SOLDADOS DE SALAMINA
dez 13th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: CinemaNei Duclós
Soldados de Salamina (2001) , a premiada e bem sucedida novela de Javier Cercas, é sobre a reconciliação nacional na Espanha depois da queda do franquismo, quando era necessário revisitar as feridas abertas da Guerra Civil de 1936 a 1939. Foi sucesso por vários motivos. Primeiro, pela súbita notoriedade que adquiriu quando foi descoberta por Mario Vargas Llosa, o que colocou o livro no circuito da leitura obrigatória. Segundo, porque aborda a relação contemporânea da Espanha com o passado, como notou o cineasta David Trueba ao levar a história para o cinema em 2002, filme que vi ontem e que é absolutamente magnífico.
E terceiro, exatamente porque tocou no ponto principal do país dividido: a necessidade de reconquistar a união nacional, por meio não do perdão puro e simples, mas do entendimento de que a vida precisa ser hegemônica sobre a celebração da morte. Mantenha-se a diversidade, mas um ponto comum é preciso ser acertado, o da convivência por meio do resgate franco e aberto dos fatos que ensagüentaram o país.
Não é uma tarefa simples nem tranqüila. O livro virou alvo de críticas contundentes, sendo acusado de promover a recostura da cultura patriarcal e excludente, já que se trata do resgate de um episódio obscuro, o motivo que fez um líder fascista espanhol ser poupado por um soldado que deveria fuzilá-lo. Cercas enfrentou seu touro a unha e saiu-se bem. Abordou os dois lados da tragédia, por meio de um momento único, o olhar entre o carrasco e a vítima, ambos envolvidos num conflito que dizia respeito a suas ideologias, mas jamais à humanidade de cada um.
Trueba, jovem diretor eficiente e sensível, tem o cuidado de criar uma obra cinematográfica que não se rende à emoção. É enxuta o tempo todo ao seguir os passos de um Dedalus feminino, que usa o fio da investigação dentro do labirinto para encontrar a essência da sua história. “Esquecemos de filmar a emoção”, diz ele, debochando, no making of, depois de fazer uma cena. Ele não filma a emoção, mas faz um filme emocionante. Consegue porque usou o livro como fundamento, graças ao entendimento que teve com Cercas num longo convívio que chegou a cruzar as festas de fim de ano na virada de 2002.
Trueba muda o sexo do protagonista, que no livro é homem, o próprio Cercas, ou melhor, um personagem totalmente colado no autor. No filme é a mulher que vai em busca da própria salvação, pois o que procura é exatamente voltar ao seu ofício perdido, o de escritora. Conta para isso com o apoio de quem lhe quer bem, a amiga das cartas de Tarot e os personagens que entrevista, todos eles gratificados por serem alvo da sua atenção.
O encontro final, com o principal personagem, exatamente o soldado que poupou o líder fascista, é de arrebentar. Mais não conto para não tirar a graça. Leitores e espectadores merecem ter sua própria percepção desse trabalho maravilhoso que os espanhóis nos legaram. Precisamos nos mirar nesse exemplo: nos reconciliar, olhar com absoluta serenidade o Outro no momento extremo, quando nos defrontamos para nos eliminar. Deixar que a vida resolva a situação, e que a alegria transpareça e nos trespasse como um flecha excêntrica de Cupido, o deus travesso.