um eco me trazia um
-…a senhora sua mãe…
mas não deu para saber se era dele mesmo.
P – Sinistrus (eu não desistia), você acha que o Brasil tem jeito?
R – Claro que tem. O Brasil sempre fica no jeito. Primeiro foram os espanhóis, depois os franceses, mais tarde os ingleses, depois os americanos, agora os chineses, os ucranianos, os trogloditas e os saramagos. O Brasil sempre dá um jeitinho de ficar no jeito. É o único país do mundo que, onde estiver, sacode as tetas.
P – Você é nacionalista, Sinistrus?
R – Nada. Sou de antes da nação. Sou do Brasil antes do Brasil. Nasci para enfiar esse cajado na costa brasileira.
E sacudiu o osso gritando para as nuvens.
Sinistrus Joe estava mesmo em forma. Quem mandou entrevistá-lo?
BACIA – Os barcos ficam lado a lado na pequena bacia. O mar deveria ser calmo aqui, mas ronca. São pequenas ondas que lambem a costa. Estariam sendo geradas por algum pesqueiro no horizonte? Não há pesqueiros hoje em toda a ilha. Estão recolhidos. Os pescadores se reúnem nos bares que só funcionam na temporada e exibem esqueletos do que foram ou serão (coisas cheias de gente bêbada). Os pescadores estão sóbrios. Parecem sérios, mas gritam quando você passa. Estão, claro, tirando uma de turistas de inverno. Um deita atirado na areia e te olha de soslaio. Massas de terra ao longe fundem-se com a maresia, que aqui possui carne grossa. Serão ilhas? Será o continente? Não sabemos. Não temos rosa dos ventos. Somos náufragos desse pedaço do planeta terra, escolhendo pequenas conchas, pequenas pedras. Todas as casas estão vazias. O sol a pino diz que é verão no corpo. Basta bater no morro aí pelas quatro da tarde, o gelo começa a descer. O sul me ensina a solidão do inverno. Debaixo de placas proibitivas, o dono solta seus três cachorrões. Eles descobrem a felicidade. Chama-se liberdade, fica na areia e na beira da água. É assim o planeta onde vivemos. Alguém deve ter puxado a descarga para que pouca gente o veja assim. Em cima de um morrete, colocaram algumas estacas e sobre elas um estrado. Alguém do povo brasileiro dorme sobre esse estrado. Viajo no tempo e aguardo. Sonho com algumas providências. O corpo pede ação. Os pulmões se recuperam. A lua nova virou mocinha. Está enfeitada, brilhante, à espera do tempo novo que chega. Lua nova não é só promessa, é feitio de oração. Desce, Mãe de Deus, teu manto sobre nossas vidas e nos proteja. Queremos aquele Brasil, o que nossos pais e avós construíram, e nos legaram. Ele continua aqui, mas precisamos saber viver nele de novo. Mutuca, Zé Gomes, toquem aquelas velhas e inéditas canções. Irei até os anéis de Saturno, para encontrar objetos perdidos…O vento é uma pedra polar…
10 de Julho de 2004
Diário da Fonte
UM PASSEIO EM PARATY
Nosso correspondente em Paraty, surpreendentemente, é Sinistrus Joe, aquele que, quando todos se mandaram , aí pela grande crise do Plano Cruzado, permaneceu na ponta de uma praia oculta aqui de Floripa. Como vive só, numa casa de pau-a-pique, ao lado de gigantesco menir arqueológico, achava que jamais se daria o trabalho de viajar. Pois ele foi para a Flip e já voltou. Fez tudo de avião. Ganhou a mesada de um milionário, ex-companheiro de viagens dos anos 60, que é herdeiro de fortuna, um espólio meio escandaloso de indústrias sucateadas. O longo cabelo crespo branco revolto de Sinistrus Joe realçava seu olhar de um azul furibundo. Fiz nova entrevista. Desta vez, ele estava mais acostumado comigo.
TITÃS ? Perguntei pelo encontro literário internacional e Sinistrus Joe, direto como sempre, interrompeu-me pelo meio da frase:
– Tem sempre um Titã no meio!
