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	<title>Nei Duclós &#187; Segunda Guerra Mundial</title>
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		<title>KUROSAWA, VIVER NO APOCALIPSE</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 23:21:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Akira Kurosawa não precisou imaginar o fim do mundo. Foi testemunha da tragédia quando, levado pelo irmão, viu no que se transformou Hiroxima depois da bomba. O Apocalipse não é, portanto, uma profecia que vai se cumprir, mas o território que ele precisou palmilhar e enxergou de perto, não só como o Outro que vê, mas como o próprio que é calcinado junto com seus semelhantes. Kurosawa é a solidão do cinema diante da maldição. Nós, os espectadores, somos os improváveis sobreviventes da catástrofe que ele revela. Foi assim que morremos, nos diz ele, e foi assim que enxerguei a vida enquanto o mundo se despedia.
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Akira Kurosawa não precisou imaginar o fim do mundo. Foi testemunha da tragédia quando, levado pelo irmão, viu no que se transformou Hiroxima depois da bomba. O Apocalipse não é, portanto, uma profecia que vai se cumprir, mas o território que ele precisou palmilhar e enxergou de perto, não só como o Outro que vê, mas como o próprio que é calcinado junto com seus semelhantes. Seu cinema são os passos dados no limite extremo da aniquilação total. Ele está confinado nesse núcleo da bola de fogo.</p>
<p>Seu olhar não pode simplesmente reduzir-se à resistência ou à denúncia, que são ilusões do humanismo desmascarado pelo horror. Nem pode mais separar realidade de pesadelo, já que ambos convivem dentro e fora dele. O Mestre caminha enquanto o mundo explode e coloca, no centro do drama, o que acontece ou pode acontecer quando o destino se cumpre e não há mais esperança. Kurosawa é a solidão do cinema diante da maldição. Nós, os espectadores, somos os improváveis sobreviventes da catástrofe que ele revela. Foi assim que morremos, nos diz ele, e foi assim que enxerguei a vida enquanto o mundo se despedia.</p>
<p><strong>ZUMBIS</strong> &#8211; <em>Viver</em> é exatamente o filme mais didático de Kurosawa. Feito nos anos 50 e em preto-e-branco, narra a fase terminal de um funcionário público desenganado pelo câncer, que decide virar a mesa da sua repartição corrupta e enfrentar a especulação imobiliária que queria destruir uma praça. A clarividência e a coragem que se manifestam pela consciência da morte servem para fazer um minucioso relatório da vida sem sentido a que fomos condenados, como zumbis enredados pelos poderes, amarrados como alimento de abutres. Num andamento pesado, o chefe daquele departamento descobre as verdadeiras ligações com seus semelhantes, tanto na família quanto no emprego. Vê então que não tem nada e nunca foi nada. É como se Kurosawa, sabendo como o mundo acaba, resolva pesquisar os motivos da destruição, a vida que era vista como pacífica e que em nenhum momento se diferencia do momento da explosão.</p>
<p><strong>ESPÓLIO</strong> &#8211; Ele mostra que o big-bang é uma síntese para o­nde confluem as sociedades humanas antes e depois do impacto. É como se <em>Ran</em> ou <em>Os Sete Samurais</em> revelassem os antecedentes rumo ao desfecho, que se cumpre, <em>Sonhos</em> o flagrante do evento e <em>Viver</em> seu descenso, ou melhor, o que veio depois (o Japão derrotado, pobre e burocrático) mas que se reporta à bomba num movimento pelo avesso, na contra-mão do tempo. Há três momentos do Apocalipse: <em>Ran</em> (e toda a sua linhagem de guerra sem fim que é fruto do ódio seminal da espécie a partir da família); <em>Sonhos</em>, que é o relatório ao vivo do xeque-mate nuclear; e <em>Viver</em>, que seria o espólio da explosão, mas como nas velhas projetoras que faziam o filme andar de trás para diante, mostra como o pós-Apocalipse a ele se dirige de maneira inapelável.</p>
<p><strong>DESPERDÍCIO</strong> &#8211; Em cada filme citado, sempre há lugar para qualquer um dos passos finais. Não são apenas os antecedentes que existem em <em>Ran</em>, pois lá está a mortandade no campo de batalha, numa seqüência interminável, que é a reprodução dos corpos destruídos vistos por Kurosawa na cidade destruída. Em <em>Sonhos</em>, há algo mais do que a cena do remorso (o comandante que enfrenta os fantasmas da tropa massacrada sob o seu comando); a dos demônios que berram quando lhes nascem os chifres; o passeio pelo cenário da queda, a pintura de Van Gogh; ou a sedução da Morte numa peregrinação na neve. Há o paraíso que assoma no velho moinho na beira da água limpa, o ancião que acena com a sabedoria, a terra intocada pela barbárie. Existe aí o que apostamos ser esperança, mas é apenas mais um desdobramento do olhar do Mestre.</p>
<p>Não é que tenhamos alguma chance e encontramos enfim a paz (em <em>Sonhos</em>) o reconhecimento (em <em>Dodeskaden</em>) ou a justiça (em <em>Viver</em> ou em <em>Os sete samurais</em>). Vemos o passo além do extremo, o resultado do julgamento final, o último reduto do Apocalipse, que é a contraditória promessa de salvação depois da condenação de todos. É quando o cinema, representação do mundo, acaba, e levamos para casa um pacote de possibilidades. Acreditamos ser a segurança da eternidade, mas é um presente da lucidez de Kurosawa: fazemos parte do Apocalipse e encará-lo de frente é a única ação possível quando todas as chances foram desperdiçadas.</p>
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