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	<title>Nei Duclós &#187; cinema novo</title>
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		<title>A COMPAIXÃO EM ANSELMO DUARTE</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 23:16:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>A cena que vai levar Anselmo Duarte para o céu do cinema é a da procissão, em que há identificação entre os rostos da imagem de Santa Bárbara/Iansã e do Zé do Burro/Leonardo Villar. O movimento nos degraus é a cidadania desamparada que ascende pela espiritualidade, única porta de acesso à justiça. Essa subida, feita ao sabor das ondas do andar, e que ajusta a sintonia entre as duas expressões, é o momento supremo deste filme maior que é <strong>O Pagador de Promessas</strong> (pai de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber, que em início de carreira foi assistir as filmagens feitas por Anselmo da única obra brasileira que arrebatou a Palma de Ouro de Cannes). O rosto do personagem transcende o pedido, já é uma confirmação da bondade que lhe assiste e que só existe fora da vida social, totalmente contaminada pela exclusão e a violência. Os dois rostos se encontram na inocência que gera a compaixão.</p>
<p><strong>VELUDO </strong>- O pedido de Zé, a cura do animal que o serve e faz parte da família, é o sintoma de uma vida terminal. O que Zé quer (a salvação) precisa ser atendido, pela contingência da miséria. Uma santa, sem poder temporal, vai em socorro da vítima e a salva. O homem agradecido é impedido de entrar na Igreja porque cometeu um pecado: invocou a santidade intensificada por duas culturas diferentes, pois uma cultura isolada não forma uma nação, que é feita de somas e inclusões. Não haveria necessidade da santa se houvesse país, ou seja, se o Brasil realmente cuidasse dos seus filhos. Mas não há país e a porta do templo está fechada para a compaixão. A solução é a ruptura, o resgate da crucificação. A expressão usada pelo diretor quando viu a cópia do filme em Cannes, logo antes de entrar na disputa, serve para definir o filme: um veludo. É desse veludo que se alimenta Anselmo Duarte, o diretor que veio do Brasil profundo.</p>
<p><strong>ATITUDE</strong> &#8211; O rosto de Anselmo Duarte personifica a inocência do cinema brasileiro quando ele era apenas um ator (foi quando aprendeu a filmar). Sua estréia como diretor, o perfeito <strong>Absolutamente Certo</strong>, mostra como outro cidadão desamparado, deste vez no universo urbano, tenta a ascensão social pela via lotérica, um concurso de rádio que testa a memorização. Ele se insurge contra a manipulação do concurso, pois não quer explorar a boa fé do povo, pois é nisso que reside sua principal abordagem cinematográfica. Anselmo vê o país como um fígado à mercê dos abutres num rochedo, e procura fazer a representação da revolta por meio da tomada de decisão, ou de uma palavra que virou moda, atitude. Zé do Burro, assim como os personagens de <em>Vereda da salvação</em> e o <em>Crime do Zé Bigorna</em>, são vítimas da própria determinação. São manipulados pela esperteza nacional, massacrados pelo sistema de opressão, assassinados por gosto ou opção. É um Brasil que veio do sonho feliz da urbanidade de cara limpa (as comédias da Atlântida), que tentou ser sério como o cinema da Europa (os filmes da Vera Cruz) e que deságua na obra de Anselmo Duarte como denúncia e como afirmação da nacionalidade. Ele mostra a compaixão necessária para que ainda exista país, e ao mesmo tempo abre as vísceras desse sentimento perdedor, que sucumbe diante da crueldade e da indiferença bem nutrida.</p>
<p><strong>BALANÇO</strong> &#8211; O ressentimento de Anselmo Duarte tem razões de sobra para existir. Ele realizou um sonho: venceu todos os grandes diretores no festival de Cannes, levantou a Palma de Ouro como os capitães Bellini e Mauro ergueram acima das cabeças (sinal de auto-superação do país) a taça Jules Rimet nas copas do mundo de 58 e 62 (gesto midiático que ele fez de propósito, como referência) e foi alvo da mais pura inveja. Mas, por ser exatamente esse grande cineasta reconhecido internacionalmente, deveria enfim perdoar. Se a inveja não dá trégua, o problema é da inveja. Dói vê-lo ranzinza nos seus depoimentos. Mas sempre nos deslumbra com sua estampa impecável, sua cara de Brasil bem resolvido, e ouvir suas histórias maravilhosas. Sorte que terei acesso ao trabalho que o jornalista Wendel Martins fez para a UFSC sobre Anselmo. É sempre gratificante entrar em contato com tamanha personalidade, que nos deu pelo menos uma obra-prima e que merece o respeito da nação que ele tanto honra em sua longa e proveitosa vida.</p>
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