É verdade. Se é festival de música, lá estão eles. Se é matéria sobre filhos recém nascidos, manda-lhe um Titã. Se é livro, de novo eles. Parecem até aquele magrinho de Porto, que foi comprar um cachorro-quente. O hot-dog portoalegrense é pioneiro nessa história de colocar um monte de coisa junto com a salsicha, desde salsinha, queijo e até milho. Vai milho? perguntou o cachorreiro. Sóóó, respondeu o magrinho, completamente pronto naquela hora do dia. Aí o ambulante fez de propósito: colocou só milho. Pois é assim que parece a Sinistrus Joe: onde acontecer qualquer coisa, só tem Titã. Aliás, eles estavam na festa gigantesca da Tim esses dias.
– Mas Arnaldo Antunes é um bom poeta, argumento.
– Sol a sós é dose, grunhiu o ermitão.
Ele se referia a um verso do badalado Titã.
– Os não-livros não se satisfazem em ser o que são, disse. Agora estão diminuindo de tamanho. Dizem que ninguém lê. Claro, não-leitores não lêem, só os leitores mesmo. Daqui a pouco todos vão se abaixar bem para ver o que está escrito naqueles minúsculos produtos de entretenimento e vão acabar achando só aquela síntese total da língua portuguesa.
– Qual é, Sinistrus?
Como é um cara antigo, ele sussurrou o palavrão de duas letras no meu ouvido.
– ??? pasmei
– Sim, sim. Os livros de verdade ficam para os estrangeiros. Os de fora fazem livros grossos, até mesmo livros grossos infantis, como os do Harry Potter. Mas não cai a ficha dos caras.
LIVRISMO – Lembrei então do livrismo:
– Tinha muita criança lá, Sinistrus?
– Muita, muita. E não tinha o Mauricio de Souza, mas o Jaguar. Todos livristas. E mais o Cae, que publicou aquele Noites Tropicais, por isso também é autor.
– Mas Caetano é gênio, Joe. Por que a implicância?
Ele então me segredou que foi lá levar seu romance inédito para ver se encontrava editor. Mas o confundiram com um catador de papel, e lhe deram umas esmolas. Ele mostrava as resmas de folhas escritas em papel de almaço, jurando que era um romance inédito, mas ninguém deu bola. Perguntei do que se tratava o livro.
– Sobre os gigantes, respondeu. Os gigantes que me aparecem ao vivo e às vezes em sonho. Eles existem, estão aí, são criaturas-montanhas.
E me olhou, furibundo. Perguntei se tinha dormido ao relento e ele me respondeu que ficou na pensão do Paulinho. Gostava do Paulinho, que contava as histórias mais mal-assombradas sobre as cercanias de Paraty, de estradas coloniais misteriosas, vários tipos desconhecidos de onça. Isso assustava os turistas, que preferiam ir dormir na praça a ter que aturar as conversas. Sinistrus escutava Paulinho até o amanhecer.
– Viste algum gigante por lá? perguntei, meio distraído.
Ele ficou furioso. Adiantou-se alguns passos (estávamos na beira da praia, gelada neste início de inverno) e olhou para os fios, os postes de luz. Apontou-me um urubu pousado em
cima de uma luminária, uma coruja sobre o mourão de uma cerca.
– Acredita no urubu? Na coruja? Então tem que acreditar nos gigantes.
E foi-se, chutando conchas. Cantava baixinho algo de João Gilberto. Joe adora João. Gritou lá da frente:
– João Gilberto não é babaca. Nunca tirou o terno, nunca foi a uma festa de livros, nunca deixou de ser o que é. Tá todo mundo fantasiado. Querem ser tudo. Onde estão os autores? Perdidos, vendo a vida passar totalmente inédita!
Batia na sacolona que trazia a tiracolo, onde guardava, acredito, seu romance inédito.
– Ninguém quer saber, querem só badalar, fazer pose. Quem vai lá também fica fazendo pose. Conheço montes de romances inéditos. Para onde vão? Para o bucho das traças. Sol a sós um bom cacete. O sol bebe cerveja comigo ao anoitecer.
CRISTINO – Figura esse Sinistrus Joe. Ninguém dá bola para ele. Quando o revelei, aqui no DF, não houve um comentário sequer. É a maldição dessa geração. Ser esquecida em vida. Ser enterrada cheia de coisas para dizer. Vendo todos se locupletarem na festa sem fim. Dei de ombros e fui para a casa. Que me importa tudo isso. Vou para baixo das cobertas. Os barzinhos de Paraty, diz a TV, estão lotados. Deve estar bom lá. Caco Belmonte foi, Tony Monti foi. Estão se divertindo. Quem sabe cravam um editor bom de bola e explodem na praça.
No meio da noite, ouço passos pesados. E uma voz que espicha as vogais, gutural:
– Os gigantes, escuto Sinistrus Joe dizer. Os gigantes estão bem perto de ti, cara. Os gigantes…
Será que o Paulinho, dono da melhor pensão de Paraty, viu algum deles? Me deu saudade daquela cidade. Tive que sair da velha Paraty para encontrar um chinelo forte, que aguentasse as pedras do século 18. Fora daquela maravilha arquitetônica, as calçadas e ruas são como qualquer outra cidade brasileira. Caminhões estacionam, ambulantes deslizam. E no pobre riozinho, aquela chata que fica tirando lama do fundo e que é sustentada por dinheiro japonês, faz barulho. Já tinha visto uma chata dessas no Tietê, por longos anos. Tiravam barro do fundo, financiada a fundo perdido. Será que é a mesma chata?
– Os gigantes, cara, eles estão aqui. Tenho medo, Cristino. Tenho medo da dor e da morte…
Deus do céu. Sempre que escuto algum sussurro, me vem o cangaceiro de duas cabeças do inesquecível Othon/Glauber.
27 de Dezembro de 2004
Diário da Fonte
O BATICUM BERRADO DOS PREDADORES
Sinistrus Joe, o ermitão que vive na ponta de uma praia isolada, ao lado de um grande menir, me concedeu nova entrevista exclusiva e falou sobre o hábito que existe hoje de as pessoas imporem seus auto-falantes para o ouvido alheio. O que é isso? perguntei, assustado com a disseminação de uma doença social, pois o que se coloca no mais alto volume, além de ser uma estupidez, um atentando contra os outros, é o ruído insuportável de quem nada sabe sobre harmonia, melodia, arranjos, essas coisas mortas. O berreiro infernal e a bateção de lata toma conta de todo o país e Sinistrus Joe pensa um pouco antes de falar. Coça o cabelo grisalho comprido, enruga ainda mais o rosto já enrugado e solta um guincho que me assusta. O susto que deu com sua imitação de gaivota era sua resposta: É o bote animal dos predadores, diz esse exemplar perdido dos sonhos dos anos 70. Eles berram no teu ouvido, te ensurdecem para poder te matar sem resistência. O que devemos fazer? torno a perguntar.
GOLPE – Tem gente que chama a polícia, mas a praga está muito hegemônica, continuei falando. Todo supermercadinho resolve colocar um som altíssimo para te anunciar, domingo às sete da manhã por exemplo, as suas grandes atrações e descontos. Vejo pessoas puxando uma caixa de som como se fosse mala de aeroporto, com rodinhas, e de lá sai o barulhão que provoca surdez. Está tudo dominado, e gostaria de saber como sair dessa. Sinistrus foi rápido na resposta: Proclame-se presidente da república e reprima violentamente toda e qualquer manifestação que ultrapasse um nível bem baixo de decibéis, me diz. Reagi imediatamente: Golpe de estado? Não é o meu forte. Não tem saída, diz Sinistrus. Se o banana do presidente da República recebe em palácio essas duas bestas ambulantes que são o Zezé di Camargo e o Luciano, ou faz salamaleques para o Chitazó e Chororinho, se tem gente ganhando dinheiro pesado com o som horrível de shows indecentes e ilegais, então só um bom golpe de estado, diz Sinistrus, na maior calma. Fico olhando para o cara. Me parecia um sujeito decente, apesar da aparência. Achei que era democrata, mas tinha me enganado: Sinistrus, dar um golpe de estado só para evitar a violência do volume alto, só porque não tem ninguém que possa ficar numa praia ou num camping em paz sem ser atormentado por um desses carros envenenados com mil auto-falantes em série reproduzindo baticuns sem parar e berreiro pseudo sertanejo? Eles querem te mataaar, responde Sinistrus, espichando as sílabas e fazendo voz gutural. Te matar, entende? Estão te tonteando, te tirando a paz porque querem te fazer, te cortar o bucho, te estaquear no sol, e se pedires água eles te darão salmoura, entende? Só bala com essa canalha!
CANHÃO – Pensei que eras um democrata, disse eu, meio ressabiado. Ele olhou para o horizonte do mar. O problema, seu poeta, me disse com uma ponta de cinismo, é que eles usaram a palavra democracia para impor a ditadura. Existe liberdade? Então tome vagabunda rebolando a perereca em direção à garrafinha em horário infantil. Tem democracia? Então tome som bem alto de madrugada para acabar contigo. Porque rebolar o bucetão fazendo violentos movimentos pélvicos em direção a um grande pau imaginário e sacudir os glúteos e o rabo sem parar em programa para criança é um crime hediondo que merece fuzilamento. Hoje, não provoca nenhuma reação. Ninguém tem coragem de reclamar. Se alguém se dispuser a ir até o vizinho falar que o som está insuportável e não deixa ninguém conversar, dormir, existir, o animal vai rir da tua cara. Então a saída é uma só: começar a dar tiro nesses filhos da puta. É a guerra, meu amigo. Eles não vão parar senão a tiro. Eu estaria disposto a ganhar um rifle de Natal e sair atirando nesses pulhas. Aviso já que aquele baleião da TV Band, que não dá folga um segundo e toma conta de todos os espaços com sua graxa sinistra, vai ser o primeiro. Aquele paquerador de putinhas do subúrbio, aquele descontrole desumano, aquela bisca, aquele idiota que faz cara séria ao perguntar ao animalão Alexandre Frota se realmente comeu determinada atriz. Esses filhos da puta precisam levar um canhão no meio dos cornos, é o que estou te falando.
BIROSCA – Muita violência, disse eu, reagindo à explosão de fúria de Sinistrus Joe. Nem sabia que ele via televisão. Via. Fugia às vezes para uma birosca à beira mar, onde aturava o som alto para olhar um pouco de TV, só para matar o tempo. Mas voltava correndo para sua cabana. Lá ficava remoendo idéias da revolução. Foi sempre assim o velho Sinistrus. Ele nunca desistiu de uma boa guerrinha.
A BOBAGEM SEGUNDO SINISTRUS JOE
O velho ermitão Sinistrus Joe não agüentou sua turnê pelo Brasil e voltou a morar na praia, numa tosca cabana, ao lado de um gigantesco menir, daqueles idênticos aos carregados pelo Obelix. Já está na ativa, rolando pelas ruas e atacando as caixas de lixo que contêm preciosidades como deliciosas sobras de refrigerante ou suco. Encontrei-o no seu canto favorito, em frente a um conjunto comercial e resolvi entrevistá-lo de novo.
– E aí, Joe, o que está pegando no país?
– O maior sucesso é a Daspu, diz, enquanto faz slurp numa das latas recolhidas na última meia hora.
– Por que será que todo mundo fala dessa griffe das prostitutas?
– Não sei, mas acho que o motivo é que todos decidiram gostar de uma grande bobagem. Pois o que vale não são os direitos das putas, mas o trocadilho. Desde a época do Pasquim que o trocadilho está erradicado do humor nacional, não pode mais, ou não podia. Daspu é uma libertação…
– …dos costumes? pergunto, sério.
Joe não tem paciência com ninguém, muito menos comigo, que costumo atazaná-lo com perguntas.
– Não, a libertação da bobagem, acabo de dizer, não escutou? A bobagem é realmente libertadora. Slurp.
Olhei para ele. Esta sorvendo sofregamente, num calor ardido, véspera de chuva, um resto de coca light, que deve ser o pior purgante do mundo.
– Coca light está na moda, o Lula emagreceu dez quilos só nisso, slurp, disse Joe, adivinhando meus pensamentos (eu fazia uma cara bem explícita do meu desagrado).
– Daspu vale então porque é um trocadilho com a Daslu? Não seria apenas ressentimento contra o desperdício e a ostentação dos milionários?
– Nada disso. É só pela bobagem.
– Mas este país só tem bobagem, Joe. Acho tua explicação precária.
– É que você perdeu a capacidade de pensar. O que mais o Brasil sente falta hoje é de bobagem. O que tem é corrupção, sacanagem, violência, esperteza, mentiras, miséria. Falta o quê?
– Didi, Mocó e Zacarias?
– Não, esses já são o sintoma da decadência. Falta aquela força que fazia uma anedota ser conhecida em todo o Brasil em poucos dias, sem nunca ter sido dita na rádio ou no teatro. Falta esse rio (e quando dizia rio, Joe jogava o braço estendido com a mão espalmada) que te dava segurança de que estávamos no país certo.
– Mas Daspu é um trocadilho infame.
– Todo trocadilho é infame. Mas não defendo o trocadilho, vê se me escuta. Defendo essa permeabilidade (quando dizia essa palavra difícil, o mendigo ermitão torcia todos os dedos ao mesmo tempo), que nos identificava como nação.
– Você é saudosista, Jose?
– Não, bobalhão. Não sou saudosista. Daspu foi criado no século passado?
– Não.
– Foi uma piada do Oscarito?
– Não.
– Saiu no Reco-Reco, Bolão e Azeitona? Então não sou saudosista. Por mim, acho prostituição um crime. Falta de sexo é pura repressão. Eles reprimem o sexo para poder vendê-lo. Ou facilitam até o osso para ter todo mundo na mão. Mas que Daspu é engraçado, é. Até já bolei…
– O que tem de engraçado…
– Não interrompa minha frase no meio, mas que mania!
Deu um berro na palavra mania e me assustei. Quis ir embora, mas ele ficou me olhando daquele jeito. Jamais me perdoaria se eu o deixasse no meio de uma frase.
– O que você bolou, Joe?
Sinistrus aos poucos voltou a si. Talvez tivesse imaginado reagir de alguma forma, mas jamais soube de nada violento dele, e isso que o conheço há décadas.
– Bolei um canal pago de TV exclusivo sobre e para prostitutas.
– Qual seria o nome do canal?
– Não interessa…ou melhor, não pensei. Bolei apenas a grade de programas.
– E quais seriam?
– Programa de auditório com gincana entre as garotas, Disputa; programa de debate político, Deputando; programa de informática, Input; programa de depoimentos das presidiárias que faziam a vida, Carandipu; moda gay, Dascu; programa policial, Kaput; infantil, Histórias da Tia Putinha; teen, Putz…
– Ninguém usa mais Putz, interrompi.
Sinistrus Joe desta vez nem me olhou. Desistiu. Juntou seus cacarecos e se foi, meio curvado, a barba muito branca, ele todo muito magro. De vez em quando parava e se sacudia todo. Estava rindo. Teria encontrado o nome do canal? Ou o do programa de receitas?
2 de Agosto de 2005
Diário da Fonte
A DESPEDIDA DE SINISTRUS JOE
Depois de dormir em frente à caixa rápida, esperando o pagamento de um conto que vendeu para uma revista espanhola, Sinistrus Joe achou a grana tão boa que decidiu ir embora de Florianópolis. Por isso me convidou para uma visita ao seu refúgio, que fica ao lado de um grande menir numa das inúmeras praias da ilha. Fui vê-lo porque o veranico deste inverno nos permite chegar perto das ondas . E também porque essa era a grande oportunidade de fazer perguntas definitivas sobre uma personalidade que rolou vestido de roupa preta apertada, um lenço na cabeça e uma mochila velha, ciscando latas usadas de refrigerante para sorver o resto do caldo que se acumulava em lixeiras do centro da cidade. Encontrei-o com os olhos rútilos, que focava um granito à sua frente. Aproveitei para perguntar:
– Sinistrus, por que você vai embora?
– Porque esta é uma ilha hostil.
– Mas ela tem fama de cordial.
– É para atrair turistas. Fique depois do feriadão para ver.
– Não está exagerando? Você mesmo ficou aqui por décadas.
-As pessoas ficam aqui porque não conseguem sair. O dinheiro não circula e todo mundo fica confinado, sem poder comprar a passagem.
– Mas não pára de chegar gente. Todos querem viver em Floripa.
– Boa sorte para todos. Verão que o mau humor, quando quer ser engraçado, torna-se deboche. O cinismo é a alegria da crueldade. E se a esperteza é a inteligência dos burros, como já disseram, a burrice é a ética dos inteligentes. Estou burro. Vou-me embora.
– Vais deixar de morar na praia?
– O mar, no Brasil, é uma ilusão. É só chegar na beira do mar para ficar completamente duro. E ainda tem que agüentar os canalhas que passam o ano poluindo e chegam aqui carregados de dinheiro. Não sei de onde tiram tanta grana. Todo mundo abre a carteira e saltam notas de dez e cinqüenta. Só eu conto moedas, e quando encontro nem dá para um pãozinho.
Sinistrus me enxergou finalmente. Tinha detectado um sorrisinho na minha maneira disfarçada de escutá-lo falar sobre pobreza.
– Isso o que você está fazendo é o que mais me irrita nesta ilha.
– Isso o quê?
– Não se faça de inocente. Foi só falar de dureza que você já me enxerga como um morto de fome, um perdedor. Não gosto que me enquadrem.
E aproximando o rosto bem perto do meu:
– Você se sente superior, senhor jornalista? Porque tem um salarinho acha que pode me esnobar?
– Longe de mim. Tenho a maior consideração por você.
Conversa, disse ele. E virou o corpo todo para o horizonte. Tentei dar uma relaxada na conversa:
– Este ano não teve tainha.
– Nem vai ter mais. Essas pessoas estão abaixo do caipira. Caipira ainda tem cultura. Eles estão na fase vegetal do pensamento. Se pegam tainhas ovadas todos os anos, às toneladas, há centenas de anos, como podem querer que elas se reproduzam? No fundo, a pesca de tainha aqui é um crime ecológico. Os peixes sobem para desovar mais para o norte e são interceptadas aqui. Cada ano ficaram em menor número e os pescadores foram se acostumando. Agora elas escassearam. Puseram culpa no clima, mas este fez uma friaca braba, como nos outros. O problema é que o inverno não deixa resíduos.
– Como assim?
– O frio não faz parte da civilização portuguesa. Não vê o Glauber? Morreu de septecemia em Cintra, no alto da serra em Portugal, terra fria pra dedéu, onde não existe uma lareira. Aqui morre-se de frio, mas basta a temperatura subir para todo mundo dizer que não houve inverno. Conheci um potiguar que ficava em mangas de camisa no inverno. Ele dizia: Mas eu não sinto frio! Depois descobri que ele queria dizer exatamente isto: Eu não sinto frio porque sou macho! Sentir frio é para criançcas, mulheres e gente velha. Valha-me Deus.
-Você vai para onde, Joe?
– Não sei ainda. Primeiro vou dar um pulo em Sampa, comprar uns livros antigos de literatura da Civilização Brasileira nos sebos que tem lá. Vendem a três centavos a página. Aqui, ninguém lê. Quando alguém no ônibus senta ao meu lado com um livro, é sempre o Paulo Coelho.
– O que você tem contra o Paulo Coelho?
– Ele foi a Seleções do pensamento esotérico. Ninguém lia nada dos grandes autores, como Gurdjieff, Castaneda, Madame Blavatski, Krishnamurti. Então ele apareceu com sua auto-ajuda colocando à disposição do grande público algumas sacadas.
– Ué, mas Castaneda é best-seller.
– As pessoas leram um outro livro dele, não a obra toda, que é em espiral. A leitura deve ser completa para a gente entender do que se trata. Paulo Coelho leu, mas diluiu. Agora é romancista. Não gosto.
– Implicância sua, Sinistrus,. Não será um pouco de inveja?
– Não sinto inveja, meu caro escritor. Sinto fome.
– É o que estou dizendo.
– Você não entendeu. Sinto fome de cultura. Sinto fome de paisagem. Por isso vim para cá. Pela paisagem. Os catarinenses acham que é pelos seus belos olhos azuis. Estou me lixando. Sempre quis a montanha, o céu, a lua e as águas.
-E agora ficarás longe disso.
Sinistrus me abraçou. Estava chorando.
– Vou-me embora, cara. Essa ilha nunca me quis.
– Você vai voltar. Sei que um dia vai voltar.
Saí dali porque caía a tarde e o frio tinha começado de novo. Não olhei para trás. Sinistrus Joe assobiava Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque. Bem na batida de João. O cara adora João Gilberto.
23 de Junho de 2006
Diário da Fonte
SINISTRUS JOE E AS SURPRESAS DE PARREIRA
Não gosto de estatísticas, elas me assustam. Dizem que são criados uns 70 mil blogs por dia ou por mês, ou algo assim. Que existem não sei quantos milhões de sites, que a miséria aumenta apesar de os 50 países mais pobres terem melhorado de vida e que as pesquisas apontam a vitória do primeiro turno, bem, vocês sabem de quem. Os números nos cercam e mordem os calcanhares. Como acompanhar a proliferação dos conteúdos disponíveis na grande rede? Muito difícil. Mas tudo que assusta não passa de um tigre de papel, para usar a velha metáfora de Mao sobre o imperialismo. Nas redes do monopólio de TV, a internet é tratada como coadjuvante ou vilã (jamais acesso os endereços que eles falam com uma batata na boca, o tal dábliu dábliu dábliu). Na grande imprensa impressa, os blogs diretamente ligados às redações pecam ou por falta de atualizaçãp adequada ou por estarem limitados pelos hábitos cevados em 42 anos de ditadura. Blog é queimar navios e não olhar para trás, para não virar estátua de sal. Além disso, um espaço na internet só se consolida ao longo dos anos. É complicado firmar o hábito de visita e leitura com tantas opções. O importante é você ser mídia, ou seja, tudo o que você sente, sonha, pensa, cria precisa estar no blog. Isso dá credibilidade e fisga o leitor. O bom do blog, para quem é jornalista, é que o lead pode tranqüilamente ficar no pé do texto. É o que acontece na edição de hoje, que tem jogo do Japão só mais embaixo.
PATETAS – O maior perigo dos blogs é o pensamento único. Todos vivem na mesma situação e pensam da mesma forma. Ser original no meio de tanta manifestação é mosca branca. Por isso decidi visitar novamente Sinistrus Joe, que tem acompanhado a Copa do Mundo num bar perto de onde mora. É mais uma birosca, que fica a meio caminho das dunas que escondem seu casebre ao lado de um grande menir de pedra, numa praia escondida aqui na Ilha. Quando ele me vê se aproximando, finge que se afasta. Sinistrus adora ser esnobe.
– E aí, Joe, a Seleção deslanchou no jogo contra o Japão?
– Estou preocupado com a geração dos patetas, respondeu ele.
– Quem são os patetas, os torcedores?
– Não, a nova geração. Ando às vezes de ônibus e não agüento a meninada falando como se tivesse perdido a noção da língua do país.
– Isso é gíria, coisa antiga.
– Não é não. Gíria é uma concessão da língua culta. O que eles falam é pior do que um patuá, são as ruínas do que um dia foi linguagem. É como se a língua nacional tivesse entrado em processo de implosão interna.
Achei estranha aquela maneira pomposa de Joe se manifestar. Parecia consultor de empresa.
– Estás lendo auto-ajuda de negócios, cara?
Ele me olhou de viés, quase rosnando. Odeia que o chamem de cara, ou se dirijam a ele dizendo “meu caro”.
– A geração dos patetas engata uma longa narrativa costurando as frases com a expressão e aí. Falam assim: fulano foi para lá e aííí voltou para cá e aííí eu cheguei e perguntei e aííí nós fomos até o lugar aquele e aííí..
FENÔMENO – Ele continuaria por horas no seu exemplo, mas eu o interrompi:
– E a seleção, Joe, gostou?
– A imprensa e os torcedores são todos profetas do passado. O futebol não cabe numa cabeça que tenha dois olhos para ver e nenhum para enxergar. Sempre me surpreendo com o Parreira. Cansei de duvidar dele. Até parece um sonho que eu tive.
– Que sonho, Joe?
– Eu estava dentro do ônibus e de repente todos os bancos foram amassados e só eu sobrevivi. Não era eu que tinha morrido, era o mundo que tinha acabado. Saí para a rua e os edifícios eram engolidos, só eu passeava nas ruas. Os carros explodiram e sumiram no ar, só eu andava por aí. Parreira a mesma coisa.
– Não entendi.
– Claro, eu ainda não expliquei…
Desta vez ele rosnou mesmo.
– Se eu puder chegar ao fim da minha metáfora, agradeço. Parreira detonou todo o entorno do Ronaldo, manteve só o Fenômeno. Fez o contrário do que todo mundo dizia. Insistiam em tirar o Ronaldo, como se fosse o remédio para todos os males. Pois Parreira manteve o craque e substituiu os outros. E aííí o Ronaldo fez dois gols e poderia ter feito mais.
Concordei. Sempre gosto de ouvir Sinistrus Joe, o cara da minha geração que ficou na ilha, foi escritor, jornalista, artesão, fotógrafo e hoje vive num puxado de madeira tosca grudado numa pedra. Tem cabelo raspado, veste-se de preto e dorme nos saguões das galerias e edifícios de luxo. Todos os conhecem e o toleram. Mas só eu peço que emita suas opiniões.
SINISTRUS JOE E O FIM DE BELÍSSIMA
Como está fazendo calor neste inverno, resolvi dar uma passada na casa de Sinistrus Joe, que mora ao lado de um grande menir numa praia isolada aqui na ilha. Vi que ele estava tranqüilo, espichado na sua varanda feita de areia, olhando para algum ponto entre o mar e a montanha. Perguntei o motivo de sua aparente paz, e ele respondeu que era o clima. E que inverno mesmo, desses de lareira e vinho, fazia mal para a saúde e que o bom era um veranico temporão. Eu queria saber o que tinha feito nos últimos dias.
– Vi o final de Belíssima, me disse. Vi no aparelho do bar ali da vila.
– Não sabia que você via novela.
– Não vejo, mas todo mundo acaba vendo. Bem na hora em que você espicha os ossos é que eles colocam aquelas coisas horrendas. Então não tem como escapar.
– Você achou o final surpreendente?
– Achei. Acabamos descobrindo que todos, no fundo, eram primo-irmão do pai do Coisa. Isso é realmente revelador.
– E os casais? Achou que ficou de bom tamanho?
– Claro. O mais emocionante foi o Tony Ramos ficar com o Cemil. A dança imitando Zorba o grego foi de chorar. Eu quase tive um ataque de apoplexia. Em determinado momento fiquei estarrecido. É que a gente acaba cedendo à novela porque não há outra coisa na TV aberta, e a novela é a coisa em si. Vemos então as imagens assim meio de viés. Levei um susto, pois num determinado momento o Tony Ramos estava sorrindo para um cara que podia ser seu pai, mas na trama é seu filho, e os dois dançavam de maneira apaixonada. No momento seguinte a Verta Holtz estava na cama com um anjinho barroco. Num primeiro instante, achei que o Cemil e Tony estavam já na cama. Foi de dar calafrios.
– Você está sendo injusto, Joe. O Silvio Abreu faz o maior sucesso.
– O que encanta é a profundidade dos diálogos. O grego Tony, que se expressa por interjeições e gritos de caminhoneiro, estava aboiando um avião quando viu sua amada, a coitada da Gloria Pires, que estava pagando o maior mico com aquela seqüência. Aí o Grego pergunta: “Você não foi embora, ê?” Claro que ela deveria responder: “Fui, o que vês aqui é um holograma, cedido pela produção do Star Wars”.
Achei que Joe estava amargo demais e tentei desviar o assunto para outros desdobramentos da novela. Perguntei sobre as demais atrizes, se estavam também pagando mico.
– A Claudia Abreu é realmente excepcional, mas , coitada, vive mergulhada nestas porcarias da televisão. Deveria ser nossa estrela do cinema, se tivéssimos produção regular de cinema.
– E a Claudia Arraia?
– Não sei porque ela precisa fazer o papel de gostosa em todos os segundos da novela. Vive estuando o peito e se fresqueando para a câmara. O que me irrita em algumas personalidades globais é que eles acreditam mesmo que são de Hollywood. Não vê aquele gordinho diretor, que tem a certeza de ser a Marilyn Monroe? Ele não apareceu esses tempos, de novo no Faustão imitando Marilyn em diamantes são para sempre? O problema é que a Arraia acha que está sempre fazendo um teste para o George Cukor.
– Você não gosta mesmo da Globo, Joe.
– Que nos resta? Os concorrentes são piores. Estamos presos, assim como os que trabalham lá dentro. É impressionante a jaula em que nos metemos. Gostaria que TV digital fosse para valer e eu pudesse ter uma estação de TV aqui mesmo da minha pedra.
– Teria novela na TV Joe, Joe?
– Deus que me livre. Eu transmitiria o mar. Mas um mar sem grego.
E abriu os braços em sinal de celebração e reverência.